{"id":5098,"date":"2020-10-23T22:39:24","date_gmt":"2020-10-24T01:39:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5098"},"modified":"2020-10-23T22:39:45","modified_gmt":"2020-10-24T01:39:45","slug":"nas-asas-do-poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/10\/23\/nas-asas-do-poeta\/","title":{"rendered":"NAS ASAS DO POETA"},"content":{"rendered":"<p>ESTE \u00c9 UM TEXTO EM HOMENAGEM AO POETA QUE TEVE SEU DIA NESTA SEMANA, MAS, INFELIZMENTE, NEM FOI LEMBRADO. CORTARAM AS ASAS DA CULTURA PARA ELA VOAR BEM BAIXO, COMO A GALINHA E A NAMBU. O COMNET\u00c1RIO FAZ PARTE DO LIVRO &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, DE AUTORIA DO JORNALISTA E ESCRITOR JEREMIAS MAC\u00c1RIO, E PODE SER ENCONTRADO NA LIVRARIA NOBEL, NA BANCA CENTRAL OU DIRETAMENTE NA M\u00c3O DO AUTOR.<\/p>\n<p>O poeta d\u00e1 sentido \u00e0s coisas que somente poucos t\u00eam capacidade de ver. Tira leite da pedra e transforma um gr\u00e3o de areia numa bela praia de mulheres nuas. N\u00e3o se contenta com o limite da linha. Quer o universo. Para ele, n\u00e3o existe finito. Saboreia toda ess\u00eancia do fruto. Viola e violenta, com suavidade e delicadeza. Penetra nos por\u00f5es do misterioso e visita todos seus c\u00f4modos secretos.<\/p>\n<p>O poeta \u00e9 um intruso do real e do abstrato. \u00c9 domador do tempo e metaf\u00edsico do concreto. Transforma o subjetivo em objetivo. \u00c9 o mestre da alquimia e da magia. Sua musa \u00e9 bela, vestida de camponesa, ou como nobreza. Sabe como deixar uma alma nua. \u00c9 o arquiteto da r\u00e9gua e do compasso das palavras. Sua miss\u00e3o \u00e9 viajar nas asas da alegoria e da tristeza.\u00a0 Viaja nas met\u00e1foras e revela o invis\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 o rep\u00f3rter das par\u00e1bolas. Sabe unir conflitos e harmonia num s\u00f3 cesto. O poeta n\u00e3o deve falar para dentro, nem ser um estranho. Sua poesia tem que ser estridente e, ao mesmo tempo, compreendida pela mente. Tem que atrair, ser social, mesmo l\u00edrica, e tocar no esp\u00edrito do enigm\u00e1tico. O bom poeta \u00e9 afinado como o \u201ctrinca-ferro\u201d que empresta sua melodia para a viola temperar.<\/p>\n<p>POR ONDE VIVE O POETA?<\/p>\n<p>Como e onde vive o poeta de hoje? Falam por a\u00ed que respira o g\u00e1s carb\u00f4nico e \u00e9 internauta. N\u00e3o mete mais os p\u00e9s no orvalho do sereno da manh\u00e3, nem vai ao curral tomar leite no peito das vacas. N\u00e3o \u00e9 mais tel\u00farico.\u00a0 O poeta de hoje se empanturra de enlatados. Come fios de a\u00e7o. N\u00e3o fala mais do boi puxando o arado, nem da m\u00e3o que colhe e lavra. \u00c9 do tempo da m\u00e1quina que revira o ch\u00e3o com a navalha e engole de uma vez a safra. N\u00e3o tem mais o ritmo nos p\u00e9s da cantoria, para debulhar o feij\u00e3o seco at\u00e9 o clarear do dia. N\u00e3o tem tinteiro, nem desliza mais sua pena no papel. Conduz as letras no visor feiticeiro da tecnologia.<\/p>\n<p>Nas cal\u00e7adas indiferentes, est\u00e1 distante do luar rasgando a serra por entre as matas, que leva o caipira pelas veredas de prata.\u00a0 Ao amanhecer, n\u00e3o tem mais em sua mesa a canjica, a ab\u00f3bora e o cuscuz de milho verde com leite do pasto. Milho do plantio de S\u00e3o Jos\u00e9 posto em toalha feita pelas rendeiras. Poeta de hoje come empacotado e vive no tr\u00e2nsito engarrafado.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o se lembrar das prosas e dos causos de final de tarde dos homens enfadados e suados do campo!\u00a0 Os meninos brincando de esconde-esconde, bambol\u00ea, pula-corda, chicotinho-queimado, baleado, cabra-cega, bola-de-gude, pi\u00e3o, boca-de-forno, atirei o pau no gato e cirandas no terreiro da casa e nas ruas das cidades pacatas!