{"id":5247,"date":"2020-12-15T00:21:08","date_gmt":"2020-12-15T03:21:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5247"},"modified":"2020-12-15T00:21:18","modified_gmt":"2020-12-15T03:21:18","slug":"historia-do-povo-cigano-parte-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/12\/15\/historia-do-povo-cigano-parte-6\/","title":{"rendered":"&#8220;HIST\u00d3RIA DO POVO CIGANO&#8221; (Parte 6)"},"content":{"rendered":"<p>AS TEORIAS INTELECTUAIS DAS DOUTRINAS BIOL\u00d3GICAS, \u201cCOMBATER O MAL CIGANO\u201d, AS ESTERILIZA\u00c7\u00d5ES, O HOLOCAUSTO CONTRA OS CIGANOS QUE DIZIMOU MAIS DE MEIO MILH\u00c3O, AS SEDENTARIZA\u00c7\u00d5ES NOS PA\u00cdSES COMUNISTAS E OS PEDIDOS DE INDENIZA\u00c7\u00d5ES.<\/p>\n<p>Com a subida de Hitler ao poder, na Alemanha, em 1933, o nazismo j\u00e1 encontrou um terreno prop\u00edcio pelos cientistas e intelectuais para impor sua pol\u00edtica de esteriliza\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio dos ciganos e outros viajantes considerados in\u00fateis e inv\u00e1lidos pelo regime de pureza das ra\u00e7as. O primeiro campo de concentra\u00e7\u00e3o foi instalado para excluir os ciganos da sociedade e, durante a Grande Guerra, a etnia foi v\u00edtima do mesmo holocausto dos judeus. Em trabalhos for\u00e7ados, em campos de concentra\u00e7\u00e3o e c\u00e2maras de g\u00e1s foram mortos mais de meio milh\u00e3o de ciganos.<\/p>\n<p>De acordo com relato do acad\u00eamico e pesquisador brit\u00e2nico, Angus Fraser, as migra\u00e7\u00f5es na Europa Ocidental, principalmente, apertaram as atitudes dos governos contra os ciganos. Com a chegada do s\u00e9culo XX, as coisas pioraram com o nazismo. \u201cAs portas dos campos da morte assumiram o papel do averno dos antigos para o inferno\u201d. Foram invocadas as teorias intelectuais das doutrinas biol\u00f3gicas sobre a pureza das ra\u00e7as, das estirpes e da eugenia do final do s\u00e9culo XIX, colocando em pr\u00e1tica as pol\u00edticas de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>A CRIMINALIZA\u00c7\u00c3O DAS \u201cRA\u00c7AS INFERIORES\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0922.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5248\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0922.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0922.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0922-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O ensaio do conde franc\u00eas Gobineau (1853\/5) teve enorme influ\u00eancia sobre o pensamento filos\u00f3fico e pol\u00edtico, especialmente na Alemanha. Para ele, a ra\u00e7a era o fator decisivo do desenvolvimento hist\u00f3rico (existem ra\u00e7as superiores e inferiores e o topo \u00e9 conferido \u00e0 ariana). Gobineau achava a miscigena\u00e7\u00e3o desastrosa. As suas ideias foram ainda mais distorcidas pelo ingl\u00eas Houston Stewart Chamberlain, cuja obra \u201cFundamentos do S\u00e9culo XIX\u201d (1899) exaltava o papel hist\u00f3ricos dos teut\u00f5es.<\/p>\n<p>A partir de suas teorias, as doutrinas biol\u00f3gicas vieram revolucionar a criminologia com \u201cO Homem Delinquente\u201d, de 1876, de Cesare Lombroso (Origem At\u00e1vica do Crime). Lombroso nada tem de bom sobre os ciganos e ainda serve de base para os agentes do crime apertarem o cerco. Os ciganos foram classificados como fr\u00edvolos, desavergonhados, imprevidentes, ineptos, barulhentos, violentos e licenciosos, gostavam de carne podre e eram suspeitos de canibalismo.<\/p>\n<p>Com o Darwinismo Social, concluiu-se que o fator biol\u00f3gico \u00e9 o determinante em todas as esferas da vida. Na concep\u00e7\u00e3o dessas doutrinas, o Estado moderno tinha que voltar sua aten\u00e7\u00e3o para a promo\u00e7\u00e3o dos biologicamente v\u00e1lidos e nada de proteger os fracos. A partir dessas ideias e outras do tipo, come\u00e7ou-se a \u201ccombater o mal cigano\u201d. \u00a0As repress\u00f5es tiveram in\u00edcio na Holanda, na fronteira com a Alemanha, mesmo para os ciganos que eram ricos. No rastro, os vizinhos tomaram medidas restritivas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0926.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5249\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0926.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0926.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0926-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os germ\u00e2nicos sempre desconfiaram dos ciganos. Mesmo depois da forma\u00e7\u00e3o do Novo Imp\u00e9rio e da anexa\u00e7\u00e3o da Als\u00e1cia e da Lorena, em 1871, os Lander que constitu\u00edam o Reich n\u00e3o abandonaram seus controles de fronteiras internas. Cada um continuava a ser respons\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio policiamento e pela administra\u00e7\u00e3o das medidas contra os ciganos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de Bismarck tinha duas vertentes. Uma delas era excluir ou livra-se dos ciganos estrangeiros e levar os nacionais, que ainda fossem itinerantes, a adotar uma vida sedent\u00e1ria. Todavia, os documentos oficiais n\u00e3o procuravam confinar-se aos ciganos num sentido puramente racial, para evitar problemas de defini\u00e7\u00e3o como \u201cciganos e pessoas que viagem \u00e0 maneira dos ciganos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCOMBATER O MAL CIGANO\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0929.