{"id":4925,"date":"2020-08-25T11:00:59","date_gmt":"2020-08-25T14:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4925"},"modified":"2020-08-25T11:01:36","modified_gmt":"2020-08-25T14:01:36","slug":"as-invencoes-e-suas-necessidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/08\/25\/as-invencoes-e-suas-necessidades\/","title":{"rendered":"AS INVEN\u00c7\u00d5ES E SUAS NECESSIDADES"},"content":{"rendered":"<p>Em \u201cArmas, Germes e A\u00e7o \u2013 os destinos das sociedades humanas\u201d, o cientista e autor do livro, Jared Diamond, no cap\u00edtulo \u201cA M\u00e3e da Necessidade\u201d, fala das grandes inven\u00e7\u00f5es, principalmente no s\u00e9culo XIX, e explica que o invento \u00e9 mais a m\u00e3e da necessidade do que o contr\u00e1rio. A grande maioria dos inventores toma emprestado a tecnologia de outros para concretizar suas ideias.<\/p>\n<p>A difus\u00e3o, segundo ele, depende muito das condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas e ecol\u00f3gicas entre as sociedades, bem como das dimens\u00f5es populacionais entre os continentes.\u00a0 Ele cita o \u201cDisco de Festos\u201d, na ilha de Creta, por volta de 1700 a. C , como primeiro documento silab\u00e1rio impresso mais antigo do mundo. Os sinais do disco foram gravados na argila temperada por carimbos que tinham um sinal em baixo relevo, mas n\u00e3o foi propagado como a impress\u00e3o de Gutemberg em raz\u00e3o de diversos fatores desfavor\u00e1veis.<\/p>\n<p>A CONQUISTA ATRAV\u00c9S DA TECNOLOGIA<\/p>\n<p>Sobre a tecnologia, destaca o autor da obra, que na forma de armas e transporte, ela proporciona os meios diretos pelos quais certos povos ampliaram seus reinos e conquistaram outros povos. Quem fica para tr\u00e1s e rejeita as inven\u00e7\u00f5es termina sendo subjugado por outras sociedades inovadoras.<\/p>\n<p>Para ele, os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos parecem vir, de modo desproporcional, de alguns g\u00eanios especiais, como Johannes Gutemberg, James Watt, Thomas Edison e os irm\u00e3os Wright. Eles eram europeus ou descentes de emigrantes na Am\u00e9rica. Existem os casos de Arquimedes e outros g\u00eanios raros dos tempos antigos, mas n\u00e3o \u00e9 somente o intelecto que conta na cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas sociedades, principalmente as mais conservadoras, demoram para assimilar e aceitar as inven\u00e7\u00f5es. A sua pergunta \u00e9 do porqu\u00ea a tecnologia se desenvolveu em ritmos diferentes nos v\u00e1rios continentes. Existe a ideia comum de que a necessidade \u00e9 a m\u00e3e da inven\u00e7\u00e3o, mas o cientista tamb\u00e9m entra pela vertente da premissa contr\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, muitas inven\u00e7\u00f5es, de acordo com o bi\u00f3logo e fisiologista, encaixam nessa vis\u00e3o da necessidade como a m\u00e3e. Como exemplo, cita o Projeto Manhattan, do governo norte-americano, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. O objetivo foi o de construir uma bomba at\u00f4mica antes que a Alemanha nazista fizesse. Em tr\u00eas anos foi conclu\u00eddo a um custo de dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares (hoje mais de 20 bilh\u00f5es).<\/p>\n<p>Outros exemplos dessa necessidade foi o descaro\u00e7ador de algod\u00e3o, inventado por Eli Whitney, em 1794, para substituir o trabalho demorado e cansativo de limpeza do produto. Outro caso foi a m\u00e1quina a vapor, concebida por James Watt, em 1769, para solucionar o problema de bombear a \u00e1gua para fora das minas de carv\u00e3o brit\u00e2nicas. Assim, em sua opini\u00e3o, a inven\u00e7\u00e3o \u00e9 quase sempre a m\u00e3e da necessidade.<\/p>\n<p>Um exemplo claro \u00e9 a hist\u00f3ria do fon\u00f3grafo de Thomas Edison, \u201ca cria\u00e7\u00e3o mais original do maior inventor dos tempos modernos\u201d. Quando ele fez o fon\u00f3grafo, em 1877, publicou um artigo sugerindo dez utiliza\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, entre elas preservar as \u00faltimas palavras de pessoas no leito de morte e gravar livros para deficientes visuais. A grava\u00e7\u00e3o de m\u00fasica n\u00e3o estava entre suas prioridades.