{"id":4820,"date":"2020-07-10T22:48:17","date_gmt":"2020-07-11T01:48:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4820"},"modified":"2020-07-10T22:48:29","modified_gmt":"2020-07-11T01:48:29","slug":"a-nega-do-leite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/07\/10\/a-nega-do-leite\/","title":{"rendered":"&#8220;A NEGA DO LEITE&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Este texto faz parte do mais recente livro &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, do escritor e jornalista Jeremias Mac\u00e1rio<\/p>\n<p>T\u00eam coisas do tempo de inf\u00e2ncia que marcam nossas vidas e n\u00e3o saem jamais. Grudam na mem\u00f3ria como n\u00f3doas na roupa. Para brotar da lembran\u00e7a, basta uma conversa de est\u00f3rias e causos entre amigos e a fam\u00edlia. Existem aquelas passagens que se tornam segredos nunca revelados. As que deram momentos de felicidade e prazer s\u00e3o contadas v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o guarda no seu ba\u00fa da vida os causos de menino e menina e as broncas e surras (gera\u00e7\u00e3o mais antiga) que levou dos pais por ter cometido estripulias em casa, na ro\u00e7a ou nas ruas? Pois \u00e9, existem aquelas que n\u00e3o se esquece nunca. Muitas se v\u00e3o e outras ficam na mente, doidas para pularem fora em qualquer ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora mesmo lembro-me daquela \u201cpisa\u201d de chicote que meu pai me deu numa cacimba quando brincava de jogar pedras na \u00e1gua. Era gostoso ver a pedrinha quicando na superf\u00edcie fazendo redemoinhos. Foi numa manh\u00e3 quando fui pegar o leite numa fazenda pr\u00f3xima para minha irm\u00e3zinha que logo cedo acordava chorando de fome. Ao inv\u00e9s de levar o leite, parei no meio do caminho para me divertir no tanque. Deu no que deu!<\/p>\n<p>Meus pais n\u00e3o me contavam nem liam estorinhas infantis de ninar, mesmo porque eram analfabetos e, com seus jeitos rudes da vida dura da ro\u00e7a, n\u00e3o tinham tempo nem sabiam lidar com essas coisas. No entanto, ouvia prosas dos adultos sobre assombra\u00e7\u00f5es, lendas, entidade e mitos a respeito do lobisomem, da mula sem cabe\u00e7a, do marru\u00e1 brabo, do saci e do curupira que perambulavam pelas matas.<\/p>\n<p>Adorava os causos dos coron\u00e9is e dos vaqueiros valentes do sert\u00e3o, mas uma das est\u00f3rias que mais me marcou foi sobre \u201cA Nega do Leite\u201d. At\u00e9 hoje estou l\u00e1 no varandado da minha casa, esperando ela passar por aquela estrada de cascalho, toda tagarela, mas sempre caio no sono e n\u00e3o consigo ver o primeiro raio do amanhecer da madrugada trazendo \u201cA Nega do Leite\u201d.<\/p>\n<p>Quando o feij\u00e3o da ro\u00e7a estava seco, no ponto de ser colhido, meu pai arrancava e empilhava na varanda para depois fazer a debulha no terreiro, \u00e0s vezes, por meio do chamado adjut\u00f3rio em que v\u00e1rias fam\u00edlias ajudavam na tarefa de retirada da palha atrav\u00e9s das batidas de porretes, cadenciadas pelas cantorias tradicionais da terra.<\/p>\n<p>Esse costume herdado dos tempos coloniais \u00e9 outra hist\u00f3ria. O bom mesmo era que eu, minhas irm\u00e3s e outros coleguinhas da vizinhan\u00e7a adoravam brincar de pula-pula e esconder em noites de luar nas pilhas de feij\u00e3o seco. O divertimento s\u00f3 dava certo quando meu pai viajava para fazer servi\u00e7os de carpintaria em outras fazendas. Minha bondosa e santa m\u00e3e n\u00e3o ligava para a zoadeira e sempre ia dormir.<\/p>\n<p>Naquelas algazarras havia sempre uns instantes de paradas para contar est\u00f3rias e hist\u00f3rias de esp\u00edritos do al\u00e9m e pessoas que iam sendo espalhadas de boca em boca pelos mais velhos. Algumas nem eram lendas. Nos livros escolares (eram raros) ou na base da escuta, as crian\u00e7as captavam os enredos e as mais espertas narravam os causos. Todos ficavam atentos para ver o final do personagem.<\/p>\n<p>Um desses causos que mais me marcou foi o da \u201cNega do Leite\u201d que em noite de muito luar passava naquela estrada em frente da nossa casa. Desde longe se ouvia o cantarolar dela, carregando recipientes cheios de leite. Cantava e falava alto sobre hist\u00f3rias de seus antepassados e fatos de pessoas da regi\u00e3o. Era uma rep\u00f3rter da oralidade. Na tradi\u00e7\u00e3o, a origem do nome remete \u00e0 pessoa que fala sem parar.