{"id":4857,"date":"2020-07-24T22:08:53","date_gmt":"2020-07-25T01:08:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4857"},"modified":"2020-07-24T22:09:13","modified_gmt":"2020-07-25T01:09:13","slug":"as-visceras-dessa-gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/07\/24\/as-visceras-dessa-gente\/","title":{"rendered":"AS V\u00cdSCERAS DESSA GENTE!"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 mais um texto extra\u00eddo do livro &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Mac\u00e1rio, recentemente lan\u00e7ado e que pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, da Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco, em Vit\u00f3ria da Conquista, ou ser adquirido diretamente pelo autor atrav\u00e9s do e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e tel 77 98818-2902.<\/p>\n<p>A sociedade tecnoconsumista cria, recria, inventa, reinventa, acresce bot\u00f5es, classifica os estilos sexuais e nos trata como po\u00e7\u00f5es. Ela dissolve, ilude, engana, derrete, conduz, seduz, ati\u00e7a desejos sup\u00e9rfluos, discrimina, agride e tritura tudo na m\u00e1quina das ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Os idiotas consumistas gen\u00e9ricos acreditam; perdem suas identidades; exercitam a beleza est\u00e9tica; e tornam ac\u00e9falos de esp\u00edrito. Eles querem o espet\u00e1culo contradit\u00f3rio disforme de massas musculares enormes, ou corpos esquel\u00e9ticos coliformes, mas nos ensinam que temos o livre arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>Conte sua hist\u00f3ria. A felicidade do sucesso \u00e9 expor a vida \u00edntima em troca de tr\u00eas minutos num programa de audi\u00eancia televisiva evasiva. Tudo que se revela n\u00e3o passa de um monte de mentira contradit\u00f3ria, sem vit\u00f3ria. A imagem da lente inventa e foca as v\u00edsceras; amplia as fezes e os vermes; e extirpa o pus l\u00e1 de dentro do ventre. O homem \u00e9 esmagado como barata nojenta.<\/p>\n<p>\u00c9 viva a corrida da busca pela gl\u00f3ria! N\u00e3o importam os meios. Tem que ser competitivo vencedor. A alma sempre est\u00e1 \u00e0 venda numa bandeja de prata e n\u00e3o falta o comprador-financiador. A m\u00e1quina foi feita para fabricar o stress, com suas t\u00e9cnicas infal\u00edveis. Voc\u00ea tem que ser o primeiro a chegar \u00e0 boca do cofre, sen\u00e3o outro pode arromb\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Como na roleta russa, o suor ferve e escorre na pele; as veias parecem explodir; o cora\u00e7\u00e3o arrebenta, enquanto se espera o detono da bala. Num s\u00f3 impacto, sua cabe\u00e7a ser\u00e1 esfacelada. Cada corrida \u00e9 um teste. \u00c9 o jogo de vida ou morte. Tudo por um punhado de d\u00f3lares, como na cobi\u00e7a do faroeste.<\/p>\n<p>Seu cuspe n\u00e3o vale nada se n\u00e3o alcan\u00e7ar a maior dist\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 preciso aprender a ser humano e ter esp\u00edrito de coopera\u00e7\u00e3o. Seu lado sentimental e emocional vive em constante processo de ebuli\u00e7\u00e3o. S\u00f3 existe uma via hegem\u00f4nica, ou logo se falece na estrada. Nada de pensamento diverso. Siga a m\u00e9trica e a rima do verso.<\/p>\n<p>Na cultura capitalista, s\u00f3 o cliente \u00e9 tudo, e o empregado, instrumento do lucro a qualquer custo. As rela\u00e7\u00f5es entre o patr\u00e3o se resumem ao trabalho. Depois \u00e9 s\u00f3 jogar fora o caro\u00e7o. N\u00e3o existem espa\u00e7os para erros.<\/p>\n<p>O mercado \u00e9 regido pela tabuada rigorosa do somar e multiplicar. Nada de dividir e diminuir. \u00c9 s\u00f3 decorar e seguir suas normas impostas. Quem n\u00e3o assim fizer, est\u00e1 fora. N\u00e3o importa se \u00e9 fingido ou hip\u00f3crita. A ordem vem de l\u00e1 como se apresentar; apertar a m\u00e3o; olhar reto; sentar sem cruzar; vestir almofado; e at\u00e9 andar de lado, bem caprichado.