{"id":5212,"date":"2020-12-01T22:16:35","date_gmt":"2020-12-02T01:16:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5212"},"modified":"2020-12-01T22:17:12","modified_gmt":"2020-12-02T01:17:12","slug":"historia-do-povo-cigano-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/12\/01\/historia-do-povo-cigano-parte-iii\/","title":{"rendered":"&#8220;HIST\u00d3RIA DO POVO CIGANO&#8221; (Parte III)"},"content":{"rendered":"<p>A IGREJA CAT\u00d3LICA E O COMBATE \u00c0 \u201cPRAGA CIGANA\u201d NA EUROPA, COM PENAS DE MORTE, ENVENENAMENTOS, SEPARA\u00c7\u00d5ES E TODOS OS TIPOS DE ATROCIDADES. O CIGANO ERA ACUSADO AT\u00c9 DE CANIBALISMO.<\/p>\n<p>Dentro do nosso roteiro do livro \u201cHist\u00f3ria do Povo Cigano\u201d, do autor Angus Fraser, a Espanha tamb\u00e9m apertou o cerco desde 1550. A corte se referia aos ciganos como uma praga de vagabundos. Felipe II agudizou a situa\u00e7\u00e3o. Em 1588 aplicou severas restri\u00e7\u00f5es aos direitos de os ciganos venderem suas mercadorias. Criou a proposta de separar os homens das mulheres para se casarem com camponeses e colocar os filhos em orfanatos. O projeto ficou na gaveta por um tempo, mas apareceu no s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>A Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o ficou atr\u00e1s com seus preconceitos odiosos, inclusive por parte de padres e te\u00f3logos, como o Sancho Moncado que afastou a possibilidade de ser mostrada a considera\u00e7\u00e3o pelas mulheres e crian\u00e7as. Padres inventavam boatos de roubos, heresias e rapto de crian\u00e7as contra os ciganos.<\/p>\n<p>\u201cQUEM ME ENCONTRAR, PODE ME MATAR\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0957.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5213\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0957.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0957.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0957-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em defesa de Felipe III, Moncada preferia algo mais irrevers\u00edvel e cita as Escrituras, para justificar a condena\u00e7\u00e3o dos ciganos (Gitanos) \u00e0 morte, usando a passagem em que Caim diz que \u201cserei errante e vagabundo pela terra e quem me encontrar, pode matar-me\u201d. Ele ainda dizia que \u201cn\u00e3o h\u00e1 lei que nos obrigue a criar filhotes de lobos para garantido detrimento futuro do rebanho\u201d. Em 1631, o juiz Juan de Quinones enforcou cinco ciganos. Para conden\u00e1-los, baseou-se em hist\u00f3rias de imoralidades e canibalismo.<\/p>\n<p>Os ciganos eram obrigados a viver \u201ccomo bons crist\u00e3os\u201d, e quem apanhasse um itinerante poderia fazer dele um escravo. O governo precisava manter tripula\u00e7\u00f5es para as gal\u00e9s, para fortalecer as esquadras do Mediterr\u00e2neo. Eles eram apanhados para os trabalhos for\u00e7ados nos navios.<\/p>\n<p>Em 1695, Carlos II, o \u00faltimo monarca da dinastia dos Habsburgos, apertou mais ainda o regime atrav\u00e9s de um decreto que estipulava uma lista completa de todos os ciganos e suas ocupa\u00e7\u00f5es, armas e animais. S\u00f3 podiam viver em lugares com mais de 200 habitantes, e eram proibidos de desempenhar qualquer of\u00edcio n\u00e3o ligado \u00e0 lavoura. N\u00e3o podiam usar cavalos, armas ou irem a feiras e mercados.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0960.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5214\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0960.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0960.