{"id":5559,"date":"2021-04-02T22:27:45","date_gmt":"2021-04-03T01:27:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5559"},"modified":"2021-04-02T22:27:54","modified_gmt":"2021-04-03T01:27:54","slug":"o-preconceito-racial-interrompe-os-estudos-de-um-menino-escritor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/04\/02\/o-preconceito-racial-interrompe-os-estudos-de-um-menino-escritor\/","title":{"rendered":"O PRECONCEITO RACIAL INTERROMPE OS ESTUDOS DE UM MENINO ESCRITOR"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o fosse o preconceito racial, o menino Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, quando o mulato Machado de Assis lan\u00e7a, no Rio de Janeiro, \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, e Alo\u00edsio de Azevedo publica \u201cO Mulato\u201d, tinha tudo para ser um grande aluno. Isolado e exclu\u00eddo, o \u00fanico consolo eram as leituras na Biblioteca Nacional e as visitas \u00e0 capelinha do Apostolado Positivista.<\/p>\n<p>Em \u201cLiteratura Comentada\u201d, da Abril Educa\u00e7\u00e3o, o cr\u00edtico Ant\u00f4nio Arnoni Prado fala do grande escritor que foi Lima Barreto, cujas obras foram marcos de uma literatura realista\/naturalista de transi\u00e7\u00e3o para o modernismo entre os s\u00e9culos XIX e XX. Seu pai, Jo\u00e3o Henriques era tip\u00f3grafo nas oficinas do Jornal do Com\u00e9rcio e do Jornal A Reforma, e sua m\u00e3e, Am\u00e1lia Augusta, professora que contraiu tuberculose e morreu em 1887.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1675.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5560\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1675.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1675.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1675-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Lima Barreto tinha mais quatro irm\u00e3os e veio numa \u00e9poca muito dif\u00edcil para a fam\u00edlia quando sua m\u00e3e faleceu. Com seis anos frequentava a escola p\u00fablica, quando o pai ingressou no movimento de resist\u00eancia liberal e publicou uma tradu\u00e7\u00e3o do \u201cManual do Aprendiz Compositor\u201d.<\/p>\n<p>Dedicado, Lima Barreto passa com brilho pelo curso prim\u00e1rio e pelos exames da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica que lhe deram condi\u00e7\u00f5es para entrar no Liceu Popular Niteroiense. Internado, o menino s\u00f3 v\u00ea a fam\u00edlia aos s\u00e1bados. Deprimido e solit\u00e1rio pela discrimina\u00e7\u00e3o, pensa em se suicidar aos 15 anos.<\/p>\n<p>Em 1895 transfere-se para o Gin\u00e1sio Nacional. No ano seguinte conclui os preparat\u00f3rios no Col\u00e9gio Paula Freitas para o ensino superior. Em 1897 ingressa na Escola Polit\u00e9cnica. Em 1902, ainda na Faculdade, come\u00e7a a colaborar em \u201cA Lanterna\u201d, \u00f3rg\u00e3o da mocidade das escolas superiores. Assinava como Alfa Z e Momento de In\u00e9rcia.<\/p>\n<p>Na escola, Lima Barreto era perseguido pelo professor Lic\u00ednio Cardoso, com constantes reprova\u00e7\u00f5es injustas, e sofria de forte discrimina\u00e7\u00e3o racial. \u201cSeu sentimento de revolta, suas atitudes pessimistas e seu complexo de inferioridade aumentam\u201d. Nessa \u00e9poca, seu pai enlouquece. Para cuidar dos irm\u00e3os e da sa\u00fade do pai, abandona a Faculdade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1674.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5561\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1674.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1674.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_1674-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1903 ingressa como amanuense na Secretaria da Guerra. Frustrado com a situa\u00e7\u00e3o, ele come\u00e7a a beber e a frequentar caf\u00e9s, livrarias e reda\u00e7\u00f5es de jornais do Rio de Janeiro. Era o fim do per\u00edodo \u00e1ureo da boemia liter\u00e1ria. Dos encontros nos caf\u00e9s, conhece Domingos Ribeiro Filho, Lima Campos, Gonzaga Duque e outros. Desses contatos com o meio intelectual, passa a colaborar na \u201cQuinzena Alegre\u201d e em \u201cO Diabo\u201d (revista de tro\u00e7a e filosofia). Depois conseguiu um trabalho na reda\u00e7\u00e3o de \u201cO Pau\u201d, com Crispim Amaral.