{"id":2535,"date":"2017-11-30T23:58:33","date_gmt":"2017-12-01T02:58:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2535"},"modified":"2017-11-30T23:58:45","modified_gmt":"2017-12-01T02:58:45","slug":"carta-de-um-campo-de-refugiados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/11\/30\/carta-de-um-campo-de-refugiados\/","title":{"rendered":"CARTA DE UM CAMPO DE REFUGIADOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Trabalhadora humanit\u00e1ria do ACNUR conta sua experi\u00eancia na emerg\u00eancia em Bangladesh<\/strong><\/p>\n<p>A Coordenadora para Resposta de Emerg\u00eancia do ACNUR, Joung-ah Ghedini-Williams, est\u00e1 em Bangladesh, onde cerca de 620 mil refugiados chegaram ap\u00f3s atravessarem a fronteira de Mianmar. Aqui est\u00e1 seu depoimento ap\u00f3s passar um dia no campo de refugiados de Kutupalong, em Cox&#8217;s Bazar.<\/p>\n<p>COX&#8217;S BAZAR, Bangladesh, 27 de novembro de 2017 (ACNUR) &#8211; Imagine o horror de tentar sobreviver, tentar alimentar seus filhos e manter algum senso de conforto enquanto voc\u00ea est\u00e1 perdendo seus entes queridos, ou observando sua casa sendo incendiada e reduzida a cinzas. Esta \u00e9 a realidade de algumas pessoas que conheci aqui em Bangladesh.<\/p>\n<p>Muitas s\u00e3o mulheres, tentando o melhor que podem para seus filhos assustados e angustiados, embora elas pr\u00f3prias estejam lutando para dar algum sentido para tudo que aconteceu nos \u00faltimos meses. Ontem uma m\u00e3e perdeu sua filha. Ela estava tentando ser forte diante de seus outros filhos, mas todos estavam claramente abalados. Eles j\u00e1 viviam h\u00e1 muito tempo com medo, sem nunca saber quando poderiam ser as pr\u00f3ximas v\u00edtimas da viol\u00eancia que tirou a vida de tantos dos seus parentes e vizinhos.<\/p>\n<p>V\u00e1rias mulheres me disseram que testemunharam o sequestro de jovens meninas, e a pris\u00e3o de pais, filhos e irm\u00e3os que nunca mais foram vistos.<\/p>\n<p>Conheci muitas outras no centro de transi\u00e7\u00e3o do ACNUR, onde os rec\u00e9m-chegados mais vulner\u00e1veis podem permanecer por at\u00e9 tr\u00eas dias antes de serem transferidos. Estas s\u00e3o as fam\u00edlias que necessitam de assist\u00eancia especial antes de poderem continuar: idosos, pessoas com defici\u00eancia, mulheres gr\u00e1vidas, m\u00e3es om beb\u00eas e crian\u00e7as desnutridas ou doentes. Existem v\u00e1rias fam\u00edlias que sobreviveram a um horr\u00edvel acidente de barco. Das 42 pessoas a bordo, quatro foram mortas. Vinte e dois outros ficaram feridos o bastante para precisar de tratamento hospitalar.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m vejo colegas do ACNUR, obstinados e dedicados, que me deixam orgulhosa desta organiza\u00e7\u00e3o na qual continuo acreditando ap\u00f3s 20 anos de servi\u00e7o. As equipes do ACNUR est\u00e3o na linha de frente, nas fronteiras, nos campos de refugiados e nos centros de transi\u00e7\u00e3o, desde o in\u00edcio da manh\u00e3 at\u00e9 tarde da noite.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o colegas que sa\u00edram esta manh\u00e3 \u00e0s 4:30 para chegar \u00e0s \u00e1reas fronteiri\u00e7as. Ontem \u00e0 noite, eu estava no telefone recebendo informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 quase meia-noite.