{"id":5075,"date":"2020-10-16T22:27:37","date_gmt":"2020-10-17T01:27:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5075"},"modified":"2020-10-16T22:27:50","modified_gmt":"2020-10-17T01:27:50","slug":"a-professora-nina-que-eu-tive","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/10\/16\/a-professora-nina-que-eu-tive\/","title":{"rendered":"A PROFESSORA NINA QUE EU TIVE"},"content":{"rendered":"<p>(EM HOMENAGEM A TODOS OS MESTRES)<\/p>\n<p>Es<u>te texto foi publicado no livro \u201cAndan\u00e7as\u201d, de autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Mac\u00e1rio. A obra pode ser encontrada na livraria Nobel, na Banca Central, ou diretamente atrav\u00e9s do autor pelo e-mail <\/u><a href=\"mailto:macariojeremias@yahoo.com.br\">macariojeremias@yahoo.com.br<\/a><u> e pelo tel 77 98818-2902.\u00a0 <\/u><\/p>\n<p>O homem sem instru\u00e7\u00e3o \u00e9 um homem iludido. Em minha vida nunca imaginei que uma profiss\u00e3o t\u00e3o linda e nobre fosse se transformar em medo, ang\u00fastia e pesadelo. O orvalho da manh\u00e3 est\u00e1 cada vez mais escasso, e a relva e a grama da minha casa est\u00e3o secas. O prazer de ensinar e levar conhecimento aos rebentos virou uma obriga\u00e7\u00e3o. Sem o riso de antes, muitos est\u00e3o partindo para outras atividades enfadonhas e chatas, seguindo a lei da sobreviv\u00eancia a qualquer custo.<\/p>\n<p>Aprendi as primeiras letras e a entoar a tabuada para fazer umas continhas de somar, diminuir e multiplicar com a real professora leiga dona Nina, n\u00e3o aquela personagem t\u00edtulo de livros, de pe\u00e7as teatrais, cr\u00f4nicas e contos como s\u00edmbolo da nossa imagina\u00e7\u00e3o para identificar a profiss\u00e3o. Como tudo que acontece pela primeira vez na vida, nunca me esqueci daquela fr\u00e1gil, terna e carente mulher. Mas, o que mais me marcou foi a sua extrema pobreza e como arranjava for\u00e7as para ensinar.<\/p>\n<p>Era meado dos anos 50 do s\u00e9culo passado quando tive minha primeira professora Nina. A inf\u00e2ncia na ro\u00e7a da fazenda Queimadinha, isolada de tudo, n\u00e3o me dava nenhuma no\u00e7\u00e3o do porqu\u00ea tinha que caminhar com minha irm\u00e3 dois, tr\u00eas quil\u00f4metros dentro de um matagal todos os dias para encontrar com a professora, para ler soletrados os textos de uns livros e ouvir o clamor, choros e brigas de uma fam\u00edlia de mais de dez pessoas por causa de um prato de comida nas horas do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>A professora Nina morava como agregada de um vasto latifundi\u00e1rio que mais lembrava os condes e duques franceses da pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o. A fazenda de quil\u00f4metros e mais quil\u00f4metros de capim e gado se situava num territ\u00f3rio pertencente ao munic\u00edpio de Mundo-Novo e depois Piritiba e Tapiramut\u00e1. Como meeira, ela dividia com o patr\u00e3o usur\u00e1rio e opressor os poucos p\u00e9s de caf\u00e9s que tinha no quintal da velha casa. O quadro n\u00e3o mudou. O capitalismo se alimenta de carne humana.<\/p>\n<p>Todos definhavam de fome. Um rapaz an\u00eamico vivia chorando pelos cantos da casa e o velho pai era um alc\u00f3olatra \u00e0 beira da morte que pegava v\u00edsceras de bois em matadouros da vizinhan\u00e7a para cozinh\u00e1-las numa aguada panela de feij\u00e3o. Meu pai, tamb\u00e9m pobre, pagava seus pr\u00e9stimos de professora com um pouco de dinheiro e farinha da terra donde colhia a mandioca do ro\u00e7ado. Eram tempos de muita dureza e o homem trabalhava como escravo, sem direitos a nada. N\u00e3o mudou muito. A fome batia quase todos os dias na nossa porta e nos olhava com aquela careta de monstro.<\/p>\n<p>O velho e o rapaz morreram e, como j\u00e1 viviam na mis\u00e9ria, nem foram notados. Eram lixos deteriorados ocupando o espa\u00e7o. Como observou Shakespeare, \u201cQuando morre um mendigo nenhum cometa \u00e9 visto, mas os c\u00e9us cospem fogo quando morre um pr\u00edncipe\u201d.<\/p>\n<p>A professora Nina e o restante dos seus filhos pegaram um pau-de-arara e tomaram o rumo de S\u00e3o Paulo. Meu pai vendeu a terrinha e fomos para outro local onde pelo menos tinha um tanque d\u00b4\u00e1gua. Passei anos longe das minhas primeiras letras e s\u00f3 depois fiz, com muito sacrif\u00edcio, o prim\u00e1rio em Piritiba. Mais algum tempo parado e somente em 1962 ingressei no Semin\u00e1rio Nossa Senhora do Bom Conselho, em Amargosa. Bons tempos de estudos e aprendizagem, com professores de qualidade. Ensino puxado!