{"id":3941,"date":"2019-09-09T22:10:54","date_gmt":"2019-09-10T01:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=3941"},"modified":"2019-09-09T22:11:06","modified_gmt":"2019-09-10T01:11:06","slug":"a-derrocada-de-um-imperio-que-dominou-o-mundo-por-mil-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2019\/09\/09\/a-derrocada-de-um-imperio-que-dominou-o-mundo-por-mil-anos\/","title":{"rendered":"A DERROCADA DE UM IMP\u00c9RIO QUE DOMINOU O MUNDO POR MIL ANOS"},"content":{"rendered":"<p>A escorcha dos impostos para sustentar os soldados mercen\u00e1rios; um ex\u00e9rcito corrompido que indicava e derrubava imperadores; a divis\u00e3o do reino em dois, Oriente e Ocidente; o desgaste do povo (n\u00e3o mais acreditava no estoicismo racional greco-romano) \u00a0com os governos e os deuses que n\u00e3o mais satisfaziam seus desejos, preferindo aderir \u00e0 prega\u00e7\u00e3o de uma nova religi\u00e3o chamada cristianismo que prometia vida e esperan\u00e7a al\u00e9m-t\u00famulo; a debandada dos grandes propriet\u00e1rios de terras levando a agricultura ao atraso; a rebeldia de muitas prov\u00edncias se tornando independentes; as lutas entre tribos e as invas\u00f5es de b\u00e1rbaros,\u00a0 foram, entre outros, os principais fatores que contribu\u00edram para o decl\u00ednio do Imp\u00e9rio Romano a partir do s\u00e9culo III da era crist\u00e3.<\/p>\n<p>O livro \u201cHist\u00f3ria de Roma\u201d, do autor M. Rostovtzeff, faz uma an\u00e1lise profunda sobre o Imp\u00e9rio Romano, desde a sua forma\u00e7\u00e3o tribal com lendas, mitologias e verdades, a \u00e9poca dos grandes reis, o tempo republicano, a revolu\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Gracos que buscaram implantar uma reforma agr\u00e1ria e foram assassinados, a tomada do poder imperial pelo grande general Caio J\u00falio C\u00e9sar, a consolida\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio por Augusto, o chamado divino filho de C\u00e9sar, as deprava\u00e7\u00f5es e tiranias cometidas por imperadores como Cal\u00edgula, Nero, C\u00f4modo, Domiciano e outros, as divis\u00f5es, a escravid\u00e3o cruel imposta por Roma, a bonan\u00e7a nos s\u00e9culos I e II, a evolu\u00e7\u00e3o religiosa e a vida nas prov\u00edncias at\u00e9 o decl\u00ednio do Imp\u00e9rio e suas causas.<\/p>\n<p>O DECL\u00cdNIO<\/p>\n<p>Destaca o escritor no final da sua obra que, ap\u00f3s a \u00e9poca de Diocleciano e Constantino, o Imp\u00e9rio Romano continuou existindo por muitos s\u00e9culos, dividido, por\u00e9m, em duas partes, o Ocidental, tendo como capital Roma, e o Oriental, comumente chamado \u201cBizantino\u201d, porque sua capital Constantinopla, ou Roma dos romaioi, fora fundada por Constantino no local da antiga Biz\u00e2ncio. A estrutura que esses dois imperadores constru\u00edram era nova em seu todo, diferente das concep\u00e7\u00f5es greco-romanas, e mais de acordo com as teorias pol\u00edticas do Oriente iraniano e semita.<\/p>\n<p>Relata Rostovtzeff, que o Imp\u00e9rio Ocidental foi gradualmente se fragmentando em v\u00e1rias partes, que eram a It\u00e1lia e as antigas prov\u00edncias, governadas, em alguns casos, por chefes de diferentes tribos germ\u00e2nicas que haviam tomado alguma parte do mundo romano. Na \u00e9poca de Diocleciano, Constantino e seus sucessores, os germanos se sobressaiam no ex\u00e9rcito e na corte imperial. No Oriente, o processo de dissolu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais lento e as velhas tradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o mantidas. A influ\u00eancia do Oriente \u00e9 mais forte, e o governo tende a adaptar-se aos regimes mais desp\u00f3ticos. O centro de gravidade passa da pen\u00ednsula balc\u00e2nica para a \u00c1sia Menor.