{"id":4963,"date":"2020-09-08T23:38:44","date_gmt":"2020-09-09T02:38:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4963"},"modified":"2020-09-08T23:38:58","modified_gmt":"2020-09-09T02:38:58","slug":"bandos-tribos-acefalas-as-centralizadas-e-a-criacao-do-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/09\/08\/bandos-tribos-acefalas-as-centralizadas-e-a-criacao-do-estado\/","title":{"rendered":"BANDOS, TRIBOS AC\u00c9FALAS, AS CENTRALIZADAS E A CRIA\u00c7\u00c3O DO ESTADO"},"content":{"rendered":"<p>A LUTA DE CLASSES NAS TRIBOS CENTRALIZADAS E NO ESTADO<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cDo Igualitarismo \u00e0 Cleptocracia\u201d, em seu livro \u201cArmas, Germes e A\u00e7o\u201d, o cientista Jared Diamond faz uma viagem na hist\u00f3ria da humanidade h\u00e1 40 mil anos, descrevendo a vida do homem em bandos, nas tribos ac\u00e9falas, nas centralizada onde j\u00e1 aparece a estrutura social e pol\u00edtica de organiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do Estado com suas leis, ordens e puni\u00e7\u00f5es aos cidad\u00e3os que cometem delitos.<\/p>\n<p>Primeiro, ele come\u00e7a citando os bandos n\u00f4mades da Nova Guin\u00e9 onde fez suas pesquisas, chamados de fayus. Eles viviam como fam\u00edlias solit\u00e1rias, espalhadas pelo p\u00e2ntano e se reuniam uma, ou duas vezes ao ano para negociar a troca de noivas. S\u00e3o formados por cerca de 400 ca\u00e7adores-coletores, divididos em quatro cl\u00e3s. Seu n\u00famero foi reduzido por causa dos assassinatos cometidos entre eles.<\/p>\n<p>MISSION\u00c1RIOS E PROFESSORES<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o dos bandos e das tribos \u00e0 sociedade moderna muito se deveu ao trabalho dos mission\u00e1rios, professores, m\u00e9dicos, burocratas e aos soldados colonizadores. \u201c A dissemina\u00e7\u00e3o dos governos e da religi\u00e3o sempre esteve interligada ao longo da hist\u00f3ria que est\u00e1 registrada, quer a dissemina\u00e7\u00e3o fosse pac\u00edfica, como dos fayus, ou pela for\u00e7a.<\/p>\n<p>Como exemplo de bandos, que ainda vivem de modo aut\u00f4nomo confinados, o autor da obra cita os da Nova Guin\u00e9 e os da Amaz\u00f4nia, mas existem outros que se submeteram ao controle do Estado e at\u00e9 foram exterminados. Entre eles est\u00e3o a maioria dos pigmeus africanos ca\u00e7adores-coletores, os abor\u00edgines australianos, os esquim\u00f3s e os \u00edndios das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Todos, de acordo com Diamond, foram ca\u00e7adores-coletores em vez de produtores de alimentos estabelecidos. Esses humanos viviam, provavelmente, em bandos at\u00e9 pelo menos 40 mil anos atr\u00e1s. Praticamente, o bando n\u00e3o tem lideran\u00e7a formal, conquista por qualidades, for\u00e7a, intelig\u00eancia e uso da luta. O \u201cl\u00edder\u201d do bando \u00e9 chamado de o \u201chomem-grande\u201d, como qualquer outro do grupo, sem nenhum privil\u00e9gio de vida.<\/p>\n<p>Na Nova Guin\u00e9, por exemplo, o bando \u00e9 n\u00f4made porque tem que se mudar quando j\u00e1 cortaram os sagueiros maduros em uma \u00e1rea. Lembra o autor do livro que os gorilas, chimpanz\u00e9s e os macacos bonobos africanos tamb\u00e9m viviam em bandos. \u201cO bando \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social que herdamos de nossos milh\u00f5es de anos de hist\u00f3ria evolutiva\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA organiza\u00e7\u00e3o tribal \u00e9 bem representada pelos habitantes das regi\u00f5es montanhosas da Nova Guin\u00e9, cuja unidade pol\u00edtica antes da chegada do governo colonial, era uma aldeia, ou grupo de aldeias de pessoas com rela\u00e7\u00f5es de parentesco\u201d. O pesquisador aponta, como exemplo, os for\u00e9s com os quais trabalhou, em 1964, com a mesma l\u00edngua e a mesma cultura.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, essa organiza\u00e7\u00e3o tribal come\u00e7ou a surgir por volta de 13 mil anos atr\u00e1s no Crescente F\u00e9rtil e depois em algumas outras \u00e1reas. Al\u00e9m de deferir do bando, em virtude da resid\u00eancia fixa e do maior n\u00famero de membros, a tribo tamb\u00e9m \u00e9 constitu\u00edda de mais de um grupo de afinidade, denominada de cl\u00e3.<\/p>\n<p>Na estrutura tribal centralizada em sociedades, as solu\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s quest\u00f5es de conflitos entre estranhos s\u00e3o mais complicadas em grupos maiores. Numa tribo ac\u00e9fala, quase todos s\u00e3o parentes consangu\u00edneos, ou por afinidade. Mesmo assim, ela preserva um sistema de governo informal e igualit\u00e1rio. No bando, o poder do \u201chomem-grande\u201d \u00e9 limitado.<\/p>\n<p>Nas tribos, nenhum membro, ou bando tradicional, pode enriquecer mais do que os outros pelos pr\u00f3prios esfor\u00e7os, pois cada indiv\u00edduo tem deveres e obriga\u00e7\u00f5es para com os outros. Como nos bandos, as tribos n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a policial, burocracia e impostos. Todos os adultos capazes participam do cultivo, da coleta ou da ca\u00e7a dos alimentos.