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0960-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Com os Burbons, a pol\u00edtica ficou mais dura, principalmente nos principados de Arag\u00e3o, Catalunha e Val\u00eancia. Com Felipe V, o fundador da dinastia, a san\u00e7\u00e3o de 1717 restringiu ainda mais os locais para morada em 41 cidades, com penas que iam de seis a oito anos nos gal\u00e9s para os homens, mais banimento para as mulheres, para quem descumprisse as ordens.<\/p>\n<p>Seu filho Fernando VI, em 1746, alargou o n\u00famero de cidades para 34. Em seu reinado, o reverendo Gaspar V\u00e1zquez, bispo de Ovi\u00e9do e governador do Conselho de Castela, decidiu que os ciganos deviam ser todos passeados pela Espanha durante uma jornada de uma noite, para serem postos em locais de trabalhos for\u00e7ados, sendo seus bens vendidos.<\/p>\n<p>Fernando VI aceitou o conselho do bispo, e cerca de 12 mil ciganos fizeram a maldita marcha para o inferno. As gal\u00e9s s\u00f3 foram abolidas em 1748, isto por causa do surgimento de novas tecnologias de navega\u00e7\u00e3o naval. No entanto, os ciganos foram levados para os estaleiros navais, arsenais e para as minas de merc\u00fario onde centenas e milhares foram mortos por envenenamento. Nos barrac\u00f5es, ex\u00e9rcitos de homens dormiam sem cobertores em estrados de madeira, com os tornozelos acorrentados \u00e0s paredes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0962.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5215\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0962.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0962.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_0962-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Diante de provas de boas condutas de ciganos casados, Fernando VI voltou atr\u00e1s em suas ordens e autorizou que estes podiam regressar \u00e0s suas casas. O seu meio-irm\u00e3o e sucessor, Carlos III, decidiu, em 1763, que todos ciganos ainda mantidos na pris\u00e3o por causa da jornada noturna deviam ser postos em liberdade. No entanto, os conselheiros do rei se opuseram e o decreto s\u00f3 entrou em vigor em 1765.<\/p>\n<p>Mesmo assim, algumas de suas propostas, como na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, tiveram teor autorit\u00e1rios. Comparadas com tr\u00eas s\u00e9culos de regulamentos sanguin\u00e1rios de Jos\u00e9 II relativos \u00e0 Hungria e \u00e0 Transilv\u00e2nia, suas medidas representaram certo progresso. Uma das normas era eliminar o nome de ciganos para castelhanos novos. Aqueles que estivessem dispostos a obedecer aos atos, seriam autorizados a trabalhar em qualquer of\u00edcio.<\/p>\n<p>A SEDENTARIZA\u00c7\u00c3O FOR\u00c7ADA E AS DEPORTA\u00c7\u00d5ES PARA O BRASIL.<\/p>\n<p>Os restantes dos pa\u00edses situados fora do Imp\u00e9rio Otomano, como Portugal, It\u00e1lia, Su\u00ed\u00e7a, sul da Flandres, Dinamarca, Su\u00e9cia e a R\u00fassia seguiram caminhos semelhantes de banimento e sedentariza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada em diversos graus. Portugal foi o primeiro pa\u00eds a recorrer \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o para as col\u00f4nias ultramarinas (Brasil) como novo m\u00e9todo de expuls\u00e3o. As col\u00f4nias precisavam de gente, e os colonos necessitavam de mulheres.<\/p>\n<p>As primeiras deporta\u00e7\u00f5es para as col\u00f4nias da \u00c1frica ocorreram no tempo de D. Jo\u00e3o III, atrav\u00e9s do decreto de 1538. Em 1574 tivemos o primeiro registro de um cigano portugu\u00eas (Joh\u00e3o Torres) mandado, com sua mulher e filhos, para a o Brasil, como comuta\u00e7\u00e3o de uma senten\u00e7a \u00e0s gal\u00e9s, pois n\u00e3o tinha obedecido a ordem geral de expuls\u00e3o.