{"id":2511,"date":"2017-11-24T00:01:19","date_gmt":"2017-11-24T03:01:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2511"},"modified":"2017-11-24T00:01:29","modified_gmt":"2017-11-24T03:01:29","slug":"a-conquista-dos-donos-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/11\/24\/a-conquista-dos-donos-da-cultura\/","title":{"rendered":"A CONQUISTA DOS DONOS DA CULTURA"},"content":{"rendered":"<p>A princ\u00edpio, j\u00e1 sei, antecipadamente, que n\u00e3o serei apenas criticado, mesmo porque discordar faz parte da natureza humana e do debate democr\u00e1tico aberto a todos. Entretanto, muitos ir\u00e3o soltar improp\u00e9rios e flechas venenosas com conota\u00e7\u00f5es depreciativas contra minha pessoa, do tipo rancoroso, imbecil, provocador e frustrado.<\/p>\n<p>Com minha idade avan\u00e7ada, j\u00e1 n\u00e3o me importo mais com as pedradas. Sou cidad\u00e3o conquistense vivendo aqui h\u00e1 quase 27 anos. Procurei durante este tempo estudar as origens e a hist\u00f3ria desta terra, bem como, observar a prepot\u00eancia vaidosa intelectual de muitos que se consideram donos da cultura e que se portam como deuses intoc\u00e1veis. Existe muita presun\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a de muita gente.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 que tudo que se faz, ou se estar por fazer aqui em torno da cultura, tem que girar ao redor desses sacerdotes ilustres que comandam os rituais lit\u00fargicos. Sem o aval deles, qualquer express\u00e3o ou trabalho art\u00edstico n\u00e3o consegue se sobressair e alcan\u00e7ar maior divulga\u00e7\u00e3o interna e externa. Para abrir passagem e ser prestigiado tem que pedir a ben\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p>Antes de adentrar na quest\u00e3o concernente ao t\u00edtulo de cunho opinativo, permitam-me uma pausa para uma observa\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo dia 21 (ter\u00e7a-feira), na Livraria Nobel, quando do lan\u00e7amento da obra \u201cA Guerra das Coronelas S\u00e1 Louren\u00e7a e Isabelinha no Sert\u00e3o da Ressaca \u2013 Vit\u00f3ria da Conquista\u201d, do autor Jos\u00e9 Walter Pires, fiquei sem entender o porqu\u00ea da secret\u00e1ria da Cultura n\u00e3o ter sido convidada a fazer parte da mesa das celebridades. Foi uma gafe, ou foi coisa proposital, premeditada? Afinal de contas, ela estava ali presente prestigiando um evento da sua pasta, representando toda a cultura do munic\u00edpio. Eu s\u00f3 queria entender!<\/p>\n<p>Bem, voltando ao nosso tema provocativo e pol\u00eamico, a par de duas universidades, uma estadual e outra federal, de v\u00e1rias faculdades particulares de ensinos presenciais e \u00e0 dist\u00e2ncia, a cultura de Vit\u00f3ria da Conquista n\u00e3o tem um projeto consolidado de realiza\u00e7\u00f5es. Sem verbas pr\u00f3prias e uma diretriz tra\u00e7ada, vivemos de atividades pontuais soltas no espa\u00e7o. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que muita coisa acontece sem um calend\u00e1rio program\u00e1tico. O que foi realizado num ano pode deixar de ser no outro.<\/p>\n<p>O setor privado, ainda com sua mentalidade provinciana, dificilmente investe na cultura e no esporte porque acha que n\u00e3o compensa. Quando d\u00e1 alguma coisa faz como forma de ajuda, esquecendo que o doador tamb\u00e9m est\u00e1 sendo beneficiado com a divulga\u00e7\u00e3o da sua imagem perante o p\u00fablico. Isso acontece, por exemplo, com o futebol da cidade. Quando o time est\u00e1 vencendo aparece alguma ajuda, mas se perde, n\u00e3o tem apoio. O atleta sofre para conseguir um patroc\u00ednio e desenvolver seu trabalho.