{"id":4735,"date":"2020-06-15T22:24:19","date_gmt":"2020-06-16T01:24:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4735"},"modified":"2020-06-15T22:24:31","modified_gmt":"2020-06-16T01:24:31","slug":"ciganos-no-brasil-uma-breve-historia-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/06\/15\/ciganos-no-brasil-uma-breve-historia-ii\/","title":{"rendered":"&#8220;CIGANOS NO BRASIL &#8211; UMA BREVE HIST\u00d3RIA (II)"},"content":{"rendered":"<p>A lembran\u00e7a que tenho quando ainda era menino sobre os bandos de ciganos pelas estradas a vagar foi de meu pai com um fac\u00e3o em riste a bradar no milharal contra aquela gente diferente que estava a colher espigas de milho na maior algazarra. Meu pai, depois de dar muito duro nas planta\u00e7\u00f5es, chamava-os de \u201cladr\u00f5es\u201d e \u201cvagabundos\u201d e os escorra\u00e7ava da ro\u00e7a aos gritos. Eles o xingavam de \u201cgaj\u00e3o\u201d usur\u00e1rio.<\/p>\n<p>Sempre ficou em minha mente a imagem de um povo errante, e que todos nas redondezas temiam sua passagem por aquelas bandas, e uns avisavam os outros quando eles estavam vindo, como forma de ficarem atentos e impedir suas investidas. Homens, mulheres e crian\u00e7as se arrastavam com cavalos e mulas carregadas com badulaques. Aquelas cenas me fascinavam, e mais tarde me despertaram a curiosidade de conhec\u00ea-los melhor.<\/p>\n<p>De um povo trapaceiro<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo sempre foi de um povo trapaceiro que agia como ladr\u00f5es, adivinhos do futuro, que vivia de lugar em lugar armando e levantando suas tendas \u00e0 beira das estradas e fazendas. Na verdade, o que havia era muito preconceito da sociedade e vis\u00e3o errada contra uma na\u00e7\u00e3o que sempre viveu em correrias pelo mundo porque adotou suas pr\u00f3prias regras e modos de sobreviv\u00eancia, e s\u00f3 quer ter o direito de ir e vir, sem serem perseguidos.<\/p>\n<p>Com a leitura de \u201cCiganos no Brasil \u2013 uma breve hist\u00f3ria\u201d, de Rodrigo Correia Teixeira, passei a ter um outro conceito dos ciganos, diferente do estigma que sempre carregaram por causa de uma sociedade tida civilizat\u00f3ria que n\u00e3o aceita a diferen\u00e7a, achando que existe um padr\u00e3o \u00fanico de vida. No primeiro coment\u00e1rio, falamos de suas origens, grupos e como chegaram ao Brasil trazidos como cargas de Portugal.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas anti-ciganas portuguesas<\/p>\n<p>Rodrigo Teixeira prossegue em sua pesquisa descrevendo que as persegui\u00e7\u00f5es aos ciganos portugueses se acentuaram a partir do reinado de D. Jo\u00e3o V, de 1706 a 1750, quando centenas foram degredados para as col\u00f4nias ultramarinas, inclusive o Brasil. A deporta\u00e7\u00e3o continuou at\u00e9 final do s\u00e9culo XVIII. De 1780 a 1786 foram enviados grupos de 400 ciganos anualmente para o Brasil. \u00a0\u00c9 at\u00e9 imposs\u00edvel determinar quantos vieram para aqui. No entanto, segundo Teixeira, os primeiros que aportaram ao Brasil eram portugueses e n\u00e3o embarcaram voluntariamente.<\/p>\n<p>Foi o que ocorreu com Jo\u00e3o de Torres e sua mulher Angelina, s\u00f3 pelo fato de serem ciganos. Insinua o autor que ele deve ter pago um suborno porque sua pena foi mudada para cinco anos no Brasil. N\u00e3o se tem certeza se ele embarcou, ou quanto tempo ficou aqui. De acordo com o historiador, com base em documentos, a deporta\u00e7\u00e3o mesmo para valer come\u00e7ou a partir de 1685, e que eles deveriam ir para o Maranh\u00e3o (antes iam para as col\u00f4nias africanas).<\/p>\n<p>Teixeira cita o pesquisador Donavan, destacando que uma forma de D. Jo\u00e3o V expor publicamente sua determina\u00e7\u00e3o era ordenar a deporta\u00e7\u00e3o de uma pequena quantidade, em torno de 50 homens, 40 mulheres e 43 crian\u00e7as presos em Limoeiro. Tudo indica que uma parte foi para a Capitania de Pernambuco, outra para o Cear\u00e1 e outra para Angola. A ordem era que n\u00e3o deixassem retornar para Portugal.