{"id":576,"date":"2014-10-20T23:49:26","date_gmt":"2014-10-21T02:49:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=576"},"modified":"2014-10-20T23:49:35","modified_gmt":"2014-10-21T02:49:35","slug":"itamar-comenta-artigo-de-orlando-senna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/10\/20\/itamar-comenta-artigo-de-orlando-senna\/","title":{"rendered":"ITAMAR COMENTA ARTIGO DE ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p>CRISE CIVILIZAT\u00d3RIA<\/p>\n<p>No fim do s\u00e9culo IXX, em seu livro <em>Assim falou Zaratustra<\/em>, Nietzsche p\u00f4s a morte de Deus na boca de um personagem louco e chamou a aten\u00e7\u00e3o para a decad\u00eancia metaf\u00edsica da Europa, disse que a cultura europ\u00e9ia j\u00e1 n\u00e3o podia aceitar racionalmente a no\u00e7\u00e3o de\u00edsta, que a ci\u00eancia, a pol\u00edtica e a arte estavam matando Deus. Pois bem: Deus n\u00e3o morreu. Melhor: os deuses n\u00e3o morreram. Nem o Deus \u00fanico e com mai\u00fascula dos judeus, \u00e1rabes e crist\u00e3os, nem os deuses m\u00faltiplos da China, \u00cdndia, Brasil e de centenas de culturas ao redor do planeta.<\/p>\n<p>Tampouco a Hist\u00f3ria acabou como pensava o estadunidense Francis Fukuyama (<em>Fim da Hist\u00f3ria e o \u00faltimo homem<\/em>) nos anos 1990, momento em que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se dissolvia e o mundo passava do poder bipolar (URSS e EUA) para a superpot\u00eancia \u00fanica encarnada nos Estados Unidos. A tese central de Fukuyama: o neoliberalismo \u00e9 o \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e vai promover uma tecnol\u00f3gia que suprir\u00e1 todas as necessidades. Com tudo resolvido, seria o fim do desenvolvimento das institui\u00e7\u00f5es e das ideias. At\u00e9 agora n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>De todas as teses-profecias sobre o s\u00e9culo XXI que ficaram na moda no fim do s\u00e9culo passado, a \u00fanica que est\u00e1 valendo \u00e9 a do choque de civiliza\u00e7\u00f5es, do nova-iorquino Samuel P. Huntington (<em>The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order<\/em>, 1996), que pregava, como est\u00e1 no t\u00edtulo, uma reconstru\u00e7\u00e3o da Ordem Mundial. O choque \u00e9, cada vez mais, uma fratura exposta: o Ocidente crist\u00e3o em conflito com o Oriente isl\u00e2mico, a China disputando em p\u00e9 de igualdade com os EUA o posto de maior economia mundial, a Europa em crise aceitando a contragosto a invas\u00e3o de seu territ\u00f3rio por milh\u00f5es de migrantes africanos e asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p><!--more-->J\u00e1 em pleno s\u00e9culo XXI, al\u00e9m do choque de civiliza\u00e7\u00f5es, o temor est\u00e1 se voltando cada vez mais para a possibilidade de duas guerras mundiais, que podem se juntar em uma s\u00f3: a guerra da \u00e1gua pot\u00e1vel e a guerra cibern\u00e9tica, a ciberguerra. Muita gente acredita que ambas j\u00e1 come\u00e7aram, est\u00e3o engatinhando. Ind\u00edcios n\u00e3o nos faltam, desde a amea\u00e7a da cidade de S\u00e3o Paulo ficar sem \u00e1gua e de duas nascentes do rio S\u00e3o Francisco terem secado at\u00e9 o epis\u00f3dio da \u201cguerra da \u00e1gua de Cochabamba\u201d, na d\u00e9cada passada, quando o Banco Mundial pressionou duramente a Bol\u00edvia para que privatizasse seu servi\u00e7o de abastecimento de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A perspectiva \u00e9 que a anunciada escassez dos recursos h\u00eddricos gere uma disputa imensamente maior do que a que j\u00e1 existe pelo petr\u00f3leo e pelo g\u00e1s natural. Afinal, o \u201cl\u00edquido precioso\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas um gerador de energia e riquezas: \u00e9 essencial para a vida das pessoas e do planeta. E a luta pela vida n\u00e3o tem limites, n\u00e3o tem regras, n\u00e3o tem conven\u00e7\u00f5es de Genebra. E a Amazonia est\u00e1 no centro dessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Os engatinhamentos da ciberguerra tamb\u00e9m s\u00e3o bem percept\u00edveis, a espionagem eletr\u00f4nica causa atritos entre pa\u00edses, confus\u00e3o e quebras em empresas, o medo generalizado da privacidade de indiv\u00edduos e grupos se esfuma\u00e7ar. O quadro que se pinta s\u00e3o a\u00e7\u00f5es de super hackers derrubando sistemas inteiros de pa\u00edses ou regi\u00f5es, o que significa paralisa\u00e7\u00e3o de governos, da economia, de for\u00e7as militares, de servi\u00e7os essenciais como sa\u00fade, transporte, energia el\u00e9trica, abastecimento de \u00e1gua. Seria a guerra da desordem, do caos. Seria tamb\u00e9m a log\u00edstica, o lastro, para outras guerras, como a da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Espero que e rezo para que nada disso venha a acontecer, como n\u00e3o aconteceu o fim da Hist\u00f3ria e a morte de Deus. Mas sinto que estamos vivendo uma tremenda crise civilizat\u00f3ria. A viol\u00eancia \u00e9 a linguagem dessa crise, apresenta-se com muitas faces e \u00e9 pand\u00eamica, est\u00e1 em toda parte. O neoliberalismo, a Nova Ordem Mundial n\u00e3o est\u00e3o dando certo, o capitalismo n\u00e3o est\u00e1 dando certo, entrou em parafuso, n\u00e3o sabe para onde vai. Ou \u00e9 isso ou o homem, a humanidade, ficou menos inteligente e menos sens\u00edvel, o que \u00e9 improv\u00e1vel porque nunca fomos muito nem uma coisa nem outra, se perdemos o pouco que temos sobra nada.