{"id":3346,"date":"2019-01-24T23:32:19","date_gmt":"2019-01-25T02:32:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=3346"},"modified":"2019-01-24T23:33:13","modified_gmt":"2019-01-25T02:33:13","slug":"o-povo-de-boquira-encurralado-pela-mina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2019\/01\/24\/o-povo-de-boquira-encurralado-pela-mina\/","title":{"rendered":"O POVO DE BOQUIRA ENCURRALADO PELA MINA"},"content":{"rendered":"<p>Com base num fato real de uma mat\u00e9ria jornal\u00edstica realizada no auge pesado da ditadura civil-militar de 1974 pelo jornal \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d, proibida de ser divulgada, o assunto virou livro \u201cBoquira\u201d, numa reportagem romanceada a partir da pena ligeira e denunciativa do amigo-companheiro jornalista Carlos Navarro Filho, que na \u00e9poca chefiava a Sucursal do peri\u00f3dico, em Salvador.<\/p>\n<p>O relato \u00e9 a fiel voz de desabafo de um povo do interior do sert\u00e3o baiano que sofreu todo tipo de opress\u00e3o de uma companhia multinacional de minera\u00e7\u00e3o e que dava toda cobertura ao regime militar em troca de benesses dos governos dos generais M\u00e9dici e Geisel. A empresa tinha suas influ\u00eancias pol\u00edticas at\u00e9 em Vit\u00f3ria da Conquista onde Renato Rebou\u00e7as possu\u00eda participa\u00e7\u00f5es em muitas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Naquele per\u00edodo j\u00e1 era rep\u00f3rter de economia do jornal \u201cA Tarde\u201d e conheci o din\u00e2mico, competente e irrequieto colega Navarro em algumas andan\u00e7as de coberturas, inclusive feitas em outros estados. Em meu livro \u201cUma Conquista Cassada\u201d fa\u00e7o algumas refer\u00eancias ao caso \u201cBoquira\u201d e sua presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u00e0 ditadura na captura do capit\u00e3o Carlos Lamarca.<\/p>\n<p>A obra come\u00e7a com um coment\u00e1rio fidedigno do rep\u00f3rter Biaggio Talento sobre o ambiente redacional barulhento, insalubre e \u201cfumac\u00ea\u201d dos jornais daquele tempo, e as dificuldades para se passar um texto do interior. Sou como meu amigo Carlos Gonzalez da mesma gera\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas de escrever, do teletipo e do aparelho de telefoto que enviava as imagens reveladas num laborat\u00f3rio para filmes.<\/p>\n<p>Para matar as saudades, concordo com Paolo Marconi, no pref\u00e1cio, quando disse que \u201cfomos felizes e n\u00e3o sab\u00edamos\u201d. Lembra ele do respeitado Jornal do Brasil e os tradicionais Estado de S\u00e3o Paulo, Folha de S\u00e3o Paulo e o Globo, bem como do famigerado Ato Institucional no 5. As cr\u00edticas n\u00e3o podiam ser nem construtivas, mas elogiosas, como retrucou o marechal Arthur da Costa e Silva para os editores do JB.<\/p>\n<p>Para Marconi, o livro \u00e9 produto de uma desforra de quem viu seu jornal n\u00e3o publicar uma grande reportagem sobre Boquira\/Cobrac \u2013 Companhia Brasileira de Chumbo, subsidi\u00e1ria da francesa Pen\u00e3rroya Oxide S.A. Foi, na verdade, uma censura interna. \u201cO livro \u00e9 de den\u00fancia e ainda atual por mais estranho que possa parecer\u201d. Depois de paralisar a extra\u00e7\u00e3o em 1992 em Boquira e fechar a f\u00e1brica de lingotes de chumbo em Santo Amaro, a Cobrac deixou um dos maiores passivos ambientais da hist\u00f3ria da minera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.\u00a0 A Samarco, em Minas Gerais, talvez tenha superado em termos de danos.<\/p>\n<p>Em redor da mina e margeando o munic\u00edpio de Boquira, Marconi calcula que existam mais de seis milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos, sem qualquer conten\u00e7\u00e3o. Em Santo Amaro est\u00e3o hoje 490 mil toneladas de material contaminado, com metais pesados. Os \u00f3rg\u00e3os de controle ambiental tentam, desde 1993, condenar a Pen\u00e3rroya. A primeira senten\u00e7a condenat\u00f3ria foi proferida em 2014. Mesmo assim, em janeiro de 2016 houve recurso da r\u00e9.