{"id":552,"date":"2014-10-08T22:19:37","date_gmt":"2014-10-09T01:19:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=552"},"modified":"2014-10-08T22:19:48","modified_gmt":"2014-10-09T01:19:48","slug":"o-intervalo-do-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/10\/08\/o-intervalo-do-diabo\/","title":{"rendered":"O INTERVALO DO DIABO"},"content":{"rendered":"<p>Salustiano Querosene do Pavio \u00e9 um trabalhador bra\u00e7al que nasceu e vive h\u00e1 anos nos confins dos grot\u00f5es deste Brasil que muita gente diz que \u00e9 aonde o diabo gosta e o vento faz a curva, cafund\u00f3s do Judas ou o fim do mundo. Salustiano e a gente daquele peda\u00e7o de ch\u00e3o nem existem como cidad\u00e3os, mas j\u00e1 ouviram falar das artimanhas do Diabo, ou do Belzebu Satan\u00e1s chifrudo que n\u00e3o perde um descuido ou um intervalo de fraqueza para roubar uma alma.<\/p>\n<p>Quando Salustiano n\u00e3o tem dinheiro, e isso \u00e9 quase sempre, para comprar na venda o querosene de acender o candeeiro pra clarear seu casebre, ele apela para o \u00f3leo de mamona extra\u00eddo dos bagos pisados no pil\u00e3o. O pavio \u00e9 feito do algod\u00e3o colhido de um pequeno plantio de sua ro\u00e7a. Quando n\u00e3o tem algod\u00e3o vai mesmo um peda\u00e7o velho de pano. O pior de tudo \u00e9 a escurid\u00e3o quando o Diabo mais aprecia para fazer suas assombra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/FOTOS-DIVERSAS-018-C\u00f3pia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-553\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/FOTOS-DIVERSAS-018-C\u00f3pia.jpg\" alt=\"FOTOS DIVERSAS 018 - C\u00f3pia\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/FOTOS-DIVERSAS-018-C\u00f3pia.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/FOTOS-DIVERSAS-018-C\u00f3pia-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Teve um tempo que Salustiano vendia querosene e pavio, mas o neg\u00f3cio n\u00e3o foi pra frente por causa dos fiados que n\u00e3o recebia. Restou o seu nome dado pelo povo. Essa express\u00e3o \u201cpobre diabo\u201d, pessoa que trabalha como condenado e nada tem, escrava do poder e que n\u00e3o incomoda ningu\u00e9m, \u00e9 o t\u00edpico Salustiano.<\/p>\n<p>Mesmo temente a Deus, ele sabe e sente na carne e na alma que \u00e9 um \u201cpobre diabo\u201d, s\u00f3 n\u00e3o sabia que desde a antiguidade, nos tempos dos b\u00e1rbaros, antes e depois de Cristo, inclusive nas Cruzadas e na Idade M\u00e9dia, existiu uma sociedade secreta chamada de \u201cO Intervalo do Diabo\u201d, onde a entidade era reverenciada como deus da fortuna para uns poucos e da desgra\u00e7a para os que se arrastavam na mis\u00e9ria e na ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p><!--more-->Com ou sem sociedade, o Diabo, que n\u00e3o \u00e9 nada de pobre, n\u00e3o dispensa seu intervalo na concorr\u00eancia com Deus e sempre aumenta seu espa\u00e7o atrav\u00e9s dos tempos, ainda mais materializada nos atuais, sem precisar de muito esfor\u00e7o e tenta\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, Ele se disfar\u00e7ar de Deus para atrair a aten\u00e7\u00e3o e conseguir mais e mais intervalo, inclusive em hor\u00e1rios nobres. A competi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma arte na busca por mais clientes, e a disputa \u00e9 acirrada.<\/p>\n<p>Sem perceber, Salustiano sempre est\u00e1 caindo no papo Dele, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele que \u00e9 iludido, \u00e9 muita gente mesmo, sem contar que o danado Rabudo \u00e9 ex\u00edmio marqueteiro e garoto propaganda dos templos sagrados. Se nas inquisi\u00e7\u00f5es da Idade M\u00e9dia Ele deitou e rolou, agora na era do consumismo o L\u00facifer est\u00e1 se esbaldando. O charme \u00e9 que para confundir, o Diabo tem v\u00e1rios nomes e passaportes diferentes. Roda o mundo em mil disfarces exibindo suas artimanhas. Pode at\u00e9 ser feio para muitos, mas que o bicho \u00e9 popular, isso \u00e9!.<\/p>\n<p>Tem-se como certo que o Diabo \u00e9 tir\u00e2nico e vingador, mas esta caricatura tamb\u00e9m foi imputada a Deus pelo Antigo Testamento e atrav\u00e9s dos temidos frades pregadores da Igreja Cat\u00f3lica com suas palavras que cortavam como chibatadas salgadas nas almas pecadoras condenadas a arder no fogo do inferno. Nos p\u00falpitos condenat\u00f3rios, o Diabo triunfa e ganha seus intervalos.<\/p>\n<p>Dizem que Ele est\u00e1 sempre na espreita em cada rota, em cada estrada e encruzilhada da vida atr\u00e1s do seu precioso intervalo em forma de prazer e dor. Salustiano Querosene sempre teve um bom cora\u00e7\u00e3o e cuidou bem da sua fam\u00edlia. Quando podia, ajudava seus semelhantes e procurava cortar outro caminho para desviar do Diabo, mas o capeta estava sempre na moita.<\/p>\n<p>Um dia Ele chegou na varanda de sua casa bem de mansinho e cochichou uma intriga em seu ouvido de que sua mulher estava lhe traindo com seu melhor compadre. Pior que Salustiano j\u00e1 trazia uma ponta de cisma da amizade e do olhar entre os dois. Com o intervalo que conseguiu, o Chifrudo agora podia voltar depois para fazer o servi\u00e7o completo.<\/p>\n<p>Com aquilo no ju\u00edzo, Salustiano Querosene, marcado pelas labutas do dia-a-dia, sem sucessos e sem garantias de uma vida melhor, foi se enchendo de raiva e amargura em seu cora\u00e7\u00e3o. Os pensamentos ruins formigavam em sua cabe\u00e7a roendo seus neur\u00f4nios. Sempre foi temente a Deus, mas o Diabo tinha seu intervalo.<\/p>\n<p>Sacudido por mais um fracasso em sua ro\u00e7a castigada pela seca e num intervalo fulminante da ira, Salustiano sangrou sua mulher em frente dos filhos. Matou ainda seu compadre vizinho e sumiu no mundo para terras estranhas onde ningu\u00e9m nunca mais o encontro.<\/p>\n<p>Todos disseram por aquelas redondezas que Salustiano estava com o Diabo no corpo. Algu\u00e9m contou que viu ele com uma peixeira na m\u00e3o passar veloz como o vento no cruzamento do povoado mais pr\u00f3ximo. Parecia mais com uma on\u00e7a escorra\u00e7ada depois de um ataque surpresa. R\u00e1pido, o \u201cpobre diabo\u201d melado de sangue sumiu no agreste cinzento da paisagem \u00e1rida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salustiano Querosene do Pavio \u00e9 um trabalhador bra\u00e7al que nasceu e vive h\u00e1 anos nos confins dos grot\u00f5es deste Brasil que muita gente diz que \u00e9 aonde o diabo gosta e o vento faz a curva, cafund\u00f3s do Judas ou o fim do mundo. 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