{"id":2855,"date":"2018-05-09T22:49:46","date_gmt":"2018-05-10T01:49:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2855"},"modified":"2018-05-09T22:50:33","modified_gmt":"2018-05-10T01:50:33","slug":"os-movimentos-revolucionarios-de-68-que-sacudiram-o-planeta-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/05\/09\/os-movimentos-revolucionarios-de-68-que-sacudiram-o-planeta-50-anos\/","title":{"rendered":"OS MOVIMENTOS REVOLUCION\u00c1RIOS DE 68 QUE SACUDIRAM O PLANETA &#8211; 50 ANOS"},"content":{"rendered":"<p>Fotos reprodu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Silva extra\u00eddos dos livros\u00a0 Maio 68 Danoel e 68 Destinos 200 Passeata dos 100 mil &#8211; Evandro Teixeira sobre a ditadura no Brasil.<\/p>\n<p>Como na erup\u00e7\u00e3o de um vulc\u00e3o adormecido por muitos anos, a d\u00e9cada de 60 e o ano de 68, os mais radicais do s\u00e9culo XX, foram fascinantes e representaram o in\u00edcio da contracultura com a quebra dos velhos costumes e a nega\u00e7\u00e3o dos valores conservadores das ideias opressoras contra as mulheres, negros e outras minorias subjugadas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0027.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2856\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0027.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0027.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0027-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi a d\u00e9cada da juventude rebelada, das contesta\u00e7\u00f5es, da liberdade de express\u00e3o, do \u201cfa\u00e7a o que tu queres\u201d que culminaram numa avalanche de protestos em 68 contra a guerra no Vietn\u00e3, contra o comunismo stalinista, o capitalismo e contra as humilha\u00e7\u00f5es sofridas pelos negros nos Estados Unidos. Cinquenta anos depois todos se envelheceram.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0028.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2857\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0028-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0028-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0028.jpg 550w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A princ\u00edpio, jovens e oper\u00e1rios se rebelaram contra normas r\u00edgidas no trabalho e nas universidades, e contra as ditaduras nas Am\u00e9ricas e no mundo, principalmente no Brasil a partir do AI-5 que sentenciou e assassinou o \u201c\u00c9 Proibido Proibir\u201d de Maio de 68 em Parias, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi a d\u00e9cada em que a juventude tomou as ruas e atraiu velhos e trabalhadores para a causa da liberdade, para criticar e denunciar as atrocidades do comunismo e do capitalismo. Sem lideran\u00e7as e sem comando, todos colocaram pra fora o que estava engasgado nas gargantas.<\/p>\n<p>Foi a d\u00e9cada dos Beatles, dos Rolling Stones, do pastor Martin Luther King, Bob Kennedy, dos Panteras Negras e das organiza\u00e7\u00f5es subversivas onde todos, inclusive os mortos, marcaram um encontro em 68 para arrebentar com os grilh\u00f5es e dizer n\u00e3o aos antigos conceitos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0032.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-2858\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0032-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0032-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0032.jpg 550w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para o escritor Zuenir Ventura, 68 foi o ano que n\u00e3o terminou. Para Daniel Cohn-Bendit, o Dany, l\u00edder estudantil de Paris, tudo acabou, mas diria, c\u00e1 comigo, que foi o ano em que tudo come\u00e7ou. Aqueles doze meses ainda ecoam em nossas vidas, e muitas coisas devemos a este\u00a0 per\u00edodo.<a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0036.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2859\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0036.