<\/p>\n<p>O PADRE AVARENTO<\/p>\n<p>Na narra\u00e7\u00e3o de Navarro, em sua hist\u00f3ria \u201cBoquira\u201d, que tanto mal fez ao povo do povoado de poucas casas, tudo come\u00e7ou no ano de 1954 com o padre Naz\u00e1rio, um descontente com sua situa\u00e7\u00e3o de pobreza, saindo de Oliveira dos Brejinhos\u00a0 com destino \u00e0 fazenda Paje\u00fa, em Boquira, para dar a extrema-un\u00e7\u00e3o \u00e0 idosa Neusina de Fil\u00f3.<\/p>\n<p>Ele descreve o cen\u00e1rio de calor infernal do sert\u00e3o. Padre Naz\u00e1rio \u00e9 um avarento e passa pelo Morro do Pelado onde se esbara com, seu guia Cod\u00f3, com pepitas gigantes. Imagina que as pedras s\u00e3o ouro puro e n\u00e3o esquece do que viu na terra de pessoas ing\u00eanuas e ignorantes.<\/p>\n<p>Na volta, ele recolheu amostras das pedras brilhantes que s\u00f3 serviam para fazer cercas de mureta para n\u00e3o deixar animal escapar. Aquela extrema-un\u00e7\u00e3o um dia veio a mudar a vida de toda aquela gente de Boquira. Dali em diante o estado de esp\u00edrito do padre se renovara e atendia a todos com satisfa\u00e7\u00e3o em Maca\u00fabas e vizinhan\u00e7a. Aguardava ansioso a chegada do seu amigo farmac\u00eautico Agenor, para levar as pedras para exame em Salvador.<\/p>\n<p>Tudo calculado em sua mente trai\u00e7oeira. Tr\u00eas semanas depois o amigo retornou e o resultado dava alto teor de chumbo, mas as pedras careciam de exames mais precisos a serem feitos em S\u00e3o Paulo. O padre malandro continuava a celebrar suas missas em Maca\u00fabas, mas sonhava ficar rico. Passou a namorar a filha do Agenor que dava uma de m\u00e9dico charlat\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more-->Em 1955, os dois come\u00e7aram a tirar min\u00e9rio de Boquira no lombo de burro. Tempos depois Naz\u00e1rio tornou-se pequeno s\u00f3cio da grande empresa e ficou rico em 1965. Passou a explorar outras \u00e1reas enganando os tabar\u00e9us e repassando o dom\u00ednio por milh\u00f5es \u00e0 multinacional. Certo dia reapareceu em Boquira num jipe sem falar com ningu\u00e9m e foi direto para o Morro do Pelado onde encheu o carro com grandes pedras, para exames no sul. Deu fraco, mas n\u00e3o desistiu. Voltou a pegar mais pedras e dessa vez deu galena viva, puro chumbo.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, passou a frequentar mais o povoado, agradar o povo e a celebrar missa todos os domingos. Foi a\u00ed que armou a trama. No serm\u00e3o dizia que precisava de assinaturas do povo\u00a0 para um abaixo-assinado a ser levado ao governo, para construir uma igreja nova. Foi nessa safadeza que passou a perna em todo mundo.<\/p>\n<p>COMPROU TODO MUNDO<\/p>\n<p>Com as assinaturas, procurou um advogado em Salvador e requereu usucapi\u00e3o da \u00e1rea, incluindo serras vizinhas com todos os poderes passados em nome dele pelos moradores. Foi vender a\u00e7\u00f5es no estrangeiro. O maior comprador foi o doutor Linus, o pistoleiro da companhia. Qualquer advogado era comprado pela empresa.<\/p>\n<p>Como sempre acontece, a mineradora passou a agradar o povo com besteiras, como caminh\u00e3o de cervejas, jogos de futebol com times do Rio de Janeiro, emprestar dinheiro e fazer churrascos com as piores partes dos bois. O prefeito foi comprado e todos aqueles que apareciam em defesa da popula\u00e7\u00e3o. Mesmo quem tinha documentos da terra perdia para o advogado baiano Armando da Silveira, que antes foi contratado para defender os propriet\u00e1rios e tornou-se parceiro da Minera\u00e7\u00e3o Boquira.<\/p>\n<p>A reportagem registra v\u00e1rios depoimentos queixosos dos que perderam tudo para o padre e o Agenor que, com seus capangas, destru\u00edram ro\u00e7as e pastagens. \u201cMandam a pol\u00edcia, pegam os propriet\u00e1rios, prendem e d\u00e3o at\u00e9 bolo. Essa companhia s\u00f3 tem brutalidade. O padre tirou a batina e n\u00e3o foi condenado a nada\u201d \u2013 desabafou um entrevistado.<\/p>\n<p>As mat\u00e9rias foram feitas pelo fot\u00f3grafo Bel e o rep\u00f3rter de reda\u00e7\u00e3o Dailton, que foram amea\u00e7ados e tiveram que deixar o local \u00e0s pressas, mas com uma boa colheita de dados. Em seu livro, Navarro pinta o cen\u00e1rio daquela \u00e9poca ditatorial e dos jornalistas que acreditavam mudar o mundo, denunciando crimes, pris\u00f5es ilegais, corrup\u00e7\u00e3o, grilagens no oeste, tortura e morte, mas eram amorda\u00e7ados pela censura.