{"id":419,"date":"2014-08-27T22:47:48","date_gmt":"2014-08-28T01:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=419"},"modified":"2014-08-27T22:48:00","modified_gmt":"2014-08-28T01:48:00","slug":"1964-o-ano-que-nos-separou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/08\/27\/1964-o-ano-que-nos-separou\/","title":{"rendered":"1964, O ANO QUE NOS SEPAROU"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 ent\u00e3o era a Igreja Cat\u00f3lica e a juventude crist\u00e3 com seus movimentos libert\u00e1rios em defesa da justi\u00e7a social. Os oper\u00e1rios, estudantes e professores pediam melhorias nas f\u00e1bricas e nas escolas; os camponeses e seus sindicatos queriam mais terras para trabalhar; os marinheiros e outras fardas lutavam para se livrar de seus opressores navios e quart\u00e9is; as esquerdas pol\u00edticas e seus l\u00edderes, inspirados nos ideais das revolu\u00e7\u00f5es socialistas, defendiam as chamadas reformas de base; e as fam\u00edlias se uniam para ver seus filhos prosperarem na educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Monumento-Ditadura-3-C\u00f3pia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-420\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Monumento-Ditadura-3-C\u00f3pia.jpg\" alt=\"Monumento Ditadura 3 - C\u00f3pia\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As camadas mais conscientes e politizadas da popula\u00e7\u00e3o avan\u00e7avam e se agitavam no terreno das conquistas. Divergiam nos m\u00e9todos, mas convergiam nos objetivos, enquanto a burguesia e a elite atiravam pedras. Ai apareceu a cavalaria de 1964 com seus tanques, fuzis, lan\u00e7as e metralhadoras e nos separou. O governante desistiu de encarar a luta e a grande maioria n\u00e3o acreditou no que estava acontecendo. Com a dispers\u00e3o, n\u00e3o houve tempo para reunir as for\u00e7as.<\/p>\n<p>O golpe civil-militar de 1964 foi mesmo o ano que nos separou e nos deixou mais distantes do sonho e da esperan\u00e7a. Foi o ano que empurrou os brasileiros para uma longa noite de trevas e uma tenebrosa separa\u00e7\u00e3o nos anos seguintes. Foi o ano que criou carrascos para excomungar a liberdade de opini\u00e3o, prender seus opositores e dar guarida aos apoiadores. Foi o pren\u00fancio da escurid\u00e3o e o ano em que irm\u00e3o dedurou irm\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a01964 foi o ano que separou as pastorais dos padres de seus militantes, os progressistas dos conservadores, o bispo do sacerdote; separou os pais de seus filhos, o aluno da sala de aula, o trabalhador do seu of\u00edcio; separou os sindicados e as associa\u00e7\u00f5es de seus filiados, os gr\u00eamios estudantis da sociedade; separou a a\u00e7\u00e3o do ideal, o pensar do expressar; separou Jonas de Nat\u00e1lia, Jos\u00e9 de Maria, o amigo do amigo, a amiga do amigo, o pedreiro do jardineiro, o soldado da sua farda, o universit\u00e1rio do secundarista; separou os casais e a crian\u00e7a dos bra\u00e7os; separou os namorados e dividiu o companheirismo e a camaradagem.<\/p>\n<p>Foi o ano que espatifou a solidariedade e transformou o amigo em inimigo. Separou o Estado da Na\u00e7\u00e3o.\u00a0 Foi o ano que separou a filosofia da l\u00f3gica e assassinou a dial\u00e9tica marxista. Separou os av\u00f4s de seus netos, a viola da can\u00e7\u00e3o, o cancioneiro do palco, o palco do povo e o povo do show. Separou o agricultor da terra, o mestre do ensino e gestou mais de 30 organiza\u00e7\u00f5es armadas que nasceram anos depois na clandestinidade.<\/p>\n<p>Foi o ano que separou o artista da sua arte, o escritor da pena, o jornal da informa\u00e7\u00e3o, o jornalista da verdade, a den\u00fancia da p\u00e1gina e o fuzil perfurou as not\u00edcias nas bancas de revistas. Foi o ano que separou o cineasta das filmagens de protesto, o ator do teatro e o fot\u00f3grafo de suas c\u00e2maras violadas no pa\u00eds da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>1964 foi o ano que nos separou da democracia e gerou o monstro do AI-5 (Ato Institucional) e nos ofereceu depois uma amarela anistia. Foi o ano que separou o amor da filha do general pelo filho do deputado comunista cassado. Destro\u00e7ou amizades e criou traidor contra grupos pol\u00edticos rivais. Foi o ano que separou os an\u00e9is dos dedos e o casamento no altar.<\/p>\n<p>Foi o ano que separou a UNE (Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes) do seu povo que ficou \u00f3rf\u00e3o de seus pensadores maiores que logo partiram para o longo ex\u00edlio em terras estrangeiras. Foi o ano em que o rouxinol e o sabi\u00e1 perderam o canto e as flores amanheceram murchas. Foi o ano que separou, mas uniu os ditadores e tiranos.<\/p>\n<p>Separa\u00e7\u00e3o faz doer no peito a saudade do ente querido que parte fugido e \u00a0nunca mais retorna ao seu lar. \u00c9 tristeza e melancolia. O ano de 1964 n\u00e3o s\u00f3 separou como desterrou e fez desaparecer. Foi como um cavalo de fogo que transformou a liberdade em brasas. Foi como o rasgo da espora na barriga do animal.<\/p>\n<p>N\u00e3o se imaginava que aquele ano fosse tanto se prolongar por mais de duas d\u00e9cadas de separa\u00e7\u00f5es, de encontros e desencontros apressados, de noites sem dormir esperando o outro clar\u00e3o e que fosse separar a primavera dos raios de luz e fazer as folhas ca\u00edrem secas sobre o ch\u00e3o.\u00a0 Foi o ano que nos separou e nos proibiu de marcharmos juntos cantando o hino nacional. Foi o ano que nos obrigou com m\u00e3o de ferro a nos separar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 ent\u00e3o era a Igreja Cat\u00f3lica e a juventude crist\u00e3 com seus movimentos libert\u00e1rios em defesa da justi\u00e7a social. 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