{"id":4720,"date":"2020-06-10T00:49:47","date_gmt":"2020-06-10T03:49:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4720"},"modified":"2020-06-10T00:49:58","modified_gmt":"2020-06-10T03:49:58","slug":"ciganos-no-brasil-uma-breve-historia-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/06\/10\/ciganos-no-brasil-uma-breve-historia-i\/","title":{"rendered":"&#8220;CIGANOS NO BRASIL &#8211; UMA BREVE HIST\u00d3RIA&#8221; (I)"},"content":{"rendered":"<p>O autor da obra, Rodrigo Correia Teixeira, desmistifica o estigma da vis\u00e3o estereotipada dos ciganos como sujos, embusteiros, baderneiros, trapaceiros e pregui\u00e7osos. Eram v\u00edtimas de uma sociedade segregacionista. Nascer cigano era ter seu destino marcado do lado oposto da \u201cboa sociedade\u201d. Sempre foram prejulgados, inclusive por crimes n\u00e3o cometidos, como de ladr\u00f5es, assassinos, salteadores e at\u00e9 sequestradores de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Perseguidos por D. Jo\u00e3o V, de Portugal, muitas das vezes condenados injustamente, eram embarcados para o Brasil Col\u00f4nia, mas at\u00e9 certo ponto bem aceitos na corte de D. Jo\u00e3o VI e no primeiro Imp\u00e9rio, como artistas dan\u00e7arinos, m\u00fasicos e circenses. Muitos ficaram ricos como negociantes de escravos, mas suas atividades mais fortes eram no ramo do com\u00e9rcio de cavalos, bestas e a pr\u00e1tica da \u201cbuena dicha\u201d (leitura das m\u00e3os), no caso das mulheres.<\/p>\n<p>Caminhos in\u00f3spitos e as correrias<\/p>\n<p>Afirma o escritor, na conclus\u00e3o do seu livro, que, \u201ccomo n\u00f4mades ou sedentarizados, perambulavam por caminhos in\u00f3spitos, acampavam em \u00e1reas pouco prop\u00edcias e se estabeleciam em espa\u00e7os insalubres nas cidades\u201d, como \u00e9 o caso do Campo de Santana, ou Rua dos Ciganos (Constitui\u00e7\u00e3o \u2013 Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, no Rio de Janeiro).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_0361.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4721\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_0361.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_0361.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_0361-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Destaca que \u201ca sobreviv\u00eancia foi a realiza\u00e7\u00e3o mais duradoura, o grande evento da hist\u00f3ria cigana\u201d. Ele cita Angus Fraser, como maior historiador sobre o assunto, quando diz que, quando se consideram as vicissitudes que eles encontraram, deve-se concluir que a sua principal fa\u00e7anha foi a de ter sobrevivido\u201d. Teixeira acrescenta que \u201co universo cigano, mais que de duplicidade, \u00e9 repleto de multiplicidades, entre as quais est\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es com os n\u00e3o-ciganos, as identidades dos grupos e as imagens que se formaram dos ciganos\u201d.<\/p>\n<p>Fraser critica os que fizeram hist\u00f3ria para destruir a diversidade cigana. \u201cEram vistos como de natureza perigosa, uma encarna\u00e7\u00e3o da imoralidade\u201d. J\u00e1 o autor, que viajou em sua pesquisa desde o Brasil Col\u00f4nia ao s\u00e9culo XIX, declara que o discurso oitocentista projetava uma sociedade sem conflito e sem mudan\u00e7a cultural que n\u00e3o fosse o progresso de cria\u00e7\u00e3o do \u201cser brasileiro\u201d, como estrat\u00e9gia para o controle da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo diante de tantas discrimina\u00e7\u00f5es, segundo o escritor, eles se adaptaram, penetrando nas lacunas que a economia criava, como grande trunfo. A solu\u00e7\u00e3o das autoridades pol\u00edticas, atrav\u00e9s das posturas municipais, era expulsar os bandos de ciganos de uma cidade para outra, de prov\u00edncia em prov\u00edncia, como ocorria entre Bahia e Minas Gerais e vice-versa. Na verdade, eles viviam em correrias. As municipalidades usavam seus c\u00f3digos de posturas e, uma vez burlados, partia-se para a viol\u00eancia e persegui\u00e7\u00e3o dos bandos, provocando p\u00e2nicos. Assim surgiram as correrias, com sangramentos e tiroteios.