{"id":4792,"date":"2020-07-03T22:19:53","date_gmt":"2020-07-04T01:19:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4792"},"modified":"2020-07-03T22:22:01","modified_gmt":"2020-07-04T01:22:01","slug":"as-tiradas-tiranas-da-ditadura-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/07\/03\/as-tiradas-tiranas-da-ditadura-i\/","title":{"rendered":"AS TIRADAS TIRANAS DA DITADURA (I)"},"content":{"rendered":"<p>Este texto faz parte do livro &#8220;Andan\u00e7as&#8221;, lan\u00e7ado recentemente pelo jornalista e escritor Jeremias Mac\u00e1rio. \u00c9 bom lembrar os fatos para que nunca mais se repitam<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es, levantes, rebeli\u00f5es e golpes est\u00e1 repleta de cita\u00e7\u00f5es e tiradas de l\u00edderes, chefes, comandantes e tiranos que se tornaram imortais. O golpe civil-militar de 1964 no Brasil que se transformou numa ditadura por mais de 20 anos tamb\u00e9m teve seus protagonistas que deixaram suas marcas, algumas ir\u00f4nicas e outras divertidas e tristes.<\/p>\n<p>O presidente Jo\u00e3o Goulart era visto nos c\u00edrculos militares como um c\u00e3o leproso. Brizola era o mais afoito e pressionava o cunhado para decretar reforma j\u00e1. Sob as influ\u00eancias das ideias socialistas, as lideran\u00e7as de esquerda sacudiram os campos e as cidades. As elites burguesas revidavam.O presidente n\u00e3o sabia se atendia a direita ou acomodava a esquerda em seu ninho.<\/p>\n<p>Semanas antes do Com\u00edcio da Central do Brasil (13 de mar\u00e7o), em meio \u00e0s agitadas reformas sociais, centenas de mulheres rezadeiras com seus ter\u00e7os em m\u00e3os impediram Leonel Brizola de realizar um com\u00edcio em Belo Horizonte. Encurralado, Brizola escapou do tumulto e, para fugir de vez da ira das senhoras, sequestrou um carro apontando um rev\u00f3lver para o motorista.<\/p>\n<p>No seu jornal \u201cO Panfleto\u201d, Leonel Brizola, eleito deputado federal pela Guanabara, com 270 mil votos, escrevia que n\u00e3o eram ros\u00e1rios que iam combater as reformas anunciadas no dia 13 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>No Com\u00edcio da Central, quando Jango anunciou as reformas pediu ao seu assessor de cerim\u00f4nia H\u00e9rcules Corr\u00eaa que limitasse o tempo da fala do presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), Jos\u00e9 Serra.<\/p>\n<p>&#8211; Vou te anunciar, voc\u00ea d\u00e1 boa noite, recebe as palmas e encerra, Serra. N\u00e3o foi isso o que aconteceu. No discurso Serra chamou o general Amauri Kruel de traidor incestuoso.<\/p>\n<p>O cabo Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, \u201ccabo Anselmo\u201d, discursou para dois mil marinheiros no dia 25 de mar\u00e7o, no Sindicato dos Metal\u00fargicos (Rio de Janeiro). Os manifestantes declararam insurrei\u00e7\u00e3o. O ministro da Marinha, Silvio Mota pediu para sair. Depois do golpe, o cabo passou dois anos em Cuba. Voltou e foi preso, torturado e cooptado pelo delegado S\u00e9rgio Fleury que o apelidou de \u201cKimble\u201d, do filme \u201cO Fugitivo\u201d. Tempos depois dedurou 73 l\u00edderes da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), em Recife, inclusive sua mulher Soledad.<\/p>\n<p>No dia 28 de mar\u00e7o, o ex-governador de Minas Gerais, Magalh\u00e3es Pinto, o general Carlos Luis Guedes, o marechal Od\u00edlio Denys j\u00e1 tramavam os detalhes do Golpe.