{"id":4946,"date":"2020-08-31T22:43:05","date_gmt":"2020-09-01T01:43:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4946"},"modified":"2020-08-31T22:43:21","modified_gmt":"2020-09-01T01:43:21","slug":"as-transferencias-tecnologicas-e-as-questoes-geograficas-e-ecologicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/08\/31\/as-transferencias-tecnologicas-e-as-questoes-geograficas-e-ecologicas\/","title":{"rendered":"AS TRANSFER\u00caNCIAS TECNOL\u00d3GICAS E AS QUEST\u00d5ES GEOGR\u00c1FICAS E ECOL\u00d3GICAS"},"content":{"rendered":"<p>Houve transfer\u00eancia de t\u00e9cnicas chinesas de fabrica\u00e7\u00e3o de papel para o Isl\u00e3 quando o ex\u00e9rcito \u00e1rabe derrotou o chin\u00eas na batalha do rio Talas. O Isl\u00e3 encontrou alguns art\u00edfices entre os prisioneiros de guerra e os levou com a inten\u00e7\u00e3o de montar uma f\u00e1brica de papel. Existia difus\u00e3o de ideias proteladas, como foi o caso da porcelana inventada na China por volta do s\u00e9culo VII. Chegou \u00e0 Europa pela Rota da Seda no s\u00e9culo XIV.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o consta do livro \u201cArmas, Germes e A\u00e7o\u201d, do cientista Jared Diamond, no cap\u00edtulo que trata de \u201cA M\u00e3e da Necessidade\u201d, destacando as quest\u00f5es das transfer\u00eancias tecnol\u00f3gicas e as interfer\u00eancias geogr\u00e1ficas e ecol\u00f3gicas na difus\u00e3o das ideias.<\/p>\n<p>AS INVEN\u00c7\u00d5ES E LOCALIZA\u00c7\u00d5ES GEOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>S\u00f3 em 1707 o alquimista Johann Bottger, depois de demoradas experi\u00eancias, encontrou a solu\u00e7\u00e3o e iniciou a fabrica\u00e7\u00e3o das famosas porcelanas de Meissen. Do mesmo modo, os oleiros europeus tiveram que reinventar os m\u00e9todos chineses de fabrica\u00e7\u00e3o, por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>No caso da difus\u00e3o, de acordo com Diamond, as sociedades diferem na rapidez com que recebem a tecnologia de outras comunidades, dependendo da localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Os povos mais isolados da Terra na hist\u00f3ria recente eram os abor\u00edgines tasmanianos, que viviam em embarca\u00e7\u00f5es para atravessar oceanos em uma ilha a cerca de 160 quil\u00f4metros da Austr\u00e1lia, o continente mais isolado. Durante dez mil anos, os tasmanianos n\u00e3o tiveram nenhum contato com outras sociedades e n\u00e3o adquiriram nenhuma tecnologia diferente.<\/p>\n<p>As sociedades localizadas nos principais continentes evolu\u00edram a tecnologia mais depressa porque acumulavam suas pr\u00f3prias inven\u00e7\u00f5es e as de outras comunidades. O Isl\u00e3 medieval, localizada na Eur\u00e1sia, absorveu inven\u00e7\u00f5es da \u00cdndia, da China e ainda herdou a cultura grega.<\/p>\n<p>As tecnologias \u00fateis persistem at\u00e9 serem substitu\u00eddas por outras melhores. Qualquer sociedade passa por movimentos sociais, ou por modismos onde coisas economicamente in\u00fateis se tornam valorizadas, e as \u00fateis perdem, temporariamente, sua import\u00e2ncia. Hoje quando todas sociedades est\u00e3o conectadas umas \u00e0s outras, n\u00e3o podemos imaginar que um modismo se perca ao ponto de uma tecnologia fundamental ser descartada.