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o socialista est\u00e1 cada vez mais como uma luz no horizonte, voltou a ser considerada utopia, que em grego significa &#8220;nenhum lugar&#8221;. Restam apenas alguns basti\u00f5es, mesmo levando em considera\u00e7\u00e3o o grande territ\u00f3rio do \u201ccapitalismo de estado\u201d da China. O que precisamos de verdade \u00e9 uma nova Nova Ordem, eu acho. Ent\u00e3o, pensamento e a\u00e7\u00e3o. Pensa\u00e7\u00e3o, diria Guimar\u00e3es Rosa. Um projeto cultural planet\u00e1rio, creio que diriam Glauber Rocha e Fernando Birri. Voltem na pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>O bem elaborado artigo de Orlando, sobre graves quest\u00f5es contempor\u00e2neas que, amea\u00e7am extinguir a vida, a sobreviv\u00eancia e a exist\u00eancia do homem no belo, sens\u00edvel e encantado planeta azul (a Terra), provoca reflex\u00f5es, convida-nos a filosofar, a assumir a ironia socr\u00e1tica e perguntar: sendo a \u00e1gua um bem indispens\u00e1vel \u00e0 vida e, especialmente, \u00e0 vida humana, sendo o homem um ser que criou a Ci\u00eancia e a Tecnologia, que inventou m\u00e1quinas para operar com a virtualidade, que produziu a Qu\u00edmica e descobriu a composi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, que construiu equipamentos para retirar dela o sal (dessalg\u00e1-la), porque ainda n\u00e3o a produziu artificialmente? Por limita\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o do Conhecimento dito Cient\u00edfico? Pela for\u00e7a do mito da \u00e1gua presente em todas as culturas humanas em todos os tempos? Por ser ela fartamente encontrada no cosmo? Por quest\u00f5es de natureza econ\u00f4mica? Por qual, ou por quais raz\u00f5es, a sua \u201cescassez\u201d \u00e9 considerada uma amea\u00e7a \u00e0 vida humana?<\/p>\n<p>Parece-nos \u201cexistir mais segredos entre o c\u00e9u e a terra do que imagina a nosso van Filosofia\u201d, mesmo com \u201calgo no ar al\u00e9m dos avi\u00f5es de carreira\u201d express\u00e3o genial do Bar\u00e3o de Itarar\u00e9 (Apar\u00edcio Torelli), refiro-me aos sat\u00e9lites girando em torno da Terra e, movimentando, a maquinaria das tele comunica\u00e7\u00f5es e dinamizando o mudo virtual. A pesar das tentativas de Marx e dos marxistas, parece-nos o futuro n\u00e3o \u00e9 mesmo alcan\u00e7\u00e1vel por quaisquer das Ci\u00eancias, no sentido Acad\u00eamico e Moderno do termo, pois se coloca em n\u00e3o lugares, transcende a dimens\u00e3o concreta do real, \u00e9 possivelmente o lugar do on\u00edrico, meta, das ideologias, das profecias, da magia dos encantamentos e encantados, dos fantasmas, onde operam os magos, os feiticeiros, os alquimistas, os profetas e, porque n\u00e3o dizer, os artistas, os poetas.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 poss\u00edvel que qualquer constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tida como perfeita, a melhor, a que vai apresentar solu\u00e7\u00f5es \u201cdefinitivas\u201d para as quest\u00f5es da sobreviv\u00eancia ou da exist\u00eancia do homem no mundo ou em sociedade, daremos \u201ccom os burros n\u2019\u00e1gua\u201d, pois o homem, como disse Erasmo de Roterd\u00e3o na obra Elogio da Loucura (s\/d, p. 44): \u201c<em>enjoado de tudo quanto com \u00eale tiver rela\u00e7\u00e3o, tornar-se-\u00e1, em pouco, objeto de \u00f3dio, avers\u00e3o e horror aos seus pr\u00f3prios olhos, pois a natureza, em geral mais madrasta do que m\u00e3e, deu aos homens, e sobretudo aos que possuem certa sabedoria, um poder infeliz que os leva a desdenhar o que tem, para admirar o que n\u00e3o t\u00eam, um pendor funesto que altera e destr\u00f3i inteiramente todas as vantagens, todas as alegrias, todos os encantos da vida<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Alguns Dados Biogr\u00e1ficos: Itamar e Orlando Senna<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titular da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da Bahia \u2013 UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISE CIVILIZAT\u00d3RIA No fim do s\u00e9culo IXX, em seu livro Assim falou Zaratustra, Nietzsche p\u00f4s a morte de Deus na boca de um personagem louco e chamou a aten\u00e7\u00e3o para a decad\u00eancia metaf\u00edsica da Europa, disse que a cultura europ\u00e9ia j\u00e1 n\u00e3o podia aceitar racionalmente a no\u00e7\u00e3o de\u00edsta, que a ci\u00eancia, a pol\u00edtica e a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=576"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":577,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576\/revisions\/577"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}