<\/p>\n<p>&#8211; Medo, o diabo n\u00e3o tem. Se ele fosse medroso, n\u00e3o chegaria ao que chegamos \u2013 comentou o general Ol\u00edmpio Mour\u00e3o. Dois dias depois queria prender Magalh\u00e3es que num manifesto n\u00e3o pedia a sa\u00edda de Jo\u00e3o Goulart. O general Guedes ignorou a ordem.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do golpe, Tancredo Neves aconselhou Jango a n\u00e3o ir \u00e0 reuni\u00e3o do Autom\u00f3vel Clube. Os generais tramavam impedir o evento. J\u00e1 o general Ernesto Geisel disse: Deixem que se fa\u00e7a a reuni\u00e3o. Agora quanto pior melhor para a nossa causa. Ele, Golbery do Couto e Silva e Castello Branco fizeram a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d por telefone.<\/p>\n<p>Darcy Ribeiro, o chefe da Casa Civil, o homem que tinha mania de ser imperador do Brasil, abriu, no dia 31 de mar\u00e7o, duas caixas cheias de metralhadoras e convocou um grupo de deputados para acabar com a ra\u00e7a dos Udenistas.<\/p>\n<p>&#8211; Doutor Jango, o senhor vai me desculpar, mas se o povo n\u00e3o for para as ruas, n\u00e3o tem governo \u2013 declarou o presidente da CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e da CNTI (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores da Ind\u00fastria) Clodesmidt Riani.<\/p>\n<p>&#8211; Estou negociando com o general Kruel. \u2013 N\u00f3s vamos \u00e9 para a greve \u2013 respondeu o sindicalista. O povo e a Igreja aplaudiram os golpistas.<\/p>\n<p>O general Humberto Alencar Castello Branco, o cearense que sempre rejeitou tomar parte nos golpes (tentou voltar aos quart\u00e9is a tropa de Mour\u00e3o Filho), gostava de poesia e como ir\u00f4nico n\u00e3o era bem visto pelos seus pares.\u201cFuja dos generais intuitivos e emocionais. A hecatombe nunca anda longe deles\u201d.<\/p>\n<p>Foi, no entanto, o primeiro a criar um aparelho clandestino e obedecia a um talCoronel \u201cY\u201d. Mesmo assim, n\u00e3o possu\u00eda a senha do movimento como \u201co beb\u00ea nasceu\u201d ou \u201co trem partiu da esta\u00e7\u00e3o\u201d. Tinha 63 anos, mas eram 66, pois o pai dele roubou tr\u00eas para garantir gratuidade no Col\u00e9gio Militar.<\/p>\n<p>Castello recomendou que Carlos Lacerda, o corvo derrubador de governos, que apoiou o movimento militar, deixasse o Pal\u00e1cio Guanabara.<\/p>\n<p><!--more-->&#8211; Os civis tamb\u00e9m sabem morrer \u2013 retrucou. Para o almirante esquerdista C\u00e2ndido Arag\u00e3o, mandou um recado: \u201cCovarde incestuoso, deixe seus soldados e venha decidir comigo esta parada, de homem para homem. Quero mat\u00e1-lo com meu rev\u00f3lver\u201d. Tr\u00eas anos depois estava com Goulart, em Montevid\u00e9u, no Uruguai, para armar a Frente Ampla, que nunca aconteceu.<\/p>\n<p>Se rompesse com a ala mais radical, ainda dava para salvar o governo \u2013 conversa do general Peri Bevilacqua, chefe do Estado Maior das For\u00e7as Armadas com o presidente Jo\u00e3o Goulart em 31 de mar\u00e7o de 1964.<\/p>\n<p>No meio da prosa interrompeu o ministro da Justi\u00e7a, Abelardo Jurema, com um bilhete: o general Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho revoltou a 4\u00aa Regi\u00e3o Militar de Minas Gerais (Juiz de Fora) e quer sua ren\u00fancia. Do outro lado, os generais Castello Branco, \u201co Sorbonne\u201d, e Costa e Silva, \u201co Grupier\u201d, que nunca se bicaram, conspiravam.