\u00a0 D. Jo\u00e3o V se destacou como um dos mais carrascos e perseguidores da na\u00e7\u00e3o cigana, l\u00e1 pelos meados do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>As deporta\u00e7\u00f5es para o Brasil come\u00e7aram a ser organizadas em 1686, numa altura em que se dizia que as expuls\u00f5es da Espanha estavam a provocar um enorme afluxo de ciganos para Portugal. Na realidade, em 1570, Felipe II proibiu os \u201cGitanos\u201d de entrarem nas col\u00f4nias da Am\u00e9rica, devido a informa\u00e7\u00f5es de que eles estavam indo secretamente, e andavam a vigarizar os \u00edndios. A ordem era de que regressassem \u00e0 Espanha.<\/p>\n<p><!--more--> A Fran\u00e7a n\u00e3o praticou a deporta\u00e7\u00e3o, mas muitos deles foram para as col\u00f4nias francesas (Martinica e Louisiana). Muitas viagens foram abortadas por causa da guerra com a Inglaterra e a venda da Louisiana para os Estados Unidos, em 1803. Napole\u00e3o Bonaparte decretou a dispers\u00e3o deles pela Fran\u00e7a para serem empregados em obras p\u00fablicas, ou no ex\u00e9rcito. As mulheres e as crian\u00e7as foram mandadas para albergues de pobres.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, o transporte for\u00e7ado remonta ao tempo de Isabel, embora mais tarde sofreu outra dimens\u00e3o. A Lei da Vagabundagem, de 1579, instituiu que bandidos incorrig\u00edveis fossem banidos para ultramar. No reinado de Jaime V (1603), o conceito geral de deporta\u00e7\u00e3o foi mudado para transporte, quando muitos foram para Terra Nova, \u00cdndias Orientais e Ocidentais, Fran\u00e7a, Alemanha, Espanha e Pa\u00edses Baixos.<\/p>\n<p>OS OTOMANOS FORAM MAIS CONDESCENDENTES.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio Otomano foi mais condescendente com os ciganos, e deles aproveitou para extorqui com a cobran\u00e7a de altos impostos para manter suas guerras. Na parte da Europa sob dom\u00ednio otomano, a hist\u00f3ria dos ciganos permaneceu na sombra, sobretudo no que se refere \u00e0 sua cristandade. A maioria dos habitantes ciganos viveu sob dom\u00ednio turco, numa altura em que as fronteiras do Imp\u00e9rio haviam atingido sua maior extens\u00e3o no s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>No Imp\u00e9rio, de acordo com o autor do livro, Angus Fraser, n\u00e3o se constatou muita legisla\u00e7\u00e3o repressiva. Os otomanos respeitavam os costumes e institui\u00e7\u00f5es das comunidades que eram governadas com ajuda das suas pr\u00f3prias autoridades. Alguns territ\u00f3rios gozavam de governo com elevado grau de autonomia. O que mais interessava aos turcos era o pagamento dos tributos e apoio militar. Os principados de Val\u00e1quia e Mold\u00e1via foram os que deram mais for\u00e7as aos generais turcos, e mais contribui\u00e7\u00f5es ao tesouro.<\/p>\n<p>Nesses principados, a vida de escravid\u00e3o dos ciganos prosseguiu sem interrup\u00e7\u00e3o, principalmente no meado do s\u00e9culo XVII. Os decretos serviram mais para refor\u00e7ar que atenuar o estado de coisas existentes. At\u00e9 introduziram algumas reformas, de vida curta, como a de que os filhos n\u00e3o fossem separados de seus pais (s\u00e9culo XVIII).