<\/p>\n<p>QUEDA NA T\u00c9CNICA AGR\u00cdCOLA<\/p>\n<p>Os pa\u00edses, de acordo com o autor, que haviam sido os principais centros da pol\u00edtica entram em decad\u00eancia, sendo substitu\u00eddos pelas regi\u00f5es da \u00c1sia e Europa, com import\u00e2ncia decisiva na hist\u00f3ria da humanidade. Antes desempenhavam papel secund\u00e1rio. Os antigos centros come\u00e7am a entrar em decl\u00ednio. As condi\u00e7\u00f5es mais primitivas no \u00e2mbito social, econ\u00f4mico e intelectual tomam lugar das velhas institui\u00e7\u00f5es. H\u00e1 modifica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos agr\u00edcolas, passando do capital e do cient\u00edfico para rotinas primitivas do atraso. O solo passa a ser tratado por pequenos propriet\u00e1rios, cultivadores ou arrendat\u00e1rios.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o Imp\u00e9rio possu\u00eda muitas terras, mas o problema era encontrar agricultores que pagassem arrendamento, e trabalhadores que cultivassem o solo. A escassez de m\u00e3o-de-obra era uma prova de que a popula\u00e7\u00e3o deixara de crescer. O baixo \u00edndice de natalidade e extin\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias se estendiam a outras camadas sociais. A migra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho foi interrompida pelo decl\u00ednio do com\u00e9rcio e da ind\u00fastria. O lugar era preenchido por estrangeiros do Reno, do Dan\u00fabio, germanos, iranianos e eslavos. A inunda\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho de fora penetrou nas partes centrais do Imp\u00e9rio, aumentando ainda mais a queda da t\u00e9cnica agr\u00edcola e da produtividade.<\/p>\n<p>A atividade industrial que abastecia o mercado local diminuiu sua produ\u00e7\u00e3o, enfraqueceu e acabou morrendo, e com ela desapareceu o interc\u00e2mbio dentro do Imp\u00e9rio. Embora o Estado cuidasse do transporte do que era necess\u00e1rio \u00e0 corte, o com\u00e9rcio se ocupava de vender artigos de luxo importados do Oriente, passando \u00e0s m\u00e3os dos mercadores daquela regi\u00e3o (s\u00edrios, levantinos e judeus). O esplendor oriental tinha grande atra\u00e7\u00e3o para os germanos e iranianos que ocupavam altas camadas da sociedade.<\/p>\n<p>A prosperidade das cidades foi minada por essas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. As grandes resistiram por mais tempo. Ainda no s\u00e9culo IV eram erguidos grandes edif\u00edcios em Roma, mas no s\u00e9culo seguinte acontece a decad\u00eancia. A nova capital, Biz\u00e2ncio-Constantinopla, transformou-se na capital do mundo, de luxo abundante, adornada de uma arquitetura imponente nos pal\u00e1cios e igrejas. Alexandria, Cartago, \u00c9feso, Antioquia ainda sobreviviam, bem como Ravena, Mediolano (Mil\u00e3o),Tr\u00e8ves, Nicom\u00e9dia e Nic\u00e9ia, onde os coparticipantes do poder real mantinham suas cortes.<\/p>\n<p>Desaparecimento da classe m\u00e9dia<\/p>\n<p>As igrejas crist\u00e3s e os mosteiros eram os \u00fanicos pr\u00e9dios novos. O mato come\u00e7ou a crescer nas cidades e os antigos edif\u00edcios entraram em deteriora\u00e7\u00e3o. O aspecto social e econ\u00f4mico permaneceu o mesmo dos tempos de Diocleciano e Constantino, ou seja, conservou as mesmas fei\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo III. O imperador com sua fam\u00edlia e cortes\u00e3os, oficiais, altos prelados e a burocracia constitu\u00edam as classes superiores. Todos tinham bens, em propor\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis, principalmente de terras.