{"id":4993,"date":"2020-09-17T23:17:51","date_gmt":"2020-09-18T02:17:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4993"},"modified":"2020-09-17T23:18:30","modified_gmt":"2020-09-18T02:18:30","slug":"o-fim-e-o-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/09\/17\/o-fim-e-o-novo\/","title":{"rendered":"O FIM E O NOVO"},"content":{"rendered":"<p>Poema do jornalista Jeremias Mac\u00e1rio. Este e outros podem ser encontrados em seu novo livro &#8220;Andan\u00e7as&#8221;<\/p>\n<p>De um tempo fizeram fatias,<\/p>\n<p>e para uma noite criaram fogos;<\/p>\n<p>inventaram a dan\u00e7a dos c\u00f3digos,<\/p>\n<p>na l\u00edngua divinha da quirologia,<\/p>\n<p>das cartas viradas e dos tar\u00f4s,<\/p>\n<p>para ir ao futuro do ar e da jia,<\/p>\n<p>de sonhos melados de fantasias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o final das contas de um ano&#8230;<\/p>\n<p>um novo a contar que se anuncia;<\/p>\n<p>\u00e9 a despedida da via gregoriana,<\/p>\n<p>religiosa, dionis\u00edaca e profana,<\/p>\n<p>de um reino esp\u00e1rtaco e romano,<\/p>\n<p>decifrado pela suma quiromancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 mais o fim de um ano&#8230;<\/p>\n<p>da hora pontual da terra ranger;<\/p>\n<p>dos mortos-vivos ressuscitarem;<\/p>\n<p>explodirem as luzes do show,<\/p>\n<p>quando o seu rel\u00f3gio zerar,<\/p>\n<p>para o pacto entre amor e dor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 mais o fim de um ano&#8230;<\/p>\n<p>e um novo de Jeov\u00e1, ou de Al\u00e1;<\/p>\n<p>do deus da orgia sodomitana,<\/p>\n<p>do ritual celta\u00a0 da bela cigana,<\/p>\n<p>e do esp\u00edrito crist\u00e3o de se rezar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cada um pode fazer o seu fim,<\/p>\n<p>para come\u00e7ar um outro novo,<\/p>\n<p>com a cara pintada de humano,<\/p>\n<p>nas \u00e1guas desse imenso oceano,<\/p>\n<p>onde vai se banhar nosso povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O novo pode ser o in\u00edcio do fim,<\/p>\n<p>para quem n\u00e3o segue seus planos,<\/p>\n<p>de se purificar dos apegos carnais;<\/p>\n<p>dos caprichos capitais mundanos,<\/p>\n<p>e n\u00e3o escolhe os simples portais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na sua ta\u00e7a fina da embriaguez,<\/p>\n<p>borbulha o glamour da nudez,<\/p>\n<p>girando o luxo em c\u00e2mara lenta,<\/p>\n<p>no \u00e1cido disfar\u00e7ado de \u00e1gua benta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os foguetes dos canibais globais,<\/p>\n<p>s\u00e3o explodidos em nossos quintais.<\/p>\n<p>Os devotos fazem rituais viscerais,<\/p>\n<p>de oferendas para seus orix\u00e1s locais,<\/p>\n<p>banhando todo de branco os litorais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os morros estendem os seus varais,<\/p>\n<p>como se fossem concurso de festivais,<\/p>\n<p>de pobres vistos como os anormais;<\/p>\n<p>e a viol\u00eancia \u00e9 manchete nos jornais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No final se reparte o PIB desigual,<\/p>\n<p>com a cara de um novo sujo imoral,<\/p>\n<p>na disputa do Ocidente e do Oriente,<\/p>\n<p>entre o Israel poderoso e o mul\u00e7umano,<\/p>\n<p>vivendo todos na mira do Americano,<\/p>\n<p>e que se dane a fome fatal do africano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o pipocar dos velhos espumantes,<\/p>\n<p>na Paris milenar de seus viajantes,<\/p>\n<p>nos mares lunares dos transatl\u00e2nticos,<\/p>\n<p>na companhia dos tarados amantes,<\/p>\n<p>ou na Londres aristocrata imperial,<\/p>\n<p>e na Atenas da sabedoria imortal,<\/p>\n<p>derramando toda riqueza de um ano,<\/p>\n<p>no consumo varado da compuls\u00e3o,<\/p>\n<p>enquanto nobres se fartam de brioche,<\/p>\n<p>e os miser\u00e1veis ficam sem o seu p\u00e3o.<\/p>\n<p>No mosteiro do fim de ano,<\/p>\n<p>ora o monge do alto monte tibetano,<\/p>\n<p>pelo seu opressor filho das dinastias,<\/p>\n<p>e na ilha das pris\u00f5es de Guat\u00e2namo,<\/p>\n<p>vivem acorrentadas de \u00f3dio as etnias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nem no fim, nem no novo,<\/p>\n<p>se ouve o roncar da barriga vazia,<\/p>\n<p>nem o apelo do santo peregrino,<\/p>\n<p>para dividir parte dessa fortuna,<\/p>\n<p>para matar a fome do nordestino,<\/p>\n<p>e n\u00e3o derrubar a \u00fanica bara\u00fana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A roleta da vida gira outra vez,<\/p>\n<p>e passa o final, e passa o novo,<\/p>\n<p>na rota mitol\u00f3gica de cada povo,<\/p>\n<p>como dos her\u00f3is da mesopot\u00e2mia,<\/p>\n<p>que t\u00eam que derrotar os monstros,<\/p>\n<p>para livrar-se da saga cruel do caos:<\/p>\n<p>matar o rei num sacrif\u00edcio penoso,<\/p>\n<p>para lavar todo pecado criminoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No novo da P\u00e9rsia e da Babil\u00f4nia,<\/p>\n<p>os escravos tomavam o assento<\/p>\n<p>dos seus not\u00e1veis mestres das lidas,<\/p>\n<p>para narrar e cantar seu lamento,<\/p>\n<p>lambendo suas pr\u00f3prias feridas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia celebrava o seu novo,<\/p>\n<p>com a luta de Zeus contra Tit\u00e3,<\/p>\n<p>encenando uma liturgia pag\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os romanos festejavam a saturn\u00e1lia;<\/p>\n<p>soltavam na arena a grande fera;<\/p>\n<p>Cristo cortava o deserto de sand\u00e1lia,<\/p>\n<p>para anunciar ao povo uma nova Era.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poema do jornalista Jeremias Mac\u00e1rio. Este e outros podem ser encontrados em seu novo livro &#8220;Andan\u00e7as&#8221; De um tempo fizeram fatias, e para uma noite criaram fogos; inventaram a dan\u00e7a dos c\u00f3digos, na l\u00edngua divinha da quirologia, das cartas viradas e dos tar\u00f4s, para ir ao futuro do ar e da jia, de sonhos melados [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4993"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4993"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4994,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4993\/revisions\/4994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}