<\/p>\n<p>Aprenda na cartilha o que deve ser dito \u00e0 frente do entrevistador. Prepare-se para os enigmas do QI. Decifra, ou seja, devorado. Voc\u00ea \u00e9 domesticado para mentir e mudar de personalidade, sem remorso. Voc\u00ea tem prazo de validade.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia da sociedade consegue encobrir, por um tempo, as condutas desequilibradas e desajustadas. O princ\u00edpio \u00e9 ser corretamente pol\u00edtico, e nada de apontar a verdade. N\u00e3o seja maluco, meu camarada. Siga pelo caminho que lhe indicaram. Ser o que se \u00e9 n\u00e3o \u00e9 mais o ideal.<\/p>\n<p>Nossa terra precisa de um novo movimento antropof\u00e1gico. Uma gente que incinere este lixo exportado de fora. Nosso est\u00f4mago est\u00e1 cheio de bichos estranhos roedores. Nossa carne n\u00e3o \u00e9 a nossa carne. Nossas v\u00edsceras s\u00e3o de outros canibais. Nossas cabe\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o mais dos antepassados ancestrais.<\/p>\n<p>Povo aniquilado pelas ditaduras da beleza, do som, do corpo sarado, da est\u00e9tica, dos cosm\u00e9ticos e das cirurgias de pl\u00e1sticas monstruosas. Por que nos exigem tantos estilos para tudo? Vivemos trancados num arm\u00e1rio bolorento, com cheiro de mofo, mas achamos que est\u00e1 todo perfumado. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 viver engarrafado.<\/p>\n<p>Estamos cheios de feriad\u00f5es fabricados pela m\u00eddia, que dita o nosso comportamento e fala o que ela quer e n\u00e3o o que queremos. Todos saem estressados das metr\u00f3poles, para ficarem mais estressados nas estradas e nas filas dos restaurantes com hot\u00e9is lotados. Brigam todo tempo com a mulher e os filhos. O tempo vai engolindo a gente, sem, ao menos, aprender a viver, para morrer.<\/p>\n<p>Temos um monte de coisas, sem uma sequ\u00eancia l\u00f3gica dos fatos, mesmo porque a vida n\u00e3o tem l\u00f3gica, e a felicidade de agora j\u00e1 foi embora. Depois que falo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a mesma fala. Qual o agora voc\u00ea \u00e9 feliz? O antes ou o depois?<\/p>\n<p>Dinheiro muito pode ser pouco, e dinheiro pouco pode ser muito. Solid\u00e3o pode ser amor, e amor pode ser solid\u00e3o. As andan\u00e7as n\u00e3o t\u00eam fim quando se procura o sentido, mas voc\u00ea vai continuar a andar. Mesmo sem sentido, o destino \u00e9 andar, mesmo que n\u00e3o haja destino.<\/p>\n<p>As pessoas s\u00e3o rotuladas por tipos, como o metrossexual, ubersexual, o nerd, o \u201cX\u201d, o \u201cZ\u201d, o \u201cY\u201d, o \u201cCDF\u201d, o branco, o negro, o rico, o pobre, o feio, o bonito, o da terceira idade, sem direito a quarta, mas todos t\u00eam que ser consumista; andar de celular; dar presentes no Natal; se vestir legal; e usar as redes sociais, para serem normais.<\/p>\n<p>Afinal, voc\u00ea \u00e9 subdesenvolvido ou emergente? Diferente ou indiferente? Alienado ou esc\u00f3ria da sociedade? Ativo ou passivo? Pensando bem, sou nada e o tudo, e a mosca na sopa de Raul Seixas. Sou a navalha e a faca de dois gumes. Sou o metal usado dos dois lados pelo poder, que diz ser cedo a aposentadoria aos 65 anos, enquanto o mercado capital discrimina aos 40. Fico sem saber quem sou e para aonde vou.<\/p>\n<p>Minhas v\u00edsceras est\u00e3o sempre abertas ao sistema, que vigia o tempo, constantemente, mesmo debaixo do esgoto. O roto fala do esfarrapado, e o correto \u00e9 o tolo. Que bosta \u00e9 esta de que a vida me deu r\u00e9gua e compasso, se nem sou dono do meu pr\u00f3prio passo! Sou um ma\u00e7o de cigarro amassado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 mais um texto extra\u00eddo do livro &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Mac\u00e1rio, recentemente lan\u00e7ado e que pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, da Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco, em Vit\u00f3ria da Conquista, ou ser adquirido diretamente pelo autor atrav\u00e9s do e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e tel 77 98818-2902. 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