<\/p>\n<p>Sobre suas origens<\/p>\n<p>O estudo de Rodrigo Teixeira \u00e9 uma vers\u00e3o modificada da sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em Hist\u00f3ria \u201cCorrerias de ciganos pelo territ\u00f3rio mineiro (1808-1903)\u201d, defendida em 1998 na Fafich\/UFMG. De acordo com ele, n\u00e3o existe uma precis\u00e3o sobre as origens dessa gente. Dizem terem vindo da \u00c1sia onde os atos de trapa\u00e7arias e malandragens n\u00e3o eram considerados crimes.<\/p>\n<p>Esse povo terminou penetrando na Europa Central e nos Balc\u00e3s com a denomina\u00e7\u00e3o de Rom (majorit\u00e1rios), de Romani (portadores da verdadeira l\u00edngua cigana), ou Roma no plural. O Rom \u00e9 subdividido em natsia (na\u00e7\u00e3o), Kalderash (mais aut\u00eanticos e nobres), Matchuara, Lovara e Tchurara. Alguns estudiosos consideram esse grupo como verdadeiros ciganos. Existiam ainda os Macwaia, mais sedent\u00e1rios. Os Rudari, provenientes da Rom\u00eania onde muitos foram escravos.<\/p>\n<p>O grupo \u00e9 dos Senti (Manouch), expressivos na Alemanha, It\u00e1lia e Fran\u00e7a. Vieram para o Brasil no final do s\u00e9culo XIX. Os Calon, de l\u00edngua Cal\u00f3, s\u00e3o origin\u00e1rios da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica (Espanha e Portugal) e migaram para pa\u00edses europeus e das Am\u00e9ricas. Muitos deles eram fabricantes e consertadores de caldeiras, alambiques e outros utens\u00edlios de cobre, zinco e lat\u00e3o, mas o forte era o neg\u00f3cio de cavalos e bestas, bem como outras bugigangas, ouro e bijuterias. Chegaram ao Brasil deportados de Portugal desde o s\u00e9culo XVI. Todos eles foram perseguidos por serem diferenciados da sociedade e viverem livres das normas impostas pela sociedade.<\/p>\n<p>Degredados de Portugal e como imigrantes<\/p>\n<p>No reinado de D. Jo\u00e3o V, de Portugal, milhares de calons presos e acusados por crimes (muitos n\u00e3o cometidos) foram for\u00e7ados a virem para o Brasil e col\u00f4nias portuguesas africanas, como Angola e Mo\u00e7ambique. Espertos, muitos driblaram as ordens de irem para \u00c1frica e entraram em navios com destino ao Brasil. J\u00e1 os Rom chegaram em nosso pais no final do s\u00e9culo XIX, misturados com os imigrantes italianos, poloneses, alem\u00e3es e at\u00e9 russos. Aqui eles arrumavam um jeito de se confundir como imigrantes e at\u00e9 mudavam seus nomes.<\/p>\n<p>\u201cCada cigano tem uma forte identifica\u00e7\u00e3o com seu grupo familiar, ou com as fam\u00edlias que t\u00eam o mesmo of\u00edcio\u201d. Para o autor, \u201ccada cigano \u00e9 portador de um conjunto singular de elementos dessa identidade, embora n\u00e3o haja uma no\u00e7\u00e3o de individualidade tal como no mundo ocidental\u201d. Tais diferen\u00e7as n\u00e3o impediam que houvesse solidariedade, um fator de fortalecimento. \u00c9 dif\u00edcil calcular a popula\u00e7\u00e3o de ciganos brasileiros. Conforme dados oficiais, de 1819 a 1959, migraram para o Brasil 5,3 milh\u00f5es de europeus. No desembarque registrava-se apenas a nacionalidade do imigrante.