{"id":4520,"date":"2020-04-01T23:51:37","date_gmt":"2020-04-02T02:51:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4520"},"modified":"2020-04-01T23:52:07","modified_gmt":"2020-04-02T02:52:07","slug":"jango-e-eu-a-vida-no-exilio-e-a-reforma-agraria-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/04\/01\/jango-e-eu-a-vida-no-exilio-e-a-reforma-agraria-ii\/","title":{"rendered":"JANGO E EU  &#8211; A VIDA NO EX\u00cdLIO E A REFORMA AGR\u00c1RIA (II)"},"content":{"rendered":"<p>\u201cJANGO E EU\u201d &#8211; A VIDA NO EX\u00cdLIO E A REFORMA AGR\u00c1RIA (II)<\/p>\n<p>Em janeiro de 1965, a fam\u00edlia alugou uma casa que se chamava \u201cEl Ventisco\u201d, em Playa Brava. Entre 1966\/67 foram morar na casa \u201cLa Rinconada\u201d, mais distante, mas tamb\u00e9m na Playa Brava. Se dividiam entre o apartamento Leyenda Patria, em Montevid\u00e9u, a fazenda \u201cEl Rinc\u00f3n\u201d, em Tacuaremb\u00f3, e a casa de veraneio em Punta del Este. Tempos depois, Jango comprou uma fazenda em Maldonado, \u201cEl Milagro\u201d, e tr\u00eas avi\u00f5es financiados. Tacuaremb\u00f3 era ref\u00fagio de brasileiros que atravessavam a fronteira seca fugindo da ditadura (chegada de exilados clandestinos).<\/p>\n<p>O engra\u00e7ado em tudo isso foi que a ditadura soube da aquisi\u00e7\u00e3o dos avi\u00f5es e ficou preocupada que Jango fosse invadir o Brasil com tr\u00eas teco-tecos. Solicitou ao governo uruguaio que proibisse, alegando risco \u00e0 seguran\u00e7a a\u00e9rea do Brasil. O Uruguai havia entrado num processo inflacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O suposto filho<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0111.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4521\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0111.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0111.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0111-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Vicente, o autor do livro, nos conta a hist\u00f3ria do suposto filho que Jango teve na juventude, o No\u00e9 Monteiro da Silveira que, na verdade, era do seu av\u00f4 Vicente Goulart com a empregada da fazenda. Ele queria ir visitar o \u201cpai\u201d, mas Jango barrou. Ele explicou para o filho que o No\u00e9 era seu irm\u00e3o, mas que teve uma filha.<\/p>\n<p>Foi a primeira investiga\u00e7\u00e3o de paternidade no Brasil feita apenas com testemunhas. O juiz disse que n\u00e3o era poss\u00edvel reconhecer a paternidade por mera semelhan\u00e7a. O processo foi parar na terceira turma de desembargadores do Rio Grande do Sul. No\u00e9 ganhou a causa. \u201cUma farsa que virou realidade \u201d-ressaltou Vicente. Em 1983 foi feito um acordo, e o desembargador recebeu 400 hectares da fazenda \u201cS\u00e3o Jos\u00e9\u201d como honor\u00e1rios. Jo\u00e3o Vicente era deputado estadual pelo Rio Grande do Sul (PDT) e seus bens foram bloqueados. O interventor das propriedades foi o Cirne Lima.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0112.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4522\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0112.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0112.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0112-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Vicente amea\u00e7ou ir \u00e0 Tribuna e denunciar os subornos da Justi\u00e7a. O presidente do Tribunal de Justi\u00e7a, Bonorino Butelli deu um ultimato ao seu partido, o PDT: ou ele se desculpava, ou denunciava o desembargador. Foi a\u00ed que entrou na jogada o seu tio Brizola, governador do Rio de Janeiro. Ele e seu advogado foram ao Rio e Brizola contornou a situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da pol\u00edtica. Com a exuma\u00e7\u00e3o dos restos mortais do pai, Jo\u00e3o Vicente conseguiu o DNA dele e fez o seu tamb\u00e9m, mas o No\u00e9 se negou.