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0036.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0036-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O TERROR DAS DITADURAS E DA GUERRA<\/p>\n<p>\u201cEm \u201cO Eco das Ruas de 68\u201d, da revista Veja, a reportagem fala das boas lembran\u00e7as, das grandes obras (Caetano, Gil, Edu Lobo, Vandr\u00e9) e feitos que resultaram daquele ano, mas tamb\u00e9m das tristes recorda\u00e7\u00f5es do terror das ditaduras na Am\u00e9rica Latina e no Brasil, do horror da Guerra do Vietn\u00e3 e do assassinato de Martin Luther King.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0047.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2860\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0047.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0047.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0047-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os jovens sa\u00edram contra o poder, fosse de direita ou de esquerda. No Brasil contra um regime de for\u00e7a que matou, em mar\u00e7o, o estudante Edson Luis e provocou a passeata dos 100 mil. Outras marchas se sucederam. Na Checoslov\u00e1quia (Primavera de Praga), em agosto, contra a tirania dos tanques sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0060.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2861\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0060.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0060.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0060-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em Praga, o movimento come\u00e7ou em janeiro de 68 com a ascens\u00e3o de Alexander Dubcek para o cargo de secret\u00e1rio geral do Partido Comunista e ganhou forma com o manifesto \u201cDuas Mil Palavras\u201d, do escritor Ludvik Vaculik (1926\/2015) onde exaltava a liberdade. O sonho foi esmagado pelos tanques sovi\u00e9ticos que encaravam a liberdade como um veneno.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0063.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2862\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0063.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0063.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MG_0063-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Pelo livre pensar, os jovens foram \u00e0s ruas em Berlim, Paris, M\u00e9xico, T\u00f3quio, Chicago, Venezuela e Rio de Janeiro, para repudiar as arbitrariedades, a intoler\u00e2ncia racial, o machismo e as guerras. Se n\u00e3o derrubou as estruturas, 68 marcou o protagonismo da juventude com seus ideais de contesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele ano, a juventude com suas teses esquerdista (leninistas, mao\u00edstas e trotskistas) sonhou com uma revolu\u00e7\u00e3o que ganharia a sociedade inteira, disse o historiador franc\u00eas Serge \u00a0Berstein. A desobedi\u00eancia pac\u00edfica n\u00e3o era mais suficiente, e os rebelados tinham como profeta o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Herbert Marcuse (1898\/1979). Era a luta do novo contra o velho.<\/p>\n<p><!--more-->Essa briga por direitos civis nos Estados Unidos (lei de 64 e ampliada em 65\/68), que proibiam a discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, sexo e religi\u00e3o, ganhou contornos sangrentos com os Panteras Negras e os Black Lives Mater (vidas negras importam) na resist\u00eancia armada contra a brutalidade policial. De forma mais moderada, l\u00e1 estavam Luther King e Bob e Robert Kennedy pelo fim da guerra que s\u00f3 aconteceu em 1975.