{"id":5750,"date":"2021-06-04T21:10:48","date_gmt":"2021-06-05T00:10:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5750"},"modified":"2021-06-04T21:11:03","modified_gmt":"2021-06-05T00:11:03","slug":"a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/06\/04\/a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-parte-iii\/","title":{"rendered":"&#8220;A GUERRA N\u00c3O TEM ROSTO DE MULHER&#8221; &#8211; (Parte III)"},"content":{"rendered":"<p>TORTURAS E EM TERRAS ALEM\u00c3S RUMO \u00c0 VIT\u00d3RIA<\/p>\n<p>As mulheres russas prisioneiras que lutaram na II Guerra Mundial contam como foram torturadas pelos alem\u00e3es, e o que viram quando atravessaram a fronteira da Alemanha em dire\u00e7\u00e3o a Berlim, em 1945, no livro \u201cA Guerra n\u00e3o Tem Rosto de Mulher\u201d, da escritora Svetlana Aleksi\u00e9vitch.<\/p>\n<p>Recomendo sua leitura por se tratar de uma obra in\u00e9dita que mostra a atua\u00e7\u00e3o das mulheres durante a Grande Guerra. \u00a0Esse livro e outros, como \u201cO Fim do Homem Sovi\u00e9tico\u201d, lhe renderam o pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2015.<\/p>\n<p>\u201cChegamos na primeira frente Bielorr\u00fasia&#8230; Vinte e sete garotas&#8230; O sentido geral era que as meninas fossem comoventes como rosas de maio, que a guerra n\u00e3o mutilasse suas almas. De acordo com um depoimento colhida em entrevista, \u201cantes n\u00e3o t\u00ednhamos tido tempo nem de dar um beijo. Encar\u00e1vamos essas coisas com mais severidade que nos tempos de hoje\u201d.<\/p>\n<p>\u201cBeijar algu\u00e9m, para n\u00f3s, era se apaixonar por toda vida\u201d. A testemunha conta que o amor no front era proibido. Se o comandante soubesse, via de regra, separava os casais e transferia para outras unidades. Mesmo assim, elas se ariscavam e se apaixonavam. \u201cEu era esposa de campo e campanha. Esposa de guerra. Quem n\u00e3o falou disso foi por vergonha. Ficaram caladas\u201d.<\/p>\n<p>Para os homens numa guerra \u00e9 dif\u00edcil passar quatro anos sem uma mulher. \u201cNo nosso ex\u00e9rcito n\u00e3o havia bordeis, nem p\u00edlulas. S\u00f3 os comandantes podiam se permitir a algo, mas os soldados, n\u00e3o\u201d. \u201cEu o amava. Ia com ele para a batalha, mas ele tinha uma mulher que amava, dois filhos. Sabia que ele n\u00e3o seria feliz sem mim. No fim da guerra eu engravidei. Criei nossa filha sozinha. Ele n\u00e3o me ajudou. Acabou a guerra. Acabou o amor. Deixou uma foto de lembran\u00e7a e n\u00e3o queria que a guerra acabasse\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu o amei por toda vida. J\u00e1 estou velha e n\u00e3o me arrependo\u201d \u2013 de uma enfermeira instrutora. De outra, \u201ceu n\u00e3o queria juntar amor com aquilo. Naquelas circunst\u00e2ncias, o amor morreria num instante. Sem triunfo, sem beleza, como pode haver amor\u201d?<\/p>\n<p>Sobre a solid\u00e3o de uma bala e de uma pessoa: \u201cA bala \u00e9 uma s\u00f3. O ser humano \u00e9 um s\u00f3. A bala voa para onde quiser. O destino manipula uma pessoa para onde quiser. N\u00e3o nos \u00e9 permitido penetrar no mist\u00e9rio. Gritaram para n\u00f3s, Vit\u00f3ria! Lembro do primeiro sentimento de alegria e tamb\u00e9m medo e p\u00e2nico. Sobramos mam\u00e3e e eu, duas mulheres. Antes t\u00ednhamos medo da morte, e agora da vida. Era igualmente assustador\u201d. Depois da guerra gritavam para n\u00f3s: \u201cSabemos o que voc\u00eas faziam l\u00e1. Seduziam nossos homens. Putas do front, Cadelas militares. Nos ofendiam de v\u00e1rias maneiras. Eu precisava aprender ser carinhosa. Meus p\u00e9s se alargaram de tanto usar botas. Na guerra n\u00e3o h\u00e1 cheiros femininos, s\u00e3o todos masculinos. A guerra tem cheiro de homem\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHitler, depois de Napole\u00e3o, reclamava com seus generais que a R\u00fassia n\u00e3o segue as regras de combate. At\u00e9 hoje tenho nos ouvidos o grito de uma crian\u00e7a quando foi atirada dentro de um po\u00e7o\u201d. Essa \u00e9 uma refer\u00eancia aos alem\u00e3es. \u201cVer um rapaz jovem ser esquartejado por uma serra. Um partisan dos nossos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA Gestapo prendeu minha m\u00e3e. Foi torturada e interrogada. Ficou dois anos l\u00e1. Os fascistas mandavam minha m\u00e3e e outras mulheres na frente quando sa\u00edam para as opera\u00e7\u00f5es. V\u00edamos umas mulheres andando e atr\u00e1s delas os alem\u00e3es. Em 1943, os fascistas fuzilaram minha m\u00e3e. Em vez de morrer por nada, \u00e9 melhor morrer, mas n\u00e3o por nada\u201d. Ela (sua m\u00e3e) usava um lencinho branco. \u201cEu atirava para o lado de onde ela estava vindo\u201d.