<\/p>\n<p>Na escala social vinham depois os negociantes e especuladores, na maioria semitas. A classe m\u00e9dia urbana estava desaparecendo com suas antigas fam\u00edlias se misturando \u00e0 ral\u00e9 que trabalhava para o Estado, ou entre a popula\u00e7\u00e3o rural (serva do poder ou dos grandes senhores). A escravid\u00e3o, mesmo como institui\u00e7\u00e3o, foi perdendo sua import\u00e2ncia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Cita o autor do livro, que a capacidade de trabalho decaiu, os gostos se vulgarizaram e um pequeno grupo de privilegiados foi entrando em decad\u00eancia, como o n\u00edvel intelectual. As escolas existiam, mas j\u00e1 n\u00e3o atraiam quase ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser entre as classes superiores que cuidavam de preparar seus alunos para o servi\u00e7o p\u00fablico. A educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica se resumia no aprendizado do grego, do latim e do conhecimento dos principais cl\u00e1ssicos. Uma educa\u00e7\u00e3o superior inclu\u00eda a ret\u00f3rica (falar, escrever e estudar assuntos jur\u00eddicos).<\/p>\n<p>A LEI DO MUNDO<\/p>\n<p><!--more--> O Direito Romano tornou-se, aos poucos, a lei de todo o mundo civilizado, destacando nomes, como Paulo, Papiniano e Ulpiano. Houve um progresso da condi\u00e7\u00e3o de escravos. A filosofia estava viva, mas restrita a um pequeno c\u00edrculo. Depois de Plotino n\u00e3o apareceu mais nenhum g\u00eanio. A reformula\u00e7\u00e3o do platonismo tornou-se no \u00faltimo ref\u00fagio do pensamento pag\u00e3o. Os escritores produziam para si mesmos, ou para um estreito p\u00fablico de aristocratas e gente mais culta.<\/p>\n<p>Presos \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas e t\u00e9cnicas do passado, grandes nomes surgiram por volta do ano 400 da nossa era, como Cl\u00e1udio Claudiano, Rut\u00edlio Namaciano e Aus\u00f4nio com seus poemas, discursos e cartas. Na mesma \u00e9poca, no Oriente tivemos o imperador Juliano e Lib\u00e2nio de Anti\u00f3quia. Tamb\u00e9m, a Hist\u00f3ria n\u00e3o morreu na pessoa de Amiano Marcelino.<\/p>\n<p>Somente a literatura crist\u00e3 estava viva. O n\u00famero de leitores s\u00f3 aumentava e obtinha for\u00e7as na luta sangrenta contra os defensores do velho mundo e os dissidentes em suas pr\u00f3prias fileiras. Ela tudo fazia para proporcionar uma educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 para os s\u00faditos do Imp\u00e9rio. As estrelas mais brilhantes do cristianismo, no s\u00e9culo IV, foram Ambr\u00f3sio (bispo de Mil\u00e3o) e o culto Jer\u00f4nimo que viveu de 335 a 420.<\/p>\n<p>Literatura e artes crist\u00e3s<\/p>\n<p>No Oriente, o cristianismo tamb\u00e9m encontrou terreno f\u00e9rtil com a literatura. As bases da teologia e poesia crist\u00e3s foram lan\u00e7adas por Atan\u00e1sio da Alexandria, Eus\u00e9bio de Cesar\u00e9ia, Greg\u00f3rio de Nazianzo e Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo. A arquitetura ainda florescia com as obras de Diocleciano, Domiciano, Trajano e Constantino. Foi sob o governo de Justiniano que se ergueu a maravilha arquitet\u00f4nica que chamamos de Igreja de Santa Sofia.