<\/p>\n<p>Se um firm\u00e3 (decreto imperial otomano) dedicasse aten\u00e7\u00e3o especial aos ciganos era no campo da administra\u00e7\u00e3o, de ordem p\u00fablica, ou de fisco. O Suleim\u00e3, o magn\u00edfico, num decreto de 1530, procurou regulamentar a prostitui\u00e7\u00e3o de ciganos na cidade de Constantinopla, Sofia, Adrian\u00f3polis e Plovdiv. Seu filho Selim II, em 1547, ordenou que os ciganos que trabalhavam nas minas da B\u00f3snia deveriam ter certas isen\u00e7\u00f5es fiscais e eleger um chefe para cada grupo de 50.<\/p>\n<p>Alguns sedent\u00e1rios eram referidos como oper\u00e1rios do ferro, do carv\u00e3o e guardas. Haviam escravos entre esses s\u00faditos. Na \u00faltima parte do s\u00e9culo XVII, foi apertado o torniquete fiscal. O sult\u00e3o Mehemt IV cobrou impostos de ciganos mortos at\u00e9 encontrar vivos para os substituir. Esses impostos eram diferenciados para ciganos mul\u00e7umanos (menor) e os crist\u00e3os (maior taxa),<\/p>\n<p>Em 1695 dizia-se que havia mais de 45 mil ciganos em todo o imp\u00e9rio otomano, dos quais apenas 10 mil mul\u00e7umanos, incluindo a S\u00edria, Mesopot\u00e2mia e \u00c1sia Menor. Ocorriam algumas manifesta\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o, como a do sult\u00e3o Mustaf\u00e1 II quando, em 1696, publicou regulamentos de pol\u00edcia com vistas a disciplinar os ciganos e tir\u00e1-los de suas vidas\u201d imorais e desordeiras\u201d. \u00c0 luz dos padr\u00f5es da Europa, no entanto, n\u00e3o foram muito molestados.<\/p>\n<p>Apesar de algumas m\u00e3os pesadas, como na S\u00e9rvia, havia liberdades em outras regi\u00f5es, como nos Balc\u00e3s, onde podiam deslocar-se por todo imp\u00e9rio, e durante os quatro s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o otomano, houve muita migra\u00e7\u00e3o interna. Mesmo com as incurs\u00f5es militares, as atividades dos ciganos n\u00e3o sofriam muito. Eles fabricavam vassouras, limpavam chamin\u00e9s, eram m\u00fasicos, bailarinos, amestradores de ursos e ferreiros.<\/p>\n<p>TORTURAS E MUITOS SE FIXAVAM NAS ZONAS DE FRONTEIRAS E FLORESTAS<\/p>\n<p>As medidas repressivas provocaram enormes mudan\u00e7as nas vidas dos ciganos na Europa. Para sobreviver, tiveram que se adaptar, e tamb\u00e9m tirar o melhor proveito, num sistema que procurava negar-lhes alimentos e abrigo, impossibilitando-os de ter uma vida honesta. Para escapar das persegui\u00e7\u00f5es, muitos se fixavam em zonas de fronteiras, como Fran\u00e7a-Espanha, entre estados germ\u00e2nicos, Lorena e o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>As confiss\u00f5es de muitos presos eram extra\u00eddas atrav\u00e9s de torturas prolongadas nas rodas, com parafusos nos dedos e bota espanhola, como fizeram com Johannes la Fortun, chefe de um bando, conhecido por Hemperla. Ele e outros tr\u00eas foram quebrados pela roda e depois decapitados. Nove foram enforcados e mais treze tiveram suas cabe\u00e7as degoladas. O bandido cigano mais famoso da Alemanha foi Jakob Reinhardt (Hannikel). Foi enforcado, em 1787, com mais tr\u00eas ciganos.<\/p>\n<p>Te\u00f3ricos intelectuais consideravam que esta abjeta casta indiana s\u00f3 servia para o servi\u00e7o militar, Frederico Guilherme II, da Pr\u00fassia, era da mesma opini\u00e3o e, em 1790, ordenou que os ciganos fossem transformados em soldados. Na verdade, o ex\u00e9rcito era mais uma via de fuga que os ciganos podiam optar na esperan\u00e7a de conquistarem toler\u00e2ncia, ou de abrirem as portas das pris\u00f5es e, talvez, tratamento preferencial.<\/p>\n<p>Diante da opress\u00e3o, segundo o autor do livro, em muitos pa\u00edses houve um aumento da sedentariza\u00e7\u00e3o dos ciganos, principalmente na Hungria e na Espanha. Em 1785, foram identificados cerca de 12 mil ciganos na Espanha. Mais de 80% deles passavam a maior parte do tempo sedent\u00e1rios.