<\/p>\n<p>Com nosso complexo de superioridade (tem muita gente que n\u00e3o se considera nordestino) ainda nos alimentamos da fama de fora de que Vit\u00f3ria da Conquista \u00e9 uma cidade cultural de alto n\u00edvel, talvez por conta de um passado efervescente e por nomes como Elomar, Glauber Rocha, Camilo de Jesus Lima (Caetit\u00e9) e tantos outros, Com todas suas ambiguidades, arrog\u00e2ncias, pedantismos, pr\u00f3s e contras, cada um com seu grande valor art\u00edstico de reconhecimento nacional e internacional, ainda um dia vou me atrever a falar aqui dos tit\u00e3s da nossa cultura (Elomar e Glauber).<\/p>\n<p>Pela sua grandiosidade, Conquista poderia ter uma atividade cultural intensa, bem mais diversificada e rica, s\u00f3 deixando a dever com a da capital. N\u00e3o \u00e9 isso que temos. N\u00e3o por falta de talentos, mas pela aus\u00eancia de um plano piloto que contemple a todos, sem as amarras e sem precisar do am\u00e9m dos donos da cultura.<\/p>\n<p><!--more--> Com todo esse potencial, maior parte inativa e refugiada em seu canto produtivo, n\u00e3o d\u00e1 para compreender e aceitar como um Centro de Cultura fica fechado durante quatro anos por causa de uma obra de reforma sob a responsabilidade do Governo do Estado. N\u00e3o \u00e9 a cara da acomoda\u00e7\u00e3o da classe art\u00edstica local? Cad\u00ea o n\u00edvel cultural? As express\u00f5es, as linguagens est\u00e3o esfaceladas?<\/p>\n<p>A nossa cultura est\u00e1 ac\u00e9fala, ou o maior mal \u00e9 o individualismo de cada categoria que se fecha em seu casulo? Ficamos com medo, subjugados e esperando pela rea\u00e7\u00e3o dos donos? O certo \u00e9 que a cultura n\u00e3o pode se resumir em pontuais eventos festivos, e nem um ponto importante das manifesta\u00e7\u00f5es populares e acad\u00eamicas ficar de portas fechadas por quatro anos. \u00c9 um total absurdo e falta de press\u00e3o das lideran\u00e7as pol\u00edticas da comunidade!<\/p>\n<p>Aqui, no nosso caso particular, cada segmento das artes (m\u00fasica, literatura, teatro, artes pl\u00e1sticas e outras express\u00f5es) se fecha em sua panelinha individual, ao inv\u00e9s de todos se juntarem em defesa de uma causa maior. Cada um tem em mente sua pr\u00f3pria preocupa\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia e procura armar sua teia de cr\u00edticas com fins destrutivos.<\/p>\n<p>Glauber Rocha, com todos seus defeitos, glorificou o nome de Conquista no passado. Elomar vive no seu universo superior com seus concertos elitizados para poucos, bem longe das agruras dos simples mortais criadores art\u00edsticos dependentes do parecer dos donos da cultura. Sem uma provoca\u00e7\u00e3o conjunta de todos n\u00f3s, o setor s\u00f3 padece.<\/p>\n<p>Como dizia o cancioneiro baiano Raul Seixas, que rasgava o tecido da alma com suas verdades, \u201cO sonho que se sonha junto, torna-se realidade\u201d. N\u00e3o podemos ser como aquele filho med\u00edocre que vive \u00e0 custa do sucesso do pai. O poder p\u00fablico e seus representantes t\u00eam que estar abertos \u00e0 cr\u00edtica, com humildade, para combater o individualismo e a arrog\u00e2ncia, dando a Conquista o seu merecido lugar de cidade cultural que foi no passado na pol\u00edtica e na vida social.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 mirarmos as d\u00e9cadas de 50 e 60 quando Conquista era vista como um centro de ideias revolucion\u00e1rias que irradiavam para todo resto da Bahia e do Brasil! Tanto isso foi verdade que os generais militares do golpe de 1964 mandaram para c\u00e1 suas tropas a fim de reprimir e prender as cabe\u00e7as que iam de encontro \u00e0s for\u00e7as reacion\u00e1rias. Naquela \u00e9poca, Conquista deu um basta aos coron\u00e9is do poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A princ\u00edpio, j\u00e1 sei, antecipadamente, que n\u00e3o serei apenas criticado, mesmo porque discordar faz parte da natureza humana e do debate democr\u00e1tico aberto a todos. Entretanto, muitos ir\u00e3o soltar improp\u00e9rios e flechas venenosas com conota\u00e7\u00f5es depreciativas contra minha pessoa, do tipo rancoroso, imbecil, provocador e frustrado. 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