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio foi mais acentuado na escultura e na pintura. Os bustos-retratos de muitos imperadores, com sua impon\u00eancia, refletem a tend\u00eancia caracter\u00edstica do Imp\u00e9rio para as formas maci\u00e7as e pesadas. A arte continuou seu curso individual, refletindo a vida ao seu redor e o sentimento dos contempor\u00e2neos. Os arquitetos se empenharam em construir as igrejas crist\u00e3s, ou casas de ora\u00e7\u00e3o, com todos adornos de pintura, mosaico e escultura.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, a nova arte crist\u00e3 se distanciava da antiga. As figuras naturalistas e os ornamentos sutis do estilo greco-romano, com todo simbolismo e impressionismo, foram afastados no esfor\u00e7o de encontrar formas que representassem as pessoas e s\u00edmbolos caros a todos os crist\u00e3os. A Igreja passou a exigir que as velhas formas e t\u00e9cnica se adaptassem \u00e0s necessidades do culto crist\u00e3o.<\/p>\n<p>O Oriente podia atender a tais exig\u00eancias, principalmente o iraniano, inferior \u00e0 S\u00edria e ao Egito em eleg\u00e2ncia e refinamento. As artes aplicadas do Ir\u00e3 e da \u00c1sia Central chegaram a Roma por diferentes caminhos e derrotaram todos os concorrentes. O mundo antigo envelheceu. Uma nova vida cresceu entre as ru\u00ednas, e o novo edif\u00edcio da civiliza\u00e7\u00e3o europeia levantou-se obre o antigo alicerce.<\/p>\n<p>Mesmo envelhecido, o antigo n\u00e3o morreu. Continuou vivo em n\u00f3s, como base do nosso pensamento, de nossa\u00a0 atitude para com a religi\u00e3o, nossa arte, nossas institui\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e materiais \u2013 segundo o autor \u00a0do livro.<\/p>\n<p>CAUSAS DA DERROCADA<\/p>\n<p>Quando observamos esse processo ao primitivismo, nos deparamos com as transforma\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas nas classes da sociedade, at\u00e9 ent\u00e3o, criadora das culturas. A capacidade de cria\u00e7\u00e3o e sua energia se esgotam. O homem perde o interesse de criar. Seu esp\u00edrito passa a se ocupar das coisas materiais ligados \u00e0 vida terrestre. O centro de atra\u00e7\u00e3o se desloca da terra para o c\u00e9u, ou da terra para o mundo do al\u00e9m-t\u00famulo.<\/p>\n<p>O escritor aponta os decl\u00ednios da civiliza\u00e7\u00e3o hel\u00eanica e romana. Na hist\u00f3ria do Oriente, s\u00e3o muitas as quedas, provocadas por causas externas, como uma conquista estrangeira. Os cassitas conquistaram a Babil\u00f4nia e os hicsos o Egito. Os persas destru\u00edram a Ass\u00edria. O imp\u00e9rio hitita foi derrubado pelos tr\u00e1cios. Em alguns casos, aconteceu o decl\u00ednio ser apenas tempor\u00e1rio. A transfer\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o para outra \u00e9 uma caracter\u00edstica do Oriente. Os ass\u00edrios herdaram a cultura da Babil\u00f4nia, que passa aos persas e depois aos partos.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, no Oriente n\u00e3o existe aquela modifica\u00e7\u00e3o geral e permanente, que \u00e9 caracter\u00edstico do Ocidente. A raz\u00e3o \u00e9 que a cultura oriental se baseia numa interpreta\u00e7\u00e3o religiosa permanente, resistente a todas as mudan\u00e7as. A cultura nascia da luta contra inimigos estrangeiros, pertencente a pequenos grupos separados, na forma\u00e7\u00e3o de uma cidade-estado. Essa cultura era propriedade comum de todos os cidad\u00e3os, sem exclus\u00e3o dos escravos.