{"id":5272,"date":"2020-12-24T10:48:35","date_gmt":"2020-12-24T13:48:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5272"},"modified":"2020-12-24T10:48:49","modified_gmt":"2020-12-24T13:48:49","slug":"no-pais-dos-ciganos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/12\/24\/no-pais-dos-ciganos\/","title":{"rendered":"NO PA\u00cdS DOS CIGANOS"},"content":{"rendered":"<p>Um poeminha de Jeremias Mac\u00e1rio em homenagem a Manuel Bandeira e, em especial, aos ciganos<\/p>\n<p>Num s\u00e1bado \u00e0 noite, l\u00e1 pela madruga, estava eu ouvindo uma boa m\u00fasica e degustando meu vinho. Algu\u00e9m bateu em minha porta e fui atender. Para minha feliz surpresa, era o velho poeta Manuel Bandeira. Disse que estava numa farra com amigos e resolveu passar para um abra\u00e7o e me fazer um convite.<\/p>\n<p>Tomou uma ta\u00e7a de vinho e foi logo me chamando para ir com ele para Pass\u00e1rgada.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o o seu convite, meu camarada Bandeira, mas n\u00e3o vou para Pass\u00e1rgada. Estou de malas prontas para o pa\u00eds dos ciganos:<\/p>\n<p>Vou me embora para meu pa\u00eds dos cantantes,<\/p>\n<p>L\u00e1 serei poeta dos ciganos todos os anos,<\/p>\n<p>Com minha estrela de cinco pontas no peito,<\/p>\n<p>Na cintura meu punhal cravejado de rubis,<\/p>\n<p>Entre as mais belas mulheres dan\u00e7antes,<\/p>\n<p>An\u00e9is de ouro e saias coloridas esvoa\u00e7antes.<\/p>\n<p>Como meu esp\u00edrito de guerreiro sempre quis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou ser l\u00edder kaku homem grande bor\u00f3,<\/p>\n<p>Ser Rom, Sinti e falar o meu Romani,<\/p>\n<p>Com meus irm\u00e3os em carro\u00e7as viajantes,<\/p>\n<p>Entre tsigane, kalderask, ursari e rudari,<\/p>\n<p>Be m longe desse mundo do gadj\u00e9 marim\u00e9,<\/p>\n<p>N\u00e3o mais um vatrasi propriedade de um dono,<\/p>\n<p>E em minha rede sonhar no meu sono cigano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o vou ser lacaio desse governo velhaco,<\/p>\n<p>Prefiro ser um cigano da Hungria valaco,<\/p>\n<p>Viver nas tribos da protetora Santa Sara,<\/p>\n<p>Em meu cl\u00e3 cigano como lovara ou gitano,<\/p>\n<p>N\u00e3o mais nessa terra ser um servo vassalo,<\/p>\n<p>Viajar por a\u00ed galopando em meu cavalo,<\/p>\n<p>Pois morada e casa de cigano \u00e9 uma estrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou ser tocador, latoeiro ou caldeireiro,<\/p>\n<p>At\u00e9 um nobre conde ou duque de dinheiro,<\/p>\n<p>N\u00f4made livre e n\u00e3o mais preso sedent\u00e1rio,<\/p>\n<p>Bem longe desse enfado miser\u00e1vel sal\u00e1rio,<\/p>\n<p>Serei rei e farei contos que nunca contei.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou ter saudades de voc\u00ea, amigo Bandeira,<\/p>\n<p>Quando for banhar na encantada cachoeira,<\/p>\n<p>Passear pelas terras do Nilo, Tigre e Eufrates,<\/p>\n<p>Como cigano manouche e Ziguener dos embates,<\/p>\n<p>N\u00e3o mais como da Rom\u00eania um escravizado,<\/p>\n<p>Sem mais essa opress\u00e3o do trabalho for\u00e7ado,<\/p>\n<p>Nem viver nos campos nazi de concentra\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Mas como legal calonkal\u00e9 da Espanha\/Portugal,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No meu pa\u00eds cigano vou ter meus lares,<\/p>\n<p>Sem ser acorrentado nas gal\u00e9s desses mares,<\/p>\n<p>L\u00e1 serei chamado de eg\u00edpcio ou como quer,<\/p>\n<p>Como metaleiro ferreiro e festeiro de feira,<\/p>\n<p>A peregrinar em Santes Maries de la Mer,<\/p>\n<p>Fazer melodias nos rituais das magias,<\/p>\n<p>No meu pa\u00eds cigano, meu mano Bandeira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou me casar com minha bela turmalina,<\/p>\n<p>Morena menina de olhos e cabelos pretos,<\/p>\n<p>No c\u00edrculo da fogueira sagrada a dan\u00e7ar,<\/p>\n<p>Com minha doce de pedras verdes\/vermelhas,<\/p>\n<p>Brincos de ouro com ametistas nas orelhas,<\/p>\n<p>Ao som dos ventos e o luar dos violinos,<\/p>\n<p>Entre as ciganas a bailar com os meninos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha morte ser\u00e1 com festas e banquetes,<\/p>\n<p>No caix\u00e3o, enfeites de flores e moedas antigas,<\/p>\n<p>Sepultado debaixo de uma frondosa \u00e1rvore,<\/p>\n<p>E voltar de novo com as minhas cantigas,<\/p>\n<p>Pra lutar contra as persegui\u00e7\u00f5es do meu povo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como menino no pa\u00eds dos peregrinos,<\/p>\n<p>Dos t\u00e1rtaros, sarracenos e dos hindus,<\/p>\n<p>Vou por a\u00ed a cantarolar sem rumo e destino,<\/p>\n<p>N\u00e3o mais como vadio viver em correrias,<\/p>\n<p>S\u00f3 ver minhas crian\u00e7as brincar sua inf\u00e2ncia,<\/p>\n<p>Sem o passado de \u00f3dio, morte e intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>V\u00e1 meu mano para o seu pa\u00eds do cigano.<\/p>\n<p>Vou para Pass\u00e1rgada onde tamb\u00e9m serei rei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um poeminha de Jeremias Mac\u00e1rio em homenagem a Manuel Bandeira e, em especial, aos ciganos Num s\u00e1bado \u00e0 noite, l\u00e1 pela madruga, estava eu ouvindo uma boa m\u00fasica e degustando meu vinho. 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