{"id":3524,"date":"2019-04-05T23:14:03","date_gmt":"2019-04-06T02:14:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=3524"},"modified":"2019-04-05T23:14:29","modified_gmt":"2019-04-06T02:14:29","slug":"pelas-trevas-das-negacoes-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2019\/04\/05\/pelas-trevas-das-negacoes-da-historia\/","title":{"rendered":"PELAS TREVAS DAS NEGA\u00c7\u00d5ES DA HIST\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>Como no poema de Maiakovski em que o sujeito invade o seu quintal, quebra suas flores e a pessoa nada faz, o capit\u00e3o-presidente Boz\u00f3 nega que \u00a0houve ditadura, e a sociedade fica calada. A ministra da Mulher e dos Direitos Humanos diz que menino veste azul e menina veste rosa, e a sociedade n\u00e3o reage. O ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores declara, em Israel, que o nazismo foi um movimento de esquerda, e s\u00f3 alguns pronunciamentos de contesta\u00e7\u00e3o. Agora vem o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, o gringo que n\u00e3o fala portugu\u00eas, anuncia que vai mudar os livros did\u00e1ticos para ensinar nas escolas que n\u00e3o houve golpe militar, nem ditadura, e sim uma \u201cdemocracia de for\u00e7a\u201d, e a sociedade fica calada. S\u00f3 apenas alguns ru\u00eddos contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>Do quintal, eles v\u00e3o entrar em nossas casas \u00e0 for\u00e7a e levar tudo que ainda nos resta de dignidade, de princ\u00edpios, de conhecimento, de conquistas igualit\u00e1rias, e nos impor a nega\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, nos deixando nas trevas. \u00c9 este o caminho que est\u00e3o tra\u00e7ando para um nazifascismo, segundo os pr\u00f3prios, de esquerda, fazendo o Brasil voltar pra tr\u00e1s. \u00c9 um massacre lento e compassado de ideias retr\u00f3gradas, selvagens e primitivas, atingindo, principalmente, as minorias, com seus preconceitos homof\u00f3bicos, xen\u00f3fobos e racistas.<\/p>\n<p>Diante do que ele j\u00e1 falou de improp\u00e9rios no passado contra mulheres, gays, negros e outros segmentos da sociedade, o pr\u00f3prio capit\u00e3o nem imaginaria que seria eleito. Entrou como um aventureiro e tomou um susto quando come\u00e7ou a ser carregado nos bra\u00e7os do povo. Eleito, deve hoje reconhecer que n\u00e3o tinha nenhum preparo para o cargo, e que o maior culpado foi o pr\u00f3prio povo que, tomado de raiva, o escolheu para se vingar do outro.<\/p>\n<p>Em toda a minha vida nunca esperava que iria ouvir este termo destrambelhado de \u201cdemocracia de for\u00e7a\u201d; que fossem negar uma ditadura de torturas e mortes s\u00f3 porque, a princ\u00edpio, o golpe contou com apoio dos civis e at\u00e9 da Igreja Cat\u00f3lica! Nunca esperava ouvir que o nazismo foi um movimento de esquerda. Que regime \u00e9 esse de democracia de for\u00e7a quando um Ai 5 oprimiu, censurou, fechou Congresso, torturou e matou nos por\u00f5es escuros e sujos de sangue, dores e gemidos? Agora est\u00e3o querendo negar tudo isso e ensinar aos nossos jovens outra hist\u00f3ria falsa e mentirosa!<\/p>\n<p>Num artigo da imprensa da capital, \u201cO Pa\u00eds do Carnaval\u201d, o arquiteto e professor Paulo Ormindo de Andrade, diz num dos trechos que as can\u00e7\u00f5es e a ironia s\u00e3o trincheiras da resist\u00eancia. \u201cVencemos a ditadura de 64 embalados pelas m\u00fasicas de Vandr\u00e9, Chico Buarque e outros\u201d. Cita o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9 (1895-1971), cr\u00edtico de Vargas, depois de ser espancado pelos agentes do Dops, colocou na porta: \u201cEntre sem bater\u201d, que ganhou a m\u00eddia censurada.