<\/p>\n<p>Os tempos em que viveu no Uruguai<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0113.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4523\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0113.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0113.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0113-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cAs Esquinas das Cidades\u201d, o autor da obra descreve os tempos em que viveu no Uruguai e lembra dos velhos amigos, como do Queruza, o Itar Nery Gutierrez, que tentou roubar a fazenda \u201cEl Milagro\u201d, em Maldonado, e terminou trabalhando para seu pai. Recorda quando seu pai teve um infarto em 1968. Raul Riff, seu ex-ministro do Trabalho, esteve ao lada da cama no apartamento Leyenda Patria. \u201cEra com Riff que meu pai dividia os maiores desafios\u201d. Quando Jango enfartou, o professor Zerbini e o m\u00e9dico Macruz foram a Montevid\u00e9u examinar o seu caso e montaram no Uruguai a m\u00e1quina de coronariografia, no Hospital Americano. Em Lyon, Jango come\u00e7ou a se tratar com o professor Fremont, no Hospital de Cardiologia, uma vez por ano. No ano anterior (1967) havia recebido o Lacerda em Montevid\u00e9u, que se desculpou pela sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, Brizola deu declara\u00e7\u00f5es ferozes afirmando que Jango havia tra\u00eddo o trabalhismo, e que ele estava enterrando sua trajet\u00f3ria. Segundo ele, o neg\u00f3cio do tio era a luta armada, e montou \u201cCapara\u00f3\u201d, no Esp\u00edrito Santo, l\u00e1 do ex\u00edlio. Depois da Frente Ampla, a ditadura baixou o AI-5. Mesmo assim, o ex-presidente se articulava com Per\u00f3n no ex\u00edlio, com o senador Salvador Allende, no Chile e alguns militares no Brasil. Em 1967, Vicente cita que, em uma entrevista a uma revista da antiga Iugosl\u00e1via, ele deixou clara sua paix\u00e3o pelo Brasil e admira\u00e7\u00e3o ao seu l\u00edder Get\u00falio Vargas. Foi quando comprou a fazenda \u201cEl Milagro\u201d, em Maldonado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0115.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4524\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0115.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0115.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_0115-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi por volta de 1968\/69 Jango come\u00e7ou a ir ao Paraguai e visitar Assun\u00e7\u00e3o. Ele e o filho foram para o Hotel Paraguay, mas o Toto e Ito Barchinni, ligados a Stroessner, por ordem superior, os levaram para a casa do Ito onde ocorreu um encontro com o presidente Stroessner. Os dois recordaram as conversas que tiveram naquela \u00e9poca na fazenda \u201cAs Tr\u00eas Marias\u201d, de propriedade de Jango, no Pantanal.<\/p>\n<p><!--more-->Cita que n\u00e3o podia receber o ditador Stroessner no Rio por causa das manifesta\u00e7\u00f5es das esquerdas e dos interesses norte-americanos por parte das empresas Siemens e a General Electric, que queriam vender o maquin\u00e1rio do projeto da represa \u201cSete Quedas\u201d Itaipu), por um custo mais alto. Na \u00e9poca ele estava desenvolvendo o projeto, que depois se tornou Itaipu pelos militares. De l\u00e1, no outro dia, foram para Puerto Stroessner (Cuidad del Este) onde Jango comprou um campo.