<\/p>\n<p>A BORBOLETA DO POETA<\/p>\n<p>\u00c9 minha borboleta! S\u00f3 o poeta tem a magia de imortalizar o passado; dar vida e viv\u00ea-la, intensamente. Ele pode voltar ao t\u00fanel do tempo e nele se fartar. O ser est\u00e1 sendo esmagado pela hegemonia do pensamento. O conceito subjetivo tem sua marca gen\u00e9tica. O culto ao corpo, imagem de adora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 hipnotizando e debilitando o esp\u00edrito. S\u00e3o v\u00e1rios os deuses nossos de cada dia. No templo da falsa felicidade do consumismo, as cortinas da m\u00eddia se abrem para a livre idolatria no altar das oferendas. Ajoelhamos para venerar os bezerros de ouro. Num ato mec\u00e2nico, o Natal virou comilan\u00e7a e troca de presentes.<\/p>\n<p>A criatura tenta assumir o lugar do criador e acha que pode criar a si mesmo. Predominam as doses de serotonina e o humor da dopamina. O \u00e1cido das drogas dopa o neurotransmissor. A endorfina est\u00e1 em baixa. Quando o cara faz uma \u201cP\u00f3s\u201d, ou um \u201cPHD\u201d acha-se dono da verdade e se enrosca em teorias e c\u00f3digos. Fala dif\u00edcil para um c\u00edrculo fechado. Sempre \u00e9 glorificado. \u00c9 s\u00f3 ter fama para sua frase ser registrada e propagada. O famoso nunca diz bobagens. Se n\u00e3o tiver sentido, se arranja, e ai de quem questionar. Seus versos s\u00e3o sempre \u201cprofundos\u201d. O p\u00f3 vira ouro. A piada da pra\u00e7a tem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Oh borboleta! Quando era menino, parava para admirar seu bailado nos campos floridos. Pousava e levantava v\u00f4o ao sutil movimento de algu\u00e9m por perto. Dif\u00edcil t\u00ea-la nas m\u00e3os. Leve como uma p\u00e9tala de rosa, vai e volta, caindo e ondulando no sopro criador da corrente de ar.\u00a0 Encantadora e bela como o colibri. Eu corria entre as cores das asas da inocente imagina\u00e7\u00e3o. Espantava e n\u00e3o conseguia entender seu amor sincero para com a flor. O perfume era tudo para fecundar a vida.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0 \u00c9 minha borboleta, descobriram que o hemisf\u00e9rio esquerdo do c\u00e9rebro cria a l\u00f3gica, e o direito as emo\u00e7\u00f5es. Parece que perdemos o esquerdo. Para se aliviar dos tormentos, uns usam a m\u00fasica, outros massagens e banhos, e ainda o yoga, a medita\u00e7\u00e3o e a religi\u00e3o. Correm atr\u00e1s do sentido da vida, tentando fugir da agonia da morte.<\/p>\n<p>O homem brinca de rob\u00f4 em Marte, mas enquanto a tecnologia e a biotecnologia avan\u00e7am, os pobres ficam mais distantes do seu alcance. Est\u00e3o dedetizando nossa gente e modificando a semente. Pagamos o m\u00e1ximo e recebemos o m\u00ednimo. Criaram a paran\u00f3ia do preconceito para esconder a inoper\u00e2ncia no social. Negaram o ensino, e deixaram milh\u00f5es despreparados.\u00a0 Tratam os mais vulner\u00e1veis como coitadinhos. Neles injetam ilus\u00e3o e jogam todos na universidade, como se fossem volumes imprest\u00e1veis. N\u00e3o importa o m\u00e9rito. Devolvem depois a incompet\u00eancia para o mercado. Isso ainda vai dar em diarreia e caganeira.<\/p>\n<p>\u201cCANT\u00c1 MI\u00d3\u201d<\/p>\n<p>Oh meu p\u00e1ssaro preto! Como diz a can\u00e7\u00e3o: \u201cfuraram teus \u201c\u00f3io\u201d para puder cant\u00e1 mi\u00f3\u201d. Sua sinfonia foi sentenciada \u00e0 pris\u00e3o pela mente assassina. O p\u00e1ssaro canta na gaiola o lamento da natureza do homem perverso, como cantava o escravo lembrando da sua m\u00e3e \u00c1frica. N\u00e3o escuto mais sua cantoria na campina, nem seu assovio e sua voz divina. Enquanto canta a sua dor, o mundo se cala diante da fome e das atrocidades imperialistas. Os palestinos s\u00e3o encurralados por Israel como ca\u00e7a. O mundo fica mudo e se separa em ra\u00e7a. Terra malvada, menino malcriado.