{"id":4661,"date":"2020-05-15T22:34:10","date_gmt":"2020-05-16T01:34:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4661"},"modified":"2020-05-15T22:34:26","modified_gmt":"2020-05-16T01:34:26","slug":"a-vida-secreta-de-fidel-as-revelacoes-de-seu-guarda-costas-pessoal-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/05\/15\/a-vida-secreta-de-fidel-as-revelacoes-de-seu-guarda-costas-pessoal-i\/","title":{"rendered":"&#8220;A VIDA SECRETA DE FIDEL &#8211; AS REVELA\u00c7\u00d5ES DE SEU GUARDA-COSTAS PESSOAL&#8221; (I)"},"content":{"rendered":"<p>Ao estilo tir\u00e2nico estalinista, Fidel Castro entrou triunfal, em Havana, em primeiro de janeiro de 1959. Assumiu o poder com m\u00e3o de ferro e sempre eliminava qualquer um que atravessasse seu caminho, por mais pr\u00f3ximo que fosse. Apropriou-se de muitos im\u00f3veis, casas de luxo, de uma ilha, iates e outros bens do Estado para viver suas mordomias.<\/p>\n<p>Uma revista norte-americana citava ele como dono de uma das maiores fortunas do mundo. Sempre negou, mas ostentava vida de um rico milion\u00e1rio, cercado de mulheres (machista) e outras regalias. Foi um grande general estrategista que tentou exportar sua revolu\u00e7\u00e3o para outros pa\u00edses da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina, com alguns sucessos. Montou uma estrutura de seguran\u00e7a pessoal invej\u00e1vel e impenetr\u00e1vel que nem os cubanos sabiam de sua vida particular, nem o que acontecia nos bastidores. Sua vida sempre foi um mist\u00e9rio a desvendar.<\/p>\n<p>Essas e outras narra\u00e7\u00f5es da sua vida \u00edntima e p\u00fablica, como a administra\u00e7\u00e3o no papel de el comandante no com\u00e9rcio clandestino de armas, drogas e outros produtos para o exterior, principalmente em momentos de maior crise econ\u00f4mica e social da ilha, para manter viva a revolu\u00e7\u00e3o, est\u00e3o no livro de Juan Reinaldo S\u00e1nchez, \u201cA Vida Secreta de Fidel \u2013 as revela\u00e7\u00f5es de seu guarda-costas pessoal\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0261.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4662\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0261.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0261.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0261-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cTraidor da P\u00e1tria\u201d<\/p>\n<p>O autor foi preso como \u201ctraidor da p\u00e1tria\u201d e depois de solto fugiu para a Fl\u00f3rida, nos Estados Unidos, onde publicou a obra. Juan qualifica seu chefe como dissimulado, c\u00ednico, maquiav\u00e9lico e um dr\u00e1cula. Todas suas acusa\u00e7\u00f5es, verdadeiras ou n\u00e3o, s\u00e3o de sua responsabilidade, mas confessa que viu tudo de perto. Acreditava piamente na revolu\u00e7\u00e3o e era um fiel escudeiro do comandante.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1991, Cuba mergulhou na pior crise econ\u00f4mica de sua exist\u00eancia, e Fidel decretou o \u201cper\u00edodo especial em tempos de paz\u201d, permitindo a particulares abrir paladares (restaurantes em domic\u00edlio). N\u00e3o foi suficiente como a crise dos balseiros, em 1994, quando 30 mil cubanos fugiram em suas balsas para Miami.<\/p>\n<p>Fui promovido a Chefe da Avanzada (preparava as viagens do el comandante para as prov\u00edncias, ou exterior), como a posse de Fernando Collor de Mello, em 1990, para a C\u00fapula Ibero-Americana, em Guadalajara (M\u00e9xico), em julho de 1991 e para Espanha. Era o melhor atirador de Cuba.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0263.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4663\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0263.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0263.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_0263-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nesse tempo, escolhi esquecer o \u201cCaso Arnaldo Ochoa\u201d (fuzilado) e o expurgo de altos escal\u00f5es, que desestabilizaram o Minist\u00e9rio do Interior, comandado pelo general Abelardo Colom\u00e9 Ibarra. O chefe da escolta do comandante estava a cargo de Jos\u00e9 Delgado.<\/p>\n<p>Os ventos come\u00e7aram a soprar contra mim a partir de 1994. Minha filha Aliette casou-se com um venezuelano e foi para Caracas. Meu irm\u00e3o, cozinheiro do Conselho de Estado, fugiu para Fl\u00f3rida. Desde 1968 prestava servi\u00e7os ao comandante, sendo dezessete na escolta, a partir de 1977 \u2013 conta Juan S\u00e1nchez.