{"id":5584,"date":"2021-04-09T22:08:38","date_gmt":"2021-04-10T01:08:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5584"},"modified":"2021-04-09T22:08:47","modified_gmt":"2021-04-10T01:08:47","slug":"vida-e-morte-de-m-j-gonzaga-de-sa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/04\/09\/vida-e-morte-de-m-j-gonzaga-de-sa\/","title":{"rendered":"&#8220;VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE S\u00c1&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Dizem os cr\u00edticos liter\u00e1rios que \u201cVida e Morte de M. J. Gonzaga de S\u00e1\u201d foi a melhor obra do escritor Lima Barreto, embora o p\u00fablico em geral sempre comenta e aponta \u201cTriste Fim de Policarpo Quaresma\u201d onde ele fala dos costumes da sociedade da \u00e9poca, com suas trambicagens e velhacarias. inclusive com personagens ciganas.<\/p>\n<p>Em \u201cLiteratura Comentada\u201d, da Abril Educa\u00e7\u00e3o, Ant\u00f4nio Arnoni Prado destaca que neste livro o narrador Augusto Machado tra\u00e7a um esbo\u00e7o biogr\u00e1fico de seu dileto amigo Gonzaga de S\u00e1, um velho bacharel em Letras, solteir\u00e3o e voltairiano, religioso sem deixar de ser c\u00e9tico e man\u00edaco por bal\u00f5es.<\/p>\n<p>Na narrativa de Augusto, o autor vai alternando o relato biogr\u00e1fico com suas pr\u00f3prias reflex\u00f5es sobre a vida e os homens. O tom \u00e9 cheio de ternura pelo amigo, morto quando se abaixava para colher uma flor, numa tarde que ele e o narrador se encontraram no Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Entre os escritos do amigo falecido, Augusto encontra, numa p\u00e1gina perdida de papel o que considera ser a teoria filos\u00f3fica de Gonzaga, com a ideia de que s\u00f3 o acaso decide sobre a sorte das coisas. O texto de Gonzaga se refere ao inventor de uma m\u00e1quina de voar que passa anos e anos montando seu engenho e se decepciona no momento de fazer o aparelho subir. Por um acaso, a m\u00e1quina n\u00e3o sai do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Gonzaga era ele mesmo um homem sem ilus\u00f5es, frio e espirituoso. Evitou doutorar-se para fugir das hipocrisias das solenidades. Contentou-se em n\u00e3o ir al\u00e9m de mero funcion\u00e1rio da Secretaria dos Cultos, com intuito de sobrar mais tempo para estudar. Tinha uma verdadeira febre de conhecimento.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de \u00e1rduas pesquisas, ele cultivava uma vis\u00e3o cr\u00edtica de seu tempo, lendo tudo o que caia nas m\u00e3os. Para tanto, evitou o casamento e se afastou das obriga\u00e7\u00f5es mundanas.<\/p>\n<p>Augusto vai recolhendo as impress\u00f5es cr\u00edticas de Gonzaga, um an\u00f4nimo das ruas do Rio de Janeiro. Para Gonzaga, de acordo com a narrativa, havia muitas coisas erradas na nossa terra, como a insufici\u00eancia nas artes do desenho at\u00e9 a nossa est\u00fapida mania da aristocracia, o preconceito em rela\u00e7\u00e3o aos negros, o elitismo e a injustificada idolatria pelo \u201cdoutor\u201d.<\/p>\n<p>Gonzaga se orgulhava de fazer parte do povo mais humilde que se formou em nossa terra, e detestava a gente de Petr\u00f3polis. \u201cEu sou S\u00e1, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus \u201cgalegos\u201d tamb\u00e9m\u201d. Passava os momentos de folga andando no meio do povo, perambulando pelos bairros populares distantes. Havia nele uma certa nostalgia do passado, uma esp\u00e9cie de busca do espa\u00e7o perdido da inf\u00e2ncia e dos tempos felizes de mo\u00e7o. Ele \u00e9 o primeiro a apontar a causa social na moderniza\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica do Rio de Janeiro. Sente no come\u00e7o do s\u00e9culo o isolamento entre os bairros e o distanciamento entre ricos e pobres.<\/p>\n<p>Quanto a este assunto, \u00e9 um c\u00e9tico que se apieda pelos indiv\u00edduos. Um c\u00e9tico que tem opini\u00f5es pr\u00e1ticas acerca do Bar\u00e3o Rio Branco que havia transformado o Rio em uma chicana particular, distribuindo o dinheiro do Tesouro como bem entendia.<\/p>\n<p>De acordo com o narrador, Gonzaga deplorava a comercializa\u00e7\u00e3o da cultura, a linguagem descuidada dos jornais e os falsos intelectuais reformadores, que s\u00f3 sabiam mostrar o radicalismo de suas convic\u00e7\u00f5es nas mesas de caf\u00e9s. Sua consci\u00eancia da realidade se agravava diante da mis\u00e9ria e do analfabetismo daqueles que eram explorados e \u201cviviam sob o aguilh\u00e3o dos deveres\u201d.<\/p>\n<p>Gradativamente, ele vai se resignando, encolhendo-se diante da opress\u00e3o e da injusti\u00e7a. Come\u00e7a a achar que a \u00fanica sa\u00edda para os oprimidos estava na morte. \u201cA morte tem sido \u00fatil&#8230; toda civiliza\u00e7\u00e3o resultou da morte\u201d, cultivando a ideia de que o intelectual n\u00e3o deve, com suas teses, conspurcar a pureza dos ing\u00eanuos. Admitia que s\u00f3 o sofrimento engrandecia o homem.<\/p>\n<p>O narrador Augusto Machado, como que pressentindo a morte do amigo \u00a0Gonzaga, experimenta a tristeza de sua aus\u00eancia, aproveitando ao m\u00e1ximo os \u00faltimos momentos de conviv\u00eancia e refletindo sobre o sentido da vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem os cr\u00edticos liter\u00e1rios que \u201cVida e Morte de M. J. 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