{"id":2944,"date":"2018-07-18T10:02:25","date_gmt":"2018-07-18T13:02:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2944"},"modified":"2018-07-18T10:02:44","modified_gmt":"2018-07-18T13:02:44","slug":"vamos-tombar-as-muricocas-de-juazeiro-como-patrimonio-material","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/07\/18\/vamos-tombar-as-muricocas-de-juazeiro-como-patrimonio-material\/","title":{"rendered":"VAMOS TOMBAR AS MURI\u00c7OCAS DE JUAZEIRO COMO PATRIM\u00d4NIO MATERIAL!"},"content":{"rendered":"<p>Que beleza curtir Juazeiro da Bahia com seus 140 anos debru\u00e7ado ao lado do \u201cVelho Chico\u201d, com Petrolina de Pernambuco na outra margem, e ainda ter o p\u00f4r-do-sol no fim de tarde por detr\u00e1s da ponte que liga as duas cidades! Que saudades do antigo bar \u201cVaporzinho\u201d no cais que dava vida \u00e0s noites et\u00edlicas e divertia tanta gente alegre tragando amor! L\u00e1 se foram os \u201cvaporzinhos\u201d, mas ainda tem os barquinhos cruzando o rio S\u00e3o Francisco na sua labuta di\u00e1ria de transportar os passageiros de l\u00e1 pra c\u00e1.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_3694.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2945\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_3694.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_3694.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_3694-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Pena que encostaram o \u201cVaporzinho\u201d num canto como um condenado criminoso qualquer, ou um ser contagioso! Mas, tudo isso me faz lembrar os velhos tempos de muitas farras com os amigos Renato, Bub\u00fa, Jorge sem carteira, \u201cToinho\u201d que j\u00e1 se foi, Gilson que tamb\u00e9m partiu, Titio, Nivaldo com suas palha\u00e7adas, amigas e namoradas Gr\u00e9cia, Rutinha, Regina, Tereza e tantos outros em bares e botequins. Quantas batucadas e presepadas de discuss\u00f5es acirradas, seguidas de reconcilia\u00e7\u00f5es para outros esquemas e badala\u00e7\u00f5es! Tudo come\u00e7ava no bar de dona \u201cRitinha\u201d at\u00e9 quando ela n\u00e3o se danava e botava toda aquela \u201cmolequeira\u201d pra fora.<\/p>\n<p>Naqueles invernos e ver\u00f5es quentes de quarenta anos atr\u00e1s, as muri\u00e7ocas de Juazeiro j\u00e1 estavam de olho em n\u00f3s, mas, na falta de coragem e destemor, o \u00e1lcool que nos jogava no sono profundo dos bra\u00e7os de Orfeu era uma arma poderosa e infal\u00edvel para encar\u00e1-las, se \u00e9 que se pode falar assim. No outro dia o estrago j\u00e1 estava feito pelo corpo, mas ningu\u00e9m se importava e nem xingava as danadas que faziam e ainda fazem suas moradias nos esgotos a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/JUAZEIRO-ANIVERS\u00c1RIO-076.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2946\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/JUAZEIRO-ANIVERS\u00c1RIO-076.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/JUAZEIRO-ANIVERS\u00c1RIO-076.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/JUAZEIRO-ANIVERS\u00c1RIO-076-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para os desavisados visitantes que inocentes n\u00e3o sabiam e nem sabem como enfrentar os bandos que em tropas tramam seus ataques para se alimentar de sangue dos humanos, aquilo era e ainda \u00e9 tormento e desespero. Um coitado viajante contou-me, certa vez, que na sua primeira noite numa pens\u00e3o acordou debaixo da cama com o rosto todo inchado. As vampiras em trabalho de equipe derrubaram o homem e chuparam todo seu sangue. N\u00e3o teve mais \u00e2nimo e saiu fugido da cidade como se corria de um fogo cruzado dos cangaceiros de Lampi\u00e3o. O estranho ficou irreconhec\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 mesmo verdade as hist\u00f3rias das centen\u00e1rias muri\u00e7ocas de Juazeiro, que o diga meu caro primo Washington Mac\u00e1rio de Oliveira, t\u00e9cnico, fiscal e inspetor de meio ambiente do Inema, que ainda continua no encal\u00e7o incessante dos prisioneiros de p\u00e1ssaros no sert\u00e3o Bahia, com seus disfarces de detetives que deixam a turma da CIA de queixos ca\u00eddos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_4463.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2947\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_4463.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_4463.