{"id":4296,"date":"2020-01-09T09:32:02","date_gmt":"2020-01-09T12:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4296"},"modified":"2020-01-09T09:32:14","modified_gmt":"2020-01-09T12:32:14","slug":"triste-sina-do-nosso-simbolo-nordestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2020\/01\/09\/triste-sina-do-nosso-simbolo-nordestino\/","title":{"rendered":"TRISTE SINA DO NOSSO S\u00cdMBOLO NORDESTINO"},"content":{"rendered":"<p>No sol escaldante, na chuva ou na lama com sua cangalha, l\u00e1 estava ele com meu pai transportando mandioca da ro\u00e7a para o processamento, sacos de farinha, feij\u00e3o e milho para as feiras da cidade de Piritiba e o distrito de Andara\u00ed. Eu ainda era menino e, mesmo assim, n\u00f3s tr\u00eas \u00e9ramos colegas insepar\u00e1veis de trabalho. Poucas vezes reclamava do peso e do cansa\u00e7o, s\u00f3 era meio atrevido e, \u00e0s vezes, fuj\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca imaginava na triste sina da sua ra\u00e7a, de que um dia seria abatido em frigor\u00edficos da Bahia e do Nordeste, e que seu escalpo e sua carne seriam vendidos para os chineses. Sua pele \u00e9 aproveitada para produ\u00e7\u00e3o de um tal Ejiao, uma gelatina usada na medicina e em cosm\u00e9ticos chineses, que movimentou o equivalente a 22 bilh\u00f5es de reais em 2018. A carne, de acordo com reportagem de Alexandre Guzanshe, produzida pela WideAvenues em parceria com a Rep\u00f3rter Brasil (Joana Suarez), \u00e9 um subproduto consumido no norte da China.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9629.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4297\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9629.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9629.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9629-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cDESENVOLVIMENTISTA\u201d<\/p>\n<p>Triste sina do nosso jumento, do jegue ou asno da esp\u00e9cie asinina, trazido para o Brasil pelos portugueses h\u00e1 500 anos, e que se adaptou muito bem no semi\u00e1rido nordestino, sendo o sustento e o bra\u00e7o forte do catingueiro e do sertanejo, principalmente nos tempos mais dif\u00edceis das secas, bem antes do aparecimento do ronco dos \u201cgafanhotos motorizados\u201d (as motos) que tomaram conta das cidades, das estradas e veredas da zona rural.<\/p>\n<p>Esse s\u00edmbolo nordestino, que est\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o, \u00e9 personagem hist\u00f3rica do Novo Testamento na travessia da Fam\u00edlia Sagrada pelo deserto da Palestina ao Egito, para salvar o menino Jesus de uma persegui\u00e7\u00e3o. Aqui no Brasil, foi tema do filme \u201cO Pagador de Promessa\u201d, premiado no Festival de Canes na d\u00e9cada de 60. O \u201cZ\u00e9 do Burro\u201d fez de tudo e foi humilhado para pagar a sua promessa que fez \u00e0 santa que salvou seu jumento de um raio.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9631.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4298\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9631.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9631.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9631-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O nosso jegue de carga, ou o nosso colega, morreu de velho, naturalmente, no pasto, mas n\u00e3o foi para o abate como era o destino de muitos que pereceram cruelmente num frigor\u00edfico l\u00e1 em Senhor do Bonfim, na Bahia, h\u00e1 mais de 50 anos. Portanto, a pr\u00e1tica da matan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 de hoje.<\/p>\n<p>Lembro que meu pai escorra\u00e7ou um sujeito malvado atravessador que queria levar o mano de trabalho para o escalpo macabro. \u201cO meu morre no pasto, seu cabra assassino de jumentos\u201d \u2013 bradou o meu pai, com muita raiva e revolta.