<\/p>\n<p>DESAPARECIMENTO DAS TRIBOS CENTRALIZADAS<\/p>\n<p><!--more--> As tribos centralizadas totalmente independentes desapareceram no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, porque costumavam ocupar a melhor terra, almejadas pelos Estados. Elas surgiram por volta de 5500 a.C. no Crescente F\u00e9rtil, e por volta de 1000 na Mesoam\u00e9rica e nos Andes, conforme ind\u00edcios arqueol\u00f3gicos. As centralizadas s\u00e3o muito diferentes em caracter\u00edsticas dos Estados europeus e americanos modernos.<\/p>\n<p>Diz o autor que, cerca de 7.500 anos atr\u00e1s, com o aparecimento das tribos centralizadas, as pessoas tiveram que aprender como encontrar-se com estranhos sem tentar mat\u00e1-los. Na centralizada, o chefe ocupava um posto reconhecido, preenchido pelo direito heredit\u00e1rio, diferente da tribo ac\u00e9fala. As ordens do chefe podem ser transmitidas por um, ou dois n\u00edveis de burocratas, muitos dos quais, subchefes.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos burocratas estatais, os das tribos centralizadas desempenhavam fun\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas, e n\u00e3o especializadas. Mesmo assim, o excedente de alimentos gerados por algumas pessoas, relegada \u00e0 classe plebeia, era usado para alimentar os chefes, suas fam\u00edlias, os burocratas e os art\u00edfices. Os produtos de luxo eram reservados para os chefes.<\/p>\n<p>\u201cAlgumas antigas tribos centralizadas complexas, tamb\u00e9m se distinguem dos povoados tribais simples pelas ru\u00ednas da arquitetura p\u00fablica elaborada e por uma hierarquia regional de povoa\u00e7\u00f5es, revelando um local maior e possuindo mais pr\u00e9dios administrativos e artefatos que os demais\u201d. \u00a0A sociedade era dividida em chefes heredit\u00e1rios e classes plebeias. Muitas fun\u00e7\u00f5es inferiores em tribos centralizadas eram exercidas por escravos, capturados em ataques de surpresa.<\/p>\n<p>AS PROMESSAS DAS CLEPTOCRACIAS<\/p>\n<p>As centralizadas desenvolveram um sistema monet\u00e1rio, denominado de economia redistributiva, o que significava tributos, precursor dos impostos que apareceram pela primeira vez nesse modelo de tribo. As maiores tendiam a ter chefes mais poderosos, com mais n\u00edveis de linhagens e distin\u00e7\u00f5es entre a autoridade e os homens do povo, mais reten\u00e7\u00e3o de tributos e mais categorias de burocratas. Uma aldeia maior com um chefe supremo controlava as menores com chefes inferiores.<\/p>\n<p>Com o tempo, foram se formando as cleptocracias atrav\u00e9s da transfer\u00eancia da riqueza do homem do povo para as classes sociais superiores. Diamond destaca que a diferen\u00e7a entre um cleptocrata e um estadista s\u00e1bio \u00e9 de apenas um grau; s\u00f3 quest\u00e3o do tamanho da percentagem do tributo extorquido dos produtores e retida pela elite. Outra diferen\u00e7a est\u00e1 nas obras p\u00fablicas nas quais o tributo redistribu\u00eddo \u00e9 aplicado.<\/p>\n<p>Seja numa sociedade estratificada, ou um Estado, o cientista pergunta por que o povo tolera a transfer\u00eancia do fruto do seu trabalho para os cleptocratas? Quest\u00e3o como essa abordada por Plat\u00e3o e Marx \u00e9 novamente levantada por eleitores em todas as elei\u00e7\u00f5es modernas. As cleptocracias correm o risco de serem derrubadas pelo povo oprimido, ou por novos ricos prontos para substituir os cleptocratas que buscam apoio na opini\u00e3o p\u00fablica com promessas de uma presta\u00e7\u00e3o maior de servi\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o aos frutos roubados.<\/p>\n<p>Para se manter no poder, os cleptocratas sempre procuraram desarmar a popula\u00e7\u00e3o e armar a elite; fazer a massa feliz redistribuindo boa parte dos tributos; e usar o monop\u00f3lio da for\u00e7a para conter a viol\u00eancia. Outra sa\u00edda \u00e9 elaborar uma ideologia ou religi\u00e3o que justifique a cleptocracia. Muitos chefes apelam para as cren\u00e7as, alegando ter uma linha direta com os deuses, mesmo nas tribos. O chefe dizia servir ao povo intercedendo por ele junto aos deuses, utilizando f\u00f3rmulas rituais para obter chuvas, boas colheitas e \u00eaxito na pescaria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A LUTA DE CLASSES NAS TRIBOS CENTRALIZADAS E NO ESTADO No cap\u00edtulo \u201cDo Igualitarismo \u00e0 Cleptocracia\u201d, em seu livro \u201cArmas, Germes e A\u00e7o\u201d, o cientista Jared Diamond faz uma viagem na hist\u00f3ria da humanidade h\u00e1 40 mil anos, descrevendo a vida do homem em bandos, nas tribos ac\u00e9falas, nas centralizada onde j\u00e1 aparece a estrutura [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4963"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4963"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4964,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4963\/revisions\/4964"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}