{"id":3227,"date":"2018-12-21T22:56:33","date_gmt":"2018-12-22T01:56:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=3227"},"modified":"2018-12-21T22:56:52","modified_gmt":"2018-12-22T01:56:52","slug":"os-80-anos-de-vidas-secas-de-graciliano-ramos-em-debate-no-sarau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/12\/21\/os-80-anos-de-vidas-secas-de-graciliano-ramos-em-debate-no-sarau\/","title":{"rendered":"OS 80 ANOS DE &#8220;VIDAS SECAS&#8221; DE GRACILIANO RAMOS EM DEBATE NO SARAU"},"content":{"rendered":"<p>O assunto foi alvo de debate no \u00faltimo Sarau A Estrada em 27 de novembro, e todos os detalhes da vida e da obra do alagoano Graciliano Ramos foram publicados em nosso espa\u00e7o. O Sarau est\u00e1 entrando no nono ano e \u00e9 sempre realizado no Espa\u00e7o Cultural A Estrada, com cantorias, causos e declama\u00e7\u00f5es de poemas, gerando o projeto do Cd Sarau.<\/p>\n<p>POSF\u00c1CIO, de Hermenegildo Bastos. O cr\u00edtico diz que Baleia sonha ou delira quando pensa e projeta, quando opina sobre Fabiano e leva o leitor a elaborar ju\u00edzos de valor. O sujeito \u00e9 o narrador. De Baleia saem muitas falas atrav\u00e9s do seu sil\u00eancio. Os sujeitos transmitem consci\u00eancia individual e coletiva, mesmo na figura\u00e7\u00e3o de derrotados. Vivem no mundo da opress\u00e3o, mas sonham com a liberdade. Cada um tem seu ponto de vista, seu foco. Afirma que a literatura de Graciliano se articula em torno do problema do outro. Vidas Secas apresenta o mundo da degrada\u00e7\u00e3o. Fabiano \u00e9 um trabalhador rural desqualificado. Esfor\u00e7a-se por entender o mundo e a explora\u00e7\u00e3o. Pode escolher entre matar o soldado amarelo, ou deixa-lo vivo. O romance provoca o leitor a acompanhar o processo de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, ao mesmo tempo em que o envolve na quest\u00e3o do destino dos personagens. O leitor vivencia o trabalho, a fadiga e os limites naturais e sociais da exist\u00eancia humana. Graciliano foge das t\u00e9cnicas liter\u00e1rias, e Otto Maria Carpeaux acha que o escritor quis eliminar tudo para ficar com a poesia.\u00a0 O dono da venda, o soldado, o fiscal, o patr\u00e3o se integram ao processo de explora\u00e7\u00e3o do capitalismo. A ida para o sul n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 liberdade. Vidas Secas narra o mundo reificado e a luta dos homens pela liberdade. O escritor converte-se em personagem da obra, de modo diferente daquele de quando o narrador era tamb\u00e9m personagem. O livro, afirma Bastos, \u00e9 de extrema liberdade em rela\u00e7\u00e3o aos modelos tradicionais de romance. Invade o terreno da poesia, o que foi bem observado por Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. Tece um di\u00e1logo entre narrador letrado como o personagem iletrado. Cada artista desenvolve seu trabalho conforme suas peculiaridades. O trabalho liter\u00e1rio \u00e9 ao mesmo tempo amaldi\u00e7oado porque lembra ao homem sua falta de liberdade, mas tamb\u00e9m \u00e9 espa\u00e7o de resist\u00eancia porque reafirma o horizonte da liberdade. A primeira coisa que nos diz uma obra de arte \u00e9 que o mundo da liberdade \u00e9 poss\u00edvel, e isso nos d\u00e1 for\u00e7a para lutar contra o mundo da opress\u00e3o.