{"id":2774,"date":"2018-03-30T00:10:00","date_gmt":"2018-03-30T03:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2774"},"modified":"2018-03-31T00:26:32","modified_gmt":"2018-03-31T03:26:32","slug":"vou-ser-moco-e-viver-numa-loca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/03\/30\/vou-ser-moco-e-viver-numa-loca\/","title":{"rendered":"VOU SER MOC\u00d3 E VIVER NUMA LOCA"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o fique ai esperando. Com um eleitorado quase todo ignorante, alienado e escravo dos favores e dos religiosos, as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o mudar\u00e3o as coisas. A ratazana vai continuar roendo o delicioso queijo chamado Brasil. Sem esperan\u00e7as e futuro incerto, vivemos numa sociedade acossada pelo medo.<\/p>\n<p>Pode at\u00e9 ser covardia ou fuga do real, mas estou cansado e pensando em virar moc\u00f3 num s\u00edtio qualquer por a\u00ed pra viver na minha loca, isolado no meu buraco egoc\u00eantrico, e bem longe de tantas idiotices e imbecilidades. Prefiro a reclus\u00e3o nestes dias que me restam. As circunst\u00e2ncias financeiras, infelizmente, ainda n\u00e3o me permitem, mas tenho pressa e apelado para Odin e a todos os deuses do universo que me levem.<\/p>\n<p>O tempo n\u00e3o espera e estou me esvaindo aos poucos neste turbilh\u00e3o de besteiras, retrocessos, viol\u00eancias e descalabros dos porcos malfeitores. Neste arrast\u00e3o desumano, confesso que n\u00e3o sou um homem maduro o suficiente pra viver com sabedoria e serenidade, de modo a evitar a irrita\u00e7\u00e3o e a revolta. Ainda me sinto um perdido nesta selva dividida de lobos, hienas e raposas raivosas. Meu lugar n\u00e3o \u00e9 mais aqui.<\/p>\n<p>Os extremistas est\u00e3o avan\u00e7ando com seus tanques e passando por cima das diversidades e diverg\u00eancias. O ovo da serpente est\u00e1 sendo gestado. Os direitos humanos e trabalhistas, os movimentos em defesa da igualdade social, de g\u00eanero e de cor, as lutas em prol de justi\u00e7a para os injusti\u00e7ados e as denuncias contra as brutalidades da for\u00e7a repressora policialesca est\u00e3o sendo destru\u00eddos e amea\u00e7ados de morte.<\/p>\n<p>Como no poema de Maiakovski, do jardim pisoteado, agora est\u00e3o arrombando nossas portas e destruindo nossas flores e lares, provocando choros, l\u00e1grimas e ranger de dentes. As nossas crian\u00e7as e jovens est\u00e3o sendo exterminadas por balas assassinas, e n\u00e3o se sabe quem \u00e9 mais truculento e sanguin\u00e1rio, se as rajadas dos bandidos dos morros e asfaltos ou os homens ditos da lei com seus fuzis e metralhadoras em punho.<\/p>\n<p>As ideias macabras nazifascistas de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia se disseminam nas redes sociais com cal\u00fanias, inj\u00farias e difama\u00e7\u00f5es. Por todos os cantos se ouve improp\u00e9rios, absurdos e incita\u00e7\u00f5es dos radicais. As not\u00edcias falsas e mentirosas se propagam como rastilho de p\u00f3lvora. Das bocas tremulas escorrem espumas de \u00f3dio e dos c\u00e9rebros endurecidos ofensas contra os que rogam por igualdade. O certo n\u00e3o \u00e9 mais certo, e o errado \u00e9 o correto.<\/p>\n<p>Todos est\u00e3o fixos como rob\u00f4s de olho nas telas malditas, e longe do olho no olho entre os seres. A mobiliza\u00e7\u00e3o popular tem seu tempo curto de ativismo, s\u00f3 enquanto o sangue ainda est\u00e1 quente nas ruas e nas cal\u00e7adas. Depois todos seguem indiferentes, cada um no seu caminho da busca pela sobreviv\u00eancia individual. O coletivo \u00e9 sempre o descart\u00e1vel e tem seu prazo de validade vencido.<\/p>\n<p><!--more--> Dia desses escutei um cara arrotar sua verborreia de que todo ateu \u00e9 um fan\u00e1tico, que a CNBB (Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil) \u00e9 comunista e n\u00e3o representa a Igreja Cat\u00f3lica, e que todo comunista \u00e9 um vagabundo safado que merece morrer. Os brutos est\u00e3o por toda parte para atirar no primeiro diferente a ele. As sombras do regime militar pairam sobre n\u00f3s, numa sociedade ainda dominada pela mentalidade conservadora, colonial e patriarcal.<\/p>\n<p>Nem precisaria perguntar, mas na sua concep\u00e7\u00e3o estava bem estampada na testa que toda feminista \u00e9 uma vagabunda, como a Marielle Franco, recentemente executada. Isto saiu da boca de um militar, mas tamb\u00e9m poderia ter sido de um civil que pede a volta da ditadura. Ali\u00e1s, os fantasmas dela ainda rondam nossas vidas porque as feridas continuam abertas. Com a anistia dos torturadores, n\u00e3o foram cicatrizadas.<\/p>\n<p>Os evang\u00e9licos berram nos seus templos e fora deles, deturpam os ensinamentos e querem condenar ao fogo do inferno os n\u00e3os seguidores de Cristo. Para muitos, o candombl\u00e9 \u00e9 o satan\u00e1s chifrudo. A xenofobia, a homofobia e o preconceito crescem como ervas daninhas. Das covas f\u00fanebres das trevas levantam os zumbis famintos por sangue.<\/p>\n<p>Incitam achando que n\u00e3o v\u00e3o ter o retorno, mas no dito popular, \u201cquem com o ferro fere, com o ferro ser\u00e1 ferido\u201d. N\u00e3o atirem ovos, tomates podres e pedras se n\u00e3o querem, l\u00e1 adiante, serem agredidos com os mesmos objetos, e at\u00e9 mais que isso. Mandar baixar a \u201cporrada\u201d, dar um corretivo no indiv\u00edduo s\u00f3 geram mais embates fraticidas.<\/p>\n<p>As mais altas cortes brigam de unhas e dentes para n\u00e3o perder seus penduricalhos. Nesta nau dos insensatos, todos s\u00e3o suspeitos e culpados pelos crimes cometidos, e \u00e9 dela que quero sair para viver em minha loca e purgar pelos meus pecados. Esse habitat onde o mal n\u00e3o tira folga, n\u00e3o mais me pertence. Sinto-me sem for\u00e7as para resistir. Perdi h\u00e1 pouco tempo um grande amigo de semblante magoado e solit\u00e1rio diante das ingratid\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o fique ai esperando. Com um eleitorado quase todo ignorante, alienado e escravo dos favores e dos religiosos, as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o mudar\u00e3o as coisas. A ratazana vai continuar roendo o delicioso queijo chamado Brasil. Sem esperan\u00e7as e futuro incerto, vivemos numa sociedade acossada pelo medo. 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