<\/p>\n<p>Contra a guerra no Vietn\u00e3, a onda geral come\u00e7ou em fevereiro numa universidade de Berlim ap\u00f3s a \u201cOfensiva Tet\u201d, a mais violenta do conflito entre o norte e o sul. Os \u00e2nimos se acirraram com o atentado contra o l\u00edder estudantil Rudi Dutschke que num de seus discursos deu vivas \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mundial, \u00e0 sociedade e aos indiv\u00edduos livres que dela resultar\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Paris, especialmente, o maio de 68 n\u00e3o apresentava um programa pol\u00edtico, ponto este questionado pelo fil\u00f3sofo Jean Paul Sartre (1905\/1980) quando disse \u201cde que adiantava quebrar tudo sem saber o que por no lugar\u201d. Logo depois, Bendit respondeu que a for\u00e7a de maio era a espontaneidade incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Aquela juventude vinha de duas d\u00e9cadas de crescimento no mundo ocidental com maior acesso ao ensino superior. S\u00f3 na Fran\u00e7a, o n\u00famero de universit\u00e1rios havia sa\u00eddo de 100 mil para 600 mil, mas eles queriam muito mais, como reformas gerais no \u00e2mbito social. Era tamb\u00e9m a gera\u00e7\u00e3o da contracultura buscando sentido para a vida.<\/p>\n<p>Nenhum governo foi derrubado, mas surgiu uma cultura jovem com padr\u00f5es e contesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. Foi aquela gera\u00e7\u00e3o de hippies que construiu a era digital (Steve Jobs). Foi a gera\u00e7\u00e3o que inaugurou um per\u00edodo de mudan\u00e7as cont\u00ednuas, e tamb\u00e9m desenhou a fantasia do poder.<\/p>\n<p>NA PARIS DAS BARRICADAS<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o dos anos 60, comparou o historiador ingl\u00eas Tony Judt, que esteve em Paris em 68, via o mundo como jovem. Naquele ano, tudo come\u00e7ou com as passeatas dos universit\u00e1rios com suas reivindica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. Do outro lado, apareceram as for\u00e7as policiais gerando os confrontos que resultaram numa crise de autoridade.<\/p>\n<p>Na verdade, o cen\u00e1rio teve in\u00edcio em janeiro quando o ministro da Juventude Fran\u00e7ois Missoffe foi at\u00e9 a universidade de Nanterre para inaugurar uma piscina ol\u00edmpica. Um jovem ruivo, O Dany le Rouge, de 22 anos, estudante de sociologia, pediu que ele acendesse um cigarro e disparou: Li seu dossi\u00ea de 600 p\u00e1ginas de in\u00e9pcias. Voc\u00eas nem tocaram na quest\u00e3o sexual dos jovens. O ministro respondeu: Com a cabe\u00e7a que voc\u00ea tem deve conhecer os problemas dessa ordem. Eu s\u00f3 posso lhe aconselhar um mergulho na piscina. Ai o Bendit emendou: Eis uma resposta digna das juventudes hitleristas.<\/p>\n<p>Em 22 de mar\u00e7o os alunos tomaram o pr\u00e9dio da administra\u00e7\u00e3o de Nanterre contra a pris\u00e3o de um colega membro do Comit\u00ea contr\u00e1rio \u00e0 guerra do Vietn\u00e3. Nas batalhas de maio, a ordem era ocupar o Quartier Latin. O presidente Charles De Gaulle e as autoridades ficaram sem saber como lidar com a revolta.<\/p>\n<p>Os alunos e professores tamb\u00e9m ocuparam a Escola de Belas Artes de Paris, para produzir centenas de cartazes que foram colados em muros e fachadas nas ruas. Muitos deles ganharam notoriedade internacional e sintetizavam os sentimentos de revolta, com cr\u00edticas ao governo, ao capitalismo e \u00e0 viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>A iniciativa dos estudantes ficou conhecida como \u201cAt\u00ealier Populaire\u201d. Os slogans, com peso maior nas mensagens pol\u00edticas, eram aprovados pelas assembleias. O primeiro publicado foi Usine, Universit\u00e9, Uniou e outros se seguiram, como Travailleurs fran\u00e7ais et immigr\u00e9s unis e La Chienlit c\u00b4est lui \u2013 Ele \u00e9 a bagun\u00e7a \u2013 em refer\u00eancia ao presidente De Gaulle, que chamou os jovens de baderneiros.<\/p>\n<p>Nos muros foram surgindo outras formas de contesta\u00e7\u00f5es do tipo \u201cIl es Interdit D\u00b4Interdire\u201d \u2013 a lei do 10 de maio. Quem cunhou o lema foi o ator, cantor e escritor Jean Gouy\u00e9. O slogan universalizou-se quando ainda estavam em vigor muitas ditaduras. Quatro meses depois canta Caetano Veloso \u201cProibido Proibir\u201d, inspirado no tema. Outras inscri\u00e7\u00f5es do tipo \u201cA Barricada Fecha a Rua, Por\u00e9m Abre o Caminho\u201d\u00a0 ganharam o mundo.