<\/p>\n<p>Um exemplo foi o abandono de armas pelo Jap\u00e3o quando elas chegaram em 1543 por dois aventureiros portugueses com arcabuzes. Os japoneses ficaram impressionados e deram in\u00edcio a uma produ\u00e7\u00e3o, aperfei\u00e7oando a tecnologia. Por volta de 1600 possu\u00edam armas melhores e em maior quantidade que qualquer outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>No entanto, existiam fatores contra a aceita\u00e7\u00e3o de armas, como a numerosa classe de guerreiros samurais para quem as espadas eram s\u00edmbolos de status e consideradas obras de arte. A guerra japonesa envolvia combates isolados entre samurais que se orgulhavam de lutar elegantemente. Soldados camponeses atiravam deselegantemente. Al\u00e9m disso, as armas eram inven\u00e7\u00e3o estrangeira e passaram a ser menosprezadas. O governo come\u00e7ou a limitar a produ\u00e7\u00e3o de armas atrav\u00e9s de uma licen\u00e7a para fabrica\u00e7\u00e3o. Depois limitou a licen\u00e7a s\u00f3 para armas produzidas para o governo. Esse processo s\u00f3 terminou em 1853 quando uma frota americana cheia de canh\u00f5es convenceu o Jap\u00e3o da necessidade de retomar a fabrica\u00e7\u00e3o de armas.<\/p>\n<p>Outros retrocessos desse tipo ocorreram na pr\u00e9-hist\u00f3ria, como no caso dos abor\u00edgines tasmanianos que abandonaram at\u00e9 as ferramentas feitas de osso. A cer\u00e2mica foi abandonada em toda Polin\u00e9sia. A maioria deixou de usar arcos e flechas na guerra.<\/p>\n<p>A DIFUS\u00c3O DA INVEN\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p><!--more-->Diamond tamb\u00e9m mostra em seu livro a import\u00e2ncia da difus\u00e3o de uma inven\u00e7\u00e3o e como ela ultrapassa a outra em termos originais, o que se chama de processo autocatal\u00edtico (avan\u00e7a a uma velocidade que aumenta com o tempo). A explos\u00e3o da tecnologia desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial impressionou, como tamb\u00e9m foi o avan\u00e7o medieval comparado ao da Idade do Bronze.<\/p>\n<p>No Crescente F\u00e9rtil e na China, objetos de ferro s\u00f3 se tornaram, comuns depois de dois mil anos de experi\u00eancia com a metalurgia do bronze. Por que a impress\u00e3o se difundiu de modo explosivo na Europa medieval depois que Gutemberg imprimiu sua B\u00edblia em 1455, mas n\u00e3o depois que um impressor gravou o Disco de Festos em 1700 a. C?<\/p>\n<p>Em parte, como explica o bi\u00f3logo, porque os impressores europeus conseguiram combinar seis avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, como o papel, o tipo m\u00f3vel, a metalurgia, as prensas, as tintas e os sistemas de escrita. A prensa de Gutemberg derivava das prensas comuns, utilizadas para fabrica\u00e7\u00e3o de vinho e azeite. O autor do Disco de Festos contava com t\u00e9cnicas menos eficazes e toscas, sem vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita feita \u00e0 m\u00e3o. Havia pouca demanda e falta de incentivo para investir. J\u00e1 o mercado de massa para impress\u00e3o na Europa induziu muitos investidores a emprestar dinheiro para Gutemberg.<\/p>\n<p>O cientista coloca que a tecnologia humana evoluiu dos primeiros instrumentos de pedra, h\u00e1 2,5 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. A impressora a laser de 1996 substituiu a ultrapassada de 1992. Hoje os avan\u00e7os ocorrem depressa. No desenvolvimento, dois saltos podem ser identificados: as mudan\u00e7as gen\u00e9ticas em nossos corpos que permitiram a fala e o estilo de vida sedent\u00e1rio. Esse fato estava ligado \u00e0 nossa escolha pela produ\u00e7\u00e3o de alimentos que exige que se ficasse preso \u00e0s lavouras.