{"id":4876,"date":"2020-07-31T22:10:54","date_gmt":"2020-08-01T01:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4876"},"modified":"2020-07-31T22:11:05","modified_gmt":"2020-08-01T01:11:05","slug":"conversa-com-os-bichos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/07\/31\/conversa-com-os-bichos\/","title":{"rendered":"CONVERSA COM OS BICHOS"},"content":{"rendered":"<p>Esta cr\u00f4nica faz parte do livro &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Mac\u00e1rio, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco tempo e pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, ou atrav\u00e9s do pr\u00f3prio autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902.<\/p>\n<p>Oh! meu gafanhoto: Veja o estouro da boiada. N\u00e3o se tem mais certeza de nada. O mundo gira depressa e a locomotiva passa. O tempo engole a gente e n\u00e3o se espera o retardat\u00e1rio nas esta\u00e7\u00f5es. \u00c9 a corrida competitiva do ouro de tolo. At\u00e9 os passarinhos n\u00e3o conseguem fazer seus ninhos sossegados. Quase que n\u00e3o se cruza mais com o vizinho. N\u00e3o existe mais tropa de tropeiros, nem comitiva. As muralhas separam na\u00e7\u00f5es, para acirrar o \u00f3dio e o pavor.<\/p>\n<p>O n\u00edvel dos rios baixa e suas \u00e1guas n\u00e3o escoam livremente. Correm apertadas entre lixo e eros\u00e3o. Os bancos de areia avan\u00e7am e o leito seco mata o sapo perereca. \u00c9 o sil\u00eancio da morte chegando. N\u00e3o mais as \u00e1rvores das sombras cativantes. O vermelho guar\u00e1 prenuncia o perigo ao se alimentar da lama do mangue terminal. Na lan\u00e7a dos nativos, suas penas cores de sangue lembram o ritual da dan\u00e7a antropof\u00e1gica.\u00a0 Resta navegar, com presteza, nos desvios dos vazios.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o est\u00e1 virando carv\u00e3o, e o mar em <strong>esgoto<\/strong> venenoso. A terra se desloca, treme e arrebenta; cospe fogo como drag\u00e3o; e sai de rota\u00e7\u00e3o. O tuf\u00e3o arrasta, contorce, torce e arremessa tudo que encontra em sua frente para o alto das montanhas. As ondas surgem como monstros marinhos; engolem o litoral; e sugam gentes e destro\u00e7os. Destroem as fa\u00e7anhas dos homens e tudo vira um roto lama\u00e7al.<\/p>\n<p>As calotas se derretem; o clima esquenta, queima e a paisagem fica cinzenta. E eu c\u00e1, meu gafanhoto, a meditar na revolu\u00e7\u00e3o e no para\u00edso original, sem o \u00edmpeto de querer seguir a vida. Sonhei um mundo de poetas, sem pol\u00edcia para bater, sem censores e sem c\u00e2maras de olhos malditos a vigiar. Sonhei um mundo sem grades, sem homens bombas e sem terras divididas em fronteiras. Sonhei com o vento sem f\u00faria e com o livre viver, sem ter que me censurar antes de falar.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixe, gafanhoto, que o sol derreta sua cara, nem se consuma nos desejos do inferno de Dantes. N\u00e3o negocie ideologia e \u00e9tica por est\u00e9tica.\u00a0 Esteja vigilante para as arma\u00e7\u00f5es das mentes. Contemple a luz do dia. Cuidado com a fera que espreita. N\u00e3o deixe seu amor partir, mesmo que n\u00e3o seja eterno. Ouve o que diz a can\u00e7\u00e3o do mar nas dobras das ondas virando sal. Fica se for preciso ficar, para desafiar. Se n\u00e3o estiver inclu\u00eddo entre os melhores, n\u00e3o use como consolo o outro por ser o pior. Nunca se acomode com seu problema s\u00f3 porque o outro est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil. Seu c\u00e9rebro pode estar cheio de estrias, rugas, celulites e varizes.