{"id":5184,"date":"2020-11-23T22:28:45","date_gmt":"2020-11-24T01:28:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5184"},"modified":"2020-11-23T22:29:19","modified_gmt":"2020-11-24T01:29:19","slug":"historia-do-povo-cigano-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/11\/23\/historia-do-povo-cigano-parte-i\/","title":{"rendered":"&#8220;HIST\u00d3RIA DO POVO CIGANO&#8221; (Parte I)"},"content":{"rendered":"<p>PELOS SOFRIMENTOS A QUE FORAM SUBMETIDOS DURANTE S\u00c9CULOS, PRATICAMENTE DIZIMADOS PELOS NAZISTAS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1938 A 1945), TODA NA\u00c7\u00c3O CIGANA MERECE UMA A\u00c7\u00c3O REPARADORA POR PARTE DA HUMANIDADE, QUE COMETEU B\u00c1RBAROS CRIMES CONTRA UM POVO QUE NUNCA TEVE UMA P\u00c1TRIA.<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos XVI a XIX, e ainda no in\u00edcio do XX, por mais de 400 anos, os ciganos (v\u00e1rios nomes por onde passaram) foram v\u00edtimas de horr\u00edveis crueldades, principalmente nos pa\u00edses europeus do ocidente e do oriente (Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro e Imp\u00e9rio Otomano), como torturas, marcados com ferro em brasa, esquartejamento, enforcamento, separa\u00e7\u00e3o de suas fam\u00edlias, trabalhos for\u00e7ados nas gal\u00e9s, orelhas cortadas, escravid\u00e3o e outros tipos de barbaridades.<\/p>\n<p>O holocausto dos judeus \u00e9 bastante conhecido no mundo, mas pouca coisa se sabe sobre os crimes desumanos cometidos durante s\u00e9culos por reis, rainhas, t\u00edteres, pr\u00edncipes, tiranos sanguin\u00e1rios, condes, duques, policiais, pela Igreja Cat\u00f3lica e pela nobreza em geral. Fran\u00e7a, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Hungria, Rom\u00eania, Esc\u00f3cia e Holanda foram os pa\u00edses que criaram leis e decretos mais severos de ca\u00e7a aos ciganos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0915.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5185\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0915.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0915.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0915-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>SEM ORGANIZA\u00c7\u00c3O POL\u00cdTICA<\/p>\n<p>Quase tudo foi apagado da mem\u00f3ria desses povos, porque os ciganos, pela pr\u00f3pria natureza de suas origens n\u00f4mades, sempre foram desprovidos de uma organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, para denunciar as atrocidades sofridas e cobrar sua d\u00edvida, como fez a comunidade judaica que puniu em tribunais os culpados assassinos. Como os negros africanos, viveram mais de 300 anos de escravid\u00e3o (Val\u00e1quia e Mold\u00e1via &#8211; Rom\u00eania), sendo acorrentados, a\u00e7oitados, mortos e vendidos em leil\u00e3o pela nobreza, pela Igreja Cat\u00f3lica (mosteiros) e donos de propriedades.<\/p>\n<p>Os tempos mais macabros foram entre os s\u00e9culos XVII ao XIX, e tudo isso \u00e9 contado pelo ingl\u00eas Angus Fraser, acad\u00eamico e uma autoridade no assunto em seu livro \u201cHist\u00f3ria do Povo Cigano\u201d, com base em profundas pesquisas de escritores, achados arqueol\u00f3gicos, arquivos documentais de v\u00e1rios pa\u00edses, narra\u00e7\u00f5es de viajantes, testemunhos e mat\u00e9rias em jornais da \u00e9poca.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0921.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5186\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0921.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0921.