{"id":557,"date":"2014-10-13T22:12:30","date_gmt":"2014-10-14T01:12:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=557"},"modified":"2014-10-13T22:13:01","modified_gmt":"2014-10-14T01:13:01","slug":"itamar-indica-artigo-de-orlando-senna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/10\/13\/itamar-indica-artigo-de-orlando-senna\/","title":{"rendered":"ITAMAR INDICA ARTIGO DE ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p><strong>A brava Estela<\/strong><\/p>\n<p>Um dia, entusiasmado diante da multiplicidade de abordagens sobre um mesmo tema, o tamb\u00e9m super observador Eduardo Galeano disse que \u201cdesejaria ter tantos olhos como a c\u00e2mera de Estela Bravo\u201d. Estava se referindo \u00e0 qualidade dos pontos de vista que essa cineasta estadunidense-cubana faz jorrar em seus document\u00e1rios. N\u00e3o apenas no que se refere a posicionamentos dram\u00e1ticos, pol\u00edticos e humanistas mas tamb\u00e9m na express\u00e3o de sentimentos diante da situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 filmando, das tristezas que afloram na meio da alegria, do humor que se esconde entre os horrores da guerra, dos v\u00e1rios e surpreendentes tipos de resist\u00eancia que o ser humano inventa e reinventa diante de fracassos, perdas e danos.<\/p>\n<p>Seus document\u00e1rios tratam de quest\u00f5es sociais e pol\u00edticas em escala macro, envolvendo pa\u00edses, na\u00e7\u00f5es, ideologias, rupturas hist\u00f3ricas, coletividades de milh\u00f5es de pessoas. Estela aborda essas quest\u00f5es abrangentes a partir de unidades, de individualidades, de dramas pessoais, de retalhos dram\u00e1ticos \u2014 fazendo-me lembrar da li\u00e7\u00e3o capital de Alberto Cavalcanti a jovens documentaristas, na d\u00e9cada de 1930, ao dizer que um bom caminho para um document\u00e1rio sobre os correios \u00e9 seguir uma carta, que o melhor caminho para um filme sobre a humanidade \u00e9 filmar um ser humano, a alma de um ser humano. Um bom exemplo desse enfoque direto nas individualidades \u00e9\u00a0<em>Miami-La Habana<\/em>\u00a0(1992), envolvendo com altas doses emotivas as fam\u00edlias cubanas divididas, parte morando em Cuba, parte morando nos Estados Unidos. Referindo-se a esse document\u00e1rio, e com l\u00e1grimas nos olhos, o cineasta argentino Eliseo Subiela disse que \u201ca dor tamb\u00e9m serve para entender e crescer\u201d.<\/p>\n<p><!--more-->Essa cineasta pan-americana come\u00e7ou a filmar ainda adolescente, no inicio da d\u00e9cada de 1950, e suas primeiras grava\u00e7\u00f5es j\u00e1 apontavam para o rumo que iria seguir em document\u00e1rios realizados nos Estados Unidos, Cuba, Argentina, Chile. Ela filmou os filhos do casal Julius e Ethel Rosenberg diante da Casa Branca, em Washington, pedindo ao presidente Eisenhower que n\u00e3o executasse seus pais, condenados \u00e0 cadeira el\u00e9trica por espionagem, por terem passado para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica informa\u00e7\u00f5es sobre a bomba at\u00f4mica. O que atraiu a menina Estela naquele assunto, que punha em perigo a seguran\u00e7a do mundo bipolar de ent\u00e3o, n\u00e3o foi o fato em si, nem os aspectos pol\u00eamicos do processo, nem a disputa Leste\/Oeste mas sim o sofrimento e o desemparo de duas crian\u00e7as a ponto de se tornarem \u00f3rf\u00e3s e, de alguma maneira, amaldi\u00e7oadas.