<\/p>\n<p>Com 45 anos, em 1994 dispensaram meus trabalhos na escolta e, ent\u00e3o, pedi minha aposentadoria atrav\u00e9s de uma carta \u00e0 seguran\u00e7a social. O general Humberto Francis, chefe da Seguran\u00e7a Pessoal (departamento encarregado da prote\u00e7\u00e3o de todos altos dirigentes) n\u00e3o aceitou. Exigi passar por um conducto reglament\u00e1rio (recurso que permite dirigir-se a um superior).<\/p>\n<p>Torturas na cela<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0 Logo depois fui preso pelo coronel Laudelio, da Contraintelig\u00eancia Militar, e levado para o Centro de Deten\u00e7\u00e3o de Havana, conhecido como \u201cCien y Aldab\u00f3\u201d. No interrogat\u00f3rio me explicaram que eu era um \u201ctraidor da p\u00e1tria\u201d. Na cadeia fedorenta, sofri a tortura, praticada como em todas as ditaduras latino-americanas \u2013 continua sua descri\u00e7\u00e3o no livro.<\/p>\n<p>Numa sala pequena, o ar-condicionado era ligado no m\u00e1ximo, vestindo apenas uma camiseta sem mangas. Depois de quatro horas minhas unhas e l\u00e1bios tinham cor violeta. Passaram uma semana tentando que eu confessasse ser um contrarrevolucion\u00e1rio. \u201cVoc\u00ea com certeza deve saber que est\u00e1 aqui por ordem de Fidel\u201d.<\/p>\n<p>Durante todo tempo, n\u00e3o tive acesso a Fidel. \u201cEle tratava os seres humanos como objetos a serem jogados no lixo depois que n\u00e3o serviam mais\u201d. Mesmo assim, pensei que seria poupado &#8211; relatou.<\/p>\n<p>Fui colocado em isolamento numa cela imunda onde n\u00e3o vi a luz do dia por dois meses. L\u00e1, as celas s\u00e3o infestadas de baratas, concebidas para feder a urina e excrementos. Havia apenas um buraco para fazer as necessidades. A torneira, a dez cent\u00edmetros da latrina, s\u00f3 dava vaz\u00e3o a dois copos de \u00e1gua por dia. O caf\u00e9 da manh\u00e3 era servido \u00e0s duas horas da tarde e a refei\u00e7\u00e3o principal \u00e0s oito horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Os guardas me deram um colch\u00e3o contaminado de fibra de arroz. Tive uma erup\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea, com feridas de pus em toda parte inferior do corpo, inclusive nos test\u00edculos. Felizmente, conheci um m\u00e9dico condenado que trabalhava na enfermaria do Centro de Deten\u00e7\u00e3o e consegui me curar. A inten\u00e7\u00e3o era me matar. Ao fim de dois meses passei de 83 para 54 quilos.<\/p>\n<p>Por fim, ameacei fazer greve de fome e me transferiram para a pris\u00e3o de La Condesa, na cidade de Guines, 30 quil\u00f4metros ao sul de Havana, onde muitos detentos eram criminosos perigosos. Na esta\u00e7\u00e3o fria, os guardas nos faziam sair nus para o p\u00e1tio \u00e0s tr\u00eas horas da manh\u00e3 e ali pass\u00e1vamos o resto da noite. \u201cPara o mundo, os irm\u00e3os Castros sempre disseram que n\u00e3o havia tortura em Cuba\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois da minha transfer\u00eancia me levaram ao Tribunal Militar de Playa. Meus direitos foram desrespeitados e o presidente do Tribunal n\u00e3o ouvia meu advogado. Alguns antigos colegas me acusaram de desvio contrarrevolucion\u00e1rio. Como meu dossi\u00ea estava vazio, comecei a fazer minha pr\u00f3pria defesa, lembrando que n\u00e3o tinha nada a fazer na frente dos ju\u00edzes e atr\u00e1s das grades. Meu \u00fanico erro foi ter pedido afastamento.<\/p>\n<p>O procurador requereu oito anos de deten\u00e7\u00e3o que passaram para dois e meio e depois reduzido para dois anos de reclus\u00e3o. Em La Condesa recebi a visita do antigo chefe da escolta, Domingo Mainet. Perguntou se eu estava ali por vontade pessoal de Fidel. Conhecia muito bem o sistema cubana. Caso atacasse el comandante minha situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pioraria.<\/p>\n<p>Tentaram me matar como fizeram com o antigo ministro do Interior, Jos\u00e9 Abrantes, condenado a 20 anos de reclus\u00e3o, em 1989, e morto por um ataque \u201ccard\u00edaco\u201d, em 1991. Foi em La Condesa que decidi escrever o livro \u201cA Vida Secreta de Fidel \u2013 as revela\u00e7\u00f5es de seu guarda-costas pessoal\u201d. Resolvi revelar ao mundo a verdadeira natureza de Fidel Castro \u2013 disse Juan Reinaldo S\u00e1nchez, autor da obra, cuja ideia nasceu num dia ensolarado de 1995.