{"id":2970,"date":"2018-08-02T23:41:33","date_gmt":"2018-08-03T02:41:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2970"},"modified":"2018-08-02T23:41:42","modified_gmt":"2018-08-03T02:41:42","slug":"quem-olha-para-os-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/08\/02\/quem-olha-para-os-professores\/","title":{"rendered":"QUEM OLHA PARA OS PROFESSORES?"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o d\u00e1 para esquecer a primeira professora. Quando ainda menino e j\u00e1 labutava na ro\u00e7a com meus pais, l\u00e1 pelos idos dos anos 50, Nina foi a minha primeira professora leiga, mas o que mais me marcou na vida foi sua penosa pobreza como agregada-escrava de um grande latifundi\u00e1rio. Aprendi com ela a escrever meu nome e a ler alguma coisa soletrando as palavras. Coube a esta personagem real privilegiar um dos cap\u00edtulos do meu livro \u201cAndan\u00e7as\u201d que ora, sem patroc\u00ednio, luta para ser lan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Os tempos se passaram e tive outros not\u00e1veis mestres at\u00e9 in\u00edcio da d\u00e9cada de 70 quando ainda estes profissionais do ensino eram valorizados e respeitados por pais e toda sociedade. Os alunos aprendiam a li\u00e7\u00e3o e eram \u00e1vidos por estudar. Havia normas nas escolas que eram obedecidas, mas os travessos, como eu, recebiam castigos na frente dos outros colegas. A quest\u00e3o dos m\u00e9todos \u00e9 discut\u00edvel, mas isso \u00e9 outro assunto.<\/p>\n<p>Regime disciplinar certo ou errado, a verdade \u00e9 que at\u00e9 a d\u00e9cada de 70, mais ou menos isso, o professor ainda era olhado com carinho, e sua pessoa era reverenciada por onde passava como autoridade intelectual da comunidade, no mesmo n\u00edvel do juiz, do padre e do prefeito. O mestre, como era chamado, se sentia realizado, reconhecido e contente como o que fazia, distribuir seus conhecimentos para os outros.<\/p>\n<p>Estourou a ditadura militar de 1964 e, em pouco tempo, o educador passou a ser olhado como um inimigo subversivo que poderia provocar uma rebeli\u00e3o entre os estudantes. Sua miss\u00e3o de ensinar come\u00e7ou a ser mutilada e vigiada dia e noite. O saber virou um perigo comunista e muitos foram torturados nos por\u00f5es do regime. Outros foram banidos e exilados.<\/p>\n<p>Apesar das condi\u00e7\u00f5es adversas, a profiss\u00e3o de professor ainda continuava sendo digna, mas o cen\u00e1rio do estudo e da educa\u00e7\u00e3o foi se deteriorando. Piorou ainda mais a partir do processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em fins dos anos 80, quando por l\u00f3gica deveria ter melhorado, mas n\u00e3o, atingiu seu pico de degrada\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o nos dias de hoje, repudiado e visto como um \u201cz\u00e9 ningu\u00e9m qualquer\u201d, sem import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>At\u00e9 anos atr\u00e1s imaginava que professor n\u00e3o ficava desempregado e teria mercado garantido porque sempre ia ter gente para aprender e mais escolas seriam abertas. Ledo engano, meu amigo, o que se v\u00ea hoje em nossa p\u00e1tria \u00e9 de cortar o cora\u00e7\u00e3o e d\u00f3i muito, basta ser humano e um pouco sens\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 somente a quest\u00e3o do desemprego que faz derramar l\u00e1grimas dos olhos dos professores, mas tamb\u00e9m as agress\u00f5es violentas dos alunos, e os ass\u00e9dios morais de chefes e pais que aniquilam de vez a autoestima daqueles que continuam, a duras penas, nas degradantes salas de aulas.