<\/p>\n<p>No entanto, o desenvolvimento econ\u00f4mico dividiu a popula\u00e7\u00e3o das cidades gregas em seis grupos opostos \u2013 os melhores e os piores (ricos e pobres). Ap\u00f3s a morte de Alexandre, a cultura grega conquistou a cultura oriental. A civiliza\u00e7\u00e3o grega floresceu, pois a atividade intelectual encontrou um campo mais amplo com a expans\u00e3o do n\u00famero de suas cidades.<\/p>\n<p>Gr\u00e9cia perde os melhores esp\u00edritos<\/p>\n<p>Quando a Gr\u00e9cia foi conquistada pelos romanos, a cidade-estado perdeu sua liberdade, vindo em seguida um longo per\u00edodo de anarquia pol\u00edtica e social. Apear da sua cultura superior, a Gr\u00e9cia tornou-se escrava dos homens que considerava b\u00e1rbaros. As principais v\u00edtimas foram os melhores esp\u00edritos, os que mantinham vivos os ideais da liberdade. Passaram a duvidar da raz\u00e3o, e mergulharam no materialismo vulgar, e buscaram a salva\u00e7\u00e3o nas religi\u00f5es m\u00edsticas.<\/p>\n<p>Os gregos encontraram sucessores no Ocidente. A cidade-estado foi substitu\u00edda pela cidade de Roma. Diz o autor, que a aristocracia romana tomou o facho da civiliza\u00e7\u00e3o grega e continuou a sua miss\u00e3o, acrescentando as qualidades que lhe eram peculiares. Logo que Roma se tornou dona do mundo, o poder dos melhores homens, foi assaltada pelos cidad\u00e3os em geral. Seu grito de guerra era uma distribui\u00e7\u00e3o melhor e mais justa da riqueza e uma forma mais democr\u00e1tica de governo.<\/p>\n<p>A Perda da Raz\u00e3o<\/p>\n<p>Por oito anos arrastou-se esse conflito, e a aristocracia saiu derrotada. Seu lugar foi tomada pela classe m\u00e9dia italiana, que procurou manter o elevado padr\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o e pagou caro pela sua vit\u00f3ria. Com o poder imperial, a liberdade diminuiu e foi rebaixada at\u00e9 ao n\u00edvel da submiss\u00e3o volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p>As classes superiores, com exce\u00e7\u00e3o das casas senatoriais, destru\u00eddas pelos imperadores, levavam uma vida calma e f\u00e1cil. Sob a prote\u00e7\u00e3o do imperador, n\u00e3o precisavam se preocupar com o futuro. Roma n\u00e3o tinha competidor. A opini\u00e3o geral era que sua civiliza\u00e7\u00e3o e seu sistema pol\u00edtico eram imortais.<\/p>\n<p>Nessa atmosfera indolente, os mais privilegiados encontraram seus ideais no prazer, na procura do lucro e na consecu\u00e7\u00e3o das vantagens materiais. O homem tornou-se ego\u00edsta e ocioso. Em tal era de estagna\u00e7\u00e3o, os melhores esp\u00edritos ficaram descontentes com a vida e perderam a f\u00e9 na for\u00e7a da raz\u00e3o, enquanto a censura se acentuava. A pena e o l\u00e1pis produziram trabalhos inteligentes, mas incapazes de elevar o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Muitos procuraram ref\u00fagio na religi\u00e3o, contemplando Deus em comunh\u00e3o com um mundo invis\u00edvel. Voltaram-se para dentro de si mesmos, adotando a auto perfei\u00e7\u00e3o. \u201cSentimos o cansa\u00e7o e a indiferen\u00e7a que minaram n\u00e3o apenas a cultura do Estado, mas tamb\u00e9m seu sistema pol\u00edtico, sua for\u00e7a militar e seu progresso econ\u00f4mico. Um dos sintomas dessa indiferen\u00e7a \u00e9 o suic\u00eddio da ra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>A cultura passou a se limitar a uma minoria, mas novas cidades surgiram entre os celtas, iberos, il\u00edrios, tr\u00e1cios e berberes, no Ocidente, bem como na \u00c1sia Menor, S\u00edria e nas plan\u00edcies da Ar\u00e1bia. O proletariado urbano de escravos e libertos cresceu com a mesma rapidez. O mesmo ocorreu com a popula\u00e7\u00e3o rural. Seu quinh\u00e3o era o trabalho. A cultura n\u00e3o chegava at\u00e9 essa gente, vivendo de migalhas.