<\/p>\n<p>REPORTAGENS DO ESTAD\u00c3O \u2013 Os rep\u00f3rteres percorreram Quebrangulo, Bu\u00edque, Palmeira dos \u00cdndios, Mirador do Negr\u00e3o onde foi feito o filme na d\u00e9cada de 60 por Nelson Pereira dos Santos e povoados. \u00a0A fazenda Pitadinho, em Bu\u00edque, Pernambuco foi toda modificada.<\/p>\n<p>Quebrangulo tem 11 mil habitantes e fica na boca do sert\u00e3o. Vive entre a seca e as enchentes do rio Para\u00edba. A casa foi herdada pela fam\u00edlia de Gerusa Marcelo. \u201cTerra de Graciliano, terra de todos n\u00f3s\u201d\u00b4 &#8211; diz um cartaz na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria.\u00a0 A casa nunca virou museu, mas a prefeitura sempre prometeu. Adriana, que mora nela, acha que a casa \u00e9 igual a qualquer outra. A cidade continua na mesma mis\u00e9ria, entre as secas e as inunda\u00e7\u00f5es. Existe a inten\u00e7\u00e3o de se construir um trem tur\u00edstico ligando Quebrangulo a Palmeira dos \u00edndios, no percurso de 28 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Em Bu\u00edque, a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 de palma, xiquexique, mandacarus, macambiras e coroa de frade. A Fazenda foi toda modificada, para cria\u00e7\u00e3o de gado, produ\u00e7\u00e3o de queijos e tem um po\u00e7o artesiano. Vez por outra aparece um visitante para conhecer o lugar onde o escritor cresceu e tomava surras porque aprendeu g\u00edrias dos descendentes de escravos. Pr\u00f3ximo \u00e0 fazenda Pitadinho fica a vila S\u00e3o Domingos onde os Ramos colocaram uma loja depois de perderem tudo na seca. Por l\u00e1, naquela \u00e9poca, carro-de-boi era sinal de progresso.<\/p>\n<p>Em Palmeira dos \u00cdndios, Graciliano foi prefeito de 1928 a 1930. Renunciou ao cargo dois anos depois, desgostoso com a pol\u00edtica. Ele concorreu sozinho \u00e0 elei\u00e7\u00e3o. Depois aceitou ser diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Como prefeito, fez o primeiro C\u00f3digo de Postura Municipal, com 82 artigos. Logo que assumiu, enviou ao governador um relat\u00f3rio transparente, no formato liter\u00e1rio, em estilo inspirador da Lei de Responsabilidade Fiscal, O relat\u00f3rio tamb\u00e9m impressionou o editor Augusto Schimidt. Construiu estradas, teve a ideia de um a\u00e7ude e reclamou do contrato feito com o fornecedor de energia el\u00e9trica. Esse contrato foi \u00a0feito \u00e0s escuras &#8211; disse. No seu tempo tinha 11 funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Conta a hist\u00f3ria que um dia um matuto foi ao seu gabinete e reclamou que, pela segunda vez, o gado do vizinho invadiu sua ro\u00e7a e destruiu a planta\u00e7\u00e3o de mandioca, com preju\u00edzo de dois contos. O senhor deveria ter vindo h\u00e1 mais tempo \u2013 advertiu o prefeito, no que o matuto respondeu que o gado era do seu pai. \u201cO prefeito, meu senhor, n\u00e3o tem pai, nem m\u00e3e\u201d. Os rep\u00f3rteres constataram que por l\u00e1 existem poucas homenagens (alguns semin\u00e1rios e eventos). Em 2017, o munic\u00edpio sofreu uma das piores estiagens.<\/p>\n<p>Na sede da prefeitura (o munic\u00edpio de 74 mil habitantes, tem 129 anos de emancipa\u00e7\u00e3o), n\u00e3o existe mais galeria dos prefeitos. O chefe de gabinete informou que os quadros foram recolhidos para recupera\u00e7\u00e3o, mas constatou-se que est\u00e3o num canto mal conservados.<\/p>\n<p><!