{"id":5201,"date":"2020-11-27T00:25:51","date_gmt":"2020-11-27T03:25:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5201"},"modified":"2020-11-27T00:26:19","modified_gmt":"2020-11-27T03:26:19","slug":"historia-do-povo-cigano-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/11\/27\/historia-do-povo-cigano-parte-ii\/","title":{"rendered":"&#8220;HIST\u00d3RIA DO POVO CIGANO&#8221; (Parte II)"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA PRESS\u00c3O DAS GRILHETAS\u201d, A ESCRAVID\u00c3O E AS LEIS RIGOROSAS DE PENAS DE MORTE E TRABALHOS FOR\u00c7ADOS<\/p>\n<p>O cerco come\u00e7ou mesmo a se fechar contra eles entre o meado do s\u00e9culo XVI at\u00e9 o final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX, um dos per\u00edodos mais tenebroso para os ciganos na Fran\u00e7a (Tsiganes), na Alemanha (Zigeuner), na Espanha (Gitanos), na Inglaterra (Gipsies), na Hungria (Czingaros), na Holanda e outros pa\u00edses, conforme narra o escritor Angus Fraser, no cap\u00edtulo \u201cA Press\u00e3o das Grilhetas\u201d, no livro \u201cHist\u00f3ria do Povo Cigano\u201d.<\/p>\n<p>Esse povo continuou a ser visto como criminoso por causa da sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade. Os preconceitos raciais (pele escura) e as hostilidades religiosas ficaram mais arraigadas, com condena\u00e7\u00f5es como vagabundos, mendigos e por pr\u00e1ticas pag\u00e3s de feiti\u00e7arias. Sem domic\u00edlio fixo, eram considerados como in\u00fateis. Para as autoridades, os ciganos tinham que ser corrigidos atrav\u00e9s da coer\u00e7\u00e3o e pela press\u00e3o das grilhetas (gal\u00e9s).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0925.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5202\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0925.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0925.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0925-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando os ciganos ofereciam servi\u00e7os leg\u00edtimos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, como assinala o autor do livro, corriam o risco de atrair a m\u00e1 vontade de mercadores e artes\u00f5es ambulantes que violavam os monop\u00f3lios locais. Temiam ainda pela repugn\u00e2ncia que suas ocupa\u00e7\u00f5es de funileiros, bufarinheiros e saltimbancos suscitavam nos detentores do poder.<\/p>\n<p>LEIS E PENAS MAIS RIGOROSAS<\/p>\n<p>Contra eles, as leis foram se multiplicando, e as penas tornando-se mais rigorosas. Na Inglaterra, os anos 1550 a 1640 corresponderam ao auge da atividade contra os \u201chomens sem dono\u201d. Em 1554, no reinado de Filipe e Maria foi promulgada uma lei que os tratavam de malignos e abomin\u00e1veis.<\/p>\n<p>As leis de 1530, de Henrique VIII, da Inglaterra, foram agravadas. Quem trouxesse ciganos para o pa\u00eds seria multado, e o transportado que ficasse por um m\u00eas, era considerado criminoso. S\u00f3 escapava do castigo quem abandonasse \u201cessa ociosa e \u00edmpia vida\u201d. Todas as licen\u00e7as e passaportes adquiridos (usados pelos eg\u00edpcios) foram anulados.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0927.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5203\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0927.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0927.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0927-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ainda como parte das leis, quem andasse na companhia \u201cdesses vagabundos ou falsificadores de documentos\u201d seria morto e suas terras confiscadas. Muitos foram considerados culpados e enforcados. Em 1596, mais de 100 ciganos foram sentenciados \u00e0 morte. A \u00faltima vez que na Inglaterra enforcaram pessoas, simplesmente por serem ciganas, \u201cparece ter sido em 1650\u201d.