<\/p>\n<p>Estamos fazendo de tudo para alcan\u00e7ar todas as pessoas que precisam de nossa assist\u00eancia, at\u00e9 mesmo as que est\u00e3o nos mais distante dos campos e acampamentos onde os ve\u00edculos n\u00e3o conseguem chegar. Hoje andei por sete quil\u00f4metros e subi o equivalente a 16 andares de escadas. Um colega me contou sobre um dia que ele percorreu mais de 18 quil\u00f4metros. Ele foi encarregado de identificar fam\u00edlias vulner\u00e1veis e garantir que todos com necessidades espec\u00edficas acessassem servi\u00e7os essenciais. Ele entrevistou quase uma centena de fam\u00edlias naquele dia e voltou com os p\u00e9s doloridos, mas com um sorriso orgulhoso de seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Colegas de v\u00e1rios pa\u00edses e origens \u2013 ex-banqueiros, professores, engenheiros de v\u00e1rias religi\u00f5es e pa\u00edses &#8211; est\u00e3o trabalhando juntos incansavelmente para planejar novos assentamentos para as fam\u00edlias rec\u00e9m-chegadas. N\u00e3o importam as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, chuva pesada ou sol brutal, eles est\u00e3o fazendo tudo, desde estradas no centro de tr\u00e2nsito a sess\u00f5es de terapia para uma d\u00fazia de mulheres Rohingya. Essas mulheres sobreviveram \u00e0 viol\u00eancia sexual e s\u00e3o fortes o suficiente para compartilhar suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Conheci diversas corajosas fam\u00edlias Rohingya que t\u00eam apenas um pouco mais do que as roupas do corpo, o peso de seu trauma, da perda, e as dolorosas lembran\u00e7as da viol\u00eancia que as for\u00e7ou a fugir de suas casas.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e0 medida que o sol se p\u00f5e na recente extens\u00e3o do campo de Kutupalong, estou cercada pelo som de batidas de martelo, serrotes, conversas e risos animados enquanto as fam\u00edlias constroem novas casas com bambu, cabos e lonas de pl\u00e1stico que lhes fornecemos.<\/p>\n<p>Eu vejo crian\u00e7as empinando as pipas que fizeram com sacos de pl\u00e1stico e peda\u00e7os de galho, e ficando felizes quando seus brinquedos finalmente se elevavam acima deles. Eu sinto o aroma dos jantares preparados para as fam\u00edlias compartilharem, usando os kits de cozinha que o ACNUR oferece. Eu sei que pode ser dif\u00edcil explicar a import\u00e2ncia de tais utens\u00edlios t\u00e3o simples em uma zona de emerg\u00eancia, mas sem eles, como as pessoas cozinhariam? Como as pessoas come\u00e7ariam a reconstruir suas vidas?<\/p>\n<p>Quero deixar claro: h\u00e1 ainda muito trabalho a ser feito. As necessidades s\u00e3o enormes. Mas isso simplesmente significa que h\u00e1 muito o que podemos fazer, que h\u00e1 tantas pessoas que podem ser ajudadas.<\/p>\n<p>Os sorrisos que vejo nos rostos das crian\u00e7as mostram essa simples verdade: todos os esfor\u00e7os e cada doa\u00e7\u00e3o fazem a diferen\u00e7a. O ACNUR est\u00e1 recebendo doa\u00e7\u00f5es para ajudar aos refugiados rohingya pelo link: <a href=\"https:\/\/goo.gl\/GyvGah\">goo.gl\/GyvGah<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhadora humanit\u00e1ria do ACNUR conta sua experi\u00eancia na emerg\u00eancia em Bangladesh A Coordenadora para Resposta de Emerg\u00eancia do ACNUR, Joung-ah Ghedini-Williams, est\u00e1 em Bangladesh, onde cerca de 620 mil refugiados chegaram ap\u00f3s atravessarem a fronteira de Mianmar. Aqui est\u00e1 seu depoimento ap\u00f3s passar um dia no campo de refugiados de Kutupalong, em Cox&#8217;s Bazar. 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