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0921-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Trata-se de uma obra investigativa sobre as origens dos ciganos na \u00cdndia (outras teorias falam de eg\u00edpcios e gregos), para depois tra\u00e7ar um quadro das migra\u00e7\u00f5es, desde o come\u00e7o da Idade M\u00e9dia at\u00e9 hoje. De prov\u00edncia em prov\u00edncia, circularam pelo Oriente M\u00e9dio, Arm\u00eania, pa\u00edses balc\u00e3s (S\u00e9rvia, Cro\u00e1cia), pela Europa e pelo resto do mundo. Pela sua semelhan\u00e7a lingu\u00edstica (fon\u00e9tica, morfologia e sintaxe) e antropologia f\u00edsica, tudo indica que a l\u00edngua Romani veio do Hindi (Hindu) depois do s\u00e2nscrito.<\/p>\n<p>Chamados de eg\u00edpcios, sarracenos e t\u00e1rtaros, os ciganos sempre foram conhecidos pelas suas m\u00fasicas e dan\u00e7as, pelo talento para trabalhar metais, adestrar ursos, ler a sina e negociar objetos e animais, sobretudo cavalos. Diante de todas as adversidades dos preconceitos das popula\u00e7\u00f5es, vistos como trapaceiros, vagabundos, vadios, ladr\u00f5es, pregui\u00e7osos e at\u00e9 raptadores de crian\u00e7as, os ciganos sempre foram criativos para manter sua sobreviv\u00eancia, atuando no mercado como ex\u00edmios empreendedores.<\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, conseguiram preservar sua heran\u00e7a cultural, ultrapassando fronteiras. Desde seu aparecimento na Europa, h\u00e1 mais de nove s\u00e9culos, sempre recusaram adotar uma vida sedent\u00e1ria e convencional, mesmo diante de todas as press\u00f5es vividas. Continuam sendo incompreendidos e ultrajados, mas mantendo suas identidades, conforme concluiu o autor do livro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0923.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5187\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0923.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0923.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0923-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>P\u00c9RSIA, IMP\u00c9RIO BIZANTINO E OS BALC\u00c3S<\/p>\n<p>Na lenda, o historiador \u00e1rabe Hanza de Ispahan (950), relata que o monarca persa (Ir\u00e3) Bahram Gur, cujo reinado terminou em 438, depois de decidir que seus s\u00faditos deveriam trabalhar metade do dia e passar o resto do tempo a comer, beber e farrear em companhia de um som musical, um dia encontrou um grupo que trazia vinho, mas n\u00e3o tinha m\u00fasicos.<\/p>\n<p>Ao censurar por n\u00e3o estar com uma banda, um dos membros explicou que havia tentado contratar os servi\u00e7os de um m\u00fasico, mas n\u00e3o conseguiu encontrar ningu\u00e9m. Ent\u00e3o, o monarca conversou com o rei da \u00cdndia e solicitou para lhe mandar 12 mil m\u00fasicos, que foram distribu\u00eddos por v\u00e1rias partes da P\u00e9rsia. Os seus descendentes, conhecidos como Zott, ainda por l\u00e1 viveram.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo mais tarde, essa vers\u00e3o \u00e9 encontrada no poema \u00e9pico nacional que narra a hist\u00f3ria do pa\u00eds em 60 mil versos (Livro dos Reis), de Firdawsi, que se refere a um pedido feito por Bahram Gur ao rei Xangul, da \u00cdndia, de m\u00fasicos e artistas, \u201cporque aqui os indigentes bebem vinho sem m\u00fasica, e a classe abastada n\u00e3o pode aprovar esse estilo\u201d. O rei, ent\u00e3o, enviou dez mil homens e mulheres que tocavam o ala\u00fade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0924.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5188\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0924.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0924.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_0924-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No poema, este povo \u00e9 conhecido tamb\u00e9m como os Luri, e o persa deu a eles trigo, gado e burros, e despachou-os para as prov\u00edncias para que pudessem trabalhar como lavradores e tamb\u00e9m fazer m\u00fasica para os pobres. Acontece que os Luri, em um ano, consumiram tudo no esbanjamento, na farra.