{"id":3115,"date":"2018-11-02T23:59:57","date_gmt":"2018-11-03T02:59:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=3115"},"modified":"2018-11-03T00:00:09","modified_gmt":"2018-11-03T03:00:09","slug":"uma-data-esquecida-no-pais-que-jogou-a-cultura-no-lixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/11\/02\/uma-data-esquecida-no-pais-que-jogou-a-cultura-no-lixo\/","title":{"rendered":"UMA DATA ESQUECIDA NO PA\u00cdS QUE JOGOU A CULTURA NO LIXO"},"content":{"rendered":"<p>Ouvi por a\u00ed, lendo em algum lugar, que um bom texto \u00e9 como uma can\u00e7\u00e3o harmoniosa e suave que encanta os ouvidos. Acrescento que \u00e9 como ouvir o canto do cancioneiro quando ele e sua viola est\u00e3o bem afinados. Assim como o violeiro, o violinista, o pianista e o saxofonista numa orquestra, o bom texto acalma a alma, mesmo do mais \u00edmpio. Em sua ess\u00eancia, o leitor l\u00ea o livro, ou \u00e9 o livro quem l\u00ea o leitor?<\/p>\n<p>Ao falar do texto de uma mat\u00e9ria jornal\u00edstica, de um artigo, de um coment\u00e1rio opinativo ou interpretativo, de uma tese de mestrado, de uma reda\u00e7\u00e3o do Enem que virou outro vestibular, a inten\u00e7\u00e3o foi fazer uma caminhada at\u00e9 o livro, n\u00e3o importando o g\u00eanero. Este personagem t\u00e3o nobre e velho distinto, mais uma vez passou esquecido em sua data nacional comemorativa no dia 29 de outubro, e logo em meio ao voto do \u00f3dio e da intoler\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nestes momentos conturbados de tantas crises, que falta ele faz para clarear nossas mentes numa dire\u00e7\u00e3o mais sensata e de lucidez! Ainda nesta semana, li um coment\u00e1rio do escritor Luiz Carlos Amorim num jornal em que dizia ser o livro o guardi\u00e3o da hist\u00f3ria da humanidade. O recept\u00e1culo de toda intelig\u00eancia e criatividade do homem. A tristeza \u00e9 que ele n\u00e3o seja t\u00e3o popular quanto deveria, pelo menos no Brasil.<\/p>\n<p>Diria que se ele fosse mais lido, reverenciado e apreciado, nossa sociedade seria mais humana, menos violenta, mais \u00e9tica e mais respeitosa com os outros. Luiz Carlos fala que ele ainda \u00e9 caro e aponta como alternativas as bibliotecas e os sebos. Da minha parte, entendo que a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ser caro, mas a falta de h\u00e1bito por culpa dos governantes que nunca priorizaram a educa\u00e7\u00e3o. Deixaram o povo nas trevas e n\u00e3o vejo perspectivas de luz no fim do t\u00fanel.<\/p>\n<p>O escritor fala dos e-books (o livro eletr\u00f4nico) e os e-readers que est\u00e3o se popularizando e t\u00eam uma pequena legi\u00e3o de seguidores. N\u00e3o vai muito longe disso e, infelizmente, n\u00e3o vejo nisso nenhuma revolu\u00e7\u00e3o cultural. O p\u00fablico do digital \u00e9 inexpressivo, ao contr\u00e1rio do que previa os \u201cfuturistas\u201d quando surgiu o computador. Quem n\u00e3o tem o costume de ler, n\u00e3o utiliza o eletr\u00f4nico nem o livro de papel, ou o impresso. Esta \u00e9 a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Por tocar no assunto, o livro de papel nunca deixar\u00e1 de existir, mas alguns insistem que ele ter\u00e1 seu fim com a evolu\u00e7\u00e3o da internet. Acredito, no entanto, que n\u00e3o \u00e9 a tecnologia da inform\u00e1tica que vai intensificar o h\u00e1bito da leitura, nem o audiolivro. Sem uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade e uma pol\u00edtica de incentivo \u00e0 cultura, vamos continuar sendo um dos priores leitores do planeta, bem abaixo de muitos pa\u00edses latinos. Nunca ganhamos um Nobel da Literatura, apesar de grandes autores.<\/p>\n<p>Monteiro Lobato j\u00e1 dizia que um pa\u00eds se constr\u00f3i com homens e livros. Ainda est\u00e1 longe de isso acontecer. Temos mais de 200 milh\u00f5es de habitantes com poucos livros nas m\u00e3os. O professor Walber Gon\u00e7alves de Souza escreveu certo dia que somos uma na\u00e7\u00e3o de pouqu\u00edssimos leitores, uma m\u00e9dia de livros lidos por pessoa bem abaixo daquilo que deveria ser um padr\u00e3o aceit\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>Ele lembra que os \u00edndices nacionais e mundiais que apontam a qualidade da nossa educa\u00e7\u00e3o, sempre colocam o Brasil numa posi\u00e7\u00e3o vergonhosa e triste. Uma pesquisa detectou que a maioria dos professores n\u00e3o incentiva seus alunos a serem docentes. Os motivos s\u00e3o v\u00e1rios, como falta de reconhecimento social, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, indisciplina dos alunos, entre outros. A sociedade prefere manter-se na ignor\u00e2ncia e na obscuridade. N\u00e3o quer saber do conhecimento. Prefere o f\u00fatil consumismo.<\/p>\n<p>Walber faz uma Alegoria da Caverna de Plat\u00e3o, dizendo que nossa sociedade d\u00e1 sinais de que prefere manter-se no mais profundo breu das cavernas e disposta a matar quem desejar apresentar a luz. Ser professor virou chacota e descaso por parte das pol\u00edticas p\u00fablicas. Transformou-se em profiss\u00e3o med\u00edocre que n\u00e3o atrai jovens. O melhor mesmo \u00e9 cultivar a ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p><!