{"id":2460,"date":"2017-10-20T23:02:30","date_gmt":"2017-10-21T02:02:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2460"},"modified":"2017-10-20T23:02:39","modified_gmt":"2017-10-21T02:02:39","slug":"a-revolucao-que-sacudiu-o-mundo-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/10\/20\/a-revolucao-que-sacudiu-o-mundo-ii\/","title":{"rendered":"A REVOLU\u00c7\u00c3O QUE SACUDIU O MUNDO (II)"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c0S PORTAS DA REVOLU\u00c7\u00c3O<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Com trapalhadas e tudo, vandalismos e vexames, sob o comando de L\u00eanin, Stalin e Trotski, na madrugada de 26 de outubro de 1917, os revolucion\u00e1rios bolcheviques deram o golpe final e fatal no reinado do tzar Nicolau II, iniciando outra feroz ditadura.<\/p>\n<p>A sucess\u00e3o de erros do antigo regime na guerra e o agravamento da crise facilitou a a\u00e7\u00e3o intensa dos movimentos sociais, no per\u00edodo de 23 a 27 de fevereiro de 1917, em Petrogrado, derrubando uma autocracia de trezentos anos. Segundo os historiadores, foi uma revolu\u00e7\u00e3o anunciada, mas inesperada. \u201cUma revolu\u00e7\u00e3o an\u00f4nima, sem l\u00edderes ou partidos dirigentes,\u201d assim classificou o professor e pesquisador Daniel Reis Filho.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4084.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2461\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4084.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4084.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4084-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Como descreve Simon Sebag Montefiore, em seu livro \u201cO Jovem St\u00e1lin\u201d, o tiroteio, os tumultos e a alegria da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro\u201d mudaram completamente o clima da capital. Carros blindados percorreram as ruas tocando buzinas, cheios de trabalhadores; garotas com pouca roupa e soldados acenavam suas bandeiras empunhando armas. Gr\u00e1ficas produziram jornais que representavam todas as opini\u00f5es pol\u00edticas. Panfletos descreveram a ninfomania l\u00e9sbica e l\u00fabrica da imperatriz derrubada e suas orgias com Rasputin.<\/p>\n<p>O tzar abdicou em dois de mar\u00e7o, dando in\u00edcio ao fim dos Romanov. Criou-se um v\u00e1cuo no poder, preenchido pela \u201cDuma\u201d com um governo provis\u00f3rio, encabe\u00e7ado pelo pr\u00edncipe Lvov. Formou-se, ent\u00e3o, uma frente moderada-liberal (Kerenski) com cores capitalistas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4088.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2462\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4088.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4088.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4088-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi decretada anistia geral aos presos e exilados, reconhecendo-se a liberdade de express\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a quest\u00e3o primordial para L\u00eanin era salvar a revolu\u00e7\u00e3o. O governo provis\u00f3rio continuava insens\u00edvel, intransigente e agarrado ao conservadorismo pol\u00edtico. Pouco se avan\u00e7ou. A agonia persistia com os conflitos. Esperava-se o fim da guerra.<\/p>\n<p>Da Su\u00ed\u00e7a, L\u00eanin atacava o governo provis\u00f3rio e exigia paz com a Alemanha. Em Petrogrado, St\u00e1lin e Kamenev se aproximavam da direita e tentavam uma concilia\u00e7\u00e3o, para atrair os mencheviques radicais. Do ex\u00edlio, L\u00eanin come\u00e7ou a escrever cartas para corrigir os erros dos camaradas.<\/p>\n<p>Incomodado com a situa\u00e7\u00e3o, L\u00eanin descobriu uma maneira de retornar. Com sua mulher Kr\u00fapskaia e seu companheiro Zinoviev, o l\u00edder embarcou num trem, se fingindo de surdo-mudo sueco. Atrav\u00e9s de suas arma\u00e7\u00f5es, dominou o trem; aprovou a proibi\u00e7\u00e3o de fumar; ditou as regras; e, em tr\u00eas de abril, parou com seu camarada e a mulher na esta\u00e7\u00e3o Beloostrov, na fronteira russo-filandesa. Ainda no vag\u00e3o da terceira classe, deu uma bronca em Kamenev: \u201cQue diabo voc\u00ea anda escrevendo\u201d? St\u00e1lin procurou disfar\u00e7ar e recebeu o camarada, que naquela \u00e9poca tinha 46 anos e estava irado e violento, como assinala o escritor Simon Sebag.