<\/p>\n<p>O ingresso no jornalismo profissional se deu em 1905 no Correio da Manh\u00e3. Divide seu trabalho com a milit\u00e2ncia pol\u00edtica no comit\u00ea do Partido Oper\u00e1rio Independente. Em 1907 funda a \u201cRevista Floreal\u201d, para combater os formul\u00e1rios de regras liter\u00e1rias que impediam a proje\u00e7\u00e3o de novos talentos.<\/p>\n<p>Finalmente, em 1909, Lima Barreto publica, em Lisboa, seu romance de estreia \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do Escriv\u00e3o Isaias Caminha\u201d. No ano seguinte, o livro \u00e9 elogiado por Jos\u00e9 Ver\u00edssimo. Em 1911, o Jornal do Com\u00e9rcio come\u00e7a a publicar em folhetins seu segundo romance \u201cTriste Fim de Policarpo Quaresma\u201d, numa linguagem despojada e inconformista.<\/p>\n<p>O escritor aproveita o sucesso para colaborar com a Gazeta da Tarde e publica o romance \u201cNuma e a Ninfa\u201d (relatos folhetinescos). Esta fase, por\u00e9m, \u00e9 marcada por pen\u00farias e desgostos familiares. Entrou em depress\u00e3o e terminou sendo internado no hosp\u00edcio, em agosto de 1914.<\/p>\n<p>Ao sair, intensificou mais seu v\u00edcio ao \u00e1lcool e passou a perambular pelas ruas. Certa vez, seu amigo Monteiro Lobato o v\u00ea b\u00eabado numa mesa de bar e evita falar com ele por se sentir constrangido. Em 1916 precisa fazer um tratamento de sa\u00fade para curar uma anemia profunda, mas continua participando do jornalismo militante de esquerda, apoiando a plataforma do movimento anarquista que desencadeia em 1917, em S\u00e3o Paulo, uma das maiores greves da hist\u00f3ria oper\u00e1ria brasileira.<\/p>\n<p>Lima Barreto aproveita o ensejo e lan\u00e7a o \u201cManifesto Maximalista\u201d, publicado nas p\u00e1ginas do seu seman\u00e1rio A.B.C., com informa\u00e7\u00f5es sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Mesmo fraco, continua sua atividade liter\u00e1ria e escreve para a revista \u201cBr\u00e1s Cubas\u201d e a \u201cLanterna\u201d. Publica \u201cOs Bruzundangas\u201d, um perfil das mazelas nacionais. Em 1918 \u00e9 aposentado da Secretaria da Guerra por invalidez. Foi ainda diagnosticado como portador de epilepsia t\u00f3xica.<\/p>\n<p>Sua melhor obra para muitos cr\u00edticos foi \u201cVida e Morte da M. J. Gonzaga de S\u00e1\u201d, em 1919. Foi novamente recolhido ao hosp\u00edcio e s\u00f3 volta de l\u00e1 em 1920. Candidata-se por duas vezes \u00e0 Academia Brasileira de Letras, mas n\u00e3o \u00e9 eleito. Suas \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es de rebeldia intelectual foram registradas no romance \u201cClara dos Anjos\u201d, cr\u00f4nicas sobre o folclore e publica\u00e7\u00f5es de suas experi\u00eancias no hosp\u00edcio, contidas nas p\u00e1ginas do \u201cCemit\u00e9rio dos Vivos\u201d.<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria e os del\u00edrios do pai louco esgotam suas for\u00e7as para escrever, e Lima Barreto morre de colapso card\u00edaco, em 1\u00ba de novembro de 1922, nove meses depois da realiza\u00e7\u00e3o da Semana de Arte Moderna. Ele nasceu no realismo\/naturalismo e viveu no simbolismo. Na verdade, foi um precursor do modernismo, numa aut\u00eantica literatura, \u201cvoltada para os problemas existenciais do indiv\u00edduo em face da sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Em nosso pr\u00f3ximo \u201cEncontro com os Livros\u201d vamos comentar uma das suas importantes obras da literatura brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o fosse o preconceito racial, o menino Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, quando o mulato Machado de Assis lan\u00e7a, no Rio de Janeiro, \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, e Alo\u00edsio de Azevedo publica \u201cO Mulato\u201d, tinha tudo para ser um grande aluno. 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