<\/p>\n<p>Anos depois, Edison passou a vender fon\u00f3grafos, para serem usados como m\u00e1quinas para ditar textos nos escrit\u00f3rios. No entanto, os empres\u00e1rios criaram as vitrolas autom\u00e1ticas. S\u00f3 depois de 20 anos, o inventor admitiu, com relut\u00e2ncia, que a principal utilidade de seu fon\u00f3grafo era gravar e tocar m\u00fasica.<\/p>\n<p>Por outro lado, o ve\u00edculo motorizado n\u00e3o foi inventado para atender a uma demanda. Quando Nikolaus Otto construiu a primeira m\u00e1quina a g\u00e1s, em 1866, os cavalos j\u00e1 supriam as necessidades do transporte terrestre h\u00e1 quase seis mil anos. Por ser pesada, com mais de dois metros de altura, a m\u00e1quina n\u00e3o era mais aceit\u00e1vel que os cavalos. S\u00f3 depois de 1885, os motores foram aperfei\u00e7oados, levando Gottfried Daimler a instalar um motor na bicicleta, surgindo, ent\u00e3o, a motocicleta a gasolina.<\/p>\n<p>O povo continuou satisfeito com os cavalos e as ferrovias at\u00e9 a Primeira Guerra Mundial, quando o ex\u00e9rcito concluiu que precisava de caminh\u00f5es. O intenso lobby p\u00f3s-guerra convenceu o p\u00fablico da necessidade dos caminh\u00f5es no lugar das carro\u00e7as puxadas a cavalo.<\/p>\n<p>\u201cAs primeiras m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas, de escrever e os aparelhos de televis\u00e3o eram t\u00e3o terr\u00edveis quanto a medonha m\u00e1quina a g\u00e1s de dois metros de Otto. Embora Watt tivesse projetado a m\u00e1quina a vapor para bombear \u00e1gua para fora das minas, tempos depois a inven\u00e7\u00e3o estava fornecendo energia para as f\u00e1bricas de algod\u00e3o e impulsionando locomotivas e barcos.<\/p>\n<p>O APERFEI\u00c7OAMENTO DE OUTROS<\/p>\n<p>A famosa inven\u00e7\u00e3o da l\u00e2mpada incandescente de Edison, em 21 de outubro de 1879, era um aperfei\u00e7oamento de muitas outras l\u00e2mpadas patenteado por outros inventores entre 1841 e 1878. Do mesmo modo, o avi\u00e3o tripulado dos irm\u00e3os Wright foi precedido pelos planadores de Otto Lilienthal e a m\u00e1quina voadora de Samuel Lasngley. O tel\u00e9grafo de Samuel Morse foi precedido pelos de Joseph Henry, William Cooke e Charles Wheatstone. O descaro\u00e7ador de Eli Whitney foi aperfei\u00e7oamento de outras m\u00e1quinas<\/p>\n<p>Para Diamond, a tecnologia evolui de modo cumulativo, n\u00e3o em atos heroicos, e que a descoberta da maioria das utilidades de uma inven\u00e7\u00e3o \u00b4\u00e9 feita depois, e n\u00e3o sempre antes para satisfazer uma necessidade prevista.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0 Por volta de 2000 a. C., os mesopot\u00e2micos estavam extraindo toneladas de petr\u00f3leo pelo aquecimento de xisto perobetuminoso. Os antigos gregos descobriram os empregos de v\u00e1rias misturas de petr\u00f3leo, piche, resinas, bombas incendi\u00e1rias e navios. Os alquimistas isl\u00e2micos medievais conseguiram a t\u00e9cnica da destila\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Essas subst\u00e2ncias incendi\u00e1rias exerceram papel fundamental na derrota dos Cruzados para o Isl\u00e3. Na mesma \u00e9poca, os chineses observaram que determinada mistura de enxofre, carv\u00e3o e salitre, conhecida como p\u00f3lvora, era explosiva.<\/p>\n<p>RESIST\u00caNCIA \u00c0S MUDAN\u00c7AS<\/p>\n<p>Quanto a resist\u00eancia \u00e0s mudan\u00e7as na tecnologia, Diamond levanta a pergunta sobre o motivo das cidades brit\u00e2nicas na d\u00e9cada de 1920 usarem a ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s em suas ruas, muito depois dos americanos e alem\u00e3es terem passado para o processo el\u00e9trico. Os governos municipais brit\u00e2nicos tinham investido pesado na ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s e impuseram regulamentos que atrapalharam as companhias de eletricidade \u2013 esclarece o cientista.<\/p>\n<p>Ele aponta diversos fatores que inibiram e aceleraram as inven\u00e7\u00f5es. Uma delas foi a disponibilidade de m\u00e3o-de-obra escrava nos tempos cl\u00e1ssicos, enquanto os sal\u00e1rios altos e a escassez de m\u00e3o-de-obra estimulam hoje a busca de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Nesse campo, Diamond aponta dez fatores que influenciam a tecnologia, dentre eles a guerra, governo centralizado, clima e a abund\u00e2ncia de recursos que, tamb\u00e9m, podem servir de atraso. \u201cAo longo da hist\u00f3ria, a guerra foi importante motivador da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d. Exemplo disso foram os investimentos em armas nucleares durante a II Guerra Mundial e em avi\u00f5es e canh\u00f5es na I Guerra.