<\/p>\n<p><!--more-->Em sua descida na esta\u00e7\u00e3o, o misterioso L\u00eanin encontrou o povo fazendo sua festa revolucion\u00e1ria, e uma banda tocou \u201cA Marselhesa\u201d. Uma multid\u00e3o acenava bandeiras vermelhas e uma falange bolchevique escoltou L\u00eanin em um carro blindado, de onde discursou dizendo que o governo provis\u00f3rio estava enganando o povo da R\u00fassia. Os bolcheviques deveriam derrubar o governo e passar o poder para os sovietes \u2013 gritou emocionado.<\/p>\n<p>Sobre aquele momento, o escritor Sebag anotou que o povo ansiava por paz e terra, enquanto o governo insistia em lutar contra a Alemanha, como queria o tzar. L\u00eanin percebia que era chegada a hora de dar o golpe final.<\/p>\n<p>Ainda em abril, surgiu a primeira crise pol\u00edtica, quando o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores disse que a R\u00fassia revolucion\u00e1ria mantinha os objetivos da guerra do regime tzarista. Os bolcheviques se apressaram e fizeram uma confer\u00eancia apoiando a tese de L\u00eanin: \u201cTodo Poder aos Sovietes,\u201d que n\u00e3o mais confiavam no governo provis\u00f3rio e queriam o poder em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de maio, de acordo com os historiadores, Trotski chega da Am\u00e9rica (EUA) e logo com seu carisma nos discursos inflamados cativou toda Petrogrado. Ele se sentiu embriagado com sua popularidade, e L\u00eanin reconheceu suas virtudes. Foi convidado para se unir aos bolcheviques, mas L\u00eanin ficou de olho na sua ambi\u00e7\u00e3o. St\u00e1lin se ressentiu, mas percebeu ser mais valioso atr\u00e1s das cenas, o que ele mais sabia fazer desde jovem.<\/p>\n<p>Em junho de 1917 foram realizados v\u00e1rios congressos entre camponeses, oper\u00e1rios e soldados. Os mencheviques n\u00e3o aceitavam entregar o governo e tamb\u00e9m se movimentavam, mas estavam enfraquecidos diante da popula\u00e7\u00e3o. O clima pol\u00edtico esquentava.<\/p>\n<p>Em julho, marinheiros da base naval de Kronstadt e oper\u00e1rios revoltaram-se e mataram 120 oficiais. Depois da trag\u00e9dia, exigiram de L\u00eanin a ordem para marchar e tomar a capital da R\u00fassia, que n\u00e3o estava bem na guerra. Como n\u00e3o obtiveram respostas, procuraram St\u00e1lin que apenas disse: Voc\u00eas camaradas \u00e9 que sabem, dando sinais de encorajamento para o golpe. Como depois reconheceu Trotski, St\u00e1lin era um dos organizadores da revolta. Depois de muitas marchas, com a participa\u00e7\u00e3o dos sovietes, o governo foi refor\u00e7ado. Kerensky, que era ministro da Guerra, passou a ser chefe da na\u00e7\u00e3o e culpou os bolcheviques por conspira\u00e7\u00e3o de Golpe de Estado.<\/p>\n<p>Kerensky saiu fortalecido e com popularidade. Para piorar, o ministro da Justi\u00e7a publicou uma denuncia de que L\u00eanin tivera apoio financeiro da Alemanha, que estava em guerra contra a R\u00fassia. Da fortaleza \u201cPedro e Paulo\u201d, St\u00e1lin tentou negociar a rendi\u00e7\u00e3o. A opini\u00e3o p\u00fablica virou-se contra os bolcheviques, e o governo mandou prender L\u00eanin.<\/p>\n<p>Sob a prote\u00e7\u00e3o de St\u00e1lin, o velho l\u00edder se escondeu e voltou para a clandestinidade. Em tr\u00eas dias mudou de endere\u00e7o cinco vezes, at\u00e9 ficar em um apartamento. Trotski e Kamenev foram presos, mas o governo queria mesmo era L\u00eanin. Os camaradas divergiam entre o chefe se entregar ou fugir. O receio de St\u00e1lin era que L\u00eanin seria morto se se entregasse.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>FRACASSO E FUGA<\/strong><\/p>\n<p>O l\u00edder tinha que ser retirado \u00e0s pressas de Petrogrado. Ent\u00e3o, L\u00eanin resolveu tirar a barba e o bigode. No quarto, ao lado do retrato de Tolstoi, aconteceu uma cena memor\u00e1vel e hist\u00f3rica. O camarada St\u00e1lin, que tamb\u00e9m tinha o apelido de \u201cSoss\u00f3\u201d, desde menino em G\u00f3ri, na Ge\u00f3rgia, se preparou e fez a barba de L\u00eanin, que foi escondido num celeiro, na Finl\u00e2ndia. Enquanto isso, St\u00e1lin fez v\u00e1rios artigos fulminando Kerenski que prometeu afogar os revolucion\u00e1rios como moscas no leite.