{"id":5388,"date":"2021-02-10T02:14:59","date_gmt":"2021-02-10T05:14:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5388"},"modified":"2021-02-10T02:15:29","modified_gmt":"2021-02-10T05:15:29","slug":"o-fim-do-homem-sovietico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/02\/10\/o-fim-do-homem-sovietico\/","title":{"rendered":"&#8220;O FIM DO HOMEM SOVI\u00c9TICO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Da vencedora do Pr\u00eamio Nobel de Literatura, em 2015, Svetlana Aleksi\u00e9vitch, o livro intitulado \u201cO Fim do Homem Sovi\u00e9tico\u201d \u00e9 uma s\u00e9rie de reportagens jornal\u00edsticas com depoimentos e entrevistas de testemunhas que falam dos tempos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 desde L\u00eanin, Stalin e seus sucessores; os trabalhos em campos for\u00e7ados; a invas\u00e3o alem\u00e3 em 1941; a Perestroika de Gorbatchev com a chegada do capitalismo de mercado; o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; os refugiados das guerras civis nas diversas rep\u00fablicas; e as dela\u00e7\u00f5es entre parentes.,<\/p>\n<p>A obra fala de amor, de sentimentos, de mulheres sofridas que apanhavam dos maridos, dos veteranos de guerra que foram abandonados pelo regime, da Sib\u00e9ria, dos kulaks, de viol\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o contra os refugiados, de uma R\u00fassia que n\u00e3o admite estranhos em sua terra, do engenheiro que se tornou empacotador de supermercado depois da Perestroika, tudo isso narrado atrav\u00e9s de entrevistas feitas pela jornalista.<\/p>\n<p>DEPOIMENTOS IMPARCIAIS<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1272.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5389\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1272.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1272.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1272-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A escritora (jornalistas deveriam ler o livro) d\u00e1 voz ao povo, de forma imparcial a quem elogia o comunismo stalinista, mesmo com suas atrocidades e falta de liberdade, defendendo que o homem tinha o seu valor e orgulho de ser sovi\u00e9tico, sem pensar no dinheiro. Outros depoimentos contr\u00e1rios mostram os movimentos a favor da Perestroika, e a tentativa de golpe em 1991, com pessoas apoiando e outras se colocando contra a abertura e a liberdade.<\/p>\n<p>Durante todo o livro, cada um vai contando suas experi\u00eancias de vida, suas hist\u00f3rias, sofrimentos passados e presentes, antes e depois da queda do imp\u00e9rio sovi\u00e9tico, a viol\u00eancia nas cidades, as guerras no Afeganist\u00e3o e na Tchetch\u00eania, os testemunhos de refugiados discriminados que foram viver em Moscou, a vida dos veteranos que voltaram das guerras e a luta de sobreviv\u00eancia depois de Gorbatchov, com uma R\u00fassia dividida em \u00f3dios e intoler\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Nos testemunhos existem passagens muito fortes e impactantes de pessoas e fam\u00edlias que foram v\u00edtimas de atrocidades criadas pelo rancor com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o fim do homem sovi\u00e9tico como diz o pr\u00f3prio t\u00edtulo do livro. Nas entrevistas feitas pela jornalista, muitos destilam sua raiva contra os usurpadores que dividiram e lotearam o patrim\u00f4nio da R\u00fassia com a chegada do capitalismo quando se aprofundou a divis\u00e3o entre ricos e pobres.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1275.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5390\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1275.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1275.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1275-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0 <\/strong>Na introdu\u00e7\u00e3o, a escritora (seu livro \u00e9 um comp\u00eandio de entrevistas) faz uma cronologia sobre a R\u00fassia depois de Stalin, morto em 1953, a passagem de Nikita Khrusch\u00f3v, que denunciou o culto \u00e0 personalidade de Stalin. a repress\u00e3o na Hungria, em 1956, os tanques na Tchecoslov\u00e1quia, em 1968, a publica\u00e7\u00e3o do livro Doutor Jivago (Boris Pastermak), o poder com Leonid Br\u00e9jniev, em 1964, a invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o, em 1979, a morte de Br\u00e9jniev em 1982, e seus sucessores Iuri Andr\u00f3pov, Tchernenko, Mikhail Gorbatch\u00f3v, em 1985, Boris I\u00e9ltsin, eleito presidente em 1991 e todo o desenrolar da hist\u00f3ria das separa\u00e7\u00f5es das rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas at\u00e9 a era Putin.