<\/p>\n<p>Pelo telefone, Juscelino Kubitschek pediu a Jango que interrompesse a marcha da insensatez. J\u00e1 no Pal\u00e1cio das Laranjeiras, o mesmo JK o aconselhou que fizesse duas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas: uma dirigida \u00e0 Na\u00e7\u00e3o e outra \u00e0s For\u00e7as Armadas. \u201cSe eu fizer isso dou uma demonstra\u00e7\u00e3o de medo, e um homem com medo n\u00e3o pode governar\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; No Brasil, presidente, elege-se pelo povo, mas governa-se com os olhos voltados para as classes armadas \u2013 respondeu Juscelino sentado em sua cama.<\/p>\n<p>Como \u00faltima tentativa, o presidente falou por telefone para o seu compadre general Amauri Kruel, do II Ex\u00e9rcito: \u201cpor que o general n\u00e3o vem ao Rio conferenciar comigo e com os demais comandantes? Creio que arranjaremos as coisas\u201d. O general preferiu passar para a hist\u00f3ria como traidor e vendido.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpio Mour\u00e3o, o lobo solit\u00e1rio ou a vaca fardada da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Popeye\u201d, n\u00e3o tinha bala na agulha, mas desceu a Serra de Juiz de Fora \u00e0s cinco da manh\u00e3 com seus soldados de papel\u00e3o e entrou no Rio de Janeiro sem dar um tiro. Manobra de louco! \u201cEra minha manobra\u201d! Previu todo ex\u00e9rcito ir contra ele como ocorreu em 1932.<\/p>\n<p>Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, atrav\u00e9s de um avi\u00e3o resolveu lan\u00e7ar suas chamas planfet\u00e1rias de apoio ao movimento em Juiz de Fora, enquanto os marinheiros se rebelavam.<\/p>\n<p>O ministro da Aeron\u00e1utica, An\u00edsio Botelho sugeriu jogar napalm nos recrutas de Mour\u00e3o parados no meio do caminho, enquanto o general tirava uma soneca. \u201cVai queimar gente? De jeito nenhum\u201d \u2013 recuou Goulart.<\/p>\n<p>Costa e Silva passou a rasteira e se autodenominou Comandante Supremo da Revolu\u00e7\u00e3o. Disse que era o general mais velho e, por isso, tinha direito. Mour\u00e3o teve que engolir tudo, mas, mesmo assim queria o comando do I Ex\u00e9rcito. Costa e Silva indicou outro nome e Mour\u00e3o saiu espumando de raiva do Quartel General.<\/p>\n<p>&#8211; Come\u00e7ou a\u00ed a desgra\u00e7a do Brasil. Eu tirara a Na\u00e7\u00e3o do abismo e empurrara para outro. Se eu conhecesse Costa e Silva, \u201co Grupier\u201d, como hoje o teria expulsado do Quartel General. Em mat\u00e9ria de pol\u00edtica eu sou uma vaca fardada \u2013 escreveu Mour\u00e3o tempos depois para o historiador H\u00e9lio Silva.<\/p>\n<p>&#8211; Esta revolu\u00e7\u00e3o vem atrasada em um ano \u2013 retrucou o ex-governador de S\u00e3o Paulo, no Pal\u00e1cio dos Campos El\u00edsios, Adhemar de Barros, o rouba, mas faz, cassado dois anos depois do golpe. Na marcha do meio milh\u00e3o pela liberdade, uma faixa tremulava: \u201dVerde e Amarelo, sem Foice e Martelo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto faz parte do livro &#8220;Andan\u00e7as&#8221;, lan\u00e7ado recentemente pelo jornalista e escritor Jeremias Mac\u00e1rio. \u00c9 bom lembrar os fatos para que nunca mais se repitam A hist\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es, levantes, rebeli\u00f5es e golpes est\u00e1 repleta de cita\u00e7\u00f5es e tiradas de l\u00edderes, chefes, comandantes e tiranos que se tornaram imortais. 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