{"id":4014,"date":"2019-10-12T00:57:25","date_gmt":"2019-10-12T03:57:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=4014"},"modified":"2019-10-12T00:57:40","modified_gmt":"2019-10-12T03:57:40","slug":"um-brasil-violentado-e-censurado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2019\/10\/12\/um-brasil-violentado-e-censurado\/","title":{"rendered":"UM BRASIL VIOLENTADO E CENSURADO"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 vamos n\u00f3s outra vez nessa \u201cgangorra desse vai e vem&#8230;\u201d como bem expressou o poeta angustiado e profeta baiano Raul Seixas. A maior parte desses 519 de hist\u00f3ria, tivemos um Brasil proibido, violentado e censurado, no vai-vem do fechamento e da abertura de suas portas, com algumas janelas cerradas. Durante mais de 300 anos vivemos sob o jugo de Portugal que proibia at\u00e9 a instala\u00e7\u00e3o de uma gr\u00e1fica nesse territ\u00f3rio de submiss\u00e3o e opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Portugal proibia a instala\u00e7\u00e3o de tipografia e a publica\u00e7\u00e3o de qualquer material impresso, sem a permiss\u00e3o do rei. No entanto, em 1706, Pernambuco tentou montar m\u00e1quinas tipogr\u00e1ficas, mas sem sucesso por causa da proibi\u00e7\u00e3o. Em 1747, no Rio de Janeiro, houve outra tentativa de Ant\u00f4nio Isidoro da Fonseca, que foi condenado, preso e exilado.<\/p>\n<p>Veio D. Jo\u00e3o VI, em 1808, e trouxe em sua bagagem todo material tipogr\u00e1fico necess\u00e1rio para montar na col\u00f4nia a Impress\u00e3o R\u00e9gia, visando divulgar atos e acontecimentos da corte. Aparecia a\u00ed uma r\u00e9stia de luz da liberdade no fundo do t\u00fanel. A imprensa no Brasil surgiu mesmo em junho de 1808, com Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa, com o Correio Brasiliense, cuja impress\u00e3o era feita em Londres e entrava no Brasil de forma clandestina.<\/p>\n<p>O pa\u00eds viveu a monarquia at\u00e9 1889 e ingressou numa Rep\u00fablica atabalhoada de governantes ora liberais, ora ditatoriais, como dos 15 anos de Get\u00falio Vargas (1930 a 1945) e os mais de 20 do duro regime civil-militar, implantado pelo golpe de 1964. Quem ler a hist\u00f3ria vai perceber que a maior parte desses 519 anos foi de opress\u00e3o e censura. O povo terminou incorporando o complexo de vira-lata de Nelson Rodrigues, e sempre baixa a cabe\u00e7a para qualquer senhor-patr\u00e3o.<\/p>\n<p>A VOLTA DA CENSURA ESCANCARADA<\/p>\n<p>Por volta de 1985 entramos numa fase da redemocratiza\u00e7\u00e3o lenta e gradual. As ideias se evolu\u00edram e l\u00e1 fomos n\u00f3s se deleitar com a liberdade de express\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 pintar agora, em 2019, o governo de um capit\u00e3o despreparado e trapalh\u00e3o que come\u00e7a, aos poucos, a censurar novamente o Brasil, em nome moralizante dos bons costumes morais, da fam\u00edlia, dos jovens e da p\u00e1tria, com uma ideologia ultraconservadora, que ele pr\u00f3prio nega n\u00e3o ter.<\/p>\n<p>Ai, meus amigos, volto ao nosso poeta-profeta Raul quando diz \u201cessa estrada n\u00e3o tem sa\u00edda\u201d&#8230; e tem gente que \u201cagrada a Deus, fazendo o que o diabo gosta\u201d&#8230; \u201cFecha a porta, abre a porta\u201d. &#8230;\u201cquero saber o que voc\u00ea estava pensando\u201d. &#8230;\u201dSe voc\u00ea correu tanto e n\u00e3o chegou a lugar nenhum, bem-vindo a s\u00e9culo XXI\u201d. N\u00e3o vou ficar aqui o tempo todo citando o poeta cantor e compositor. \u00c9 s\u00f3 ouvir as verdades do cara, pois \u201cquem sabe faz a hora, n\u00e3o espera acontecer, \u201d como bem desabafou Geraldo Vandr\u00e9, nosso Bob Dylan do sert\u00e3o que, junto com Jos\u00e9 Ramalho, falaram de povo marcado como gado, sendo conduzido para o curral da matan\u00e7a.