<\/p>\n<p>N\u00e3o seja o pr\u00f3prio lobo de si mesmo. oh gafanhoto peregrino! N\u00e3o se enrosque nos clich\u00eas dos desejos f\u00fateis e sup\u00e9rfluos. As m\u00e3os se estendem nos sinais das vias, mas os carros seguem velozes e fechados, levando desesperan\u00e7as. Outros cortam os caminhos. Os olhos verdes, azuis, pardos, castanhos e negros n\u00e3o se fitam mais. \u00c9 isso a\u00ed, meu gafanhoto: Tenta refletir e controlar as emo\u00e7\u00f5es. As armadilhas dos amores s\u00e3o cheios de dores.\u00a0 A naja e a ninfa t\u00eam suas pr\u00f3prias magias. O le\u00e3o ostenta seu poder superior de rei. O uirapuru tem seu encanto no canto. O tangar\u00e1 faz sua dan\u00e7a sincronizada para sua f\u00eamea namorar. O gavi\u00e3o peneira para nas alturas e desafia a gravidade, na busca da sua sobreviv\u00eancia. O homem vive o desespero de vencer; de domar o tempo; o envelhecimento; e alcan\u00e7ar a imortalidade. Perdemos nossas refer\u00eancias e caracter\u00edsticas. Temos reis e rainhas sem poder e sem trono. Procure, ao menos, ser a f\u00eanix.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0 \u00c9, meu pobre gafanhoto!\u00a0 Uns dizem que sou de Oxossi, outros que sou de Ogum, de Ians\u00e3, ou de lugar nenhum. Enquanto isso, a ansiedade e o v\u00edcio qu\u00edmico do stress entopem as art\u00e9rias. A taquicardia ainda dura para outro dia, se engalfinhando com a solid\u00e3o da alma. A morte n\u00e3o tem pressa de bater na porta e n\u00e3o adianta dizer que n\u00e3o quer receb\u00ea-la. Ela faz a sua hora e quase nada conversa.<\/p>\n<p>A sociedade de martelo e caramelo, tamb\u00e9m \u00e9 feita de foice, coice e a\u00e7oite. Cada um faz o seu elo como pode. O sangue aguado corre na veia magra do favelado da boca-do-lixo.\u00a0 A viol\u00eancia nos esmaga, e a paz desaparece na fuma\u00e7a. Tudo \u00e9 mito e lenda neste meteorito que rola no espa\u00e7o e depois vira detrito. At\u00e9 os amantes do capitalismo adoram o quixotismo de Cervantes.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o cora\u00e7\u00e3o acelera, e as c\u00e9lulas do c\u00e9rebro se entorpecem com as noites regadas de muito porre.\u00a0 As id\u00e9ias se perdem no labirinto e nos la\u00e7os trai\u00e7oeiros da hist\u00f3ria. Os neur\u00f4nios se desligam e tudo se esquece.\u00a0 Temos a mania doentia de s\u00f3 arrotar vit\u00f3ria, para n\u00e3o encarar a canalha corrupta que s\u00f3 destila fel. A \u00e9tica virou tralha velha idiota. A ideologia foi para o monturo nesse pa\u00eds do futuro.<\/p>\n<p>Cada um carrega seu segredo sagrado, e o medo \u00e9 uma lembran\u00e7a que n\u00e3o se apaga e uma dor que n\u00e3o tem cura. Nos fascinam as fantasias ocultas da imagina\u00e7\u00e3o. Muitos transbordam e se embriagam. Outros oprimem, se reprimem e torturam. N\u00e3o h\u00e1 como fugir do embate moral e imoral. Cada um tem que fazer sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, boa ou ruim, amarga ou doce. A amarga pode ser doce e vice-versa. Voc\u00ea pode ficar ou ir embora, com ou sem mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta cr\u00f4nica faz parte do livro &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Mac\u00e1rio, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco tempo e pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, ou atrav\u00e9s do pr\u00f3prio autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902. Oh! meu gafanhoto: Veja o estouro da boiada. 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