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o piorava e os conflitos se sucediam. Como alternativa, o novo governo convocou uma confer\u00eancia de Estado, em Moscou, longe da turbul\u00eancia de Petrogrado. Os sovietes s\u00f3 tinham 429 deputados dos 2.500 representantes do povo. Kamenev e Trotski estavam presos. L\u00eanin era denunciado como agente que ajudava os alem\u00e3es e teve que sumir. Mesmo assim, em fins de julho, o partido realizou o VI Congresso na clandestinidade.<\/p>\n<p>Nessa confus\u00e3o toda, foi projetada a figura do general Kornilov que, achando ter chegada sua hora, desfechou um golpe militar para acabar de vez com os revolucion\u00e1rios, mas n\u00e3o contou com o apoio de Kerensky. Os sovietes e suas organiza\u00e7\u00f5es enfrentaram o general, que terminou sendo preso. Todos esses conflitos combinavam com os movimentos de ocupa\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n<p>Kerensky corria contra o tempo. Marcou uma confer\u00eancia; proclamou a Rep\u00fablica; e convocou nova Assembleia Constituinte. Em fins de agosto, em Kiev, na Ucr\u00e2nia, delegados de treze na\u00e7\u00f5es apelaram para as assembleias constituintes soberanas. A sociedade vivia em plena degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de tudo isso, L\u00eanin, mesmo de fora, comandava e agitava suas for\u00e7as. A bolcheviza\u00e7\u00e3o dos sovietes em Petrogrado e Moscou dava ao partido uma situa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel. A insurrei\u00e7\u00e3o precisava ser preparada e desencadeada antes do II Congresso Sovi\u00e9tico, marcado para 25 de outubro. Era a proposta de L\u00eanin, mas Zinoviev e K\u00e1menev n\u00e3o concordavam. Por sua vez, um jornal bolchevique se encarregava de agitar mais ainda os soldados.<\/p>\n<p>Estava chegando a hora e uma espera a mais seria fatal, como alertou o inquieto e desesperado L\u00eanin em sua carta de 15 de setembro: \u201cA hist\u00f3ria n\u00e3o nos perdoar\u00e1 se n\u00e3o assumirmos o poder agora\u201d. L\u00eanin queria pressa para n\u00e3o perder o bonde. Estava faminto por um desfecho.<\/p>\n<p>St\u00e1lin e Trotski apoiaram o l\u00edder, que chamou K\u00e1menev e Zin\u00f3viev de traidores miser\u00e1veis. Era a chamada luta interna que rachava o grupo. Apesar de tudo, no dia 25 de setembro, os bolcheviques assumiram o controle dos sovietes, e Trotski ficou no comando das for\u00e7as militares. Nesse tempo, L\u00eanin conseguiu voltar da Finl\u00e2ndia e se esconder num confort\u00e1vel apartamento, de onde agitava com suas mensagens de guerra. \u201cMelhor morrer como homem do que deixar o inimigo passar\u201d \u2013 bradava o l\u00edder, que destilava toda sua raiva contra o governo.<\/p>\n<p>A HORA DO DUELO DE MORTE<\/p>\n<p>Petrogrado era uma cidade desgovernada, tomada pelos prazeres e viol\u00eancia. O n\u00famero de assaltos aumentava. As prostitutas e a marginalidade invadiam o centro. A escassez de alimentos piorava e as filas cresciam, mas os ricos continuavam frequentando restaurantes elegantes. Um escritor chegou a dizer que a R\u00fassia vivia como se estivesse numa plataforma de trem, esperando o apito do guarda. Trotski dizia que o tempo das palavras havia passado. Para ele, chegava a hora do duelo de morte entre a revolu\u00e7\u00e3o e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o.Disfar\u00e7ados num apartamento, os onze altos bolcheviques (O Grupo dos\u00a0Onze) se reuniram no dia 10 de outubro. L\u00eanin argumentou que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava madura e preparada para a mudan\u00e7a de poder. Alguns ainda discordavam, mas foram convencidos, fora Zin\u00f3viev e K\u00e1menev, que temiam o destino da Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>Em 16 de outubro houve uma nova reuni\u00e3o secreta, e L\u00eanin, disfar\u00e7ado com uma peruca, reprovou duramente os hesitantes. Estava visivelmente irritado e transtornado. Das suas palavras pareciam sair labaredas de fogo. L\u00eanin ganhou a parada. Os dois contr\u00e1rios seriam castigados depois. Petrogrado vivia a amea\u00e7a do avan\u00e7o dos alem\u00e3es. St\u00e1lin e Trotski que pediam a expuls\u00e3o dos \u201cfura-greves\u201d n\u00e3o se entendiam.