<\/p>\n<p>Durante o livro, Svetlana destaca o h\u00e1bito russo da \u201cgera\u00e7\u00e3o cozinha\u201d, o lugar predileto das conversas e reuni\u00f5es dos russos entre as fam\u00edlias, mesmo nos tempos de Stalin, para criticar e xingar os governos, com todo cuidado e at\u00e9 em forma de c\u00f3digos, para que n\u00e3o fossem descobertos e mandados para os campos de trabalho na Sib\u00e9ria. Colocavam m\u00fasicas altas para confundir os di\u00e1logos. Naquela \u00e9poca, tudo era vigiado, at\u00e9 os pensamentos.<\/p>\n<p>O HOMO SOVI\u00c9TICUS<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1276.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5391\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1276.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1276.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_1276-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No cap\u00edtulo em que descreve \u201cObserva\u00e7\u00f5es de uma c\u00famplice\u201d, a jornalista relata atrav\u00e9s de suas entrevistas, que o comunismo tinha um plano insano, o de refazer o \u201cvelho homem\u201d, o antigo Ad\u00e3o. A c\u00famplice diz que \u201cdepois de setenta e tantos anos, no laborat\u00f3rio do marxismo-leninismo, cultivaram uma esp\u00e9cie humana peculiar, o homo sovi\u00e9ticus\u201d. Muitos chamam de sovok, aquele que aderia cegamente a ideologia oficial.<\/p>\n<p>Ela conta que nos depoimentos que colheu s\u00e3o recorrentes palavras como atirar, fuzilar, liquidar, passar em armas. \u201cTemos uma rela\u00e7\u00e3o particular com a morte\u201d \u2013 diz a c\u00famplice, que fala de milh\u00f5es que morreram. \u201cEstamos cheios de \u00f3dio e preconceito\u201d. Tudo vem de l\u00e1, de onde havia o gulag, a coletiviza\u00e7\u00e3o, a expropria\u00e7\u00e3o dos Kulaks, a migra\u00e7\u00e3o dos povos. No livro, existem muitos relatos de suic\u00eddios por amor, por medo e por velhice.<\/p>\n<p>As pessoas russas n\u00e3o conseguem abandonar a Grande Hist\u00f3ria, e \u00e9 um povo b\u00e9lico, como descreve a escritora. \u201cOu guerre\u00e1vamos, ou nos prepar\u00e1vamos para a guerra\u201d, na observa\u00e7\u00e3o da c\u00famplice. Referindo-se aos tempos p\u00f3s revolu\u00e7\u00e3o, existe um di\u00e1logo entre um professor e Tr\u00f3stski. O professor diz que Moscou est\u00e1 literalmente morrendo de fome. Ai Tr\u00f3stski responde: \u201cquando Tito tomou Jerusal\u00e9m, as m\u00e3es judias comeram seus pr\u00f3prios filhos. Quando eu fizer suas m\u00e3es comerem os pr\u00f3prios filhos, a\u00ed voc\u00ea pode vir a dizer: Estamos morrendo de fome.<\/p>\n<p><!--more-->A R\u00fassia mudou, e odiou a si mesma por ter mudado. \u201cO mongol im\u00f3vel\u201d, como escreveu Marx. S\u00e3o notas de testemunhas entrevistadas pela jornalista. Outra delas diz que ningu\u00e9m nos ensinou o que era a liberdade. Sobre esse assunto t\u00e3o delicado na \u00e9poca do comunismo, muitos d\u00e3o suas vers\u00f5es, inclusive com rela\u00e7\u00e3o a Perestroika. Liberdade \u00e9 ter um jeans, usar uma camisa com o retrato de Che Guevara e de L\u00eanin? Ningu\u00e9m fala mais de ideal, fala de cr\u00e9dito, de porcentagens e de cambio&#8230;<\/p>\n<p>Sobre os anos 90, algu\u00e9m desabafa que agora o quadro \u00e9 diferente. Os alunos de hoje j\u00e1 sentiram na pele o que \u00e9 o capitalismo: desigualdade, pobreza e riqueza descarada. Eles j\u00e1 viram bem de perto a vida dos pais, para quem n\u00e3o sobrou nada da pilhagem do pa\u00eds.\u00a0 Existe o partido do poder, que copia o partido comunista.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, as piadas floresceram, como a de que comunista \u00e9 aquele que leu Marx, e um anticomunista \u00e9 aquele que entendeu. Um diz que os contrabandistas e os cambistas tomaram o poder. Ao contr\u00e1rio do que disse Marx, depois do socialismo estamos construindo o capitalismo. Os capitalistas s\u00e3o gordos e s\u00e3o horr\u00edveis. Foi isso que enfiaram em nossas cabe\u00e7as na inf\u00e2ncia. Voc\u00ea liga a televis\u00e3o e todos est\u00e3o falando como bandidos.