<\/p>\n<p>Quando ainda na presid\u00eancia, Jango havia reatado rela\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e queria comprar as turbinas desenvolvidas l\u00e1, que eram bem mais baratas. Os militares, no entanto, preferiram negociar com os norte-americanos, pagando pre\u00e7os bem mais altos pelas turbinas.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o com Stroessner, Jango explicou das dificuldades para viajar para Europa por falta de documentos negados pela ditadura brasileira (a ONU havia lhe oferecido um t\u00edtulo de viagem que era mal visto nos aeroportos). Foi a\u00ed que Stroessner lhe outorgou um passaporte diplom\u00e1tico. \u201cO titular desse passaporte \u00e9 o ex-presidente do Brasil e amigo do Paraguai\u201d.<\/p>\n<p>O autor do livro recorda da vez que a sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol esteve em Montevid\u00e9u para um amistoso contra o Uruguai. Os jogadores decidiram ir ao apartamento Leyenda Patria para visitar Jango. Wilson Piazza era o capit\u00e3o. Todos foram, menos o Pel\u00e9, com medo de ser mal interpretado pelos milicos da ditadura. Na \u00e9poca disse n\u00e3o se importar que o Brasil n\u00e3o tivesse elei\u00e7\u00f5es para presidente e governadores, porque o povo n\u00e3o sabia votar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Vicente fala tamb\u00e9m do piloto do seu pai, Rivero, preso depois pela ditadura uruguaia (1973) por pertencer ao MLN-Tupamaros. Ele tinha uma vis\u00e3o diferente do mundo, voltada para o humanismo e ao desenvolvimento social. Bem antes disso, a situa\u00e7\u00e3o no Uruguai j\u00e1 era de repress\u00e3o com sequestros, desaparecimentos, golpes e rebeli\u00f5es.<\/p>\n<p>Narra o caso da festa no Cantegril Coutry Club, em Punta del Este, para escolha da miss onde haviam muitos argentinos, e a discuss\u00e3o de Rivero com outro piloto que se chamava Jorge Sandoval. Jango terminou saindo antes do desfile. Certa vez, numa viagem para o Paraguai, o avi\u00e3o pilotado por Rivero se perdeu na volta para Tacuaremb\u00f3. Muitas pessoas amigas e da fam\u00edlia ficaram aflitas.<\/p>\n<p>Houve uma verdadeira odisseia do ex\u00edlio. Jango, Maneco Bigode e Rivero sa\u00edram de Tacuaremb\u00f3 para o aeroporto Internacional do Paraguai. Ficaram dois dias em Assun\u00e7\u00e3o e voltaram clandestinamente, sem plano de voo para Tacuaremb\u00f3. Na volta, o tempo fechou com o Cesna -210. Rivero tentou um voo raso para descer at\u00e9 Artigas, Salto, e passar no Uruguai. N\u00e3o havia visibilidade.<\/p>\n<p>O piloto terminou fazendo um pouso de emerg\u00eancia numa estrada de terra. Jango ficou nervoso e come\u00e7ou a bradar. Terminaram descendo em territ\u00f3rio argentino, na fronteira com o Brasil, e o ex-presidente julgou logo que seria deportado para o Brasil. Duas horas depois, chegaram dois carros da pol\u00edcia e informaram que eles estavam na Prov\u00edncia de Corrientes, em Paso de Los Libres.<\/p>\n<p>A not\u00edcia do pouso de Jango chegou logo ao conhecimento das autoridades brasileiras. O regime militar do Brasil mandou fechar a Ponte da Amizade, que liga Brasil e Argentina. Jango estava do outro lado e foi para um hotel com Maneco. O juiz lavrou um ato de pris\u00e3o para Rivero e apreens\u00e3o do avi\u00e3o, por sobrevoo ilegal.