{"id":5705,"date":"2021-05-21T22:29:47","date_gmt":"2021-05-22T01:29:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5705"},"modified":"2021-05-21T22:30:09","modified_gmt":"2021-05-22T01:30:09","slug":"a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/05\/21\/a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-parte-i\/","title":{"rendered":"&#8220;A GUERRA N\u00c3O TEM ROSTO DE MULHER&#8221; &#8211; (Parte I)"},"content":{"rendered":"<p>Um livro que fala da guerra, mostrando um outro lado desconhecido, n\u00e3o das batalhas heroicas, das vit\u00f3rias, das estrat\u00e9gias dos grandes generais e dos her\u00f3is. \u00c9 uma obra de sacada jornal\u00edstica da autora ucraniana Svetlana Aleksi\u00e9vitch, vencedora o Pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2015, onde ela entrevista as mulheres russas que participaram da II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Mesmo com a rejei\u00e7\u00e3o da editora (aqui no Brasil \u00e9 da Companhia das Letras), a escritora se manteve em seu prop\u00f3sito de apresentar uma outra face praticamente nunca explorado numa guerra. Essa face \u00e9 das mulheres com suas cargas de sentimentos, sofrimentos e garras nos campos de batalha. Ela entra tamb\u00e9m no \u00e2mago do ser humano existencial.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1905.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5706\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1905.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1905.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1905-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em \u201cA Guerra N\u00e3o Tem Rosto de Mulher\u201d estampa cenas e depoimentos chocantes das mulheres, todas jovens adolescentes entre dezesseis e vinte anos, que foram para a linha de frente e resistiram com bravura. Tem tamb\u00e9m o seu lado de ternura, de muitos choros e at\u00e9 de amor contido. \u00c9 uma obra que encanta pela sua narra\u00e7\u00e3o e passagens comoventes, num estilo jornal\u00edstico de entrevistas. S\u00e3o mulheres que se transformaram em homens.<\/p>\n<p>\u201cPassei tr\u00eas anos na guerra&#8230; E, nesses tr\u00eas anos, n\u00e3o me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu n\u00e3o menstruava, n\u00e3o tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita&#8230; Quando meu futuro marido me pediu em casamento&#8230; Isso j\u00e1 em Berlim, ao lado do Reichstag&#8230; Ele disse: \u201cA guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo\u201d. Eu queria chorar\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um dos trechos comoventes do livro, que a editora diz ser impressionante, de uma hist\u00f3ria pouco conhecida, contada com minucias pelas pr\u00f3prias personagens, incr\u00edveis soldadas sovi\u00e9ticas que lutaram com viol\u00eancia, mas sem perder a ternura. Trata-se de \u201cum cap\u00edtulo obscuro que agora ganha luz do dia e promete trazer novo entendimento sobre um dos eventos mais tr\u00e1gicos da hist\u00f3ria humana\u201d.<\/p>\n<p>Numa conversa entre a escritora e um historiador, este cita que no s\u00e9culo IV a.C, em Atenas e em Esparta, havia mulheres lutando nas tropas gregas. Depois elas participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. Segundo o historiador russo Nikolai Karamzin, as eslavas iam para a guerra com seus pais e maridos&#8230; no cerco a Constantinopla, em 626.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, nos anos de 1560 a 1650, come\u00e7aram a se formar hospitais militares em que mulheres-soldados serviam. Na I Guerra Mundial, a Inglaterra j\u00e1 aceitava mulheres na For\u00e7a A\u00e9rea Real. Na II Guerra, em muitos pa\u00edses, as mulheres serviam em todas as for\u00e7as armadas. Nas tropas inglesas eram 225 mil, nas americanas, 450 mil e nas alem\u00e3s, 500 mil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1914.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5707\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1914.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1914.