<\/p>\n<p>\u201cSejam solid\u00e1rios e n\u00e3o solit\u00e1rios\u201d, \u201cMesmo se Deus Existisse, seria preciso suprimi-lo\u201d, \u201cA liberdade \u00e9 o crime que encerra todos os crimes\u201d \u201cViver sem horas mortas, fruir sem entraves\u201d, \u201cA economia est\u00e1 enferma, ent\u00e3o \u00e9 bom que morra logo\u201d \u201cA desordem sou eu\u201d \u201cEsque\u00e7am de tudo que aprenderam, comecem a sonhar\u201d. Ainda hoje muitas dessas frases que contaminaram \u00e0queles tempos ainda s\u00e3o guardadas em nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o vai mais dizer o que eu devo fazer \u2013 era tamb\u00e9m uma resposta dos jovens aos poderosos \u2013 interpretou o psicanalista Jorge Forbes. Para Jacques Lacan (1901\/1981), que chegou a se encontrar com o Dany no auge das barricadas, aquele que denuncia o tirano por meio do confronto, melhora a tirania. O Dany espirituoso disse esperar que os psicanalistas ajudassem eles a lan\u00e7ar paralelep\u00edpedos. Nunca sa\u00edram para fazer isso.<\/p>\n<p>J\u00e1 os fil\u00f3sofos Sartre e Michel Foucault foram \u00e0s passeatas. Dois anos depois Sartre revelou que n\u00e3o havia entendido o que os jovens queriam. Os contestadores cumpriram seu papel, mas n\u00e3o foram capazes de mudar a ordem em vigor naquele momento.<\/p>\n<p>NO BRASIL DA DITADURA<\/p>\n<p>Em 68 as not\u00edcias corriam lentamente, e o vento da renova\u00e7\u00e3o demorou a chegar por aqui em nossas plagas. Mesmo assim, o 68 fervia com as marchas dos estudantes e as picha\u00e7\u00f5es bradavam \u201cAbaixo a Ditadura\u201d. As for\u00e7as armadas apertavam o cerco e baixavam o pau. Prendiam e torturavam, impiedosamente.<\/p>\n<p>Muitos come\u00e7aram a partir para a luta armada com mortes, persegui\u00e7\u00f5es e torturas. Em outubro, mesmo proibidos de realizar eventos estudantis, os jovens programaram, em Ibi\u00fana, S\u00e3o Paulo, o 30\u00ba Congresso Nacional dos Estudantes (UNE).\u00a0 Antes de come\u00e7ar, tudo terminou com a pris\u00e3o de mil jovens, dentre os quais Jos\u00e9 Dirceu e Jos\u00e9 Genuino, mas dali surgiu uma nova gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos.<\/p>\n<p>No final do ano de 68 (13 de dezembro), a ditadura civil-militar escancarou de vez e mostrou suas garras afiadas atrav\u00e9s do AI-5, como assinalou o escritor \u00c9lio Gaspari, em a \u201cDitadura Escancarada\u201d. Com aquilo tudo, a ideia dos jovens era derrubar o regime a partir de uma vis\u00e3o marxista. O AI-5 se encarregou de ordenar que Estava tudo Proibido.<\/p>\n<p>Com o fim do movimento, muitos migraram para a milit\u00e2ncia das organiza\u00e7\u00f5es clandestinas. Dirceu e Genu\u00edno foram presos e exilados. De volta, entraram na pol\u00edtica e novamente foram presos pelas den\u00fancias do Mensal\u00e3o e da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato do Petrol\u00e3o. O historiador Daniel Aar\u00e3o Reis chegou a comentar que pegar atalhos tem alto custo na pol\u00edtica e na vida. O Brasil do Mensal\u00e3o e da Lava Jato ainda carrega as marcas de 68.<\/p>\n<p>OS COMEDIDOS E OS RADICAIS<\/p>\n<p>Her foi a pe\u00e7a musical mais revolucion\u00e1ria da hist\u00f3ria. De uma d\u00e9cada radical, 68 foi a mais radical, mas tinham os mais comedidos. Em novembro de 68, pouco mais de um ano da morte de Che Guevara, na Bol\u00edvia, os Beatles lan\u00e7ava seu 10\u00ba Disco, o \u00c1lbum Branco. Em Revolution, Lenon e Paul McCartney se mostraram reticentes diante dos movimentos quando chegaram a se expressar que queriam um mundo novo, mas se voc\u00ea fala em destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conte conosco.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, os Panteras Negras agitavam nas ruas ao lado de paz e amor dos hippies. Na Inglaterra, da sonolenta Londres, os Rolling Stones estavam mais sintonizados com as barricadas dos estudantes do que o quarteto oper\u00e1rio de Liverpool. O cineasta Pier Paolo Pasolini lan\u00e7ava Teorema \u2013 um ataque ao convencionalismo burgu\u00eas \u2013 mas n\u00e3o simpatizava com os jovens.