\u00a0 \u201cIsto \u00e9 o fim do mundo\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9645.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4299\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9645.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9645.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9645-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O s\u00edmbolo do trabalho pesado no interior nordestino \u00e9 \u201co maior desenvolvimentistas do sert\u00e3o\u201d \u2013 assim cantou o rei do Bai\u00e3o, Luiz Gonzaga. Como narra a reportagem, financiada por uma bolsa da The DonkeySanctuary, uma Ong brit\u00e2nica dedicada a promover o bem-estar dos jumentos, eles s\u00e3o populares na regi\u00e3o do sisal (Cansan\u00e7\u00e3o, Euclides da Cunha, Serrinha e Valente). Foram eles os respons\u00e1veis por transformar Valente em capital do sisal. Eles carregam a folhas at\u00e9 a m\u00e1quina de processamento, e dali at\u00e9 o varal onde os fios secam.<\/p>\n<p>Est\u00e3o tamb\u00e9m ajudando o homem do campo na labuta de outras culturas de subsist\u00eancia, como da mandioca, do feij\u00e3o, do milho e da mamona, O professor de veterin\u00e1ria da USP, Adroaldo Jos\u00e9 Zanella est\u00e1 tentando implementar estrat\u00e9gias de bem-estar dos jegues. Ele acha que um animal que est\u00e1 aqui h\u00e1 500 anos n\u00e3o pode acabar em cinco.<\/p>\n<p>UM ACORDO ESQUISITO E OS ATRAVESSADORES<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9647.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4300\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9647.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9647.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_9647-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A China n\u00e3o atende sozinha a demanda de criar 10 milh\u00f5es de jumentos por ano para o abate, por isso importa esses animais de pa\u00edses da \u00c1frica e da Am\u00e9rica do Sul, principalmente o Brasil, num acordo esquisito. Aqui n\u00e3o tem nenhuma estrutura para aumentar a produ\u00e7\u00e3o, e o destino do jegue \u00e9 se acabar em pouco tempo.<\/p>\n<p>Existe um \u201cfaroeste\u201d na cadeia de atravessadores de asininos no Nordeste para o mercado chin\u00eas, conforme constatou a reportagem de Alexandre e da Rep\u00f3rter Brasil. Eles percorreram quase tr\u00eas mil quil\u00f4metros no sudoeste da Bahia e s\u00f3 avistaram 15 jumentos. Milhares est\u00e3o sendo submetidos a condi\u00e7\u00f5es degradantes e abatidos nos frigor\u00edficos de Sim\u00f5es Filho (Cabra Forte), Amargosa (Frinordeste) e Itapetinga (Frigor\u00edfico Regional Sudoeste). Devido aos maus tratos houve uma liminar judicial proibindo o abate, mas retornaram \u00e0s atividades.<\/p>\n<p><!--more-->O interesse dos estrangeiros pelo neg\u00f3cio foi uma surpresa at\u00e9 para as autoridades brasileiras numa viagem \u00e0 \u00c1sia em 2015. Os chineses querem um milh\u00e3o de jumentos por ano. N\u00e3o existe uma contabilidade precisa, mas o IBGE estimou, em 2012, um contingente de cerca de 900 mil animais, sendo 97% no Nordeste. Em julho de 2017, a Bahia come\u00e7ou a exportar carne e couro para a China, com a meta de enviar 200 mil unidades por ano.