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IMG_1914-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A obra traz narra\u00e7\u00f5es de mulheres que prendem o leitor do in\u00edcio ao fim dos depoimentos, como \u201ceu era t\u00e3o pequena quando fui para o front que, durante a guerra, at\u00e9 cresci um pouco\u201d. \u201cPara n\u00f3s, a dor \u00e9 uma arte. Quase do outro lado de l\u00e1&#8230; N\u00e3o h\u00e1 por que enganar os outros e enganar a si mesmas\u201d.<\/p>\n<p>Do di\u00e1rio do livro, a escritora afirma que o ser humano \u00e9 maior que a guerra. Ela mesma diz que n\u00e3o escreveu sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra, \u201cN\u00e3o estou escrevendo a hist\u00f3ria de uma guerra, mas a hist\u00f3ria dos sentimentos, Construo templos a partir de nossos sentimentos&#8230; De nossos desejos, decep\u00e7\u00f5es. Sonhos. N\u00e3o se pode arrancar uma flor sem motivos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs homens se escondem atr\u00e1s da hist\u00f3ria, dos fatos, a guerra os encanta como a\u00e7\u00e3o e oposi\u00e7\u00e3o de ideias, diferentes interesses, mas as mulheres s\u00e3o envolvidas pelos sentimentos\u201d. \u201cA guerra delas tem cheiro, cor, o mundo detalhado da exist\u00eancia. E \u00e9 ainda mais insuport\u00e1vel e angustiante matar, porque a mulher d\u00e1 a vida\u201d.<\/p>\n<p>Svetlana ressalta em seu livro que \u201cpenso no sofrimento como o grau mais alto da informa\u00e7\u00e3o, diretamente conectado ao mist\u00e9rio da vida. Toda a literatura russa fala disso. Nela se escreveu mais sobre o sofrimento do que sobre o amor. E \u00e9 a respeito disso que mais me contam&#8230; \u2013 destaca.<\/p>\n<p>Em uma de suas entrevistas, a autora ouviu de uma ucraniana a respeito da terr\u00edvel fome: J\u00e1 n\u00e3o encontravam nem sapos, nem ratos. Tinham comido tudo. Metade das pessoas do povoado dela tinha morrido. Da fam\u00edlia, somente ela sobreviveu porque \u00e0 noite roubava estrume de cavalo do est\u00e1bulo do colcoz e comia. Melhor congelado, tem cheiro de feno. Quente n\u00e3o entra.<\/p>\n<p>Para editar o livro, ela confessa que passou dois anos recebendo recusas das editoras. \u201cProcuro pelo pequeno grande ser humano\u201d. A escritora descreve sobre o que a censura cortou da sua obra, mas foi mantido na publica\u00e7\u00e3o. Narra sobre a conversa que teve com o censor.<\/p>\n<p>Sobre a Grande Guerra, Svetlana fala de situa\u00e7\u00f5es chocantes e at\u00e9 dos prisioneiros condenados a trabalhos for\u00e7ados pelo regime sangrento de Stalin, como nesse trecho: \u201cQuando fugiam do campo de trabalho, eles levavam um jovem para isso&#8230; A carne humana \u00e9 comest\u00edvel&#8230; Era assim que se salvavam&#8230;<\/p>\n<p>Existia um decreto que dizia que os soldados sovi\u00e9ticos n\u00e3o se rendiam ao inimigo. Como disse o camarada Stalin, n\u00e3o temos prisioneiros, temos traidores. Os rapazes levaram a m\u00e3o \u00e0 pistola&#8230; O instrutor pol\u00edtico ordenou que os jovens ficassem vivos, e ele mesmo se matou com um tiro. S\u00e3o revela\u00e7\u00f5es da autora do livro que deveria ficar de fora.<\/p>\n<p>Em 1943, Svetlana narra de uma testemunha que, quando o ex\u00e9rcito estava avan\u00e7ando pela Bielorr\u00fassia, um menino apareceu de algum lugar gritando: Matem minha m\u00e3e&#8230; Ela amava um alem\u00e3o. No come\u00e7o, os alem\u00e3es desfizeram os colcozes (cooperativas coletivas), deram as terras para as pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um livro que fala da guerra, mostrando um outro lado desconhecido, n\u00e3o das batalhas heroicas, das vit\u00f3rias, das estrat\u00e9gias dos grandes generais e dos her\u00f3is. \u00c9 uma obra de sacada jornal\u00edstica da autora ucraniana Svetlana Aleksi\u00e9vitch, vencedora o Pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2015, onde ela entrevista as mulheres russas que participaram da II Guerra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5705"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5705"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5705\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5708,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5705\/revisions\/5708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}