{"id":3204,"date":"2018-12-10T23:32:54","date_gmt":"2018-12-11T02:32:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=3204"},"modified":"2018-12-10T23:33:08","modified_gmt":"2018-12-11T02:33:08","slug":"a-obra-vidas-secas-de-graciliano-e-seus-80-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/12\/10\/a-obra-vidas-secas-de-graciliano-e-seus-80-anos\/","title":{"rendered":"A OBRA &#8220;VIDAS SECAS&#8221; DE GRACILIANO E SEUS 80 ANOS"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo \u201cSarau A Estrada\u201d, no final de novembro, tratamos da vida, obra e mem\u00f3ria do escritor alagoano Graciliano Ramos. Neste texto colocamos t\u00f3picos sobre o livro \u201cVidas Secas\u201d que neste ano completou 80 anos de escrito e permanece atual. Os governantes mudaram pouco seus m\u00e9todos e as v\u00edtimas sertanejas continuam sofrendo com as estiagens e sendo usadas pela pol\u00edtica do poderio.<\/p>\n<p>BGraciliano Ramos aborda a quest\u00e3o da seca que depois de 80 anos continua exterminando planta\u00e7\u00f5es, animais e escorra\u00e7ando os sertanejos nordestinos em retirada para outros lugares. O pr\u00f3prio autor de \u201cVidas Secas\u201d foi um retirante em vida.<\/p>\n<p>Sobre o livro, a vida do escritor, os lugares por onde passou com sua fam\u00edlia, seu cargo na prefeitura de Palmeira dos \u00cdndios, seus acervos e sua mem\u00f3ria, o \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d fez uma s\u00e9rie de reportagens publicadas no in\u00edcio deste ano (2018) nos textos de Felipe Resk e Guilherme Sobota.<\/p>\n<p>PRINCIPAIS PERSONAGENS &#8211; Fabiano, Sinha Vit\u00f3ria, os dois meninos, (o mais novo e o mais velho), Tom\u00e1s da Bolandeira, Sinha Terta, a cachorra Baleia e o papagaio que \u00e9 morto para matar a fome dos retirantes. Eram seis visitantes. Foi um romance de textos po\u00e9ticas e \u00e1geis que Graciliano fez depois de libertado da pris\u00e3o, com intuito de sustentar a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Descreve Sinha Vit\u00f3ria no cap\u00edtulo \u201cMudan\u00e7a\u201d em fuga da seca com o filho mais novo escanchado no quarto e o ba\u00fa de folha na cabe\u00e7a. Estirou o bei\u00e7o indicando uma dire\u00e7\u00e3o. Fala com sons guturais. Em viagem tem recorda\u00e7\u00f5es confusas de festas, vaquejadas, etc.<\/p>\n<p>Fabiano \u00e9 o personagem sombrio, cambaio, de ai\u00f3 a tiracolo, cuia pendurada numa correia presa ao cintur\u00e3o e espingarda de pederneira no ombro. \u00c9 duro e r\u00edspido com o menino mais velho que cai de cansa\u00e7o e fome. No del\u00edrio, enxergam juazeiros longes e apressam o passo para descansar em suas sombras. N\u00e3o existem juazeiros.<\/p>\n<p>\u201cAnda condenado do diabo\u201d \u2013 gritou o pai para com o filho. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas. A catinga \u00e9 vermelha, salpicada de manchas brancas que eram ossadas.<\/p>\n<p>\u201cAnda excomungado\u201d. O Fabiano desejou mat\u00e1-lo. O menino mais velho estava l\u00e1 frio como um defunto. Para o narrador, a seca aparecia como fato necess\u00e1rio. O Vaqueiro precisava chegar, mas n\u00e3o sabia onde. Teve a ideia de abandonar o filho, mas o colocou no cangote. Bra\u00e7os finos como cambitos.<\/p>\n<p>A Baleia tomava a frente do grupo. O papagaio foi aproveitado como alimento para matar a fome. Morrera na areia do rio. Baleia jantou os p\u00e9s, a cabe\u00e7a e os ossos, e n\u00e3o guardava lembran\u00e7a. Procuravam ra\u00edzes. A farinha acabara e n\u00e3o se ouvia um berro de r\u00eas perdida na catinga.<\/p>\n<p>O louro s\u00f3 aboiava, tangendo gado inexistente, e latia. Quase nada falava porque a fam\u00edlia quase nada conversava. Os juazeiros tornavam a aparecer. Alpercatas gastas, e Fabiano seguia na esperan\u00e7a de achar comida. Teve o\u00a0 desejo de cantar.<\/p>\n<p>Sinha Vit\u00f3ria acomodou os filhos que arriaram como trouxas. Estavam no p\u00e1tio de uma fazenda abandonada. Barreiro vazio. Ossadas e o negrume de urubus. Baleia sentiu cheiro de pre\u00e1s e trouxe uma nos dentes. Ela podia ficar com os ossos ou o couro. Na lama rachada do bebedouro, Fabiano cavou a areia com as unhas. Pensa na bolandeira de seu Tom\u00e1s, tamb\u00e9m uma figura da seca. A bolandeira estava parada. Ia chover e Fabiano seria o vaqueiro. A catinga ia ficar verde.