<\/p>\n<p>A mineradora tinha seus prepostos militares que reprimiam qualquer manifesta\u00e7\u00e3o, e vigiavam o N\u00facleo de Assist\u00eancia Rural de Boquira. Quando o neg\u00f3cio come\u00e7ou a apertar, os rep\u00f3rteres foram aconselhados por Linus, o coronel reformado da PM, a deixar a cidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Santo Amaro, parte da produ\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio era transportado para o Paran\u00e1, e a companhia praticava contrabando de ouro, prata e sonega\u00e7\u00e3o fiscal, conforme levantamento da equipe do jornal \u201cEstad\u00e3o\u201d. Com m\u00e3o de ferro, a empresa mantinha o controle opressor da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reportagem incluiu levantamentos extra\u00eddos at\u00e9 na Fran\u00e7a, pa\u00eds de origem da multinacional, que tinha um dos bra\u00e7os da minera\u00e7\u00e3o em Salvador, Curitiba, S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia. O regime militar monitorava tudo e recebia seus dividendos da companhia, que comprou todos em Boquira.<\/p>\n<p>Mesmo assim, depois de tudo pronto nas apura\u00e7\u00f5es, o \u201cEstad\u00e3o\u201d ainda publicou a primeira mat\u00e9ria, mas o editor franc\u00eas do jornal impediu que as demais fossem divulgadas. Como o trabalho foi feito em conjunto com o Di\u00e1rio de Not\u00edcias e o Jornal da Bahia, s\u00f3 os baianos fizeram as den\u00fancias.<\/p>\n<p>Em sua obra romanceada, mas verdadeira, com sua linguagem atrativa que prende o leitor do in\u00edcio ao fim, Navarro conta todos detalhes das arma\u00e7\u00f5es praticadas pela mineradora em Boquira, inclusive assassinatos, linchamentos e torturas. Aponta os personagens das arbitrariedades criminosas, e cita as\u00a0 v\u00edtimas dos carrascos dos moradores.<\/p>\n<p>Descreve, por exemplo, a hist\u00f3ria de Jo\u00e3o Mega, um dos donos do Morro do Pelado, que foi lesado pelo padre Naz\u00e1rio. No seu desabafo, disse: \u201cMate um homem, mas n\u00e3o desmoralize ele que pode virar um filho do cabrunco e cometer barbaridades, ou pode se amofinar e morrer um tantinho a cada dia\u201d&#8230; Para Navarro, Jo\u00e3o Mega sofria da dor de dentro e morria de morte do\u00edda. Eram os pistoleiros matando, a \u00e1gua contaminada e os advers\u00e1rios da mina acuados.<\/p>\n<p>Na sua express\u00e3o de revolta, o autor de \u201cBoquira\u201d chega a afirmar que a empresa controla os neg\u00f3cios, a sa\u00fade, a pol\u00edcia, os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e a igreja, exce\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, \u201cporque aqui ele nunca botou os p\u00e9s\u201d. A mina bota prefeito e tira prefeito. A CPI do Congresso apontou v\u00e1rios crimes cometidos pela companhia (sonega\u00e7\u00e3o fiscal, contrabando, mortes), mas n\u00e3o aconteceu nada.<\/p>\n<p>Por fim, o jornalista Navarro faz um hist\u00f3rico sobre as origens do povoado de Boquira e como seu povo simples sempre foi ludibriado pelos mais fortes, culminando com a chegada da mineradora. Destaca todo o aparato montado pelas for\u00e7as armadas e pelo delegado Fleury na regi\u00e3o (Brotas de Maca\u00fabas, Oliveira dos Brejinhos e Boquira), com todo apoio log\u00edstico da mineradora, para capturar e matar Carlos Lamarca e seu companheiro Zequinha. \u201cOs gringos vindos dos quintos dos infernos cometeram barbaridades\u201d- protestou Jo\u00e3o Mega.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com base num fato real de uma mat\u00e9ria jornal\u00edstica realizada no auge pesado da ditadura civil-militar de 1974 pelo jornal \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d, proibida de ser divulgada, o assunto virou livro \u201cBoquira\u201d, numa reportagem romanceada a partir da pena ligeira e denunciativa do amigo-companheiro jornalista Carlos Navarro Filho, que na \u00e9poca chefiava a Sucursal [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3346"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3346"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3347,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3346\/revisions\/3347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}