{"id":2695,"date":"2018-02-23T23:52:32","date_gmt":"2018-02-24T02:52:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2695"},"modified":"2018-02-23T23:52:40","modified_gmt":"2018-02-24T02:52:40","slug":"a-invasao-dos-estrangeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2018\/02\/23\/a-invasao-dos-estrangeiros\/","title":{"rendered":"A INVAS\u00c3O DOS ESTRANGEIROS"},"content":{"rendered":"<p>Carlos Alb\u00e1n Gonz\u00e1lez &#8211; jornalista<\/p>\n<p>Especialistas em lingu\u00edstica v\u00eam afirmando que o portugu\u00eas falado no Brasil est\u00e1 destinado a morrer, diante das deturpa\u00e7\u00f5es que o idioma herdado dos nossos descobridores s\u00e3o acolhidas nas redes sociais e em muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O artigo \u201cPa\u00eds sem cultura \u00e9 pa\u00eds sem alma\u201d, publicado neste espa\u00e7o pelo meu colega Jeremias Mac\u00e1rio, levou-me a acreditar que o brasileiro est\u00e1 sofrendo de uma doen\u00e7a que eu chamaria de estrangeirado, termo dado pelo \u201cAur\u00e9lio\u201d aos que t\u00eam \u201cmodos, fala, usos e costumes de estrangeiro, ou que prefere o que \u00e9 estrangeiro\u201d.<\/p>\n<p>Antes de continuar a abordar esse tema, muito bem comentado por Jeremias, gostaria de ter o dom de prever se o estrangeirismo ou estrangeirado teria criado ra\u00edzes se a Espanha tivesse marcado presen\u00e7a em terras brasileiras, antes da chegada de Pedro \u00c1lvares Cabral, em abril de 1500. Dois navegadores espanh\u00f3is, em janeiro e fevereiro de 1500, Vicente Ya\u00f1ez Pinz\u00f3n e Diego de Lepe, com as b\u00ean\u00e7\u00e3os dos reis cat\u00f3licos Fernando e Isabel, percorreram mais de 120 quil\u00f4metros do litoral do Nordeste, navegando at\u00e9 a foz do rio Amazonas. Pinz\u00f3n, que j\u00e1 havia comandado uma nau de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo na primeira viagem \u00e0 Am\u00e9rica, chegou a fincar numa praia uma cruz de madeira com o bras\u00e3o do Reino de Castilla.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 certa: na condi\u00e7\u00e3o de morador de vasta extens\u00e3o desse \u201ccondom\u00ednio\u201d chamado Am\u00e9rica do Sul, o brasileiro sente dificuldade de \u201cbater um papo\u201d com seus vizinhos, por causa da diferen\u00e7a de idiomas.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio varejista e o mercado imobili\u00e1rio est\u00e3o entre os principais \u201chospedeiros\u201d do v\u00edrus do estrangeirado. Alguns voc\u00e1bulos estrangeiros, pelo constante uso, j\u00e1 deveriam ter sido inclu\u00eddos nos dicion\u00e1rios de portugu\u00eas, os consultados pelos brasileiros. O mais popular deles \u00e9 o \u201coff\u201d (fora), divulgado pelos lojistas dos ramos de cal\u00e7ados, vestu\u00e1rio, eletr\u00f4nicos, e outros, sempre que promovem liquida\u00e7\u00f5es, prometendo descontos nos artigos oferecidos \u00e0 clientela.<\/p>\n<p>Na mesma linha de pontua\u00e7\u00e3o est\u00e3o o \u201cfor rent\u201d e \u201cfor sale\u201d, usados por imobili\u00e1rias e locadoras de carros. J\u00e1 constatei em jornais de grande circula\u00e7\u00e3o, nas p\u00e1ginas dos classificados, an\u00fancios de im\u00f3veis, totalmente em ingl\u00eas. Provavelmente, seus propriet\u00e1rios n\u00e3o desejam alugar seus apartamentos ou casas a patr\u00edcios, preferindo os gringos. Concurso e moda para gordinhas mudou para &#8220;plus size&#8221; (tamanho mais).<\/p>\n<p>Ao entrar nos shoppings center das principais cidades do pa\u00eds voc\u00ea tem a impress\u00e3o de que est\u00e1 num centro de compras de Nova Iorque ou Londres, diante dos nomes fantasia colocados nas portas das lojas. Para n\u00e3o ficar at\u00f4nito sugiro levar um dicion\u00e1rio ingl\u00eas-portugu\u00eas, para poder traduzir, por exemplo, \u201cshoes and bags\u201d (sapatos e bolsas). H\u00e1 casos interessantes, em que o comerciante junta palavras em duas l\u00ednguas, como \u201cdrink \u00e1gua\u201d, pintado na frente de uma revendedora de bebidas, aqui em Vit\u00f3ria da Conquista.