<\/p>\n<p>A ociosidade e a apatia<\/p>\n<p>Dessa forma, a ociosidade da classe dominante provocou uma nova crise social e econ\u00f4mica no Imp\u00e9rio. Os imperadores de maior vis\u00e3o compreenderam o perigo, mas era arriscado despertar as classes superiores da apatia.<\/p>\n<p>Do outro lado, se deparava com o descontentamento entre os pobres, principalmente quando o Imp\u00e9rio foi obrigado a defender-se contra os inimigos externos, depois de dois s\u00e9culos de paz. Exigia-se entusiasmo, mas os ricos n\u00e3o podiam ser despertados de sua indiferen\u00e7a. Vendo aquilo, os pobres encheram-se de \u00f3dio e inveja. Os governantes tentaram for\u00e7ar seus s\u00faditos a defender o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o foi esmagada<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a m\u00e3o da autoridade caiu de forma pesada, tanto sobre os ricos como sobre os pobres. Para salvar o reino, come\u00e7ou a esmagar a popula\u00e7\u00e3o. Da\u00ed surgiu a cat\u00e1strofe social e pol\u00edtica do s\u00e9culo III, quando o Estado, apoiando-se no ex\u00e9rcito, derrotou as classes superiores, deixando-as na mis\u00e9ria. Foi um golpe fatal na civiliza\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica e urbana do mundo antigo.<\/p>\n<p>No seu sofrimento, o homem procurou abrigo no al\u00e9m-t\u00famulo. As classes inferiores nada lucraram com a vit\u00f3ria. A escravid\u00e3o e a ru\u00edna foram seu quinh\u00e3o. Tamb\u00e9m, eles encontraram ref\u00fagio na religi\u00e3o e na esperan\u00e7a de felicidade na vida futura.<\/p>\n<p>O Estado, mesmo diante das ru\u00ednas, continuou existindo enquanto sua cultura e organiza\u00e7\u00e3o foram superiores \u00e0s de seus inimigos. Quando isso desapareceu, novos senhores tomaram conta daquilo que se tornara um organismo exangue.<\/p>\n<p>Segundo o escritor, a derrocada do Imp\u00e9rio Romano n\u00e3o pode ser atribu\u00edda \u00e0 decad\u00eancia f\u00edsica, a qualquer enfraquecimento do sangue entre as classes superiores, nem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, mas a uma modifica\u00e7\u00e3o na atitude do esp\u00edrito dos homens. De acordo com ele, o processo foi o mesmo da Gr\u00e9cia. Uma dessas condi\u00e7\u00f5es foi a natureza aristocr\u00e1tica e exclusivista da civiliza\u00e7\u00e3o antiga.<\/p>\n<p>\u201cA rea\u00e7\u00e3o mental e a divis\u00e3o social privaram o mundo antigo do poder de conservar sua civiliza\u00e7\u00e3o, ou de defende-la contra a dissolu\u00e7\u00e3o interna e a invas\u00e3o externa da barb\u00e1rie\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escorcha dos impostos para sustentar os soldados mercen\u00e1rios; um ex\u00e9rcito corrompido que indicava e derrubava imperadores; a divis\u00e3o do reino em dois, Oriente e Ocidente; o desgaste do povo (n\u00e3o mais acreditava no estoicismo racional greco-romano) \u00a0com os governos e os deuses que n\u00e3o mais satisfaziam seus desejos, preferindo aderir \u00e0 prega\u00e7\u00e3o de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3941"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3941"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3941\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3942,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3941\/revisions\/3942"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}