{"id":5726,"date":"2021-05-29T00:08:31","date_gmt":"2021-05-29T03:08:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5726"},"modified":"2021-05-29T00:08:47","modified_gmt":"2021-05-29T03:08:47","slug":"a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/05\/29\/a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-parte-ii\/","title":{"rendered":"&#8220;A GUERRA N\u00c3O TEM ROSTO DE MULHER&#8221; (Parte II)"},"content":{"rendered":"<p>O AMOR NA GUERRA, AS TORTURAS E OS ESTUPROS<\/p>\n<p>Os depoimentos em forma de entrevistas com as mulheres que lutaram durante a II Guerra Mundial \u2013 a Guerra Patri\u00f3tica para os russos \u2013 s\u00e3o chocantes, e num dos cap\u00edtulos do livro \u201cA Guerra N\u00e3o Tem Rosto de Mulher\u201d, a escritora Svetlana Aleksi\u00e9vitch, fala da guerra e do amor, com impressionantes hist\u00f3rias que mais parecem filmes de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outras passagens, ela relata testemunhas que foram torturadas pela Gestapo de Hitler, dos prisioneiros russos que eram considerados como traidores por Stalin, e terminavam em campos de trabalhos for\u00e7ados. Em terras alem\u00e3s, a caminho da vit\u00f3ria final, o \u00f3dio se mistura com a compaix\u00e3o. Os estupros contra as mulheres foram inevit\u00e1veis dos dois lados, com a justificativa de que os soldados passavam muito tempo sem sexo, numa guerra de muitas atrocidades.<\/p>\n<p>\u201cO amor \u00e9 o \u00fanico acontecimento pessoal da guerra. Todo o resto \u00e9 coletivo \u2013 at\u00e9 a morte\u201d \u2013 ressalta a escritora em sua obra. Conta que, para sua surpresa, as mulheres que participaram da guerra falassem de forma menos franca do que sobre a morte. \u201cElas se defendiam das ofensas e das cal\u00fanias\u201d.<\/p>\n<p>De uma testemunha, \u201ca guerra tirou o meu amor de mim&#8230; meu \u00fanico amor\u201d. Em terras alem\u00e3s, em algum povoado, ela conta que viu duas alem\u00e3s sentadas no p\u00e1tio, com suas toquinhas, bebendo caf\u00e9, como se n\u00e3o estivesse acontecendo guerra nenhuma. Pensei: \u201cMeu Deus, do nosso lado est\u00e1 tudo em ru\u00ednas, nossa gente est\u00e1 vivendo debaixo da terra, comendo grama&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cSa\u00eddos, n\u00e3o sei de onde, dois prisioneiros alem\u00e3es se aproximaram de n\u00f3s e come\u00e7aram a pedir para comer. Pegamos uma bisnaga de p\u00e3o, partimos e demos a eles. Um dos nossos soldados comentou: Veja quanto p\u00e3o as m\u00e9dicas deram para o nosso inimigo. Ser\u00e1 que elas sabem o que \u00e9 a guerra de verdade, ficam s\u00f3 nos hospitais de onde vieram. Depois, eles mesmos temperaram o mingau com sal e deram para eles em latas de conserva.\u00a0 Esta \u00e9 a alma do soldado russo\u201d.<\/p>\n<p>Depois de se alistar e tirar sua carteirinha de militar, uma capit\u00e3 m\u00e9dica contou que ela e seu marido foram juntos para o front. Tinham sa\u00eddo em grupo para uma prospec\u00e7\u00e3o. \u201cEsperamos dois dias&#8230; Eu n\u00e3o dormi por dois dias&#8230; Ent\u00e3o cochilei&#8230; Acordei com ele sentado ao meu lado, olhando para mim. Durma. Fico com pena de dormir.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1vamos atravessando a Pr\u00fassia Oriental, e todos j\u00e1 estavam falando em vit\u00f3ria. Ele morreu por estilha\u00e7os. Eu o abracei e n\u00e3o deixei que o levassem para enterrar. Na guerra faziam os enterros logo em seguida. \u00c0s vezes s\u00f3 com areia seca que sacudia e se movia. Para mim, ainda havia gente viva\u201d. Ela, ent\u00e3o, lutou para que ele n\u00e3o fosse enterrado ali. Queria ter ainda uma noite deitada ao seu lado.