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5250\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0929.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0929.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0929-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A Alemanha n\u00e3o teve dificuldades em garantir a coopera\u00e7\u00e3o dos Estados vizinhos para manter os ciganos \u00e0 dist\u00e2ncia. A diretriz sobre o\u201d combate ao mal cigano\u201d, emitida pelo ministro do Interior da Pr\u00fassia, em 1906, enumerava nove acordos bilaterais com a \u00c1ustria- Hungria, B\u00e9lgica, Dinamarca, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Luxemburgo, Holanda, R\u00fassia e Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p><!--more--> Os m\u00e9todos estabelecidos foram restringir os pedidos de licen\u00e7a para o trabalho itinerante. Nas leis impostas, inclu\u00edam prova de domic\u00edlio fixo, cadastro limpo, educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e contabilidade limpa (efeitos fiscais). Aceitaram a sedentariza\u00e7\u00e3o, desde que os ciganos n\u00e3o ficassem em suas terras.<\/p>\n<p>A partir da metade do s\u00e9culo, o sistema de licenciamento tornou-se instrumento de agress\u00f5es. A primeira medida da Bav\u00e1ria (Alemanha) contra os ciganos data de 1885, com escrut\u00ednio rigoroso dos documentos na fronteira, apreens\u00e3o dos documentos, trabalho e muita inspe\u00e7\u00e3o. Em 1899 foi instalado, em Munique, uma reparti\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica para elaborar relat\u00f3rios de aparecimento de ciganos.<\/p>\n<p>O encarregado da reparti\u00e7\u00e3o, Alfred Dilman, criou o \u201cZigeuner-Buch\u201d (Livro dos Ciganos) para ajudar os agentes da Baviera e os Lander vizinhos a erradicar a \u201cpraga cigana\u201d. Foram identificados quase quatro mil, sendo 20% da \u00c1ustria-Hungria e outros tantos da B\u00f3snia, Cro\u00e1cia, Eslov\u00e1quia e Gal\u00edcia. Outra iniciativa foi convocar uma confer\u00eancia, em dezembro de 1911, com seus Lander, para estender a cobertura do registro de Munique.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s nova reuni\u00e3o, em 1925, a Baviera avan\u00e7ou em 1926 com uma lei para tornar a sedentariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria e autorizar os ciganos para os campos de trabalho at\u00e9 dois anos. A decis\u00e3o foi justificada nos seguintes termos: \u201cEstas pessoas s\u00e3o por natureza antagonistas de qualquer trabalho e \u00e9-lhes dif\u00edcil tolerar restri\u00e7\u00f5es \u00e0 sua vida n\u00f4made. Nada as atinge mais duramente do que a perda da liberdade associada ao trabalho for\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>Em abril de 1929, a \u00e1rea de pris\u00f5es da reparti\u00e7\u00e3o de Munique foi estendida a toda Alemanha, e a Comiss\u00e3o de Pol\u00edcia Criminal Alem\u00e3 deu-lhe o novo nome de Reparti\u00e7\u00e3o Central de Combate ao Mal Cigano. Afinal, a Rep\u00fablica de Weimar fez um bom trabalho para o regime que havia de suceder-lhe, no caso o nazismo de Hitler.<\/p>\n<p>Na Su\u00ed\u00e7a, o Departamento de Justi\u00e7a fez o seu registro baseado no de Munique. No entanto, foi o mais ambicioso programa de caridade para a inf\u00e2ncia, num processo de extirpa\u00e7\u00e3o da vida itinerante. Tiraram as crian\u00e7as do seio dos pais, mudando seus nomes e colocando-as em lares de ado\u00e7\u00e3o, isto at\u00e9 1973.<\/p>\n<p>CARN\u00ca PARA N\u00d4MADES E VAGABUNDOS<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a tomou um rumo diferente. Em mar\u00e7o de 1895 foi realizado um censo de todos os n\u00f4mades e vagabundos. Uma comiss\u00e3o apresentou seu relat\u00f3rio em 1898 onde estimava haver 400 mil itinerantes, entre os quais 25 mil n\u00f4mades em caravanas, com elevada propor\u00e7\u00e3o de \u201cmanouches\u201d (equivalentes aos Sinti da Alemanha). A partir de 1907, as for\u00e7as policiais receberam ordens para fotografar vagabundos para o registro central de Paris.<\/p>\n<p>Em julho de 1912 foi aprovada uma lei criando o carnet anthropom\u00e9trique, que gerou ass\u00e9dios, abrindo caminhos para contraf\u00e9s dos tribunais para quem andasse na rua sem o carn\u00ea. O alvo principal eram os travellers, cujo modo de vida entrava em conflito com a sociedade sedent\u00e1ria. Um filantropo, George Smith, contrariando sua fam\u00edlia, come\u00e7ou a exigir, em 1870, a reforma dos meninos de rua e dos ciganos, comparados a selvagens animais e de imorais. Ele queria que todas as casas m\u00f3veis fossem registradas e sujeitas \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o diurna. Os filhos dos ciganos tinham que cumprir um n\u00famero m\u00ednimo de dias escolares. Houve grande oposi\u00e7\u00e3o a Smith, como da Associa\u00e7\u00e3o dos Artistas de Espet\u00e1culos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS TEORIAS INTELECTUAIS DAS DOUTRINAS BIOL\u00d3GICAS, \u201cCOMBATER O MAL CIGANO\u201d, AS ESTERILIZA\u00c7\u00d5ES, O HOLOCAUSTO CONTRA OS CIGANOS QUE DIZIMOU MAIS DE MEIO MILH\u00c3O, AS SEDENTARIZA\u00c7\u00d5ES NOS PA\u00cdSES COMUNISTAS E OS PEDIDOS DE INDENIZA\u00c7\u00d5ES. 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