<\/p>\n<p>Novamente, em pleno s\u00e9culo XXI, estamos sendo ferrados com a censura por inquisidores e defensores da tortura que acham que est\u00e3o em plena Idade M\u00e9dia, quando milhares, a partir de 1184, pelo Papa L\u00facio III, foram punidos, torturados e queimados na fogueira pela Igreja Cat\u00f3lica, toda vez que algu\u00e9m n\u00e3o aceitava os ensinamentos da mencionada institui\u00e7\u00e3o. Engana quem acha que a inquisi\u00e7\u00e3o passou, e o pior ainda \u00e9 o sil\u00eancio da grande maioria, principalmente, de artistas e intelectuais do Brasil, submisso e oprimido.<\/p>\n<p>O cara come\u00e7a cortando qualquer trabalho art\u00edstico que se refira \u00e0 comunidade LGBT, ou, no seu conceito, seja imoral e fora do seu pensamento ideol\u00f3gico, cujo patroc\u00ednio venha de um \u00f3rg\u00e3o oficial ou empresa estatal, como se fossem propriedades dele e n\u00e3o do povo. Brotam, apenas, algumas meras t\u00edmidas rea\u00e7\u00f5es. Foi dado o primeiro passo para ele introduzir, oficialmente, a censura geral a qualquer obra, mesmo que seja independente, ou promovida pelo setor privado.<\/p>\n<p>NA SOLEIRA DA PORTA<\/p>\n<p>Quem viver, ver\u00e1 a porta se fechar por completo. Algu\u00e9m a\u00ed lembra do poema de Maiakovski que fala sobre o sujeito que invade seu quintal, seu jardim de flores e voc\u00ea nada faz, at\u00e9 que um dia ele entra em sua casa e leva tudo. O capit\u00e3o-presidente Boz\u00f3 e seus asseclas j\u00e1 est\u00e3o na soleira da nossa porta, como fez o pastor-prefeito Crivela, censurando um quadro numa bienal de literatura, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>As provas do Enem n\u00e3o podem mais conter conte\u00fado ideol\u00f3gico, como se isso pudesse ser poss\u00edvel de alcan\u00e7ar. Como dar uma aula, ou realizar um concurso isentos de qualquer tipo de ideologia? Se n\u00e3o se pode expor o pensamento progressista de esquerda, socialista ou comunista, entra, ent\u00e3o, o de direita liberal, ou o ultraconservador de extrema, que \u00e9 o nosso caso atual, com vi\u00e9s fascista, embora o \u201ccomandante\u201d e seus seguidores n\u00e3o assumem ser, ou t\u00eam vergonha de se identificar como tal, e partem para a viol\u00eancia verbal e at\u00e9 f\u00edsica.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o-presidente quer estabelecer a barbaridade imbecil de que seu governo n\u00e3o tem ideologia. Isso n\u00e3o existe em nenhuma parte do mundo. \u00c9 a filosofia do nada, o niilismo. Somos um ser, essencialmente pol\u00edtico \u2013 como j\u00e1 falavam Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles h\u00e1 mais de dois mil anos. N\u00e3o podemos aceitar este absurdo de car\u00e1ter falso e demag\u00f3gico em nome da p\u00e1tria, fam\u00edlia e dos valores morais. Tudo isso soa a falsidade repugnante. Provavelmente ele est\u00e1 escondendo algo podre de n\u00f3s, que um dia ser\u00e1 revelado.<\/p>\n<p>A verdade, meu caro, \u00e9 que a censura est\u00e1 chegando para ficar, relembrando os tempos coloniais. Primeiro nas artes e na m\u00eddia, e depois na cr\u00edtica pol\u00edtica de oposi\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 est\u00e1 aparecendo com sua navalha cortante. O mais triste de tudo \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo a indigna\u00e7\u00e3o \u00e0 altura por parte do minist\u00e9rio p\u00fablico, das entidades e institui\u00e7\u00f5es que se auto proclamam guardi\u00e3s da liberdade, para botar o povo nas ruas e protestar com rebeldia. Nesse barulho arrasador, o que mais nos incomoda \u00e9 o sil\u00eancio dos bons.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 vamos n\u00f3s outra vez nessa \u201cgangorra desse vai e vem&#8230;\u201d como bem expressou o poeta angustiado e profeta baiano Raul Seixas. 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