{"id":5603,"date":"2021-04-16T22:30:13","date_gmt":"2021-04-17T01:30:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5603"},"modified":"2021-04-16T22:30:24","modified_gmt":"2021-04-17T01:30:24","slug":"bocage-aquele-que-viveu-intensamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/04\/16\/bocage-aquele-que-viveu-intensamente\/","title":{"rendered":"BOCAGE &#8211; &#8220;AQUELE QUE VIVEU INTENSAMENTE&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A Abril Educa\u00e7\u00e3o, em \u201cLiteratura Comentada\u201d, numa sele\u00e7\u00e3o de textos biogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos de Marisa Lajolo e Ricardo Maranh\u00e3o, desnuda a vida do poeta portugu\u00eas Manuel Maria Barbosa du Bocage, falecido em 1805, que ficou conhecido como um desbocado de boa vida, fazendo o povo sofrido rir, mas que rompeu com as tradi\u00e7\u00f5es ao falar a verdade, mesmo numa \u00e9poca onde era preciso agradar aos poderosos e seguir as regras cl\u00e1ssicas acad\u00eamicas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1762.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5604\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1762.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1762.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1762-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Um jornal de Lisboa, de 22\/12\/1805, noticiou o falecimento de Bocage com 40 anos de idade, v\u00edtima de um prov\u00e1vel aneurisma. Diz a nota que nos \u00faltimos anos ele vivia em companhia de sua irm\u00e3 Maria Francisca e uma filha desta, sustentando ambos com tradu\u00e7\u00f5es de livros did\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Ex-membro da Armada Real Portuguesa, Bocage esteve na \u00cdndia, viajando num navio que fez escala no Brasil. Ele prestou servi\u00e7os \u00e0 Coroa nas col\u00f4nias ultramarinas de Goa e Dam\u00e3o, dirigindo-se depois para Macau \u00e0 revelia de seus superiores. Em sua vida, sempre foi um rebelde e debochado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1763.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5605\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1763.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1763.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1763-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No retorno a Lisboa publicou suas primeiras poesias com o t\u00edtulo de \u201cRimas\u201d. Diante do sucesso, foi convidado a ingressar na Academia de Belas-Artes onde adotou o pseud\u00f4nimo de Elmano Sadino. De temperamento forte e violento logo se desentendeu com v\u00e1rios poetas da Academia, desligando-se da agremia\u00e7\u00e3o. Foi acusado de heresia e perseguido, julgado e preso por algum tempo.<\/p>\n<p>Ao recuperar a liberdade, segundo o jornal, com a promessa de converter-se, o poeta abandonou sua antiga boemia, vivendo o resto de sua vida como homem exemplar. A Abril Educa\u00e7\u00e3o simulou uma entrevista como furo de reportagem, indagando se l\u00e1 embaixo voc\u00ea \u00e9 considerado um grande boa-vida, desbocado e briguento. Ser\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o pode se apresentar aos nossos leitores de um jeito mais descontra\u00eddo?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1765.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5606\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1765.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1765.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1765-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Bocage responde que \u201cposso sim&#8230;Ponha a\u00ed ent\u00e3o: Aqui dorme Bocage, o putanheiro\/Passou a vida folgada e milagrosa\/Comeu, bebeu\u201d. O poeta nasceu em 15 de setembro de 1765, em Set\u00fabal, Portugal. Em 1781 foge de casa e assenta pra\u00e7a como soldado, no Regimento de Infantaria, em Set\u00fabal. Em 1783 muda-se para Lisboa e engaja-se na Armada Real Portuguesa.