<\/p>\n<p>Mandacarus, xiquexiques, \u00e1gua salobra, ra\u00edzes de macambira e juazeiros. O pre\u00e1 chiava no espeto de alecrim. Frasco de creolina para cura a novilha raposa. Alpercatas chape-chape percorrem veredas. Nem havia ra\u00edzes na catinga para comer. Camarinha escura e cigarro com palha de milho. Fabiano imagina que \u00e9 um homem. N\u00e3o \u00e9 um homem, apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.<\/p>\n<p>Voc\u00ea \u00e9 um bicho, Fabiano, fala o narrador. A seca obriga mastigar ra\u00edzes de imbu e sementes de mucun\u00e3. Veio a trovoada e com ela o fazendeiro que quer expulsara Fabiano, mas se sujeitou a ficar como vaqueiro. Era mais forte que os xiquexiques, como as catingueiras e as bara\u00fanas. Eles estavam agarrados na terra. Um vagabundo empurrado pela seca.<\/p>\n<p><!--more-->Vivia longe dos homens. S\u00f3 se dava bem com animais. Seus p\u00e9s duros quebravam espinhos e n\u00e3o sentiam a quentura da terra. Admirava as palavras compridas. Tentava, mas sabia que elas eram in\u00fateis e perigosas.\u00a0 Viu-se mi\u00fado e enfezado.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s da bolandeira era bom e t\u00e3o lido, mas a seca levou tudo. Andava mole. Talvez j\u00e1 tivesse dado o couro \u00e0s varas. O patr\u00e3o berrava sem precis\u00e3o. Fabiano ouvia as descomposturas. O amo s\u00f3 queria gritar, mostrar que era dono, e l\u00e1 ia Fabiano de perneiras, gib\u00e3o, guarda-peito e sapat\u00f5es de couro cru. Viviam de trouxa arrumada. Anos bons misturados com os ruins.Tudo seco em redor. Patr\u00e3o era seco tamb\u00e9m, arreliado, exigente, ladr\u00e3o e espinhoso como p\u00e9 de mandacaru. Seria que as secas iriam desaparecer.<\/p>\n<p>Fabiano foi \u00e0 cidade comprar corte de chita e querosene. Caixeiro furtava no pre\u00e7o e colocava \u00e1gua no querosene. Soldado amarelo pisou no seu p\u00e9 e ele o xingou. Foi preso e apanhou de fac\u00e3o no peito e no lombo. Tinha imagina\u00e7\u00e3o fraca. Foi levado para o diabo do jogo. Nunca fora preso. Se revolta, mas se acostumara com as injusti\u00e7as. Apanhar do governo n\u00e3o \u00e9 desfeita. S\u00f3 pensava na fam\u00edlia e em Baleia. Coloca-se um homem na cadeia porque ele n\u00e3o sabe falar direito? Se pudesse atacaria os soldados amarelos. Fabiano queria berrar para a cidade inteira. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam os soldados amarelos.<\/p>\n<p>Sinha Vit\u00f3ria se zanga com Fabiano e reclama da cama de vara. Sonha com uma do tipo de Tom\u00e1s da bolandeira, feita por carpinteiro com forro de couro. Baleia tenta agrad\u00e1-la e leva um pontap\u00e9 que se afasta humilhada para a sombra com sentimentos revolucion\u00e1rios. A cachorra \u00e9 como pessoa da fam\u00edlia, mas s\u00f3 leva pontap\u00e9. Magra, de pelo curto, cauda pelada e feridas. Devia estar de hidrofobia, Fabiano mata Baleia que morre pensando nas pre\u00e1s. Mulher \u00e9 bicho dif\u00edcil de entender, diz Fabiano. Sinha quer que o marido corte outras despesas para fazer a cama de couro. Fica azeda porque o marido gastou o dinheiro no jogo, na cacha\u00e7a. Matuto anda assim, com p\u00e9s de papagaio. A raposa passou no rabo a galinha pedr\u00eas.<\/p>\n<p>O menino mais velho ouve da rezadeira de Fabiano a palavra inferno e quer saber da m\u00e3e o que significa. Ela diz ser coisa ruim. Pergunta se ela j\u00e1 esteve l\u00e1. Leva um cocorote. O inferno devia estar cheio de jararacas, e as pessoas que estavam l\u00e1 recebiam cocorotes e pancadas. Recolhe-se pensando no inferno, palavra t\u00e3o bonita. Sinha cata l\u00eandeas no filho mais velho. O menino tinha vocabul\u00e1rio t\u00e3o minguado quanto de um papagaio.\u00a0 Imitava o berro dos animais, o barulho do vento e o som dos galhos. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam. O mais novo admira o pai com gib\u00e3o e quer ser igual a ele, mas teme que manguem dele. Quando fosse homem, caminharia pesado, cambaio. Montaria num cavalo brabo e voaria na catinga como p\u00e9 de vento. Fabiano andava banzeiro como um urubu. Uns riachos mi\u00fados marejavam na areia como art\u00e9rias abertas de animais.<\/p>\n<p>Veio o inverno com as enchentes que matavam bichos e ocupavam grotas. Fabiano n\u00e3o pensava no futuro. Se a seca chegasse ele abandonaria mulher e os filhos. Coseria de facadas o soldado amarelo. V\u00e3o \u00e0s festas na cidade com roupas de brim feitas por sinha Terta. Fabiano comprou dez varas de pano branco. As roupas tinham sido curtas, estreitas e cheias de emendas. Mundos diferentes da fazenda. Os negociantes furtavam na medida e no pre\u00e7o da conta. Todos lhe davam preju\u00edzos. Tiravam-lhe o couro.<\/p>\n<p>As contas n\u00e3o batiam, mas Fabiano receava ser expulso da fazenda. Aceitava o cobre. O sertanejo endividava-se. Na hora das contas lhe dava uma ninharia. As opera\u00e7\u00f5es de sinha Vit\u00f3ria diferiam da do patr\u00e3o. Diferen\u00e7a era proveniente dos juros \u2013 dizia o patr\u00e3o. O que havia era safadeza, ladroeira. Com certeza havia um erro no papel do branco. Entregava o que era dele de m\u00e3o beijada, como escravo. Um cabra ia l\u00e1 puxar quest\u00e3o com gente rica. Foi vender o porco, e o agente cobrou imposto. Se a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. N\u00e3o lhe restava nem o direito de protestar. Baixava a crista. Vontade de gritar alto que o roubavam. A campina seca, o patr\u00e3o e os agentes da prefeitura. Queria saber o tamanho da extors\u00e3o. Nas horas de aperto dava para gaguejar. N\u00e3o conseguia dormir. Na cama de vara havia um pau com um n\u00f3, bem no meio.<\/p>\n<p>Fabiano topou com o soldado amarelo que pisava nos p\u00e9s dos matutos e teve vontade de mat\u00e1-lo, mas era um crist\u00e3o. De medo, o soldado batia os dentes como um caititu. Ganhava dinheiro para maltratar as criaturas. Teve lembran\u00e7as insuport\u00e1veis da cadeia. Apanhar do governo n\u00e3o era defeito. Aquela cambada s\u00f3 servia para morder as pessoas. As aves de arriba\u00e7\u00e3o matavam o gado e bebiam a \u00e1gua. Fabiano matava os bichos com sua espingarda de pederneira. Sinha Vit\u00f3ria tinha miolo e nas situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis encontrava sa\u00edda. Teria entrado no canga\u00e7o. Como estava, ningu\u00e9m podia respeit\u00e1-lo. As aves de arriba\u00e7\u00e3o. Talvez a seca n\u00e3o viesse. Riscos nos c\u00e9us juntos com nuvens. O medonho rumor de asas a anunciar destrui\u00e7\u00e3o. As fontes minguavam. Brancura das manh\u00e3s longas e a vermelhid\u00e3o das tardes. As bichas excomungadas eram a causa da seca..<\/p>\n<p>Finalmente, outra fuga da fam\u00edlia. Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre. Desceram a ladeira, atravessaram o rio seco. Tomaram rumo para\u00a0 o sul. Come\u00e7ava tudo de novo. Podia continuar a viver num cemit\u00e9rio? O c\u00e9u estava negro de um lado e cor de sangue no outro. Manh\u00e3 sem p\u00e1ssaros, sem folhas e sem vento. Fabiano tagarelava e agitava a cabe\u00e7a para afugentar uma nuvem que escondia o patr\u00e3o, o soldado amarelo e Baleia. Por que haveriam de ser sempre desgra\u00e7ados, fugindo no mato como bichos? Chegariam a uma terra distante. Esqueceriam a catinga onde haviam montes baixos, cascalhos, rios secos, espinhos, urubus, bichos e gente morrendo? Resistiriam \u00e0 saudade que ataca os sertanejos na mata. Ent\u00e3o eram bois para morrer tristes por falta de espinhos. Mudariam para uma cidade, e os filhos frequentariam uma escola. E o sert\u00e3o continuaria a mandar gente para l\u00e1. Mandaria para a cidade homens fortes, brutos como Fabiano, sinha Vit\u00f3ria e os dois meninos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo \u201cSarau A Estrada\u201d, no final de novembro, tratamos da vida, obra e mem\u00f3ria do escritor alagoano Graciliano Ramos. Neste texto colocamos t\u00f3picos sobre o livro \u201cVidas Secas\u201d que neste ano completou 80 anos de escrito e permanece atual. 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