<\/p>\n<p>Liberdade e fuga<\/p>\n<p>Dois anos depois de ser detido, Juan recuperou a liberdade e se apresentou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Seguran\u00e7a Pessoal, para regularizar sua situa\u00e7\u00e3o. Descobriu que sua aposentadoria j\u00e1 havia sido liberada h\u00e1 dois anos. Logo que saiu foi posto sob vigil\u00e2ncia dos agentes do Estado, o G2. Sempre se abstinha de criticar el comandante ou falar sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Depois de um ano, dois oficiais lhe ofereceram emprego para lhe vigiar melhor, pois os espi\u00f5es estavam em todos os lugares, como nas escolas, nas administra\u00e7\u00f5es, nos hot\u00e9is, restaurantes e mercados. Ao inv\u00e9s de criticar Fidel, ele fazia coment\u00e1rios elogiosos, como do tipo, \u201co comandante precisa tomar cuidado ao visitar tal pa\u00eds, pois l\u00e1 os inimigos da Revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o legi\u00e3o\u201d. Juan sabia que suas palavras seriam repetidas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, se preparava, \u00e0s escondidas, para fugir, mantendo-se informado sobre as redes de emigra\u00e7\u00e3o clandestina que, a partir dos anos 90 se multiplicaram. Os servi\u00e7os de um passador custavam 10 mil d\u00f3lares e ele come\u00e7ou a vender diversos objetos. Sua filha j\u00e1 estava l\u00e1 na Fl\u00f3rida.<\/p>\n<p>Libertado da pris\u00e3o, em 1996, o guarda-costas levou doze anos para conseguir sair da ilha, em 2008, depois de dez tentativas frustradas. Em 2008 recebeu um aviso de uma passagem para o M\u00e9xico. O encontro foi marcado na prov\u00edncia de Pinar del Rio, logo onde duas tentativas haviam fracassado.<\/p>\n<p>O encontro foi marcado ao lado de Los Palacios. No dia marcado ele ficou escondido numa zona pantanosa perto de uma casa que ele j\u00e1 conhecia, La Desecada, um chal\u00e9 de madeira. Sempre frequentou o local com Fidel para ca\u00e7ar patos. Juan conta que eram 45 fugitivos, mas o barco s\u00f3 podia levar 30 por causa do excesso de peso. Tinha que descer 15, mas ningu\u00e9m aceitou.<\/p>\n<p>Depois de tentativas de negocia\u00e7\u00f5es, o capit\u00e3o resolveu ligar os motores. Com o peso al\u00e9m da conta, uma h\u00e9lice bateu em alguma coisa, mas alcan\u00e7aram as \u00e1guas territoriais internacionais. Depois de trocas de barcos, o grupo conseguiu chegar ao largo de Canc\u00fan, no M\u00e9xico, duzentos quil\u00f4metros a oeste de Cuba. Um caminh\u00e3o conduziu todos at\u00e9 uma casa em terra firme.<\/p>\n<p>Divididos em grupos, foram levados ao aeroporto com destino a Nuevo Loredo, uma cidade fronteiri\u00e7a com o Texas. Em Loredo era s\u00f3 fingir um ar despreocupado e cruzar a fronteira a p\u00e9 com a horda de moradores que todos os dias atravessavam a ponte do Rio Bravo.<\/p>\n<p>Depois que colocam os p\u00e9s nos Estados Unidos, os cubanos, desde 1966, se beneficiam da lei de ajuste cubano, que automaticamente lhe confere asilo pol\u00edtico. Deu tudo certo at\u00e9 ser chamado pelo Servi\u00e7o de Imigra\u00e7\u00e3o onde disse que tinha sido guarda-costas pessoal de Fidel. Em pouco tempo, o funcion\u00e1rio apresentou um dossi\u00ea completo sobre toda sua vida. Foi o \u00fanico membro da escolta do comandante a ter desertado.<\/p>\n<p>O resto foi o encontro com os familiares, como o tio, a filha, sua mulher e seu irm\u00e3o que j\u00e1 estavam l\u00e1. Juan confessou que n\u00e3o sentia rancor e ressentimento do seu chefe, mas raiva dos homens que lhe acusaram no Tribunal, como o procurador, ju\u00edzes, dos oficiais da Contraintelig\u00eancia e antigos colegas de trabalho.<\/p>\n<p>Disse ter se arrependido de ter prestado servi\u00e7o a um homem que admirava em sua luta pela liberdade do pa\u00eds, antes de v\u00ea-lo tomado pela febre do poder absoluto e pelo desprezo do povo. Em sua opini\u00e3o, ele traiu milh\u00f5es de cubanos. Ele mesmo indaga: Por que as revolu\u00e7\u00f5es sempre acabam mal\u00b0 E por que seus her\u00f3is se transformam em tiranos piores que os ditadores que eles combateram?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao estilo tir\u00e2nico estalinista, Fidel Castro entrou triunfal, em Havana, em primeiro de janeiro de 1959. Assumiu o poder com m\u00e3o de ferro e sempre eliminava qualquer um que atravessasse seu caminho, por mais pr\u00f3ximo que fosse. 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