<\/p>\n<p>O decreto de 1572 foi o mais duro de todo o reinado de Isabel (lei para o castigo de vagabundos). Nele, pessoas com idade de 14 anos, ou mais, seriam chicoteadas e queimadas as cartilagens das orelhas com ferro em brasa. Os filhos, entre 5 e 14 anos, podiam ser entregues ao servi\u00e7o de outro, se tornando escravos por cerca de 19 anos.<\/p>\n<p>A lei da vagabundagem, de 1822, estabelecia que todas as pessoas que se digam ciganas, leitoras das m\u00e3os, habitantes de tendas e carro\u00e7as s\u00e3o consideradas bandidas, com pernas de seis meses de pris\u00e3o, S\u00f3 em 1824, a refer\u00eancia que se especificava diretamente a ciganos, foi abandonada.<\/p>\n<p>Na Esc\u00f3cia, de Maria Stuart, de 1574, as penas eram parecidas e rigorosas. Nelas continham espancamentos, queima de orelhas e execu\u00e7\u00f5es. \u00c9 bom lembrar, como cita o autor do livro, que sempre existiam conflitos entre cl\u00e3s de ciganos, mas as autoridades pouco se importavam, com inten\u00e7\u00f5es de que eles mesmo fossem exterminados entre si.<\/p>\n<p>\u201cLEI DOS EG\u00cdPCIOS\u201d E AS GAL\u00c9S<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0928.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5204\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0928.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0928.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0928-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No reinado de Jaime VI (1579), e mesmo em 1597, surgiram novas leis ainda mais duras. Em 1609, foi criada a \u201cLei dos Eg\u00edpcios\u201d que tratava da pena de morte e bania os ciganos. No entanto, aquele que desempenhasse alguma fun\u00e7\u00e3o deixaria de ser criminoso. As mulheres apanhadas sem filhos seriam enforcadas, e as com filhos, chicoteadas e queimadas nas faces. A \u00faltima vez que a pena de morte foi aplicada na Esc\u00f3cia a uma pessoa apenas por ser cigana foi em 1714<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, a repress\u00e3o levou mais tempo. Eram barradas as entradas de ciganos. Mesmo assim, Henrique IV convidou, em 1607, um bando de ciganos artistas para dan\u00e7arem com ele em sua corte. Foi um dos pa\u00edses que mais endureceu as penas e castigos, jogando os ciganos nas gal\u00e9s dos navios at\u00e9 a morte, para soerguer sua marinha.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0 Em meados do s\u00e9culo XVII, Luis XIV (ainda na menoridade), as leis ficaram mais r\u00edgidas, com sistemas severos no governo absoluto. Os regulamentos de 1666 determinavam que os ciganos deviam ser detidos e postos a ferro nas gal\u00e9s, sem nenhum processo jur\u00eddico. No reinado de Luis XIII, com o cardeal Richelieu, as persegui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram constantes.<\/p>\n<p>O ponto mais alto foi o decreto de Luis XIV, em julho de 1682, onde os homens eram enviados para as gal\u00e9s, acorrentados nos p\u00e9s e pesco\u00e7os, por toda vida. Os rapazes de menor idade eram conduzidos para os hosp\u00edcios. As mulheres tinham suas cabe\u00e7as raspadas. Se persistissem no nomadismo, elas eram a\u00e7oitadas e banidas do reino.<\/p>\n<p>A Enciclop\u00e9dia de Diderot definia como vagabundos todos aqueles que praticavam a profecia atrav\u00e9s da leitura das m\u00e3os. Em sua tradu\u00e7\u00e3o, o talento dos ciganos se resumia a cantar, dan\u00e7ar e roubar. Em 1786, o governo tentou negociar com os ciganos, mas de uma maneira opressiva que praticamente nada restava para sua gente, a n\u00e3o ser se submeter \u00e0s duras regras.<\/p>\n<p>Como viviam o tempo todo sob press\u00e3o e acuados, para alimentar seus familiares, os ciganos partiam para a extors\u00e3o. Mesmo assim, estavam dispostos a se submeter ao governo e aceitar trabalho, desde que n\u00e3o fossem presos. Foi a\u00ed que surgiu a ideia de mandar os ciganos para as col\u00f4nias nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Com a for\u00e7a opressora dos governos, aumentaram tamb\u00e9m as a\u00e7\u00f5es de brutalidades e a incid\u00eancia de crimes. Na Alemanha, por exemplo, foi uma \u00e9poca de \u201cca\u00e7a aos ciganos\u201d, isso por volta de 1720. Na Holanda as persegui\u00e7\u00f5es duraram do s\u00e9culo XVI a 1806.