<\/p>\n<p>Assinala que a vida sedent\u00e1ria foi decisiva para a hist\u00f3ria da tecnologia, pois permitiu que as pessoas acumulassem bens n\u00e3o-port\u00e1teis. A cer\u00e2mica e a tecelagem s\u00f3 se evolu\u00edram depois que as pessoas se tornaram sedent\u00e1rias. Outra raz\u00e3o fez da produ\u00e7\u00e3o de alimentos um passo decisivo na hist\u00f3ria da tecnologia. A tecnologia local depende tamb\u00e9m da tecnologia de outro lugar. Essa foi a causa da evolu\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida da tecnologia em continentes com poucas barreiras geogr\u00e1ficas e ecol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, obst\u00e1culos \u00e0 difus\u00e3o e o tamanho da popula\u00e7\u00e3o acarretaram as diferen\u00e7as intercontinentais na evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. E Eur\u00e1sia \u00e9 a maior massa de terra do mundo, com maior n\u00famero de sociedades rivais. Foi onde a produ\u00e7\u00e3o de alimentos come\u00e7ou mais cedo (Crescente F\u00e9rtil e a China).<\/p>\n<p>AS BARREIRAS GEOGR\u00c1FICAS E ECOL\u00d3GICAS<\/p>\n<p>As Am\u00e9ricas do Sul e do Norte s\u00e3o vistas como continentes separados, que mostram problemas hist\u00f3ricos semelhantes. Formam a segunda maior massa de terra. No entanto s\u00e3o fragmentadas pela geografia e pela ecologia, como o istmo do Panam\u00e1 e o deserto mexicano ao norte, que separam as sociedades humanas adiantadas da Mesoam\u00e9rica daquelas da Am\u00e9rica do Norte. O istmo separou as sociedades adiantadas da Mesoam\u00e9rica daquelas dos Andes e da Amaz\u00f4nia. A roda foi inventada na Mesoam\u00e9rica\u00a0 e a lhama foi domesticada na regi\u00e3o central dos Andes por volta de 3000 a. C., mas cinco mil anos depois o \u00fanico animal de carga e as \u00fanicas rodas das Am\u00e9ricas ainda n\u00e3o haviam se encontrado, embora numa dist\u00e2ncia de 1900 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>A \u00c1frica Subsaariana \u00e9 a terceira maior massa de terra, mais acess\u00edvel \u00e0 Eur\u00e1sia do que as Am\u00e9ricas, mas o deserto saariano ainda \u00e9 uma barreira ecol\u00f3gica que separa a \u00c1frica da Eur\u00e1sia e do norte da \u00c1frica. A Austr\u00e1lia \u00e9 o menor continente e o mais isolado. A produ\u00e7\u00e3o de alimentos nunca surgiu de modo aut\u00f3ctone. Essa combina\u00e7\u00e3o fez da Austr\u00e1lia o \u00fanico continente desprovido de artefatos.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o da Eur\u00e1sia \u00e9 quase seis vezes maior que a das Am\u00e9ricas, quase oito vezes maior que a da \u00c1frica e 230 vezes maior do a da Austr\u00e1lia. Para Diamond, \u201cpopula\u00e7\u00f5es maiores significam mais inventores e mais sociedades rivais. A consider\u00e1vel superioridade inicial da Eur\u00e1sia traduziu-se em uma forte lideran\u00e7a a partir de 1492 por causa da sua geografia caracter\u00edstica e n\u00e3o de um intelecto humano peculiar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve transfer\u00eancia de t\u00e9cnicas chinesas de fabrica\u00e7\u00e3o de papel para o Isl\u00e3 quando o ex\u00e9rcito \u00e1rabe derrotou o chin\u00eas na batalha do rio Talas. O Isl\u00e3 encontrou alguns art\u00edfices entre os prisioneiros de guerra e os levou com a inten\u00e7\u00e3o de montar uma f\u00e1brica de papel. 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