<\/p>\n<p>\u201cDe manh\u00e3, decidi que o levaria para casa. Todos achavam que eu tinha ficado louca de tanta dor. A testemunha narra que foi de um general a outro para que o corpo do seu marido fosse levado para sua terra natal. Assim, terminou chegando ao comandante. Ela implorou e, se fosse poss\u00edvel ficaria de joelhos. De tanto insistir, deram um avi\u00e3o especial por uma noite, para que seu marido fosse enterrado a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em outro caso, a escritora entrevistou uma sargento fuzileira que foi obrigada a se separar do marido durante a guerra. Ela foi para um front e ele para outro. Ela, ent\u00e3o, passou a procur\u00e1-lo sem parar em todos lugares. \u201cEstava determinada: \u201cSe o encontrasse sem bra\u00e7os, sem pernas, inv\u00e1lido, eu o pegaria e levaria para casa imediatamente. Viver\u00edamos de alguma forma\u201d.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a procurar o marido, ela n\u00e3o sabia nem o que era um front. Nisso, recebeu uma carta do marido, e fazia dois anos que n\u00e3o sabia nada dele. Em todos locais por onde chegava, ela pedia que a mandassem para onde estava seu marido, at\u00e9 que algu\u00e9m o localizou. \u201cEst\u00e1 louca, o lugar onde est\u00e1 seu marido \u00e9 muito perigoso\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFiquei sentada, chorando, e ent\u00e3o ele se compadeceu e me deu uma autoriza\u00e7\u00e3o. Ele me p\u00f4s num carro e fui. Quando cheguei na unidade, todos se surpreenderam. Todos \u00e0 minha volta eram militares\u201d. Para conseguir, ela disse que era sua irm\u00e3. Andou seis quil\u00f4metros at\u00e9 chegar onde estava seu marido Fodossenko.<\/p>\n<p>Ele estava na linha de frente, e um colega lhe avisou que sua irm\u00e3, uma ruiva, estava lhe procurando. S\u00f3 que a irm\u00e3 dele era morena. Mesmo assim, Fodossenko apareceu, \u201ce ent\u00e3o nos reencontramos\u201d. Depois deram uma declara\u00e7\u00e3o que a esposa encontrou seu marido na trincheira, que \u00e9 esposa leg\u00edtima e tem documentos. Todos queriam ver que mulher era aquela t\u00e3o destemida e corajosa.<\/p>\n<p>\u201cVou me lembrar daquela noite pelo resto da minha vida. Me alistaram como auxiliar de enfermagem. Eu ia com ele nas miss\u00f5es de reconhecimento. Um morteiro atirava, eu via que ele tinha ca\u00eddo. Pensava: Est\u00e1 morto ou ferido. Corria para l\u00e1, o morteiro atirava, e o comandante dizia: Para onde est\u00e1 indo, mulher dos dem\u00f4nios? Me deram a Ordem do Estandarte Vermelho. No dia seguinte, meu marido foi ferido gravemente. Corr\u00edamos juntos, nos arrast\u00e1vamos juntos. As metralhadoras atiravam, atiravam. Ele foi ferido por uma bala explosiva. Acompanhei meu marido at\u00e9 o hospital.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico se aproximou e disse que ele havia morrido. Respondi: \u201cQuieto, ele ainda est\u00e1 vivo. Meu marido abriu os olhos e disse: O teto ficou azul. O vizinho de cama disse; \u201cFedossenko, se voc\u00ea sobreviver, deve carregar sua mulher nos bra\u00e7os\u201d. \u201cN\u00e3o sei, talvez ele sentisse que estava morrendo, porque pegou minha m\u00e3o, se inclinou e beijou. Como se beija pela \u00faltima vez. Eu queria morrer, mas sob o cora\u00e7\u00e3o carregava nosso filho, e s\u00f3 isso me fez aguentar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O AMOR NA GUERRA, AS TORTURAS E OS ESTUPROS Os depoimentos em forma de entrevistas com as mulheres que lutaram durante a II Guerra Mundial \u2013 a Guerra Patri\u00f3tica para os russos \u2013 s\u00e3o chocantes, e num dos cap\u00edtulos do livro \u201cA Guerra N\u00e3o Tem Rosto de Mulher\u201d, a escritora Svetlana Aleksi\u00e9vitch, fala da guerra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5726"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5727,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726\/revisions\/5727"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}