<\/p>\n<p>O poeta foi autor de piadas e poemas pornogr\u00e1ficos, sempre censurado e proibido, com ampla circula\u00e7\u00e3o clandestina. Escreveu versos desenxabidos e convencionais, cheios de alus\u00f5es mitol\u00f3gicas e paisagens buc\u00f3licas? Ou foi o poeta que rompeu com o arcadismo, mergulhado em si mesmo que fez poemas de morte, amor e sofrimento? Ou o sat\u00edrico irreverente que ironizou a sociedade e funcion\u00e1rios corruptos? Sabe-se, de acordo com a cr\u00edtica, que ele \u00e9 o avesso do Bocage popular. Para os mestres, foi um poeta sublime, herdeiro direto do soneto camoniano. A fama de bo\u00eamio e a tradi\u00e7\u00e3o da poesia er\u00f3tica s\u00f3 fizeram lhe comprometer.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1764.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5607\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1764.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1764.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1764-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para outros que n\u00e3o d\u00e3o ouvidos a professores, Bocage \u00e9 uma esp\u00e9cie de mito. \u00c9 quase uma met\u00e1fora: \u201cSeu nome acoberta tudo o que de pornografia e libertinagens corre por a\u00ed\u201d. Comentam os cr\u00edticos da literatura que a censura portuguesa deste Bocage \u00e9 paralela \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, que considera qualquer obra sat\u00edrica inferior a qualquer l\u00edrica.<\/p>\n<p>A biografia do poeta apresenta um Bocage pecador arrependido, contrito e confesso no final da vida, reconciliado com Deus e com os homens. \u201cEste Bocage oficial, portanto, \u00e9 um poeta cuja trajet\u00f3ria de vida \u00e9 exemplar, do ponto de vista de uma sociedade moralista e repressora, que encara pris\u00e3o, doen\u00e7a, mis\u00e9ria e morte como castigo justo de uma vida violenta e inconformada\u201d.<\/p>\n<p>Boa parte da poesia de Bocage, conforme coment\u00e1rios dos autores da sua biografia e hist\u00f3ria, \u00e9 composta de longos poemas circunstanciais e desinteressantes, que celebram acontecimentos do seu tempo, como as poesias dedicadas ao nascimento da rainha Maria Teresa, filha de D. Jo\u00e3o e Carlota Joaquina, ou os versos que choram a morte de um cidad\u00e3o importante, como D. Jos\u00e9, em 1777 (ele assumiu o torno em 1750, tendo como Secret\u00e1rio do Estado, o marqu\u00eas de Pombal).<\/p>\n<p>Em muitas vezes, o poeta se autocondena, falando de seus poemas como incultas produ\u00e7\u00f5es da mocidade\/Escritos pela m\u00e3o do fingimento\/Cantados pela voz da Depend\u00eancia. Em \u201cJ\u00e1 Bocage n\u00e3o sou&#8230; no final o poeta renega, aparentemente, todo seu passado de boemia e irrever\u00eancia e se faz defensor de valores tradicionais e crist\u00e3os, quando diz \u201cSe me creste, gente \u00edmpia&#8230;\/Rasga os meus versos&#8230;Cr\u00ea na Eternidade\u201d<\/p>\n<p>A obra de Bocage \u00e9 fruto de uma Academia douta e esnobe a exigir frieza de composi\u00e7\u00e3o. No entanto, fora da Arc\u00e1dia, no calor das ruas, o clima era prop\u00edcio para den\u00fancias da hipocrisia social, da corrup\u00e7\u00e3o e da politicagem. Temas que n\u00e3o apareciam nas normas conservadoras do Arcadismo.<\/p>\n<p>Fora dela, existiam os ecos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a ascens\u00e3o da burguesia. A poesia se transforma em mercadoria, e precisava agradar ao p\u00fablico que a pagava. \u201cFruto de tudo isso&#8230; \u00e9 a poesia censurada de Bocage, irrompendo de improviso em botequins e estalagens\u201d. \u201cEra preciso falar a verdade\u201d. \u201cEra preciso voltar-se para o homem\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Abril Educa\u00e7\u00e3o, em \u201cLiteratura Comentada\u201d, numa sele\u00e7\u00e3o de textos biogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos de Marisa Lajolo e Ricardo Maranh\u00e3o, desnuda a vida do poeta portugu\u00eas Manuel Maria Barbosa du Bocage, falecido em 1805, que ficou conhecido como um desbocado de boa vida, fazendo o povo sofrido rir, mas que rompeu com as tradi\u00e7\u00f5es ao falar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5603"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5603"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5603\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5608,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5603\/revisions\/5608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}