<\/p>\n<p>\u201cAmaldi\u00e7oados\u201d<\/p>\n<p>Historiadores apontam tamb\u00e9m os ciganos como de origem grega, e at\u00e9 eles pr\u00f3prios falavam ter vindos do Egito e do Oriente M\u00e9dio. Quanto ao aspecto de serem tipicamente n\u00f4mades, os ciganos chegam a contar um tipo de lenda de que foram amaldi\u00e7oados a andarem perdidos pelo mundo porque um bando n\u00e3o acolheu Maria, Jos\u00e9 e o menino Jesus em suas tendas quando a Fam\u00edlia Sagrada fugia para o Egito.<\/p>\n<p>Em termos de comportamento e posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, os ciganos est\u00e3o mais para anarquistas pelo pr\u00f3prio desregramento contra as leis, e por terem seus pr\u00f3prios h\u00e1bitos e costumes. Para a Igreja Cat\u00f3lica, eles s\u00e3o pag\u00e3os e vivem em concubinato porque adotam seus rituais nos casamentos e nos sepultamentos de seus irm\u00e3os. As rela\u00e7\u00f5es deles com a sociedade nunca foram tranquilas, conforme relata o autor da obra \u201cCiganos no Brasil\u201d.<\/p>\n<p><!--more-->Em sua pesquisa, o autor revela que a documenta\u00e7\u00e3o conhecida indica que sua hist\u00f3ria no Brasil se iniciou em 1574, quando o cigano Jo\u00e3o Torres, sua mulher e filhos foram degredados para este pa\u00eds. Em Minas Gerais, sua presen\u00e7a \u00e9 mais notada a partir de 1718, quando chegam da Bahia para onde eles haviam sido enviados de Portugal. No s\u00e9culo XIX, s\u00f3 se falava de ciganos quando suas presen\u00e7as inquietavam as autoridades, com acusa\u00e7\u00f5es de roubar cavalos. Os chefes de pol\u00edcia os viam como perturbadores da ordem. Outros recorriam aos estere\u00f3tipos mais comuns como \u201csujos\u201d, \u201ctrapaceiros\u201d e \u201cladr\u00f5es, Eram sin\u00f4nimos de barb\u00e1rie, desonestidade e imoralidade.<\/p>\n<p>Confrontos com a pol\u00edcia<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX, \u201cocorreu o \u00e1pice dos confrontos entre a pol\u00edcia e os ciganos\u201d. Foram os chamados tempos das \u201ccorrerias de ciganos\u201d, empurrados de um lugar para o outro. Rodrigo Teixeira cita o Padre Raphael Bluteau, autor do primeiro dicion\u00e1rio da l\u00edngua portuguesa, editado em Portugal, o que nos d\u00e1 uma n\u00edtida compreens\u00e3o das preocupa\u00e7\u00f5es da Igreja quanto ao comportamento herege dos ciganos no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Para o Padre, ciganos eram nomes dados a uns homens vagabundos e embusteiros que se fingem naturais do Egito e obrigados a peregrinar pelo mundo porque se recusaram a agasalhar o Divino Infante. Um s\u00e9culo depois de sua publica\u00e7\u00e3o, o dicion\u00e1rio passou a ser editado sobre a dire\u00e7\u00e3o do brasileiro Ant\u00f4nio de Moraes Filho, que define ciganos com gente vagabunda, que diz ter vindo do Egito, conhecedores do futuro pelas raias, ou linhas da m\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Corte do Rio<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, segundo o escritor do livro, proporcionou a ascens\u00e3o socioecon\u00f4mica dos ciganos, principalmente dos comerciantes de escravos de segunda m\u00e3o. Em Minas Gerais, tiveram seus momentos de expans\u00e3o nesse tipo de com\u00e9rcio, mas n\u00e3o tiveram o prest\u00edgio e riqueza dos seus cong\u00eaneres cariocas.