<\/p>\n<p>A Argentina era governada por Juan Carlos Ongan\u00eda, um dos generais das ditaduras da Am\u00e9rica Latina. O c\u00f4nsul brasileiro foi at\u00e9 ao hotel e explicou que a ponte foi fechada porque caravanas de brasileiros queriam ir at\u00e9 Paso de Los Libres para ver Jango. Ap\u00f3s dois dias de consultas, chegou \u00e0 unidade militar de Los Libres um telegrama do comandante das For\u00e7as Armadas Argentinas, Alejandro Agustin Lanusse, mandando liberar os passageiros do avi\u00e3o, prestando ao ex-presidente do Brasil todas as homenagens. Tempos depois foi Lanusse quem permitiu a volta de Per\u00f3n, abrindo o pa\u00eds \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que Rivero ficou preso, e os militares argentinos n\u00e3o poderiam passar por cima da ordem do juiz. Lanusse fez decolar o Tango I para levar Jango para Montevid\u00e9u. No entanto, Jango disse que n\u00e3o sairia de l\u00e1 sem o piloto. Ent\u00e3o, o coronel do regimento militar argentino mandou um pelot\u00e3o para conversar com o juizado e \u00e0 delegacia, solicitando a soltura de Rivero. Mesmo assim, o juiz se negou a entregar a papelada de soltura.<\/p>\n<p>O coronel consegui pegar o processo, entregou a Rivero e ordenou que ele rasgasse. Assim todos voltaram para casa. Jango s\u00f3 foi se encontrar com Lanusse, em 1974. No retorno tiveram que fazer outro pouso for\u00e7ado, mas j\u00e1 em territ\u00f3rio uruguaio.<\/p>\n<p>Exilados como criminosos e a reforma<\/p>\n<p>Segundo Jo\u00e3o Vicente, as pessoas confundem os exilados como criminosos fugidos. Ap\u00f3s o golpe, o povo brasileiro se tornou mais alienado, muito por for\u00e7a da censura e das persegui\u00e7\u00f5es. A ditadura implantou uma educa\u00e7\u00e3o tecnicista e voltada para os interesses norte-americanos, para atender aos mercados.<\/p>\n<p>O autor do livro faz uma an\u00e1lise sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Brasil quando afirma que existe uma elite com instru\u00e7\u00e3o, dinheiro e poder que se compara \u00e0 da Su\u00ed\u00e7a, Dinamarca e Su\u00e9cia. Do outro lado, existem milh\u00f5es vivendo abaixo da linha de pobreza, com \u00edndices de desenvolvimento iguais aos de Serra Leoa. Jango acreditava que a hist\u00f3ria um dia lhe faria justi\u00e7a, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>No ex\u00edlio, dois jornalistas lhe entrevistaram. \u2013 Senhor presidente, quando estava em seu cargo, achava que ainda n\u00e3o era hora de implantar as reformas de base? \u2013 O que voc\u00eas acham que estou fazendo aqui, exilado no Uruguai e longe da minha terra? Estaria aqui sofrendo com minha fam\u00edlia, se n\u00e3o acreditasse que poderia realizar uma mudan\u00e7a estrutural para reduzir as profundas diferen\u00e7as sociais? \u201cH\u00e1 uma necessidade real de mudan\u00e7as para concretizar o projeto de na\u00e7\u00e3o em que as elites dominantes n\u00e3o ataquem brutalmente nossas riquezas\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ca\u00ed porque era hora de mudar. N\u00e3o recuei um mil\u00edmetro de nossas convic\u00e7\u00f5es de reformar o Estado brasileiro. Eu cai em p\u00e9. Quem impediu as reformas foram as elites empresariais e os militares reacion\u00e1rios que n\u00e3o entenderam as propostas nacionalistas. Ele ainda explicou para o filho que o Brasil tem estrutura social arcaica, valores morais e \u00e9ticos excludentes que privilegiam apenas os poderosos. \u201cAcham que as riquezas do pa\u00eds devem servir a seus privil\u00e9gios\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; O sistema capitalista ainda mede a riqueza dos povos em n\u00fameros absolutos de resultados econ\u00f4micos e financeiros, n\u00e3o em resultados humanos. Um pa\u00eds rico n\u00e3o \u00e9 medido pelo PIB, mas \u00e9 aquele em que seu povo \u00e9 feliz, tem sa\u00fade, n\u00e3o existe analfabetismo e oferece para todos educa\u00e7\u00e3o, cultura e dignidade.