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara de Olinda remeteu depois uma carta ao rei, comunicando que eles viviam espalhados pela capitania cometendo toda sorte de crimes, principalmente de furtos e assassinatos. A c\u00e2mara pedia que eles fossem para o Cear\u00e1. Tamb\u00e9m, em 1718, consta que muitas fam\u00edlias foram enviadas para a Bahia \u201cpor causa do escandaloso procedimento no reinado\u201d. A primeira capital colonial tornou-se uma das mais importantes cidades para os ciganos do Brasil. Em Salvador, tudo indica que foram alojados nos bairros da Mouraria e Santo Ant\u00f4nio d\u00b4Al\u00e9m do Carmo.<\/p>\n<p>Inquisi\u00e7\u00e3o do Santo Of\u00edcio e em Minas<\/p>\n<p>Historiadores apontam ainda a presen\u00e7a de ciganos nas Minas de Ouro em fins do s\u00e9culo XVII, na busca do metal, e tamb\u00e9m por ser um lugar dif\u00edcil para a inquisi\u00e7\u00e3o do Santo Of\u00edcio. Augusto de Lima J\u00fanior relata que houve grande escassez de alimentos em Ouro Preto por volta de 1700. No ambiente de desespero, negros escravos e bandos de ciganos armados saltearam vivos e saquearam os mortos. Jo\u00e3o Dornas Filho diz que eles chegaram a Minas atrav\u00e9s do Rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>No entanto, o estudioso do livro, afirma que foi somente a partir de 1718 que v\u00e1rias fam\u00edlias de ciganos foram para Minas. A presen\u00e7a deles \u00e9 registrada desde in\u00edcio dom s\u00e9culo XVIII, o que contrariava as inten\u00e7\u00f5es da coroa portuguesa que ordenou que fossem remetidos para o Rio de Janeiro de onde ent\u00e3o seriam mandados para Angola. O documento os chamava de \u201cladr\u00f5es salteadores\u201d. A ordem se estendia a quem os hospedassem em suas casas ou fazendas. No entanto, o governador de Minas advertia que as queixas eram somente por serem ciganos. Dornas Filho acrescenta narra\u00e7\u00f5es, sem fontes, sobre a a\u00e7\u00e3o de salteadores na Serra da Mantiqueira.<\/p>\n<p>O que conta o autor da obra \u00e9 que, aproveitando da fama, bandidos se faziam passar por ciganos, usando seus nomes e at\u00e9 agindo pr\u00f3ximo onde eles se acampavam. Consta que, em 1726, em S\u00e3o Paulo, foram solicitadas medidas contra os ciganos. A pol\u00edtica era que eles se mantivessem em movimento. \u201cMinas Gerais expulsa seus ciganos para S\u00e3o Paulo, que os expulsa para o Rio de Janeiro, que os expulsa para Esp\u00edrito Santo e de l\u00e1 para a Bahia, que manda novamente para Minas Gerais\u201d e voltam para a Bahia.<\/p>\n<p>Entregues aos mestres<\/p>\n<p>As ordens judiciais determinavam que os rapazes de pequena idade fossem entregues aos mestres, para aprenderem algum of\u00edcio e artes mec\u00e2nicas. Quanto aos adultos, que assentassem pra\u00e7a de soldados, ou trabalhassem em obras p\u00fablicas, proibindo o com\u00e9rcio de bestas e escravos, de modo que n\u00e3o ficassem juntos por muito tempo e vivessem em bairros separados. As mulheres deviam ficar recolhidas, ocupando os mesmos afazeres que usam as do pa\u00eds. Quem transgredisse as leis deveriam ser degredados por toda vida para a ilha de S\u00e3o Tom\u00e9, ou do Pr\u00edncipe<\/p>\n<p><!--more--> Teixeira critica Oliveira China como preconceituoso em seus coment\u00e1rios sobre os ciganos. Para China, se os ciganos vendiam escravos, estes s\u00f3 podiam ser roubados, da mesma forma que qualquer cavalo comercializado por um cigano. \u201cNunca algu\u00e9m pensa que estes cavalos ou escravos podem ter sido adquiridos honestamente.<\/p>\n<p>Muitos falavam que bandos arrendavam terrenos e fazendas, mas o autor da obra acha isso estranho devido suas vidas de nomadismo, ou podia ser uma estrat\u00e9gia para, longe dos olhos dos portugueses, terem pontos de apoio para continuarem unidos em sua antiga vida de comerciantes de animais, escravos e produtos artesanais.