--more-->\u201cQuem leu Vidas Secas mergulha no sofrimento do povo do Nordeste que at\u00e9 hoje sofre com a desigualdade social e a concentra\u00e7\u00e3o de renda\u201d \u2013 diz o prefeito J\u00falio C\u00e9sar. No entanto, \u00e9 pouco lido e conhecido dos seus moradores. Ainda existem coron\u00e9is de pijama. O Nordeste ainda tem sede, principalmente de justi\u00e7a. Hoje o saneamento b\u00e1sico chega a apenas 14% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por l\u00e1, o escritor tem seu nome numa escola, no audit\u00f3rio, um museu fechado em reforma e nome de bairro. Seu retrato est\u00e1 no museu Xucurus, na Igreja do Ros\u00e1rio. Um busto feio e troncho decora o trevo rodovi\u00e1rio na BR-316 com uma frase do livro de S. Bernardo: \u201cA palavra n\u00e3o foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer\u201d. O monumento \u00e9 criticado pelo escritor da terra Ivan Bezerra de Barros, que luta para preservar sua mem\u00f3ria. Em 2000 seu acervo foi tombado, mas seus documentos encontram-se no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Em Macei\u00f3 existe uma est\u00e1tua de bronze em sua homenagem na praia de Paju\u00e7ara. Em Palmeira deu aulas de aritm\u00e9tica, portugu\u00eas, franc\u00eas e escreveu seus primeiros textos de seus livros. Dirigia a loja \u201cA Sincera\u201d.<\/p>\n<p>CINEMA &#8211;\u00a0 O filme Vidas Secas, de Nelson Pereira, foi feito em Minador do Negr\u00e3o, em 1963, e teve como diretor de fotografia Luis Carlos Barreto, que n\u00e3o queria alegando falta de experi\u00eancia, mas Glauber Rocha lhe deu uma for\u00e7a. Teve uma grande repercuss\u00e3o dentro e fora do Brasil.<\/p>\n<p>O senador Arnon de Mello, entusiasta do escritor, facilitou os contatos. Naquela \u00e9poca, a cidade era violenta e cheia de pistoleiros. Deram \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dois jipes do governo. Um dia apareceu dois cabras pedindo os ve\u00edculos emprestado. No outro dia estampou nas manchetes um crime b\u00e1rbaro com a morte de quatro pessoas. Foi em Palmeira onde foi descoberto o ator Jofre Soares (Terra em Transe e Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere). A Baleia foi comprada numa feira por cinco cruzeiros e s\u00f3 se filmava das 5h30 \u00e0s 10h30 para aproveitar o sol. Nelson passou a chamar a cachorra de Grace Kelly.<\/p>\n<p>O figurante Domingos, umbandista, no meio das filmagens, deu um surto e entrou no matou e se ensanguentou nos mandacarus. Voltou dizendo que o homem n\u00e3o queria um filme se n\u00e3o rezasse uma missa. Logo o \u201cGra\u00e7a\u201d que era ateu. Decidiram rezar a missa para limpar a barra. Foi filmado, por conselho de Glauber, sem luz artificial, com luz e c\u00e2mara, sem filtro (fotografia pela sombra), em dois takes \u2013 a Tri X e a Plus X (menos sens\u00edvel), com dramaticidade e calor intenso. Isso chamou a \u00a0aten\u00e7\u00e3o do cineasta Francis Ford Coppola.<\/p>\n<p>Em 1963\/64 foi escolhido para representar em Canes, juntamente com Deus e o Diabo na Terra do Sol e Ganga Zumba. Antes teve uma sess\u00e3o para intelectuais e artistas. Por ser o livro de um escritor comunista, havia um clima reacion\u00e1rio. O filme tinha muito a ver com a reforma agr\u00e1ria. Na sess\u00e3o levantou um coronel e disse que mandaria os dois primeiros para a fogueira, por ser uma propaganda comunista. Um colega dele retrucou que assim parecia que est\u00e1vamos numa Alemanha de Hitler. O reacion\u00e1rio colocou a viola debaixo do bra\u00e7o e foi embora.