<\/p>\n<p>Jango explicou outras situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desastrosas no Brasil. Disse que pretendia realizar v\u00e1rias reformas, mas, a que mais doeu na classe alta foi a agr\u00e1ria. A classe abastada retr\u00f3grada com suas benesses acha que o direito de propriedade eterno a protege e a ampara por lei. Para essas categorias, os menos favorecidos podem passar fome, pois em suas terras n\u00e3o entram nem para plantar uma espiga de milho; se quiserem. Que comam o sabugo.<\/p>\n<p>Naquele tempo, 75% da popula\u00e7\u00e3o viviam no campo e 25% nas cidades, e as elites n\u00e3o engoliam perder suas propriedades. A reforma agr\u00e1ria nunca foi feita no Brasil. Atualmente, os n\u00fameros se inverteram e a grande massa est\u00e1 nas periferias das metr\u00f3poles, sem direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, emprego e assist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Projeto de na\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Jango, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Josu\u00e9 de Castro, Celso Furtado, Evandro Lima e Silva, Raul Riff, San Tiago Dantas, Wilson Fadul, Armando Monteiro Filho, Waldir Pires, Almino Afonso, Luis Salmeron e Hermes Lima que trabalharam no governo tinham um projeto de na\u00e7\u00e3o, de acordo com o autor do livro Jo\u00e3o Vicente. Jango sempre dizia para o filho que no Uruguai o ensino era mais avan\u00e7ado que no Brasil. Citou Paulo Freire e An\u00edsio Teixeira que queriam dar um sentido mais humanit\u00e1rio para a educa\u00e7\u00e3o (reforma educacional). Dizia que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um instrumento de luta e avan\u00e7o social. Em seu governo, foi implantada a primeira universidade independente do Estado, a UNB. \u201cNo Brasil est\u00e3o transformando a educa\u00e7\u00e3o em um neg\u00f3cio, a uma mercadoria\u201d.<\/p>\n<p>No ex\u00edlio, como costumava fazer quando era menino com seu pai, Jango gostava de comer com a peonada e beber seu u\u00edsque em casa, bem como, visitava bares e restaurantes. Jos\u00e9 Gomes Talarico, J\u00falio Madeira, Jos\u00e9 Vechio, Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, Orpheu dos Santos Salles, Roberto Alves, Waldir Borges, Raul Riff e Wilson Mirza passavam temporadas com a fam\u00edlia. Outros como Bijuja, Arthur, Ad\u00e3o Dornelles e Luthero Fagundes mantinham rela\u00e7\u00f5es comerciais.<\/p>\n<p>No Uruguai ele comprou a fazenda \u201cEl Rinc\u00f3n\u201d (sete mil hectares), em Tacuaremb\u00f3. Jo\u00e3o Vicente mostra como era dif\u00edcil chegar at\u00e9 l\u00e1 numa caminhonete Toyota. Uma odisseia. Ainda estavam abrindo a Ruta 5, de norte a sul, com 504 quil\u00f4metros. Ele levava os amigos do col\u00e9gio. \u201cEl Rinc\u00f3n\u201d se tornou o ref\u00fagio de Jango. Construiu ali a primeira barragem de irriga\u00e7\u00e3o de arroz no Uruguai, se tornando depois grande exportador do produto. Muitos amigos de S\u00e3o Borja iam visit\u00e1-lo. N\u00e3o havia luz nas fazendas, mas tinha telefone.