<\/p>\n<p>Em 1798, a popula\u00e7\u00e3o escrava representava 48,7% do total populacional. Isso d\u00e1 uma ideia da import\u00e2ncia do mercado. No Rio, os ciganos se estabeleceram no Campo de Santana. Eles perceberam que o com\u00e9rcio de escravos de segunda m\u00e3o para planteis menores n\u00e3o atraia os grandes comerciantes, preocupados apenas com as importa\u00e7\u00f5es. Eles entraram justamente nesta brecha da revenda, o que significa que tinham vis\u00e3o empreendedora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos mercados da Rua do Valongo, os ciganos vendiam os escravos por v\u00e1rias partes do interior do pa\u00eds, especialmente em Minas Gerais, o que proporcionou uma valoriza\u00e7\u00e3o social para sua gente, j\u00e1 que exerciam uma atividade reconhecida como \u00fatil. Alguns deles tornaram pessoas ilustres, patrocinando festividades na Corte. Esse momento, na \u00f3tica do autor, coincidiu com a ascens\u00e3o do movimento rom\u00e2ntico na Europa que refletia aqui a vis\u00e3o de que o cigano era a encarna\u00e7\u00e3o dos ideais da vida livre e integrada \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>Momentos de queda<\/p>\n<p>Em fins da d\u00e9cada de 1820, esse momento de prest\u00edgio para os ciganos come\u00e7ou a ruir com os movimentos pol\u00edticos pela independ\u00eancia. Somaram a isso os golpes contra o escravismo, como 1850 (fim do tr\u00e1fico internacional), 1871(ventre livre) e aboli\u00e7\u00e3o em 1888. Surgiram tamb\u00e9m as ideias de moderniza\u00e7\u00e3o e civiliza\u00e7\u00e3o dos costumes junto \u00e0s elites brasileiras, que pretenderam estabelecer o reordenamento f\u00edsico das cidades (higieniza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o de indiv\u00edduos dos centros urbanos que estivessem fora da ordem).<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, come\u00e7ou a repress\u00e3o \u00e0s popula\u00e7\u00f5es marginalizadas, entre elas os ciganos, vistos como amea\u00e7as. A expuls\u00e3o deles das cidades passa a integrar o projeto \u201ccivilizador\u201d das autoridades imperiais. O com\u00e9rcio escravista foi debilitado, e os ciganos, ent\u00e3o, come\u00e7aram a focar nas transa\u00e7\u00f5es de cavalos e mulas. Em 1972, a popula\u00e7\u00e3o escrava era apenas 15,2% do total. Depois da aboli\u00e7\u00e3o, eles se tornaram miser\u00e1veis e tiveram que se virar para sobreviver.<\/p>\n<p>Entre o per\u00edodo Imperial e a Rep\u00fablica, ocorreram in\u00fameras dilig\u00eancias policiais no encal\u00e7o de bandos de ciganos em Minas Gerais, resultando em sangrentos confrontos. Os anos de maiores persegui\u00e7\u00f5es relatadas pela imprensa e ocorr\u00eancias policiais foram 1892 e 1897, bem como 1909, 1912, 1916 e 1917.<\/p>\n<p>Assinala o autor que, desde o s\u00e9culo XV a palavra \u201ccigano\u201d \u00e9 utilizada como insulto. O termo aparece pela primeira vez em \u201cA Farsa das Ciganas\u201d, de Gil Vicente, em 1521. Nessa pe\u00e7a, eles aparecem como origin\u00e1rios da Gr\u00e9cia. Outra vers\u00e3o na Europa foi de que eles vieram do subcontinente indiano. No Brasil, muitos se diziam descendentes dos antigos eg\u00edpcios.<\/p>\n<p>Algumas vezes s\u00e3o chamados de turcos, como no \u201cO Pharol\u201d, de Juiz de Fora, classificados como pedintes mendigos e pessoas desconhecidas e suspeitas. S\u00f3 porque realizavam trocas e compras de animais, as mercadorias eram relacionadas como roubadas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O autor da obra, Rodrigo Correia Teixeira, desmistifica o estigma da vis\u00e3o estereotipada dos ciganos como sujos, embusteiros, baderneiros, trapaceiros e pregui\u00e7osos. Eram v\u00edtimas de uma sociedade segregacionista. Nascer cigano era ter seu destino marcado do lado oposto da \u201cboa sociedade\u201d. 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