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_4463-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Apresar de todo seu cuidado e prote\u00e7\u00e3o em favor dos animais, sem falar aqui do seu mal-estar de tanto ver o \u201cVelho Chico\u201d no seu leito de morte, um dia vi o primo irado em sua casa com uma raquete matando as pobres muri\u00e7ocas indefesas, pulando de um lado e do outro, suado de tanto exercitar. O esfor\u00e7o n\u00e3o impedia que elas atacassem em bandos de nuvens sem fim. A briga era feia, mas nada adiantava a matan\u00e7a.<\/p>\n<p>Fiquei horrorizado com aquela cena. Se n\u00e3o me engano foi no mesmo dia e noite que me convidou, no Bairro Castelo Branco, para tomar uma gelada no bar do seu amigo. Pelas tantas da noite, l\u00e1 foi eu para mais uma de suas armadilhas, e nem me lembrei das \u201cbichinhas\u201d irritantes que zunem no seu ouvido lhe deixando com os nervos em frangalhos. N\u00e3o sabia que elas adoram forasteiros, e os nativos ficam tranquilos quando eles aparecem em seus territ\u00f3rios. S\u00f3 assim conseguem umas tr\u00e9guas tempor\u00e1rias e ainda gozam de n\u00f3s chegantes.<\/p>\n<p><!--more--> No primeiro copo tentei sentar, mas n\u00e3o consegui. Levantei atordoado e pulava como um saci. As pessoas me olhavam esquisitas j\u00e1 imaginando outras coisas comprometedoras. O primo que estava im\u00f3vel explicou que os pernilongos criados ali s\u00f3 picam gente de fora, principalmente de carne enxuta e dura nordestina como eu. Sua vingan\u00e7a foi maligna, mas do meu jeito dei meu troco depois inutilizando sua raquete.<\/p>\n<p>Sempre vou a Juazeiro para visitar minha querida filha Cintia e os amigos, como fiz recentemente em junho. O calor caracter\u00edstico da cidade n\u00e3o me incomoda tanto como as centen\u00e1rias sedentas de sangue. Tive que ir \u00e0 rodovi\u00e1ria pelo final da tarde e confesso que fiquei surpreso com as nuvens de muri\u00e7ocas coroando as cabe\u00e7as dos passageiros como forma\u00e7\u00e3o de batalh\u00f5es para o ataque mortal.<\/p>\n<p>Meu primo ri e nem liga para meu protesto, como se n\u00e3o fosse nenhuma novidade e, entre uma cerveja e outra no boteco, at\u00e9 defende as sequinhas de pernas finas dos meus xingamentos. N\u00e3o pude me conter com sua atitude de menosprezo e, ent\u00e3o, deixei-lhe uma sugest\u00e3o para que a Prefeitura Municipal decretasse o tombamento das vampiras, com o posterior pedido junto ao Minist\u00e9rio da Cultura para que elas se tornem Patrim\u00f4nio Material de Juazeiro. \u00c9 muito justo para as cambitas.<\/p>\n<p>Como patrim\u00f4nio tombado, as muri\u00e7ocas passariam a ser protegidas por leis e ningu\u00e9m mais poderia mat\u00e1-las com tapas nas pernas, nos bra\u00e7os, socos nos rostos ou atrav\u00e9s de raquetes assassinas e venenos, sob pena de multas e pris\u00e3o de at\u00e9 dois anos nas nossas cadeias nojentas e medievais. Washington Mac\u00e1rio seria o inspetor-chefe, e da forma como ele \u00e9 dur\u00e3o em defesa da preserva\u00e7\u00e3o da natureza, cabra nenhum iria se atrever de levantar um dedo, ou palavr\u00e3o, contra as fininhas inofensivas. Pronto, elas estariam livres para sempre!<\/p>\n<p>Num canetada s\u00f3, com solenidade e entrevista coletiva da imprensa, o decreto de tombamento seria uma maneira de resolver o problema de uma vez, j\u00e1 que o poder p\u00fablico n\u00e3o toma provid\u00eancias com sistemas de esgotamento sanit\u00e1rio e limpezas na cidade para que as franzinas bicudas retornem ao habitat dos animais silvestre e fa\u00e7am seus banquetes de sangue por l\u00e1.<\/p>\n<p>Claro que fui reprovado e advertido pelo fiscal do Inema. Tem cabimento uma coisa dessas! Onde j\u00e1 se viu rebaixar um t\u00e9cnico s\u00e9rio e com tantos anos de lida e experi\u00eancias, para coloc\u00e1-lo na linha de frente como protetor das muri\u00e7ocas de Juazeiro!\u00a0 Fui de pronto chamado de ir\u00f4nico e, por pouco n\u00e3o me deu um sopapo no meu corpo franzino todo picado pelos insetos, mas estendi a \u201csugesta\u201d de que colocassem estagi\u00e1rios para cuidar da empreitada de zelar pelo tombamento patrimonial das centen\u00e1rias juazeirenses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que beleza curtir Juazeiro da Bahia com seus 140 anos debru\u00e7ado ao lado do \u201cVelho Chico\u201d, com Petrolina de Pernambuco na outra margem, e ainda ter o p\u00f4r-do-sol no fim de tarde por detr\u00e1s da ponte que liga as duas cidades! 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