<\/p>\n<p>Rivero, que tinha liga\u00e7\u00f5es com a organiza\u00e7\u00e3o rebelde Tupamaros, tornou-se piloto de Jango, mas ele de nada sabia. O m\u00e9dico proibia que ele ingerisse muito a\u00e7\u00facar e, ent\u00e3o, preferia tomar u\u00edsque. \u201cEl Rinc\u00f3n\u201d foi palco de muitos acontecimentos durante o ex\u00edlio, como fatos pol\u00edticos, atentados, desilus\u00f5es e chantagens. \u201cFoi onde ele remoeu as amarguras do desterro, com esperan\u00e7a de voltar ao pa\u00eds. Nos tornamos aves migrat\u00f3rias. Enfrentou trai\u00e7\u00f5es, chantagens, arma\u00e7\u00f5es e injusti\u00e7as, sem poder se defender&#8230; Construiu uma pista de pouso de 700 metros para teco-tecos\u201d.<\/p>\n<p>Certa vez, desceu um monomotor Cesna 180 com matr\u00edcula brasileira. Ele estava tomando malte com seu administrador Percy Penalvo, tamb\u00e9m exilado. Entre os passageiros, desceu o seu amigo Maneco Vargas, filho de Get\u00falio. Foram criados juntos em S\u00e3o Borja. Na \u00e9poca, Maneco estava trabalhando com o frigor\u00edfico Swift como comprador de gado.<\/p>\n<p>Jango possu\u00eda 1.500 novilhos gordos, prontos para entrega em S\u00e3o Borja. Maneco pediu a Jango para que lhe desse a prefer\u00eancia. \u201cOlha aqui Maneco, h\u00e1 mais de tr\u00eas anos que estou no ex\u00edlio e nunca veio me visitar. \u00c9ramos como irm\u00e3os nos velhos tempos de lutas no PTB e nunca demonstrou tua solidariedade comigo. Agora vem aqui me propor neg\u00f3cio. Pega teu piloto e volta agora para o Brasil. Esta tua atitude n\u00e3o \u00e9 digna de amigos\u201d.<\/p>\n<p>Ivo Magalh\u00e3es se tornou procurador de Jango nos neg\u00f3cios no Uruguai e com ele tinha alugado o Hotel Alhambra, para abrigar os exilados brasileiros. Amaury Silva estava muito deprimido e Jango o ajudou a montar o restaurante \u201cCangaceiro\u201d, \u00e0 beira-mar, em Montevid\u00e9u. Outros conspiravam contra o regime e montavam guerrilhas dirigidas por Brizola. \u201cO ex\u00edlio \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio\u201d \u2013 afirmava o ex-presidente em conversas com Darcy.<\/p>\n<p>Quando estava no Uruguai, a fam\u00edlia frequentava muito o restaurante Sorrento, na Plaza Independ\u00eancia, bem como ao Hotel Alhambra, onde os exilados tinham estada garantida por 60 dias. No Caf\u00e9 Sorocabana, o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es, o SNI, monitorava e infiltrava agentes brasileiros. Manoel Pio Corr\u00eaa foi o escolhido para ser o embaixador e transformou o lugar em um covil de espionagem e persegui\u00e7\u00e3o, criando o Ciex. Foi respons\u00e1vel pela morte e o desaparecimento de v\u00e1rios brasileiros exilados no exterior.<\/p>\n<p>Quando queria conversar mais reservadamente com os amigos, Jango ia ao restaurante \u201cEl Gale\u00f3n\u201d. Vicente recorda que, em 1968, ele, o pai, Doutel e o Riff sa\u00edram para almo\u00e7ar naquele restaurante. Jango indagou a Doutel como estava o Brasil.<\/p>\n<p>\u2013 Cada vez mais complicado, A ditadura encontra-se disfar\u00e7ada de democracia. H\u00e1 uma linha dura querendo se perpetuar. Isso foi pouco antes da ida de Lacerda a Montevid\u00e9u, para acertarem a Frente Ampla. Vicente lembra que o pai sempre lhe recomendava ler O Processo Civilizat\u00f3rio, de Darcy, Geografia da Fome, de Josu\u00e9 de Castro e A Pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o brasileira, de Celso Furtado.