<\/p>\n<p>Anos depois estava na Argentina, onde se casou com o m\u00e9dico Ernesto Bravo, seu companheiro insepar\u00e1vel desde ent\u00e3o, e para onde retornou v\u00e1rias vezes para filmar a trag\u00e9dia dos desaparecidos e das M\u00e3es e Av\u00f3s da Plaza de Mayo. No Chile abordou a ditadura de Pinochet atrav\u00e9s dos graves problemas de identidade dos jovens, filhos de exilados ou assassinados, quando a ditadura caiu e retornaram a um pa\u00eds que n\u00e3o conheciam. Em\u00a0<em>Ni\u00f1os endeudados<\/em>\u00a0(1987), a quest\u00e3o da d\u00edvida externa latino-americana \u00e9 tratada a partir do impacto devastador em crian\u00e7as argentinas, bolivianas, colombianas e peruanas. Em\u00a0<em>Fidel \u2013 La historia no contada<\/em>\u00a0(2001), que registra o primeiro discurso do l\u00edder cubano ap\u00f3s a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o, o cl\u00edmax, a cena que fica na mem\u00f3ria de quem v\u00ea o filme, \u00e9 o momento em que uma pomba branca pousa no ombro de Fidel\u00a0e a surpresa da multid\u00e3o, composta em sua maioria por pessoas relacionadas com a\u00a0<em>santer\u00eda<\/em>, com o candombl\u00e9 \u2014 a\u00ed ele recebeu a alcunha popular Cavalo de Oxum, a deusa do amor, do parto e da \u00e1gua (e o codinome secreto de Fidel na CIA passou a ser El Caballo). Na narrativa sobre a visita de Jo\u00e3o Paulo II ao Chile em 1986, em plena era Pinochet (<em>El Santo Padre y la Gloria<\/em>), o que marca nosso cora\u00e7\u00e3o e nosso inconsciente \u00e9 a imagem e a hist\u00f3ria de uma jovem que se encontra com o Papa: Gloria, que havia sido molhada com gasolina e incendiada pelos militares e sobreviveu.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os caminhos dessa documentarista que h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo vive entre Nova York e Havana, sentindo na pele e nas entranhas as ondas de choque causadas nas pessoas comuns pela rela\u00e7\u00e3o de dentes arreganhados entre Estados Unidos e Cuba. A Guerra Fria iniciada depois da Segunda Guerra Mundial e encerrada com a implos\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991, nunca deixou de existir entre os dois pa\u00edses vizinhos, como um eterno filme de James Bond rodado no Caribe. O drama de milhares de fam\u00edlias divididas, separadas, danificadas por essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o foco mais importante da cineasta: al\u00e9m de\u00a0<em>Miami-La Habana<\/em>\u00a0vale salientar\u00a0<em>Los que se fueron<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Los Marielitos<\/em>, dos anos 1980, e\u00a0<em>Los exclu\u00edbles cubanos<\/em>, realizado para a TV canadense em 1996.<\/p>\n<p>Esta semana revi\u00a0<em>Operaci\u00f3n Peter Pan<\/em>, de 2011, sobre epis\u00f3dio dantesco, hiper dram\u00e1tico, desmesurado ocorrido no in\u00edcio dos anos 1960, quando 14 mil crian\u00e7as foram levadas de Cuba para os Estados Unidos em uma opera\u00e7\u00e3o da CIA, para serem salvas do comunismo. Foram centenas de voos Havana-Miami e o plano era devolver os meninos e meninas (muitos ainda beb\u00eas) \u00e0s fam\u00edlias alguns meses depois, quando Fidel fosse derrubado ou morto. Isso n\u00e3o aconteceu e muitas, muit\u00edssimas crian\u00e7as, jamais foram resgatadas pelos pais. Esses s\u00e3o os caminhos da sorridente e corajosa Estela, palavra que em espanhol significa o rastro no ar ou na \u00e1gua produzido por um objeto em movimento. No caso de Estela Bravo, um rastro de fina e luminosa percep\u00e7\u00e3o marcando o tempo em que vivemos.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Alguns Dados Biogr\u00e1ficos: Itamar e Orlando Senna<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A brava Estela Um dia, entusiasmado diante da multiplicidade de abordagens sobre um mesmo tema, o tamb\u00e9m super observador Eduardo Galeano disse que \u201cdesejaria ter tantos olhos como a c\u00e2mera de Estela Bravo\u201d. Estava se referindo \u00e0 qualidade dos pontos de vista que essa cineasta estadunidense-cubana faz jorrar em seus document\u00e1rios. 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