--more-->Esta sociedade l\u00edquida que criou a ideologia do prazer e que n\u00e3o gosta de estudar e ler, v\u00ea o professor como maior inimigo. Os alunos se sentem obrigados a conviver com um chato, inimigo e petulante. Eles acham que a escola tem que ser prazerosa porque n\u00e3o foram ensinados a fazer o que \u00e9 preciso \u2013 destaca o professor Gon\u00e7alves. Estudar \u00e9 batalhar, ter disciplina e coragem para se sacrificar. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 viver no prazer.<\/p>\n<p>Vivemos num cen\u00e1rio de horrores sociais. Somente os livros podem nos tirar desse quadro macabro no qual estamos afundados. Sem educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos leitores. O arquiteto Louren\u00e7o Mueller cita &#8230;\u00c9 g\u00e9rmen que faz a palma, \u00e9 gota que faz o mar (Castro Alves). Os livros sempre tiveram import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o dos homens, mas isso acabou nos tempos atuais. Mueller faz um apelo para que n\u00e3o nos deixemos vencer pela moda passageira institu\u00edda pelos gigantes da inform\u00e1tica, s\u00f3 interessados em especular a imagem e reduzir o valor das palavras para vender celulares que afastam as pessoas. Assinala ser preciso revitalizar este her\u00f3i impresso da cultura que resiste a quase tudo.<\/p>\n<p>EDUCA\u00c7\u00c3O E LEITORES<\/p>\n<p>\u201cLivros n\u00e3o mudam o mundo. Quem muda o mundo s\u00e3o as pessoas. Os livros s\u00f3 mudam as pessoas\u201d \u2013 M\u00e1rio Quintana. Sem uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade, n\u00e3o teremos leitores. Um relat\u00f3rio da \u201cEducation at a Glance\u201d 2018, publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) aponta que os investimentos do Brasil em educa\u00e7\u00e3o infantil subiram de 0,4% do PIB em 2010 para 0,7% em 2015.<\/p>\n<p>Com esses dados o pa\u00eds ficou \u00e0 frente da Argentina, Col\u00f4mbia, Costa Rica e M\u00e9xico, mas comparado aos 35 pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o, o investimento est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia de 0,8% do PIB. O montante gasto com crian\u00e7as nas creches ainda \u00e9 pouco e est\u00e1 entre os mais baixos. Segundo especialistas, a neglig\u00eancia com a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica no processo de desenvolvimento da crian\u00e7a, limita a capacidade de criatividade e a habilidade, tendo consequ\u00eancias futuras.<\/p>\n<p>O recomendado para a melhoria na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que se tenha boa forma\u00e7\u00e3o de professores, valoriza\u00e7\u00e3o dos docentes, pol\u00edticas p\u00fablicas de continuidade e reforma dos pr\u00e9dios escolares. O Brasil est\u00e1 \u00e0 frente dos pa\u00edses latinos quanto \u00e0 inser\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as de at\u00e9 tr\u00eas anos nas escolas. No entanto, a situa\u00e7\u00e3o no ensino m\u00e9dio est\u00e1 bem abaixo das metas estabelecidas pela OCDE.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo, 52% das pessoas entre 25 e 64 anos n\u00e3o atingem o n\u00edvel m\u00e9dio de forma\u00e7\u00e3o, devido ao abandono escolar. Apenas 69% dos adolescentes entre 15 e 19 anos, e somente 29% dos jovens de 20 a 24 anos est\u00e3o matriculados numa institui\u00e7\u00e3o de ensino. A desigualdade social \u00e9 um dos motivos para este baixo \u00edndice, principalmente na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>No aprendizado de l\u00edngua portuguesa e matem\u00e1tica, a Bahia est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia nacional dos indicadores. Dados do Sistema de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica mostram que o estado t\u00eam n\u00fameros abaixo da m\u00e9dia dos exames aplicados nos 5\u00ba e 9\u00ba ano do ensino fundamental e no 3\u00ba do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Para estudantes do 5\u00ba ano, a Bahia registrou 197,7 pontos, contra 215 da m\u00e9dia nacional em l\u00edngua portuguesa. Em matem\u00e1tica a Bahia registrou 205,6 pontos, contra 224 da m\u00e9dia nacional. Em rela\u00e7\u00e3o ao 9\u00ba ano, o estado ficou com 242,1 em portugu\u00eas e 241,2 em matem\u00e1tica, contra 258 pontos na m\u00e9dia nacional para as duas \u00e1reas do conhecimento. Para os alunos do 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio, tamb\u00e9m as m\u00e9dias est\u00e3o abaixo dos resultados em termos nacionais.<\/p>\n<p>No Brasil, as elites dominantes sempre apostaram na falta de escolaridade e desinforma\u00e7\u00e3o do povo como condi\u00e7\u00e3o \u201csine qua non\u201d para fazer valer a pol\u00edtica do atraso. Como ter leitores sem uma educa\u00e7\u00e3o de bom n\u00edvel? Sem leitores, a popula\u00e7\u00e3o se torna inculta, ignora sua hist\u00f3ria e se torna presa f\u00e1cil de ser manipulada, inclusive pelas fake news.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvi por a\u00ed, lendo em algum lugar, que um bom texto \u00e9 como uma can\u00e7\u00e3o harmoniosa e suave que encanta os ouvidos. Acrescento que \u00e9 como ouvir o canto do cancioneiro quando ele e sua viola est\u00e3o bem afinados. Assim como o violeiro, o violinista, o pianista e o saxofonista numa orquestra, o bom texto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3115"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3116,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115\/revisions\/3116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}