<\/p>\n<p>Quase ningu\u00e9m olha para eles, mas tenho ouvido muitos lamentos e choros de professores desiludidos com a profiss\u00e3o, inclusive vivendo em estado de depress\u00e3o e ansiedade. Em seus cantos isolados, como se fossem renegados criminosos, muitos passam necessidades e at\u00e9 fome. Para sobreviver, recorrem \u00e0 ajuda de parentes e perambulam pelas cidades atr\u00e1s de um bico. Sujeitam-se at\u00e9 a trabalhos dom\u00e9sticos ou a vender bugigangas nas ruas.<\/p>\n<p>Aos que ainda permanecem atuando, o poder p\u00fablico n\u00e3o os valoriza e nega qualquer pedido de aumento, alegando limite fiscal quando, no entanto, contempla outras categorias, as quais, o chefe do executivo considera serem mais fundamentais em termos socioecon\u00f4mico e pol\u00edtico. Afinal de contas, a educa\u00e7\u00e3o nunca foi prioridade dos governantes.<\/p>\n<p>Vivemos, infelizmente, numa sociedade f\u00fatil consumista e sem instru\u00e7\u00e3o que pouco liga pra greve de professores. Os chefes dos executivos que deviam dar bom exemplo, tamb\u00e9m n\u00e3o. Como n\u00e3o tem de imediato o mesmo impacto de uma paralisa\u00e7\u00e3o de caminhoneiros, banc\u00e1rios e at\u00e9 mesmo de garis (sem desprestigiar a classe), deixam a coisa rolar por tempo indeterminado. Preferem manter as escolas fechadas, sem educa\u00e7\u00e3o. Em suas contas retr\u00f3gradas significa menos gastos.<\/p>\n<p><!--more--> Outros coitados, sem op\u00e7\u00e3o, se submetem \u00e0 escravid\u00e3o das escolas privadas do ensino b\u00e1sico e m\u00e9dio que pagam apenas 500 reais por m\u00eas pelos seus servi\u00e7os. Os alunos mimados os tratam com grosserias numa rela\u00e7\u00e3o de servi\u00e7ais escravos entre a Senzala e a Casa Grande dos senhores de engenhos. Os donos humilham, exigem trabalho \u00e1rduo, muita obedi\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o. Afinal, tem outros l\u00e1 fora na fila de espera.<\/p>\n<p>Quem olha para os professores? Diante das conquistas destro\u00e7adas e a f\u00faria destruidora da categoria, como numa terra arrasada, nem eles mesmos recomendam aos jovens que sigam a carreira. De acordo com a pesquisa \u201cProfiss\u00e3o Docente\u201d, do Todos pela Educa\u00e7\u00e3o e do Ita\u00fa Social, realizada pelo Ibope Intelig\u00eancia, metade deles n\u00e3o aconselha que seus alunos se graduem na \u00e1rea.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os professores que testemunham os riscos que sofrem dentro das escolas, principalmente estaduais, onde alunos se drogam nos p\u00e1tios, sem contar os baixos sal\u00e1rios e as prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Muitos escolheram a profiss\u00e3o por falta de op\u00e7\u00e3o. O emprego certo virou lenda. No estudo, que entrevistou mais de dois mil professores, 33% est\u00e3o insatisfeitos com a atividade docente.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es empunham as bandeiras de seus times, brigam e at\u00e9 se matam. Outros milh\u00f5es invadem as ruas nos carnavais, no Dia do Samba, nas paradas Gays e nas marchas evang\u00e9licas, mas se incomodam e alegam o tal \u201cdireito de ir e vir\u201d quando uma centena de professores faz manifesta\u00e7\u00e3o exigindo o pouco que merecem. Dever\u00edamos nos envergonhar disso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quem vai olhar para os professores? Os pr\u00f3ximos candidatos que continuam fazendo parte das bancadas da bala, da B\u00edblia, dos \u201ccentr\u00f5es\u201d evang\u00e9licos e a rural? D\u00e1 para confiar nos eleitores e nas elei\u00e7\u00f5es que nunca resolveram nada? Olhem para eles! Milhares n\u00e3o t\u00eam mais l\u00e1grimas para derramar, mas ainda continuam lutando, esperando que algu\u00e9m os olhe e estenda sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o d\u00e1 para esquecer a primeira professora. 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