<\/p>\n<p>O monarca ficou irado e ordenou que eles passassem a viver de suas can\u00e7\u00f5es e de suas chiadeiras de seda por conta pr\u00f3pria. No entanto, todo ano deviam viajar pelo pa\u00eds e cantar para o povo da alta e da baixa condi\u00e7\u00e3o. \u201cOs Luri, a quem este mandado agradou, andam agora pelo mundo procurando servi\u00e7os, na companhia de c\u00e3es e lobos, e roubando pelos caminhos, de dia e de noite\u201d.<\/p>\n<p>Pela lenda, tudo indica que se tratava de um povo cigano que come\u00e7ou seu \u00eaxodo no tempo de Bahram Gur, mas o grupo deve ter se estabelecido na P\u00e9rsia muito antes do s\u00e9culo X. O interessante \u00e9 que os nomes Zott e Luri ainda s\u00e3o persas para ciganos na S\u00edria, na Palestina e no Egito, para onde eles adentraram com seus bandos e tendas.<\/p>\n<p>N\u00d4MADES PEREGRINOS E SALVO-CONDUTOS<\/p>\n<p>Esse evento da primeira entrada dos ciganos em territ\u00f3rios crist\u00e3os foi registrado pelo cronista \u00e1rabe Tabari, que conta que um grande n\u00famero foi feito prisioneiro, em 855, quando os bizantinos atacaram a S\u00edria e depois expulsaram esse pessoal, que passou a viver em outras na\u00e7\u00f5es como n\u00f4mades.<\/p>\n<p>Muitos deles passaram a vagar, de acordo com o autor do livro, pela Arm\u00eania, Gr\u00e9cia (sua l\u00edngua Romani sofreu muita influ\u00eancia do grego) e pelos pa\u00edses Balc\u00e3s. Desses lugares partiram para a Europa oriental e depois ocidental, por volta do s\u00e9culo XV (in\u00edcio dos anos 1400).<\/p>\n<p>Para serem aceitos se diziam peregrinos crist\u00e3os vindos do Egito onde foram \u201ccondenados\u201d a viver de lugar em lugar porque um bando de sua gente se recusou a receber a Fam\u00edlia Sagrada (Maria, Jos\u00e9 e o Menino Jesus) em suas tendas, quando, perseguida por Herodes, fugia pelo deserto.<\/p>\n<p>Em outras passagens das escrituras, contam que foi um padre (Miguel) que espalhou essa lenda, e que os ciganos foram amaldi\u00e7oados pela Igreja a viverem assim como errantes, para se redimirem da recusa de n\u00e3o terem acolhido o Infante.<\/p>\n<p>Certo, ou n\u00e3o, como peregrinos (muitos diziam seguir para Roma se encontrar com o Papa) eram melhor aceitos onde chegavam e at\u00e9 recebiam aux\u00edlio em dinheiro e alimentos. Se autodenominavam de Eg\u00edpcios, e assim passaram a ser chamados nos lugares por onde andavam.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XV, XVI e XVII, os ciganos conseguiram salvo-condutos de reis, rainhas, imperadores, condes, duques, fidalgos e at\u00e9 do Papa (muitos eram falsificados), para atravessar a Europa, e muitos chegaram a ser condes e duques como chefes de seus bandos. Sentaram nas mesmas mesas dos nobres e fizeram apresenta\u00e7\u00f5es nas cortes reais, recebendo em troca apoios financeiros e somas em mantimentos.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, esses salvo-condutos foram sendo desacreditados de principado em principado, dando lugar \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es e expuls\u00f5es em territ\u00f3rios por onde transitavam. Para se livrarem das pris\u00f5es, muitas delas com torturas e mortes, os ciganos se escondiam em lugares mais in\u00f3spitos, como florestas fechadas, cavernas e entre fronteiras onde pudessem se deslocar de um pa\u00eds para outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PELOS SOFRIMENTOS A QUE FORAM SUBMETIDOS DURANTE S\u00c9CULOS, PRATICAMENTE DIZIMADOS PELOS NAZISTAS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1938 A 1945), TODA NA\u00c7\u00c3O CIGANA MERECE UMA A\u00c7\u00c3O REPARADORA POR PARTE DA HUMANIDADE, QUE COMETEU B\u00c1RBAROS CRIMES CONTRA UM POVO QUE NUNCA TEVE UMA P\u00c1TRIA. 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