<\/p>\n<p>Doutel se mostrava muito preocupado com a cria\u00e7\u00e3o da Frente Ampla entre Jango, Juscelino e Lacerda. Achava que as tr\u00eas lideran\u00e7as podiam amea\u00e7ar o regime militar. Mesmo assim, dizia que a Frente podia ser um bom instrumento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Jango lembrou da defer\u00eancia que De Gaulle tinha por Doutel, inclusive isso ficou claro na visita que De Gaulle fez ao Brasil no final de 1964. Na ocasi\u00e3o, o presidente franc\u00eas mandou Doutel dar um abra\u00e7o em Jango no ex\u00edlio. \u201cDiga a ele que estou aqui a convite dele\u201d. Foi quando afirmou que \u201ceste n\u00e3o podia ser um pa\u00eds s\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>Doutel ficou encarregado de fazer as articula\u00e7\u00f5es da Frente Ampla, juntamente com Renato Archer. Jango e o filho costumavam tamb\u00e9m frequentar o restaurante \u201cMalec\u00f3n\u201d. \u201cSempre est\u00e1 em minhas recorda\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 ressalta Jo\u00e3o Vicente, em seu livro. bem como, o Parque Rod\u00f3.<\/p>\n<p>Agentes brasileiros<\/p>\n<p>Nesses lugares, Vicente cita os relat\u00f3rios feitos pelos agentes brasileiros, como encontros secretos de conspira\u00e7\u00e3o com pol\u00edticos uruguaios. \u201cVejo que os milicos tinham medo de Jango restaurar a liberdade e a democracia para o povo brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Pelos idos dos anos 70, j\u00e1 havia resist\u00eancia e movimentos dos estudantes e intelectuais contra o governo de direita do Uruguai, Jorge Pacheco Areco. Ocorriam passeatas na avenida 18 de Julio em apoio ao Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional \u2013 Tupamaros, que estava surgindo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por sua vez, Jango, em Punta del Este, em Maldonado, comprou a Fazenda \u201cEl Milagro\u201d onde foi constru\u00eddo frigor\u00edfico de derivados de bovinos e uma f\u00e1brica de beneficiamento de arroz.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Vicente conta que foram muitos os momentos dif\u00edceis no ex\u00edlio, mas seu pai era resistente (devoto de S\u00e3o Jorge e Nossa Senhora Aparecida), um homem justo, preocupado com os outros e avesso aos excessos da burguesia. Sempre pensava em retornar, mas recuava dizendo que n\u00e3o ia deixar ser humilhado pelos milicos, como fizeram com Juscelino.<\/p>\n<p>\u201cMeu ex\u00edlio \u00e9 um protesto internacional contra a ditadura que instalaram no Brasil\u201d. Muitos brasileiros que iam a Punta del Este quando viam Jango atravessavam a rua para n\u00e3o se encontrar com ele. Sempre dizia que eram benefici\u00e1rios da ditadura.<\/p>\n<p>Brizola continuava a criticar o cunhado, segundo ele, acomodado, que s\u00f3 queria ganhar dinheiro com a invernada de bois e resolver as quest\u00f5es pol\u00edticas no di\u00e1logo. \u201cAs conversas com Juscelino e Lacerda s\u00f3 ati\u00e7aram a ditadura\u201d. Jango se queixava que nem as esquerdas lhe apoiaram quando tentou promulgar o estado de s\u00edtio. Exigiam as reformas na lei ou na marra e pregavam o fechamento do Congresso Nacional. Queriam que eu resistisse quando n\u00e3o resistiram\u201d<\/p>\n<p>Em conversa com Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, em rela\u00e7\u00e3o a alternativas para tirar o Brasil da ditadura, ressaltava que n\u00e3o se podia ficar dando murro em ponta de faca, e se posicionava contr\u00e1rio \u00e0s guerrilhas, permanecendo no ex\u00edlio dando ordens a companheiros que v\u00e3o se sacrificar contra uma ditadura extremamente forte. \u201cEngana-se quem acha que pode derrubar essa estrutura montando guerrilhas a partir daqui do Uruguai\u201d.