<\/p>\n<p>Mesmo no campo das esquerdas, haviam radicalismos em diversas correntes. \u201cEros e Civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, de Marcuse, era aceito pela juventude mais extremista, mas seu companheiro Theodor Adorno (1903\/69) caiu em desgra\u00e7a porque estendeu a m\u00e3o para amparar um policial.<\/p>\n<p>Do outro lado, no Brasil, por exemplo, despontava a radicalidade de Geraldo Vandr\u00e9 na letra de \u201cPra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei das Flores\u201d. J\u00e1 na Tropic\u00e1lia, Gil e Caetano n\u00e3o eram bem vistos pela esquerda radical. Para a MPB, 68 foi o ano do Tropicalismo em \u201cTropic\u00e1lia ou Panis et Circensis\u201d, o disco manifesto (maio) de Caetano, Gil, Gal, Rog\u00e9rio Duprat e os Mutantes.<\/p>\n<p>No III Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, Caetano fez \u201cProibido Proibir\u201d, m\u00fasica inspirada num dos slogans das barricadas de Paris. Foi rejeitado pelos estudantes e terminou fazendo um discurso furibundo. Ele comparou os jovens aos brucutus do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC) que haviam agredido a pe\u00e7a \u201cRoda Viva\u201d, de Chico. O p\u00fablico n\u00e3o aceitou as guitarras dos Mutantes, nem a performance anarquista do cantor baiano.<\/p>\n<p>Podemos aqui fazer um paralelo entre aquela plateia enfurecida e os tempos atuais. O apelo desesperado de \u201c\u00c9 Proibido Proibir\u201d ainda se mant\u00e9m atual diante das intoler\u00e2ncias. Segundo observadores no assunto, o maior legado deixado por 68 foi a pol\u00edtica que se espalhou para muitos recantos da vida comum entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Protagonizado por l\u00edderes pol\u00edticos, poucos se engajaram no movimento das \u201cDiretas J\u00e1\u201d de 84. Em 90, os filhos dos rebeldes viviam acomodados, conforme apurou pesquisa feita por organismos pol\u00edticos. O ardor s\u00f3 voltaria mesmo em 92 com os caras pintados (mo\u00e7as e rapazes an\u00f4nimos) que foram \u00e0s ruas para derrubar o presidente Fernando Collor.<\/p>\n<p>Em junho de 2013, com o pretexto de repudiar os aumentos nas tarifas de \u00f4nibus, o movimento logo descambou para protestos contra tudo que estava em vigor. O movimento teve como caracter\u00edstica principal a aus\u00eancia de lideran\u00e7as espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Seguindo o lema \u201c\u00c9 Proibido Proibir\u201d, com as redes sociais todos falam o que bem entendem, mas o maio de 68 negava o discurso do \u00f3dio e da intoler\u00e2ncia. O 68 queria sim, quebrar as diferen\u00e7as de sexo e ra\u00e7a, e valorizar a pluralidade de pensamento. Criticava o capitalismo e o comunismo. \u201cTemos hoje a utiliza\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas mais modernas no exerc\u00edcio das pr\u00e1ticas mais antigas\u201d \u2013 sentenciou o professor de filosofia da Universidade de Campinas, Roberto Romano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fotos reprodu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Silva extra\u00eddos dos livros\u00a0 Maio 68 Danoel e 68 Destinos 200 Passeata dos 100 mil &#8211; Evandro Teixeira sobre a ditadura no Brasil. Como na erup\u00e7\u00e3o de um vulc\u00e3o adormecido por muitos anos, a d\u00e9cada de 60 e o ano de 68, os mais radicais do s\u00e9culo XX, foram fascinantes e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2855"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2855"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2855\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2864,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2855\/revisions\/2864"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}