<\/p>\n<p>Sobre os massacres nas aldeias, uma testemunha contou como eles tinham sido fuzilados. Enquanto eram levados para o galp\u00e3o, mataram as crian\u00e7as. \u201cO fascista sinalizava: Jogue para cima, vou atirar. A m\u00e3e jogou a crian\u00e7a de forma que ela mesma a matasse, para que o alem\u00e3o n\u00e3o tivesse tempo de atirar.<\/p>\n<p>\u201cOs feridos se alimentavam de colheradas de sal. O que seria de n\u00f3s sem a popula\u00e7\u00e3o? \u00c9ramos um ex\u00e9rcito inteiro na floresta, mas sem eles ter\u00edamos morrido. Eles semeavam, lavravam a terra quando n\u00e3o havia tiros. As pessoas estavam apodrecendo em vida, morrendo de fome. Tinham comido todas as folhas das \u00e1rvores\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSempre acreditei em Stalin&#8230; Acreditei nos comunistas&#8230; Eu mesma era comunista. Vivia por ele. Depois do discurso de Khrusch\u00f3v no XX Congresso, em que ele contou os erros de Stalin, adoeci, cai de cama. N\u00e3o conseguia acreditar que era verdade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cLutei dois anos na resist\u00eancia. Perdi as pernas. Fui salva ali mesmo na floresta. A opera\u00e7\u00e3o foi feita nas condi\u00e7\u00f5es mais primitivas. Me puseram na mesa de opera\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o tinha nem iodo. Serraram minhas pernas com uma serra simples, sem anestesia\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as torturas, uma prisioneira narra que nos interrogat\u00f3rios da Gestapo, todo dia esperava que a porta se abrisse\u00a0 e entrassem seus parentes. \u201cEu sabia onde tinha ido parar, e estava feliz porque n\u00e3o tra\u00edra ningu\u00e9m. Mais do que morrer, t\u00ednhamos medo de trair. S\u00f3 quando tudo acabava e me arrastavam para a cela \u00e9 que eu come\u00e7ava a sentir dor, e aparecia a ferida. Eu virava uma grande ferida. Batiam em mim, me penduravam, sempre completamente nua. Elas estavam morrendo nos por\u00f5es da Gestapo. Era um inferno! A minha vontade de viver me salvou\u201d.<\/p>\n<p>A escritora cita a hist\u00f3ria de uma mulher que decidiu ir para a resist\u00eancia com a filha e l\u00e1, como mensageira, tinha que levar uma m\u00e1quina de escrever. Mesmo em perigo, em meio ao tiroteio, ela levava a crian\u00e7a e n\u00e3o soltava a m\u00e1quina. Nem todos os homens conseguiriam fazer isso. O comandante ficou estupefato com aquilo. Quando sa\u00edmos do cerco, estava coberta de fur\u00fanculos, a pele caiando.<\/p>\n<p>\u201cQuando me levaram para a pris\u00e3o, me chutaram com botas, me a\u00e7oitavam com chicotes. Aprendi o que era manicure dos fascistas. Colocavam sua m\u00e3o sobre uma mesa, e uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina espetava agulhas debaixo de suas unhas. \u00c9 uma dor infernal. Voc\u00ea perde a consci\u00eancia na hora. Voc\u00ea escuta seus ossos estalando e se deslocando\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFui condenada \u00e0 pena de morte com outras 20 garotas. Nos arrastaram para uns barrac\u00f5es e l\u00e1 tinha uma mulher dando de mamar ao beb\u00ea. O comandante tirou a crian\u00e7a dos bra\u00e7os da m\u00e3e. Tinha uma bica de \u00e1gua, e ele ficou batendo a crian\u00e7a contra o ferro. O c\u00e9rebro come\u00e7ou a escorrer\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm 1945 me mandaram para os trabalhos for\u00e7ados dos fascistas. Fui parar no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Croisette, na margem do canal da Mancha. No Dia da Comuna de Paris, os franceses organizaram uma fuga. Sai e me juntei aos maquis\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TORTURAS E EM TERRAS ALEM\u00c3S RUMO \u00c0 VIT\u00d3RIA As mulheres russas prisioneiras que lutaram na II Guerra Mundial contam como foram torturadas pelos alem\u00e3es, e o que viram quando atravessaram a fronteira da Alemanha em dire\u00e7\u00e3o a Berlim, em 1945, no livro \u201cA Guerra n\u00e3o Tem Rosto de Mulher\u201d, da escritora Svetlana Aleksi\u00e9vitch. 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