<\/p>\n<p>Rodrigo Teixeira cita Pereira da Costa que se refere a ciganos que ganhavam seu sustento honestamente. Segundo Costa, os ciganos andavam em bandos numerosos, e aqueles que n\u00e3o se metiam em pilhagens e em certos neg\u00f3cios, se dedicavam ao trabalho de caldeireiros ambulantes. Onde chegavam levantavam suas tendas e sa\u00edam \u00e0 procura de trabalho, como consertos de objetos de lat\u00e3o e cobre. As mulheres, astutas e loquazes iam pedir esmolas e liam a \u201cbuena dicha\u201d pelas linhas das m\u00e3os.<\/p>\n<p>A maior aceita\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica da comunidade cigana, ao menos no Rio de Janeiro, se deu durante a perman\u00eancia da Corte Portuguesa no Brasil. Esse povo vivia em pleno florescimento econ\u00f4mico e art\u00edstico. Muitos tiveram o of\u00edcio de meirinho como atra\u00e7\u00e3o. Houve \u00e9poca em que quase todos os oficiais de justi\u00e7a do f\u00f3rum do Rio de Janeiro eram ciganos, de tez morena bronzeada e os olhos gar\u00e7os.<\/p>\n<p>O linguista Raul Pederneiras relata que \u201ctivemos aqui um quarteir\u00e3o habitado por ciganos, quando eu era estudante do D. Pedro II. A rua principal era da Constitui\u00e7\u00e3o, que o povo denominava de Rua dos Ciganos\u201d. Entre os comerciantes de escravos, um tal de Jos\u00e9 Rabelo foi o que mais se destacou. Contam que ele morava em casa pr\u00f3pria no Campo de Santana (Pra\u00e7a da Rep\u00fablica), que virou um bairro bo\u00eamio de vida noturna alegre. Ali foi cen\u00e1rio para as divertidas noites do pr\u00edncipe. Mais para o Rocio vivia um casal de artistas famosos, Jo\u00e3o Evangelista da Costa e a Ludovina.<\/p>\n<p>Diz a lenda que Rabelo guardava boa parte da fortuna em barras de ouro no forro da resid\u00eancia. Tamanho o peso que ele teve que escorar o teto com colunas de ferro. Rabelo, que chegou a ganhar patente de sargento-mor do 3\u00ba regimento de mil\u00edcias da corte, com certeza aplicava seu dinheiro em opera\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias. Mesmo ricos, ainda eram considerados ladr\u00f5es e trapaceiros. Chamar um homem cigano de z\u00edngaro \u00e9 o mesmo de velhaco.<\/p>\n<p>Ressalta o autor que o mesmo Jos\u00e9 Rabelo, ou Joaquim Ant\u00f4nio Rabelo patrocinava dan\u00e7as e homenagens ciganas por ocasi\u00e3o dos despos\u00f3rios de D. Pedro I com a princesa Leopoldina, em 1813. Os ciganos tamb\u00e9m participaram das festividades de casamento da princesa da Beira, filha mais velha de D. Jo\u00e3o VI, com o infante da Espanha, em 1810, dan\u00e7ando o fandango espanhol em que os homens entravam na pra\u00e7a a cavalo com as mulheres na garupa.<\/p>\n<p>Ao Campo dos Ciganos<\/p>\n<p>Testemunhos da \u00e9poca narram que, quando se comemorou a eleva\u00e7\u00e3o do Brasil a Reino de Portugal, em 1815, D. Jo\u00e3o VI levou a corte inteira e a delega\u00e7\u00e3o estrangeira ao Campo dos Ciganos para uma tarde e noite de dan\u00e7as. Em 1918, os ciganos, homens e mulheres, foram novamente convidados pelo pr\u00edncipe D. Pedro I, para apresenta\u00e7\u00e3o de suas dan\u00e7as e m\u00fasicas. Tudo quanto exibiram de ornato era veludo e ouro. Era o oposto do av\u00f4 D. Jo\u00e3o V que acorrentou v\u00e1rias fam\u00edlias e as enviou para o Brasil.<\/p>\n<p>Depois da independ\u00eancia, aflu\u00edram para o Brasil v\u00e1rios naturalistas, visando pesquisar a flora e a fauna, mas passaram a se interessar pela popula\u00e7\u00e3o. O discurso cient\u00edfico, ao conceito de ser nacional, teve seu marco no ano de 1838, quando foi criado o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XIX, o Imp\u00e9rio elegeu o ind\u00edgena como s\u00edmbolo, introduzindo o discurso de que a miscigena\u00e7\u00e3o entre branco, negro e \u00edndio promoveria o patriotismo e consolidaria a na\u00e7\u00e3o. Com isso, a presen\u00e7a dos ciganos na composi\u00e7\u00e3o foi omitida. Eles foram colocados \u00e0 margem da chamada \u201cboa sociedade. O que veio depois, foi uma s\u00e9rie de medidas repressivas, fechando o cerco contra os ciganos.