<\/p>\n<p>Sempre tidos como gente sem religi\u00e3o, a atitude oficial das autoridades eclesi\u00e1sticas n\u00e3o estimulava o laxismo para com os ciganos. At\u00e9 o s\u00e9culo XIX n\u00e3o houve grandes sinais de que as almas ciganas se preocupassem com o Estado. Na It\u00e1lia, por exemplo, os s\u00ednodos diocesanos revelaram pouca vontade de facilitar o acesso dos ciganos aos sacramentos.<\/p>\n<p>A IGREJA CAT\u00d3LICA E OS PROTESTANTES<\/p>\n<p>A convers\u00e3o for\u00e7ada e a instru\u00e7\u00e3o religiosa compulsiva se destacavam nos des\u00edgnios dos monarcas, como do imperador Jos\u00e9 II, e muitos estados germ\u00e2nicos procuraram retirar os filhos de seus progenitores para os mandar batizar e cria-los em fam\u00edlias crist\u00e3s. No pa\u00eds basco franc\u00eas, as igrejas costumavam negar a entrada aos cascarots (ciganos).<\/p>\n<p>Em Portugal, os bispos, em 1635, excomungaram ciganos que n\u00e3o foram \u00e0 confiss\u00e3o na Quaresma. Os te\u00f3logos espanh\u00f3is tamb\u00e9m eram \u00e1vidos de severidade. No entanto, a Inquisi\u00e7\u00e3o tratava os ciganos com brandura porque os casos apresentados ao Santo Of\u00edcio acabavam por cheirar menos a heresia e mais a vigarice e explora\u00e7\u00e3o da credulidade p\u00fablica. Os ciganos que atra\u00edram a aten\u00e7\u00e3o dos inquisidores n\u00e3o eram ignorantes em mat\u00e9ria de religi\u00e3o. Em geral, tinham sido batizados e casados na igreja.<\/p>\n<p>Em 1788, em Lorena, quando procuraram investigar as pr\u00e1ticas religiosas dos ciganos, constataram que n\u00e3o possu\u00edam qualquer religi\u00e3o em especial, mas procuravam os sacramentos cat\u00f3licos. Um padre chegou a ser repreendido por ter permitido que um deles recebesse a comunh\u00e3o num Domingo de P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>Para o professor de Filosofia Moral, Jakob Thomasius, em 1652, apesar de reconhecer que antigamente tenham sido peregrinos, vindos do leste, de ascend\u00eancia eg\u00edpcia, esta gente era capaz de todas as maldades, e a \u00fanica resposta era despach\u00e1-los para os confins da terra. Voetius achava que os ciganos eram espi\u00f5es a servi\u00e7o dos turcos.<\/p>\n<p>Os protestantes tamb\u00e9m n\u00e3o foram favor\u00e1veis aos ciganos e procuravam mant\u00ea-los \u00e0 dist\u00e2ncia. Martinho Lutero, por exemplo, prevenia a popula\u00e7\u00e3o contra os golpes sujos dos vagabundos e dava seu aval \u00e0 repress\u00e3o, O te\u00f3logo calvinista holand\u00eas Voetius se colocou contra o batismo de crian\u00e7as ciganas.<\/p>\n<p>Artigo publicado no Dicion\u00e1rio Universal de Todas as Ci\u00eancias e Artes, em 1749, dizia \u201cser certo que os ciganos foram sempre \u00edmpios, gente ruim que perseguimos com inteira justifica\u00e7\u00e3o\u201d. Outros autores taxavam os ciganos de bandidos fals\u00e1rios que se disfar\u00e7avam com roupas esquisitas, besuntavam a cara e o corpo, andavam de um lado para o outro, abusavam do povo comum e roubavam tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A IGREJA CAT\u00d3LICA E O COMBATE \u00c0 \u201cPRAGA CIGANA\u201d NA EUROPA, COM PENAS DE MORTE, ENVENENAMENTOS, SEPARA\u00c7\u00d5ES E TODOS OS TIPOS DE ATROCIDADES. O CIGANO ERA ACUSADO AT\u00c9 DE CANIBALISMO. Dentro do nosso roteiro do livro \u201cHist\u00f3ria do Povo Cigano\u201d, do autor Angus Fraser, a Espanha tamb\u00e9m apertou o cerco desde 1550. 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