<\/p>\n<p>Passaram-se quase 65 anos e a educa\u00e7\u00e3o teve suas reviravoltas de altas e baixas, mais que baixas, para cair numa vala lament\u00e1vel de decad\u00eancia e menosprezo, numa cruzada de greves, paraliza\u00e7\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es, protestos, desespero, revolta, lamentos e viol\u00eancia nas salas de aulas onde existem mais disc\u00f3rdias que harmonias.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final dos anos 70 e in\u00edcio dos 80, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica era uma refer\u00eancia de qualidade e conte\u00fado. O professor era o verdadeiro mestre respeitado na sala e os alunos o reverenciavam como um pai, somente abaixo do Eterno. De l\u00e1 pra c\u00e1 foi entrando em degrada\u00e7\u00e3o de promiscuidade total, diferente da miss\u00e3o primordial de transmitir sabedoria e conhecimento.<\/p>\n<p>Aquela imagem da professora Nina e sua fam\u00edlia continua viva em mim atrav\u00e9s de cenas reportadas nos dias atuais de professores comendo bolachas num reservado escondido de uma sala para matar a fome e outros vendendo seus livros de literatura nas ruas para sobreviver, sem contar as agress\u00f5es sofridas no exerc\u00edcio de suas atividades.<\/p>\n<p>Uma professora chora quando lembra que um dia um aluno colocou um rev\u00f3lver em sua cabe\u00e7a e lhe intimou que desse uma nota m\u00e1xima em sua prova para passar de ano. Perdeu, professora! Para n\u00e3o morrer, teve de ceder, mas, traumatizada, nunca mais retornou \u00e0 sala de aula. Para sobreviver foi ser doceira. Igual a ela, tantos outros se afastaram do minist\u00e9rio de ensinar. De amigo e conselheiro, o professor \u00e9 visto hoje pelos seus estudantes como um inimigo que merece ser castigado porque escolheu ensinar e formar crian\u00e7as e adolescentes rebeldes de um lar, cujos pais se ausentaram de suas obriga\u00e7\u00f5es, valorizando mais o capital que o humano.<\/p>\n<p>Pelo n\u00edvel a que chegamos, de baixos \u00edndices de aproveitamento escolar que envergonham a na\u00e7\u00e3o, com imagem t\u00e3o negativa l\u00e1 fora, a p\u00e1tria como m\u00e3e biol\u00f3gica ou adotiva, carece parar com todas suas obras, pontes, estradas, viadutos e projetos de portos e aeroportos, para s\u00f3 cuidar da educa\u00e7\u00e3o. Esta filha desamparada de m\u00e3e desnaturada caiu em desgra\u00e7a na prostitui\u00e7\u00e3o das ruas e das drogas.<\/p>\n<p>A figura de um professor qualificado e motivado \u00e9 o fator mais importante para o sucesso do aluno na escola e na vida, conforme estudos realizados em v\u00e1rios pa\u00edses. No Brasil, quem tira maiores notas nas escolas prefere fazer outros cursos universit\u00e1rios ao inv\u00e9s de pedagogia, isto porque a profiss\u00e3o oferece pouca atratividade, devido \u00e0 baixa remunera\u00e7\u00e3o e m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho. O pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o constatou que o curso de pedagogia tem sido o destino dos alunos com as piores notas nos exames do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Chegamos ao ponto crucial de que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais apenas uma quest\u00e3o de prioridade, mas de salva\u00e7\u00e3o de vidas. Milh\u00f5es s\u00e3o vitimados antes do tempo no Brasil por falta de educa\u00e7\u00e3o. A professora Nina foi a primeira a me dar r\u00e9gua e compasso para escrever este texto. Outros mestres vieram depois fazendo o demorado processo de lapida\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(EM HOMENAGEM A TODOS OS MESTRES) Este texto foi publicado no livro \u201cAndan\u00e7as\u201d, de autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Mac\u00e1rio. A obra pode ser encontrada na livraria Nobel, na Banca Central, ou diretamente atrav\u00e9s do autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902.\u00a0 O homem sem instru\u00e7\u00e3o \u00e9 um homem iludido. 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