<\/p>\n<p>No imp\u00e9rio germ\u00e2nico (Casa dos Habsburgos), o volume de legisla\u00e7\u00e3o anti-ciganas superou o resto da Europa, com cerca de 133 diplomas no per\u00edodo de 1551 a 1774. Em meio a tudo isso, houve a Guerra dos Trinta Anos, cujo tratado de paz aconteceu em 1648, quando a Alemanha passou de 20 milh\u00f5es de habitantes para 13 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O Sacro Imp\u00e9rio Romano passou a ser Imp\u00e9rio Habsburgo (austro-h\u00fangaro). Em 1616, o governador imperial da Hungria, Gyorgy Thurz\u00f3, assinou um salvo conduto que se referia ao voivoda Franciscus e sua companhia, que dizia prestar servi\u00e7os militares, com apelo geral \u00e0 compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o dos ciganos. Afirmava que a t\u00e3o desgra\u00e7ada ra\u00e7a eg\u00edpcia, a que chamamos de Czingaros \u00e9 merecedora de piedade.<\/p>\n<p>Esse salvo-conduto ainda assinalava que essa vida sofredora dos ciganos podia ter sido causada pela tirania do fara\u00f3, ou ditado pelo destino. \u201cEst\u00e3o habituados a viver uma vida muito dura, nos prados e nos campos, fora das cidades e sob tendas esfarrapadas. Aprenderam a suportar chuva, frio e calor\u201d.<\/p>\n<p>Thurz\u00f3 recomendou que as pessoas permitissem aos ciganos instalar-se em suas terras, erigir suas tendas e praticar a arte de ferreiro, e os protegessem daqueles que quisessem fazer-lhes mal. No entanto, as coisas se alteraram quando a \u00c1ustria conquistou a Hungria pelo final do s\u00e9culo XVII. Foi ent\u00e3o que em terras Habsburgo ocorreram mudan\u00e7as dr\u00e1sticas durante o reinado da imperatriz Maria Tereza (1740 a 1780).<\/p>\n<p>Seu pai Carlos VI foi um incans\u00e1vel nas hostilidades, e a imperatriz seguiu seus exemplos, ordenando a expuls\u00e3o dos n\u00f4mades e protegendo os sedent\u00e1rios com t\u00edtulos de condes e m\u00fasicos da corte. A Hungria foi devastada nos conflitos entre habsburgos e turcos. Em 1758, Maria assinou termo de assentamento dos ciganos, e a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os compuls\u00f3rios para os donos de propriedades. Os ciganos n\u00e3o podiam sair sem licen\u00e7a. Ela acabou com a designa\u00e7\u00e3o cigana a favor de Ujmagyar (h\u00fangaros novos).<\/p>\n<p>Em 1767 foram proibidos de usar seus vestu\u00e1rios, falar sua l\u00edngua e ter sua ocupa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Em 1773 veio o fim da sua identidade e realizar casamentos entre eles. Uma mulher que casasse com um gadj\u00f3 tinha que apresentar provas de bons servi\u00e7os dom\u00e9sticos e familiaridade com a doutrina cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as com mais de cinco anos eram obrigadas a serem educadas por fam\u00edlias n\u00e3o ciganas. Seu filho Jos\u00e9 II prosseguiu com sua pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Claro que os ciganos reagiram e n\u00e3o aceitaram a divis\u00e3o de suas fam\u00edlias. Na Pr\u00fassia de Frederico, o Grande, na d\u00e9cada de 1830, as medidas foram ao extremo, com trabalhos for\u00e7ados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA PRESS\u00c3O DAS GRILHETAS\u201d, A ESCRAVID\u00c3O E AS LEIS RIGOROSAS DE PENAS DE MORTE E TRABALHOS FOR\u00c7ADOS O cerco come\u00e7ou mesmo a se fechar contra eles entre o meado do s\u00e9culo XVI at\u00e9 o final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX, um dos per\u00edodos mais tenebroso para os ciganos na Fran\u00e7a (Tsiganes), na Alemanha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5201"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5201"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5205,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5201\/revisions\/5205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}