<\/p>\n<p>Acrescenta o professor que s\u00e3o dele frases como \u201co voto deve ser rigorosamente secreto, s\u00f3 assim o eleitor n\u00e3o ter\u00e1 vergonha de votar no candidato\u201d; \u201ca cr\u00edtica diz o que faz, o velho o que fez e o idiota o que vai fazer\u201d; \u201cnunca desista de seu sonho, se acabou em uma padaria, procure em outra\u201d; \u201ceste mundo \u00e9 redondo, mas est\u00e1 ficando muito chato (terraplanistas)\u201d.<\/p>\n<p><!--more-->Mais adiante, o articulista lembra Millor Fernandes (1923-20120), autor das m\u00e1ximas sempre atuais, como: \u201cO Brasil \u00e9, sempre foi, uma empresa unifamiliar\u201d; \u201cnos \u00faltimos e dram\u00e1ticos acontecimentos, perdi magn\u00edfica oportunidade de ficar calado\u201d; \u201cse seus princ\u00edpios s\u00e3o r\u00edgidos e inabal\u00e1veis, voc\u00ea, pessoalmente, j\u00e1 n\u00e3o precisa ser tanto\u201d; \u201co Brasil \u00e9 os Estados Unidos, onde eu vivo\u201d; \u201cas pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades\u201d; \u201cquem sabe tudo, \u00e9 porque anda muito mal informado\u201d; \u201cantigamente, os animais falavam, hoje, escrevem\u201d; \u201cjornalismo \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o, o resto \u00e9 armaz\u00e9m de secos e molhados\u201d. Algumas eu concordo, e outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda sobre Millor, \u201cViva o Brasil\/onde o ano inteiro\/\u00e9 primeiro de abril\u201d; \u201cerrar \u00e9 humano, botar a culpa nos outros tamb\u00e9m\u201d; \u201cjamais diga uma mentira que n\u00e3o possa provar\u201d; \u201cquando disseram que o crime n\u00e3o compensa, voc\u00ea tem de lembrar que isso \u00e9 porque, quando compensa, n\u00e3o \u00e9 crime\u201d; \u201co dinheiro n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o fala como faz muita gente calar a boca\u201d; \u201cisto \u00e9 que \u00e9 Congresso eficiente, ele mesmo rouba, ele mesmo investiga e ele mesmo absolve; \u201co Brasil foi condenado \u00e0 esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Sobre declara\u00e7\u00f5es pat\u00e9ticas de pol\u00edticos e ministro, vamos citar S\u00e9rgio Porto, que assinava Stanislaw Ponte Preta, quando publicou em 1966 e 1968, em plena ditadura, tr\u00eas livros que foram destaque editorial. Chamavam-se \u201cFebecap\u00e1, Festival de Besteiras que Assola o Pa\u00eds\u201d. Sebasti\u00e3o Nery, meu amigo que tamb\u00e9m estudou no Semin\u00e1rio de Amargosa como eu, publicou entre 1973 e 2002, cinco volumes de \u201cFolclore Pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>Estamos cada vez mais adentrando nas trevas da ignor\u00e2ncia, da falta do saber e do conhecimento, sendo for\u00e7ados a negar a nossa hist\u00f3ria, muitas vezes manchada de sangue, de dor e de l\u00e1grimas, como na escravid\u00e3o e nas ditaduras. N\u00e3o podemos aceitar calados esta farsa dos brutos e dessa bicharada de hienas, de lobos e ratos. N\u00e3o somos obrigados a aturar e ouvir essa enxurrada de declara\u00e7\u00f5es esquizofr\u00eanicas e fraudulentas de nega\u00e7\u00e3o da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como no poema de Maiakovski em que o sujeito invade o seu quintal, quebra suas flores e a pessoa nada faz, o capit\u00e3o-presidente Boz\u00f3 nega que \u00a0houve ditadura, e a sociedade fica calada. A ministra da Mulher e dos Direitos Humanos diz que menino veste azul e menina veste rosa, e a sociedade n\u00e3o reage. 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