<\/p>\n<p>\u201cA Nega do Leite\u201d, como o pr\u00f3prio nome j\u00e1 diz, conversava muito enquanto distribu\u00eda leite para os mais necessitados, especialmente para as crian\u00e7as e os idosos. Depois de certificar que ela n\u00e3o fazia mal a ningu\u00e9m, naquela noite toda gurizada combinou ficar acordada para ver a \u201cNega do Leite\u201d que sempre passava ao clarear do dia.<\/p>\n<p>O acerto era ningu\u00e9m dormir, s\u00f3 que o cansa\u00e7o do brincar terminou nos colocando nos bra\u00e7os do deus Orfeu e todos ca\u00edram no sono profundo. Fomos despertados de manh\u00e3 cedo pela nossa m\u00e3e que nos repreendia por termos ficado ali expostos a noite toda naquelas pilhas de feij\u00e3o.<\/p>\n<p>Um do grupo, n\u00e3o sei quem, falou que a gente estava ali para conhecer \u00a0\u201cA Nega do Leite\u201d, conversar com ela e pegar um pouco de leite que trazia consigo. Minha m\u00e3e simplesmente riu e respondeu, para frustra\u00e7\u00e3o terr\u00edvel de todos, que \u201cA Nega do Leite\u201d j\u00e1 havia passado na estrada h\u00e1 muito tempo. \u00a0Perdemos a oportunidade de ver a t\u00e3o decantada e folcl\u00f3rica \u201cNega do Leite\u201d. Um culpava o outro por ter dormido.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0Os tempos se foram, mas no meu ju\u00edzo \u201cA Nega do Leite\u201d nunca deixou de existir. Sempre me culpo por ter dormido. Seria o \u00fanico a ter visto ela para contar com orgulho e soberba a hist\u00f3ria para os outros. Hoje imagino que seria como dar um grande furo de reportagem.<\/p>\n<p>Acontece que ainda jovem estudante e morador da Resid\u00eancia Universit\u00e1ria, em Salvador, no Corredor da Vit\u00f3ria, o fato se materializou por diversas vezes, e n\u00e3o foi somente naquela casa que a vi de carne e osso. Troquei muitas id\u00e9ias e consultas com a simp\u00e1tica e irreverente \u201cNega do Leite\u201d.<\/p>\n<p>Como estudante pobre nunca tem dinheiro mesmo e vive sempre na \u201cpinda\u00edba\u201d, naquela \u00e9poca da ditadura (in\u00edcio dos anos 70) uns amigos, depois de uma pequena cotiza\u00e7\u00e3o (merreca mesmo), se reuniam nos finais de semana na Resid\u00eancia para tomar umas cacha\u00e7as brabas misturadas com lim\u00e3o. Para ficar mais chique, d\u00e1vamos o nome daquilo de caipirinha.<\/p>\n<p>Era brincadeira de uma cantoria de desafinados ao som de um viol\u00e3o tocado por um colega. Uma forma de desafogar as m\u00e1goas de quem n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o financeira para curtir uma noitada num bar, num restaurante ou numa festa com uma namorada gostosona. Na roda, rolavam casos da vida, piadas e assuntos sobre mulheres. Era proibido discutir pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na maioria das vezes fic\u00e1vamos ali na fuzarca at\u00e9 o dia amanhecer. Eu, que muitas vezes era obrigado a providenciar a cacha\u00e7a no boteco mais distante que fosse, j\u00e1 que n\u00e3o tinha grana para entrar na \u201cvaquinha\u201d, dizia que \u201cA Nega do Leite\u201d ia passar de madrugada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m conseguia decifrar a charada e me chamavam de maluco. \u00c0quela altura, todos estavam b\u00eabados mesmo e nunca contei a verdadeira origem da est\u00f3ria. S\u00f3 dizia que ia esperar \u201cA Nega do Leite\u201d passar. Aqueles porres de \u201cp\u00e9s rapados\u201d de muita persist\u00eancia para vencer os desafios da vida deixaram saudades.<\/p>\n<p>Na verdade, \u201cA Nega do Leite\u201d era o caminh\u00e3o-ba\u00fa carregado de saquinhos de leite de uma cooperativa de Feira de Santana que ao raiar do dia chegava para abastecer a Resid\u00eancia. Como todos ali estavam \u201cbiritados\u201d e famintos, era um \u201cassalto\u201d e tanto daqueles!<\/p>\n<p>Cada um bebia um saquinho daquele leite e depois ia curtir a cacha\u00e7a em seus beliches de quartos apertados. Como n\u00e3o cont\u00e1vamos com outro alimento mais substancioso e nutritivo, o argumento que prevalecia era que o leite era muito bom para cortar a maldita da ressaca do outro dia. Valia mesmo era a farra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto faz parte do mais recente livro &#8220;ANDAN\u00c7AS&#8221;, do escritor e jornalista Jeremias Mac\u00e1rio T\u00eam coisas do tempo de inf\u00e2ncia que marcam nossas vidas e n\u00e3o saem jamais. Grudam na mem\u00f3ria como n\u00f3doas na roupa. Para brotar da lembran\u00e7a, basta uma conversa de est\u00f3rias e causos entre amigos e a fam\u00edlia. 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