<\/p>\n<p>Jango sempre se informava da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dos atos tenebrosos, como o AI-5, com as visitas de Orpheu, Roberto Alves e Talarico por meio de documentos, e muitas vezes, atrav\u00e9s do Correio do Povo, do Rio Grande do Sul. Sabia de not\u00edcias do crescimento do MDB e da atua\u00e7\u00e3o do arcebispo Paulo Evaristo Arns em defesa dos direitos humanos. Certa vez, recebeu um abra\u00e7o de dom Helder C\u00e2mara por interm\u00e9dio do padre Genaro, num encontro que teve com Roberto Alves.<\/p>\n<p>Com os exilados em Paris<\/p>\n<p>Pelos idos de 1970\/71, Jango teve que ir \u00e0 Fran\u00e7a, em Paris e Lyon, para tratamento de sa\u00fade (problemas do cora\u00e7\u00e3o). Orpheu sugeriu marcar um encontro com os exilados em Paris. Jango achava que ia deixar os milicos em polvorosa. Decidiu que os dois iriam separadamente, Jango para Paris e Orpheu para Madrid levar um recado para Jorge Ant\u00f4nio, amigo fiel de Per\u00f3n. Depois volto para o Uruguai, passando pela Espanha.<\/p>\n<p>Jango viajou para Paris, em 1969, com passaporte diplom\u00e1tico do Paraguai, dado pelo ditador Alfredo Stroessner, para tratamento de sa\u00fade, em Lyon. No aeroporto, ele e o filho foram recebidos por Pedro Toulois e se hospedaram no Hotel Claridge, na Chams-Elys\u00e9s, onde sempre ficavam quando iam a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois da sua consulta, Jango teve o primeiro contato com Violeta Arraes, irm\u00e3 de Miguel Arraes que estava na Arg\u00e9lia. Ela apoiava todos os brasileiros que chegavam a Paris. Era uma grande combatente ligada a dom H\u00e9lder C\u00e2mara. Outro encontro foi com o jornalista Hermano Alves, da Tribuna da Imprensa, Folha de S\u00e3o Paulo e Correio da Manh\u00e3. Os dois ligaram para Josu\u00e9 de Castro e se encontraram.<\/p>\n<p>Em passeio por Paris, Jango comentou a extravag\u00e2ncia do capitalismo quando se deparou com uma loja de venda de roupinhas para cachorros, quando muitas crian\u00e7as morriam na \u00c1frica. No apartamento de Oscar Niemeyer, programou um encontro com estudantes e intelectuais.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o estava, mas Ubirajara Brito tinha a chave. Norma Bengell gostou da ideia e anunciou tamb\u00e9m a presen\u00e7a de Glauber Rocha, que estava filmando na It\u00e1lia. Estiveram ainda o secret\u00e1rio do Partido Comunista da Fran\u00e7a para Am\u00e9rica Latina, Georges Fourmial e outras pessoas, como o Fernando Gasparian, que estava exilado na Inglaterra, e em seu retorno ao Brasil fundou o jornal seman\u00e1rio Opini\u00e3o. Depois foram \u00e0 cl\u00ednica, em Lyon, fazer check-up, acompanhado de Ubirajara Brito.<\/p>\n<p>O exame constatou comprometimento nas coron\u00e1rias de Jango. Ubirajara retornou a Paris, mas Jango continuou a viagem pela Su\u00ed\u00e7a onde, em Genebra visitou Paulo Freire. Conversaram sobre o plano de alfabetiza\u00e7\u00e3o que queriam implantar antes do golpe de 1964. Jango o havia convidado para desenvolver o Plano Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o, com seu m\u00e9todo de conscientiza\u00e7\u00e3o de massa. A inten\u00e7\u00e3o era criar 20 mil c\u00edrculos de cultura no Brasil e capacita\u00e7\u00e3o de mais de seis mil coordenadores. O plano iria alfabetizar dois milh\u00f5es de pessoas, s\u00f3 em 64. Na \u00e9poca, 15 milh\u00f5es dos 65 milh\u00f5es de habitantes eram analfabetos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cJANGO E EU\u201d &#8211; A VIDA NO EX\u00cdLIO E A REFORMA AGR\u00c1RIA (II) Em janeiro de 1965, a fam\u00edlia alugou uma casa que se chamava \u201cEl Ventisco\u201d, em Playa Brava. Entre 1966\/67 foram morar na casa \u201cLa Rinconada\u201d, mais distante, mas tamb\u00e9m na Playa Brava. 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