<\/p>\n<p>Nelson, eu (Luis Barreto) e Glauber fomos acusados de fazer contrapropaganda denunciando a ditadura de 1964. Na Bahia foi exibido no Cine Tamoio. Para l\u00e1 foi uma patrulha do ex\u00e9rcito e sumiu com a c\u00f3pia. Juracy Magalh\u00e3es na \u00e9poca interviu e mandou que a pel\u00edcola voltasse\u00a0 a cartaz.<\/p>\n<p>Baleia foi levada para Canes. Disseram que o filme era selvagem porque Nelson mandou matar o papagaio e a cachorra. Para filmar Baleia fizeram um efeito especial tupiniquim. Arranjaram um carro-de-boi e colocaram Baleia bem de frente para o sol para que ela fechasse os olhos fingindo de morta. Levaram a cachorra para mostrar que n\u00e3o \u00e9ramos selvagens. Ela desceu do avi\u00e3o como uma estrela e fez xixi dentro do aeroporto.<\/p>\n<p>Literatura \u2013 O livro recebeu cr\u00edticas de Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, Thiago Mio Sala\u00a0 e Ricardo Ramos Filho, da USP em artigos comemorativos dos 50 anos da obra. Segundo Thiago, o livro continua trazendo marcas na sociedade. Para Ricardo, a realidade \u00e9 a mesma. O livro de 137 edi\u00e7\u00f5es consolidou a imagem de Graciliano. Disse Ramos que considerar apenas como regionalista \u00e9 desvalorizar a obra. Ela tornou-se universal Ainda trata de um tema muito atual que \u00e9 a imigra\u00e7\u00e3o no mundo. O sert\u00e3o n\u00e3o mudou e a realidade \u00e9 a mesma. O autor utilizou a seca como pano de fundo para falar da opress\u00e3o e das injusti\u00e7as do sistema social.<\/p>\n<p>\u00c9 um retrato da seca mostrando que o governo n\u00e3o se preocupa com seu povo. Se vivo, seria um grande cr\u00edtico do governo, contra as injusti\u00e7as. Em Minador do Negr\u00e3o,\u00a0 muitos ainda deixam suas fazendas por causa da seca. \u00a0Em 2000 se vendia uma vaca para comprar ra\u00e7\u00e3o para a outra. Muitos fizeram suas malas e foram embora. O sert\u00e3o \u00e9 o mesmo onde se mora em casa de taipa, fac\u00e3o a tiracolo, vaqueiro pisando em ossadas de animais. Dormem em jiraus, se enganam nas contas do patr\u00e3o e sonha ter cama de couro.<\/p>\n<p>EMERG\u00caNCIA NOS MUNIC\u00cdPIOS \u2013 A estiagem que nos \u00faltimos anos assola v\u00e1rias regi\u00f5es da Bahia colocou 219 munic\u00edpios (mais da metade)\u00a0 em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia reconhecida, com uma popula\u00e7\u00e3o de quase cinco milh\u00f5es de pessoas afetadas. Os munic\u00edpios passam a receber apoio para enfrentar a falta de \u00e1gua e de alimentos. Em muitas regi\u00f5es as safras t\u00eam sido nulas.<\/p>\n<p>O maior socorro ainda tem sido os carros-pipas, como h\u00e1 muitos anos. Em 2012 foram 265 em emerg\u00eancia, s\u00f3 que naquele ano as barragens estavam com boas reservas. A Bahia \u00e9 o estado com o maior n\u00famero de cidades nessa situa\u00e7\u00e3o no Brasil. Em segundo lugar est\u00e1 o Cear\u00e1 com mais de 100, seguido de Minas Gerais com cerca de 80, Pernambuco com 70, Piau\u00ed com mais de 40 e Alagoas em torno de 40. No total, o Brasil tem cerca de 600 munic\u00edpios atingidos pela seca com emerg\u00eancia decretada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assunto foi alvo de debate no \u00faltimo Sarau A Estrada em 27 de novembro, e todos os detalhes da vida e da obra do alagoano Graciliano Ramos foram publicados em nosso espa\u00e7o. 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