<\/p>\n<p>\u00c9 meu p\u00e1ssaro preto! Seu canto \u00e9 de um carpido triste cheio de saudades. \u00c9 como a ang\u00fastia interna que vara o peito de um preso na solit\u00e1ria. A tempestade n\u00e3o passa nessa noite de trevas! Mas passam o rei, o imperador e a rainha. Passa a multid\u00e3o apressada. Passa o andarilho enigm\u00e1tico. Passam os carros nos sinais. Passa a boiada para os currais e matadouros. Passa o mendigo e ningu\u00e9m sabe que passa. Passa o tempo e muita gente correndo atr\u00e1s. L\u00e1 vai a elite montada no privil\u00e9gio da burguesia, que n\u00e3o d\u00e1 passagem. Passam desfilando os corruptos engravatados. Passa o poder, sem autoridade.\u00a0 Passa a crian\u00e7a que n\u00e3o sabe para onde vai. Passa veloz a estupidez dos tiros nos vitrais. Passa o retirante batido em retirada. Passos passam an\u00f4nimos nas marcas dos viadutos e das cal\u00e7adas. A bela morena entra em cena e passa. Passa a morte na sua viagem de ida e volta.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 tempo para ouvir a melodia do sabi\u00e1, que diz que a vida \u00e9 para quem sabe apreciar. Seu canto estalado lembra a saudade da partida. Aqui estou a chorar. Oh majestade sabi\u00e1! Leva logo minha alma para o outro lado de l\u00e1.\u00a0 N\u00e3o consigo cicatrizar a minha ferida. Ensina-me a espantar as m\u00e1goas e arrancar esta dor que n\u00e3o para de latejar. Faz de mim a lanterna para clarear o caminho de pedra nesse t\u00fanel da vida. Os conflitos continuam a triturar o esp\u00edrito, e a carne est\u00e1 sempre dando as ordens. Preciso limpar o corpo e n\u00e3o deixar que a raz\u00e3o da mente se v\u00e1.<\/p>\n<p>Oh misteriosa coruja!\u00a0 Muitos a chamam de feia e agourenta como o corvo, o mais inteligente dos p\u00e1ssaros. Como a cau\u00e3, que prenuncia trag\u00e9dias e morte, dizem que nasceu das trevas, e que \u00e9 uma bruxa queimada pela inquisi\u00e7\u00e3o. Que s\u00f3 voc\u00ea gaba o toco! Sempre calada e meditativa, parece que vive em sono profundo e eterno. Entendo que vigia o tempo e os pensamentos. Na vis\u00e3o sens\u00edvel e oculta de um raio, \u00e9 ex\u00edmia ca\u00e7adora da noite. Na verdade, somente os mais sensitivos penetram em sua beleza.<\/p>\n<p>Para o humano, voc\u00ea tem a \u00e1urea do medo porque prev\u00ea as cat\u00e1strofes e as destrui\u00e7\u00f5es das almas. Voa suave e pousa nos lugares mais sombrios e solit\u00e1rios. Princesa dos castelos, da Pensilv\u00e2nia e das long\u00ednquas terras da Rom\u00eania. Dizem que j\u00e1 dormiu com os vampiros nas tumbas dos cemit\u00e9rios! Pode ser, mas a tudo escuta e sofre com o seu chiado de piedade, como se estivesse a alertar o homem do perigo que se aproxima.<\/p>\n<p>Conta-me como ser\u00e1 o final dos tempos. Leva-me para conhecer o infinito. Arranca-me daqui para o al\u00e9m do universo e revela a minha origem. Responde donde veio, e para onde vai. Ensina-me a viver. Quem sou, e para onde vou. Mostra-me onde est\u00e1 a verdade, m\u00edstica coruja, amante do sil\u00eancio! S\u00e3o tantos os caminhos: limpos, estreitos, de cravos e espinhos. N\u00e3o somos nada s\u00e1bios como julgamos ser. O medo de morrer nas engrenagens da viol\u00eancia do progresso nos acompanha. \u00c9 a parte que nos cabe nesta heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Rasgando o c\u00e9u da escurid\u00e3o, a coruja parece nos pedir para salvar o peixe-boi, a tartaruga-marinha, a baleia, a on\u00e7a-pintada, o lobo-guar\u00e1 (200 reais) e o mico-le\u00e3o. Estamos virando comida dos monstros que criamos. Estamos criando sociedades congeladas.\u00a0 \u00c9 minha coruja, se extravaso, e se meu fio for afiado, corro o risco de ser fatiado. Mas, n\u00e3o desisto de contrariar. Prefiro n\u00e3o concordar a ter que respirar desse mesmo ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESTE \u00c9 UM TEXTO EM HOMENAGEM AO POETA QUE TEVE SEU DIA NESTA SEMANA, MAS, INFELIZMENTE, NEM FOI LEMBRADO. CORTARAM AS ASAS DA CULTURA PARA ELA VOAR BEM BAIXO, COMO A GALINHA E A NAMBU. 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