<\/p>\n<p>Aleandre Guanshe conta que parte da Fazenda Santa Isabel, em Euclides da Cunha foi arrendada pelos chineses. Em pouco mais de um ano, mais de 100 mil jumentos foram mortos nos tr\u00eas frigor\u00edficos da Bahia, mas existem abatedouros em outros etados. A redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica ocorre porque sua cadeia \u00e9 extrativista. Al\u00e9m de n\u00e3o existir normas de cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o do transporte, nem contagem mais recente da sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reportagem apontou seis atravessadores, como o sertanejo que vende o animal solto ou do quintal por 20 e at\u00e9 50 reais, ou doa; o pequeno comerciante que junta um grupo de jegues para revende-los a transportadores ou fazendeiros por at\u00e9 100 reais a estrangeiros (na feira vale at\u00e9 300); \u00a0transportadores que levam o jumento at\u00e9 as fazendas baianas habilitadas (o abete se intensificou em 2017, e muitas propriedades se cadastraram na Adab \u2013Ag\u00eancia de Defesa Agropecu\u00e1ria da Bahia); caminhoneiros que recebem em m\u00e9dia 240 reais por animal abatido; e companhias de log\u00edstica do Vietn\u00e3 e Hong Kong que compram a carga de frigor\u00edficos por 300 e 400 reais cada animal. Segundo informa\u00e7\u00f5es apuradas, as cargas chegam aos portos asi\u00e1ticos por contrabando.<\/p>\n<p>ENTREPOSTOS<\/p>\n<p>Essas fazendas funcionam como entrepostos para animais trazidos de munic\u00edpios baianos e de outros estados do Nordeste. Para trafegar, o motorista precisa da Guia de Tr\u00e2nsito Animal (GTA). Na pr\u00e1tica, a maioria viaja sem a permiss\u00e3o, trafegando \u00e0 noite atrav\u00e9s de desvios. Uma dessas fazendas habilitadas \u00e9 a de Herynaldo Marinho, em Teofil\u00e2ndia, que est\u00e1 entre as 12 fornecedoras para o frigor\u00edfico Cabra Forte, em Sim\u00f5es Filho. Outra \u00e9 a fazenda Piedade que apenas abriga os animais, com documento forjado.<\/p>\n<p>Na China uma pe\u00e7a de pele de jumento \u00e9 comprada por at\u00e9 quatro mil d\u00f3lares (16 mil reais), enquanto uma caixa de Ejiao custa entre 186 a 750 d\u00f3lares. De acordo com c\u00e1lculos aproximados, o com\u00e9rcio de jumentos gerou em pouco mais de um ano uma receita bruta em torno de 45 milh\u00f5es de reais aos frigor\u00edficos da Bahia (\u00faltimos atravessadores brasileiros).<\/p>\n<p>BRINDE E MAUS TRATOS<\/p>\n<p>Para S\u00f4nia Martins Teodoro, representante da Ong Animais de Itapetinga, os jumentos est\u00e3o indo de brinde para os chineses que importam do Brasil grandes quantidades de bovinos rendendo bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Segundo ela, o acordo foi um agrado do governo brasileiro para atrair investimentos.<\/p>\n<p>Itapetinga, na Bahia, foi o munic\u00edpio que mais protagonizou as cenas de maus tratos em 2018. Numa fazenda, mais de 800 jegues viviam ca\u00eddos ao solo, com fome e sede, e outros 200 foram encontrados mortos. Houve manifesta\u00e7\u00f5es contra as matan\u00e7as, inclusive no Farol da Barra, em Salvador. \u201cEra uma coisa terr\u00edvel, nunca vista aqui\u201d \u2013 comentou na \u00e9poca o delegado de Itapetinga, Irineu Andrade, que indiciou os respons\u00e1veis por crimes de maus trato e polui\u00e7\u00e3o do rio. Dias depois, outra fazenda foi interdita, e em Euclides da Cunha surgiram mais den\u00fancias contra a fazenda Santa Isabel.<\/p>\n<p>Em novembro de 2018, a Justi\u00e7a da Bahia proibiu o abate, mas uma press\u00e3o empresarial derrubou a liminar, e em setembro do ano passado os frigor\u00edficos foram liberados a voltaram \u00e0s suas atividades. O Minist\u00e9rio da Agricultura mostrou-se contra a proibi\u00e7\u00e3o do abate, por se tratar de uma alternativa econ\u00f4mica. A Frente Nacional de Defesa dos Jumentos vem se mobiliando para combater os maus tratos, e cuida de 200 animais sobreviventes para serem doados a reservas ecol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No sol escaldante, na chuva ou na lama com sua cangalha, l\u00e1 estava ele com meu pai transportando mandioca da ro\u00e7a para o processamento, sacos de farinha, feij\u00e3o e milho para as feiras da cidade de Piritiba e o distrito de Andara\u00ed. 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