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o das florestas na Inglaterra foi apontada como motivo por tr\u00e1s da sua lideran\u00e7a no desenvolvimento da tecnologia do carv\u00e3o, mas o desmatamento na China n\u00e3o teve o mesmo efeito. Existe uma lista enorme para explicar por que as sociedades diferem na aceita\u00e7\u00e3o de uma nova tecnologia.<\/p>\n<p>Acredita-se que os abor\u00edgines australianos compartilhavam caracter\u00edsticas ideol\u00f3gicas que influ\u00edram no seu atraso tecnol\u00f3gico. Supostamente eram conservadores, n\u00e3o se preocupando em melhorar o presente. Assim como a Europa e a Am\u00e9rica industrializadas, a Nova Guin\u00e9 tradicional tem sociedades conservadoras que resistem a novos m\u00e9todos, vivendo lado a lado com comunidades inovadoras. Com a chegada da tecnologia ocidental, sociedades mais empreendedoras est\u00e3o explorando essa tecnologia para subjugar vizinhos conservadores.<\/p>\n<p>Hoje, as comunidades isl\u00e2micas s\u00e3o vistas como conservadoras, mas o Isl\u00e3 medieval era tecnologicamente avan\u00e7ado e aberta \u00e0s nova\u00e7\u00f5es. Alcan\u00e7ou taxas de alfabetiza\u00e7\u00e3o maiores que a Europa na mesma \u00e9poca. Assimilou o legado da civiliza\u00e7\u00e3o grega a tal ponto que s\u00f3 conhecemos muitos livros gregos por meio de exemplares \u00e1rabes. Fez progressos importantes na metalurgia e outros setores, e at\u00e9 adotou o papel e a p\u00f3lvora oriundos da China, e os difundiu para a Europa. Na Idade M\u00e9dia, o fluxo de tecnologia era do Isl\u00e3 para a Europa, e n\u00e3o o contr\u00e1rio como \u00e9 hoje. S\u00f3 depois de 1500 a dire\u00e7\u00e3o foi invertida.<\/p>\n<p>Segundo o cientista, a inven\u00e7\u00e3o na China tamb\u00e9m variou com o tempo. At\u00e9 por volta de 1450, a China era mais inovadora e avan\u00e7ada que a Europa e o pr\u00f3prio Isl\u00e3 medieval. Dentre as inova\u00e7\u00f5es est\u00e3o comportas para fechamento de canais, ferro fundido, perfura\u00e7\u00e3o em profundidade, p\u00f3lvora, pipas, b\u00fassolas magn\u00e9ticas, papel, porcelana e impress\u00e3o. Depois a China deixou de ser inovadora.<\/p>\n<p>Do outro lado, hoje consideramos a Europa e os norte-americanos que dela derivaram como l\u00edderes do mundo moderno em mat\u00e9ria de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas suas tecnologias eram menos avan\u00e7adas at\u00e9 o final da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>O autor do livro explica que algumas inova\u00e7\u00f5es surgiram da manipula\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas naturais, como a domestica\u00e7\u00e3o das plantas e da cer\u00e2mica, observando o comportamento da argila. Ela apareceu h\u00e1 cerca de 14 mil anos no Jap\u00e3o, h\u00e1 10 mil no Crescente F\u00e9rtil e na China e depois na Amaz\u00f4nia, na zona do Sael na \u00c1frica, no sudeste dos Estados Unidos e no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Ele destaca inova\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, como a roda d\u00b4agua, o moinho de rolos, a roda dentada, a b\u00fassola, o moinho de vento e a c\u00e2mara escura, todas concebidas no Velho Mundo. Muitas inova\u00e7\u00f5es foram obtidas por empr\u00e9stimo em outros lugares, como a roda, comprovada pela primeira vez perto do Mar Negro, por volta de 3400 a. C. Um exemplo de tecnologia do Novo Mundo foi a metalurgia que se propagou dos Andes para a Meso\u00e0merica pelo Panam\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em \u201cArmas, Germes e A\u00e7o \u2013 os destinos das sociedades humanas\u201d, o cientista e autor do livro, Jared Diamond, no cap\u00edtulo \u201cA M\u00e3e da Necessidade\u201d, fala das grandes inven\u00e7\u00f5es, principalmente no s\u00e9culo XIX, e explica que o invento \u00e9 mais a m\u00e3e da necessidade do que o contr\u00e1rio. 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