<\/p>\n<p>Para os que viveram os tempos duros, o imp\u00e9rio e o comunismo est\u00e3o alojados no nosso subc\u00f3rtex. Preferimos as coisas heroicas. O socialismo fazia as pessoas viverem na hist\u00f3ria; fazer parte de algo grandioso. Quando eu acreditava no comunismo, n\u00e3o precisava de igreja. Achamos os ocidentais ing\u00eanuos porque eles n\u00e3o sofrem como n\u00f3s, para qualquer brotoeja, eles t\u00eam um rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>O livro conta dez hist\u00f3rias do interior vermelho. Numa delas, um personagem afirma que a ci\u00eancia tamb\u00e9m trouxe \u00e0 humanidade in\u00fameras cat\u00e1strofes. Vamos ent\u00e3o aniquilar os cientistas! Amaldi\u00e7oar os pais da bomba at\u00f4mica\u201d?&#8230; Existem depoimentos sobre o t\u00e9rmino da campanha na Finl\u00e2ndia, em 1940.<\/p>\n<p>Nesse tempo, as hist\u00f3rias s\u00e3o muito tr\u00e1gicas e tristes. Tanto os prisioneiros de guerra na Finl\u00e2ndia como dos alem\u00e3es, quando escapavam ou retornavam, eram tratados como traidores da p\u00e1tria, e muitos at\u00e9 iam para os campos de trabalho for\u00e7ado. Contra a abertura dos anos 90, um entrevistado critica os democratas. Dizem que eles provaram um terninho americano, ouviram o Tio Sam, mas o terninho americano n\u00e3o entra.<\/p>\n<p>Um defensor do socialismo diz que o sistema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 campo de trabalho for\u00e7ado, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dela\u00e7\u00e3o e cortina de ferro; \u00e9 tamb\u00e9m um mundo justo e limpo; Dividir com todos, ter pena dos mais velhos, ter compaix\u00e3o, e n\u00e3o juntar tudo para si.<\/p>\n<p>AS DELA\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p>Bem, a obra \u00e9 um retrato fiel de entrevistas feitas pela jornalista onde cada um diz o que pensa, cada qual em seu tempo, e o que perdeu e o que sofreu. Relata sobre as dela\u00e7\u00f5es onde pai dedurava filho, e este a m\u00e3e. Irm\u00e3o apontava irm\u00e3o; vizinho entregava vizinho, e assim por diante. Qualquer vacilo era visto como inimigo do povo.<\/p>\n<p>No livro existem umas passagens interessantes que d\u00e3o uma ideia de como o medo pairava sobre as cabe\u00e7as das pessoas, principalmente na \u00e9poca stalinista. \u00a0Um testemunho narra que numa sess\u00e3o do Partido, Stalin foi ovacionado de p\u00e9, mas ningu\u00e9m se atrevia a sentar-se primeiro. Quando um membro do Partido revolveu se sentar foi depois condenado a trabalho for\u00e7ado.<\/p>\n<p>Outro caso foi de um russo que fez uma cr\u00edtica sobre a qualidade do jeans russo depois de 20 anos de comunismo. Tamb\u00e9m foi preso e sentenciado. Um artista declamava uma poesia sobre Stalin. Era uma festa em homenagem ao centen\u00e1rio da morte de P\u00fachkin. (Eu rio, mas ele n\u00e3o ri.) O estudante recebeu dez anos no campo de trabalho sem direito a correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Tinha um motorista preso por ser parecido com Stalin. Um intelectual folclorista que contava contos de fada infantis foi delatado pela pr\u00f3pria m\u00e3e. O Comit\u00ea Central debatia a fecunda\u00e7\u00e3o das \u00e9guas. Um russo brincou indagando se o Comit\u00ea n\u00e3o tinha coisa mais importante para discutir. Ele falou isso \u00e0 tarde, e de madrugada j\u00e1 estava preso. Quando eu ia para o trabalho, passava por uma est\u00e1tua de Stalin, e ficava suando frio: Vai que de repente ele advinha o que eu estou pensando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da vencedora do Pr\u00eamio Nobel de Literatura, em 2015, Svetlana Aleksi\u00e9vitch, o livro intitulado \u201cO Fim do Homem Sovi\u00e9tico\u201d \u00e9 uma s\u00e9rie de reportagens jornal\u00edsticas com depoimentos e entrevistas de testemunhas que falam dos tempos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 desde L\u00eanin, Stalin e seus sucessores; os trabalhos em campos for\u00e7ados; a invas\u00e3o alem\u00e3 em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5388"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5388"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5388\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5392,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5388\/revisions\/5392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}