<\/p>\n<p>Em um de seus cap\u00edtulos, Rodrigo Teixeira descreve a situa\u00e7\u00e3o dos ciganos no Brasil no s\u00e9culo XIX, quando os grupos mais sedent\u00e1rios estavam na Bahia e no Rio de Janeiro, ou seja, nos dois portos mar\u00edtimos mais importantes da \u00e9poca. Pesquisadores estimam que existiam, no m\u00ednimo, quatro a sete mil ciganos no Brasil nas d\u00e9cadas precedendo a independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Dentre os bandos, falam que existia um velho cigano descendente de outros vindos de Portugal, em 1718. Logo que desembarcaram no Rio de Janeiro alojaram-se em barracas no Campo dos Ciganos, enorme pra\u00e7a que se estendia da Rua do Cano at\u00e9 a Barreira do Senado. Trabalhavam com metais como caldeireiros, ferreiros, latoeiros e ourives. As mulheres rezavam de quebranto e liam a sina.<\/p>\n<p>Muitos se vestiam como brasileiros, mas usavam cabelos e barbas cumpridas. Possu\u00edam escravos, cavalos e cargueiros. Saint Hilaire, em 1819, fala desse grupo, em Urussanga (S\u00e3o Paulo) que passou o dia todo tentando fazer barganha com tropeiros. Em tom de ca\u00e7oada, falei daquilo de que s\u00e3o acusados (trapaceiros). Um deles respondeu que todos que negociam com eles procuram fazer o mesmo. \u201cA \u00fanica diferen\u00e7a que entre n\u00f3s existe \u00e9 que esta gente solta grandes berros quando se v\u00ea lograda, e eu quando me ludibriam nada digo a quem quer que seja\u201d.<\/p>\n<p>O preconceituoso viajante franc\u00eas Freycinet diz que eles s\u00e3o ociosos, falsos e mentirosos, e que furtam quando podem ao comerciarem. Chega a cham\u00e1-los de sutis contrabandistas. Com a fam\u00edlia real, em 1808, vieram tamb\u00e9m milhares de portugueses e poucos prestavam para alguma coisa. Eram fidalgos e vadios, segundo historiadores. Aos primeiros, mandou-se dar pens\u00f5es do tesouro. Os segundo foram empregados nas reparti\u00e7\u00f5es que se criaram para esse fim. Tudo indica que entre esses vadios encontravam-se ciganos, contemplados com cargos vital\u00edcios e heredit\u00e1rios de oficial de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a atividade econ\u00f4mica principal dos ciganos parece ter sido o com\u00e9rcio ambulante, de animais, escravos, ou objetos viajando pelos sert\u00f5es. O viajante ingl\u00eas Henry Koster, que esteve em Pernambuco, cita que bandos de ciganos tinham o h\u00e1bito de aparecer, uma vez por ano, na aldeia de Pasmado e em outras paragens do Nordeste. \u201cV\u00e3o errando, de lugar em lugar, em grupos de homens, mulheres e crian\u00e7as, permutando, comprando e vendendo cavalos e ninharias de ouro e prata. As mulheres viajam a cavalo sentadas entre os cestos dos animais e os meninos s\u00e3o postos dentro deles. \u00c9 sabido que jamais casam foram da sua na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, o autor faz uma ressalva de que Koster morou durante anos no litoral pernambucano e fez viagens para o interior, mas, mesmo assim, confessou nunca ter tido contato pessoal com ciganos, o que faz supor que eles n\u00e3o viviam mais nesse litoral nordestino, e que os ciganos eram raros no interior, ou talvez nem existissem por causa das persegui\u00e7\u00f5es constantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lembran\u00e7a que tenho quando ainda era menino sobre os bandos de ciganos pelas estradas a vagar foi de meu pai com um fac\u00e3o em riste a bradar no milharal contra aquela gente diferente que estava a colher espigas de milho na maior algazarra. 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