<\/p>\n<p>A \u00faltima reforma ortogr\u00e1fica da l\u00edngua portuguesa \u201cressuscitou\u201d o \u201ck\u201d, \u201cw\u201d e \u201cy\u201d. Nesse retorno, derrubaram letras tradicionais, como o \u201cq\u201d, \u201cv\u201d e \u201ci\u201d. Palavras como o \u201cdisque\u201d foram abreviadas para \u201cdisk\u201d, que, em franc\u00eas, significa \u201cdisque\u201d.<\/p>\n<p>Conselhos relacionados ao meio ambiente (\u201cConserve a Serra de Piripiri\u201d), sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, tr\u00e2nsito, viol\u00eancia urbana e limpeza das cidades, deveriam estar estampados nas camisetas, bastante vendidas nos shoppings e no com\u00e9rcio popular. Essas blusas evelam, lamentavelmente, a prefer\u00eancia pelo estrangeirado, como \u201cI love New York\u201d. O comprador, muitas vezes, nem tem a preocupa\u00e7\u00e3o de fazer a tradu\u00e7\u00e3o, e sai pelas ruas exibindo frases como \u201cGirls like girls\u201d (Meninas gostam de meninas) ou \u201cNormal people scare me\u201d (Pessoas normais me assustam). A frase \u201cGreat rapers tonight\u201d (Grandes estupradores noturnos), impressa numa camisa, repercutiu negativamente recentemente nas redes sociais, levando uma rede de lojas de confec\u00e7\u00f5es a suspender sua venda.<\/p>\n<p><!--more-->Estou aguardando que alguma editora do pa\u00eds publique uma esp\u00e9cie de dicion\u00e1rio, com os voc\u00e1bulos e respectiva tradu\u00e7\u00e3o, usados pelos fabricantes dos aparelhos com circuitos eletr\u00f4nicos. O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico desses modernos meios de comunica\u00e7\u00e3o provocaria, no entanto, uma atualiza\u00e7\u00e3o frequente desses manuais.<\/p>\n<p>Privil\u00e9gio das universidades e da iniciativa privada, a internet chegou ao Brasil no fim dos anos 80. Veio a se popularizar em 1995. Hoje, o pa\u00eds \u2013 4\u00ba do mundo &#8211; possui 116 milh\u00f5es de internautas, distribu\u00eddos em sete em cada dez moradias. Esse enorme contingente lida diariamente com termos importados pelos norte-americanos. O celular chegou mais tarde. Descartou, com o passar dos anos, o apelido de \u201ctijol\u00e3o\u201d e adotou o pomposo nome de \u201csmartphone\u201d, tornando-se\u00a0 \u201camigo de cama e mesa\u201d de 240 milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>Miguel virou Michel<\/p>\n<p>Poucos brasileiros sabem que o atual ocupante da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica foi registrado pelo seus pais, em Tiet\u00ea (S\u00e3o Paulo), em 23 de setembro de 1940, como Michel Miguel Elias Temer Lulia. Ao adotar o franc\u00eas Michel como seu \u201cnome de guerra\u201d, aquele que lhe daria sorte na vida, o que parece ter se confirmado, o filho de imigrantes libaneses se inseriu entre aqueles que valorizam os importados, ou talvez tenha imaginado que um Miguel qualquer n\u00e3o faria carreira pol\u00edtica. Esqueceu-se do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, um exemplo de homem p\u00fablico, inexistente no Brasil de hoje. N\u00e3o satisfeito, o presidente deu o seu nome ao filho ca\u00e7ula, carinhosamente chamado de Michelzinho nos corredores palacianos.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 40 a 80 era comum se registrar os filhos com nomes de astros da m\u00fasica internacional, como os Beatles, e do cinema norte-americano. L\u00edderes dos pa\u00edses envolvidos na 2\u00aa Guerra Mundial tamb\u00e9m exerceram grande influ\u00eancia, como Stalin, Benito Mussolini, Franklin Roosevelt e Get\u00falio Vargas; desconhe\u00e7o se h\u00e1 algum brasileiro chamado Hitler.<\/p>\n<p>Conheci um Get\u00falio Roosevelt, nascido no come\u00e7o dos anos 40, na long\u00ednqua cidade baiana de Barra. O encontro dos presidentes dos Estados Unidos e Brasil, em janeiro de 1943, em Natal, para discutir a entrada dos brasileiros na guerra, foi acompanhado com bastante interesse pelo pai do cidad\u00e3o barrense, o que lhe estimulou a prestar uma homenagem aos dois mandat\u00e1rios.<\/p>\n<p>O que se observa no presente, principalmente entre as fam\u00edlias mais pobres, \u00e9 uma enxurrada de nomes bizarros. Os times de futebol t\u00eam em seus elencos jogadores com prenomes onde predominam as consoantes dobradas, o \u201ck\u201d, \u201cy\u201d e \u201cw\u201d.<\/p>\n<p>A Lei de Registros P\u00fablicos, de n\u00famero 6.015, de 1973, em seu artigo 55, autoriza os oficiais de cart\u00f3rios a n\u00e3o registrar prenomes suscept\u00edveis de expor ao rid\u00edculo os seus portadores. Se os pais n\u00e3o aceitarem a recusa, caber\u00e1 a um juiz da Vara da Fam\u00edlia tomar uma decis\u00e3o. Esse tipo de ocorr\u00eancia \u00e9 comum nos cart\u00f3rios de todo o pa\u00eds. Um registrador que trabalha na periferia da capital paulista conta que um pai pretendia colocar no rec\u00e9m-nascido o nome de L\u00facifer, e um outro sonhou que sua filha deveria se chamar Jhenhifher, aceitando, depois de muita conversa, retirar os tr\u00eas \u201ch\u201d.<\/p>\n<p>Em 2010, o deputado Paulo Magalh\u00e3es (DEM-BA, hoje no PSD) elaborou um projeto, que nunca foi apreciado pela C\u00e2mara, \u00a0acrescentando ao artigo 55 da Lei 6.015 a proibi\u00e7\u00e3o pelos cart\u00f3rios do registro de prenomes de origem estrangeira. Na justificativa de sua proposi\u00e7\u00e3o o parlamentar baiano diz que \u201cn\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que surgem nomes ex\u00f3ticos, rid\u00edculos e at\u00e9 mesmo impronunci\u00e1veis, que podem causar a seus possuidores diversas situa\u00e7\u00f5es inconvenientes e constrangedoras. O nome acompanha e marca a personalidade do ser humano por toda a vida. \u00c9, pois, inadmiss\u00edvel permitir-se que seja atribu\u00eddo a um rec\u00e9m-nascido um prenome que o deprimir\u00e1 quando a raz\u00e3o lhe vier\u201d.<\/p>\n<p>Iniciativa semelhante partiu dos ga\u00fachos. Em 2011, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou projeto de lei que previa a tradu\u00e7\u00e3o de express\u00f5es e palavras estrangeiras para o portugu\u00eas. Seu autor, o deputado Paulo Carrion (PCdoB), em sua argumenta\u00e7\u00e3o, redigiu o seguinte texto:<\/p>\n<p>\u201cA invas\u00e3o de termos estrangeiros tem sido t\u00e3o intensa que ningu\u00e9m estranharia se eu fizesse aqui o seguinte relato do meu cotidiano: &#8211; Fui ao freezer, abri uma coca diet e sai cantarolando um jingle, enquanto ligava meu disc player para ouvir uma m\u00fasica new age. Precisava de um relax. Meu check up indicava stress. Dei um time e fui ler um bestseller no living do meu flat.<\/p>\n<p>Desci ao playground; depois fui fazer o meu cooper. Na rua vi novos outdoors e revi velhos amigos do footing. Um deles comunicou-me aquisi\u00e7\u00e3o de uma nova maison, com quatro suites e\u00a0 at\u00e9 convidou-me para o open house. Marcamos, inclusive, um happy hour. Tomar\u00edamos um drink, um scotch, de prefer\u00eancia on the rocks.<\/p>\n<p>O barman, muito chic, parecia um lord ingl\u00eas. Perguntou-me se eu conhecia o novo point society da cidade: times square, ali na Gilberto Salom\u00e3o, que fica perto doi Gaf, o La Basque e o Baby Beef, com servi\u00e7os a la Carte e self-service. (&#8230;) Voltei para casa, ou, ali\u00e1s, para o flat, pensando no day after. O que fazer? Dei boa noite ao meu chofer que, com muito fair play, respondeu-me: good night.\u201d<\/p>\n<p>O governador do estado na \u00e9poca, Tarso Genro, vetou quase que totalmente o projeto, mantendo apenas a obrigatoriedade de tradu\u00e7\u00e3o nos documentos oficiais. Professores de Portugu\u00eas consultados pelo governo criticaram a falta de patriotismo do brasileiro e sugeriram maior incentivo por parte do poder p\u00fablico ao uso do idioma, acentuando que \u201ca l\u00edngua \u00e9 o nosso maior patrim\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<table width=\"580\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"572\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Alb\u00e1n Gonz\u00e1lez &#8211; jornalista Especialistas em lingu\u00edstica v\u00eam afirmando que o portugu\u00eas falado no Brasil est\u00e1 destinado a morrer, diante das deturpa\u00e7\u00f5es que o idioma herdado dos nossos descobridores s\u00e3o acolhidas nas redes sociais e em muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o. 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