<\/p>\n<p>No dia 21 de outubro, o Comit\u00ea Militar Revolucion\u00e1rio declarou ser a autoridade sobre a guarni\u00e7\u00e3o de Petrogrado. St\u00e1lin cuidou de organizar a pauta para o II Congresso dos Sovietes. No dia 23, o Comit\u00ea assumiu o comando da fortaleza \u201cPedro e Paulo\u201d, e St\u00e1lin escrevia no jornal: \u201cO governo atual de latifundi\u00e1rios e capitalistas deve ser substitu\u00eddo por um governo de oper\u00e1rios e camponeses\u201d.<\/p>\n<p>O governo de Kerenski, sem for\u00e7as, ainda tentou reagir invadindo a gr\u00e1fica dos jornais dos revolucion\u00e1rios que, com muito esfor\u00e7o, conseguiu circular os impressos, e St\u00e1lin recuperou o parque. Na reuni\u00e3o em que as tarefas foram distribu\u00eddas para tomar o poder, St\u00e1lin n\u00e3o pode comparecer.<\/p>\n<p>Disseram que ele havia perdido a Revolu\u00e7\u00e3o, mas chegou a tempo. L\u00eanin continuava gritando que n\u00e3o podia mais esperar. Os Guardas Vermelhos estavam a caminho e a sorte estava lan\u00e7ada. Mesmo no corre-corre, St\u00e1lin sempre mantinha L\u00eanin informado sobre tudo o que acontecia.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi sem motivo que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa se tornaria tempos depois, em um dos eventos mais emblem\u00e1ticos da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX, transformada em mito e romantizado em \u201cOs Dez Dias que Abalaram o Mundo\u201d, de John Reed, como escreveu Simon Sebag.<\/p>\n<p>Na noite de 24 para 25, L\u00eanin p\u00f4s uma peruca, um bon\u00e9 de oper\u00e1rio, uma atadura no rosto e, de \u00f3culos escuros, partiu noite afora com seu seguran\u00e7a Rakhia. Perto do Quartel General dos Bolcheviques, no Sm\u00f3lni, chegou a ser barrado, mas depois foi liberado. Os guardas acharam que aquele homem era mais um b\u00eabado perturbador.<\/p>\n<p>Os pontos estrat\u00e9gicos da cidade foram ocupados no dia 24 de outubro pelas for\u00e7as militares dos sovietes. Na manh\u00e3 do dia 25 L\u00eanin come\u00e7ava a redigir os decretos fundamentais sobre \u201cTerra e Paz\u201d. O comando ficou em sess\u00e3o permanente; mensagens chegavam sem parar; e o Comit\u00ea Militar emitia ordens. Estava chegando a hora da tomada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, a usina de eletricidade e a sede dos Correios, na Esta\u00e7\u00e3o Nicolau, foram conquistadas. Conseguiram dominar todas as pontes, menos a Nicolau, ao lado do Pal\u00e1cio do Inverno. No entanto, outros pontos estrat\u00e9gicos foram rendidos. Apesar de tudo, o governo continuou a funcionar, mesmo precariamente. Kerenski resolveu sair da cidade num carro da Embaixada Americana para procurar refor\u00e7os.<\/p>\n<p>Quatrocentos cadetes militares adolescentes guardavam o Pal\u00e1cio de Inverno, al\u00e9m de um Batalh\u00e3o de Choque Feminino e esquadr\u00f5es de cossacos. Tudo tinha um ar c\u00f4mico naquele palco da Revolu\u00e7\u00e3o, como descreveu a americana Louise Bryant, uma dos muitos jornalistas que estavam l\u00e1 naquele dia. Do lado de fora, os bolcheviques continuavam reunindo suas for\u00e7as, mas sem organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio de Inverno ainda se mantinha firme. Nas discuss\u00f5es paralelas sobre a forma organizacional do novo governo, L\u00eanin indicou o nome de Trotski para primeiro-ministro. Era judeu e n\u00e3o podia assumir o posto. Trotski recusou e insistiu que deveria ser L\u00eanin, que prop\u00f4s St\u00e1lin para o cargo de Comissariado do Povo para as Nacionalidades. Quanto ao Pal\u00e1cio de Inverno que ainda resistia, Trotski e o CMR (Conselho Militar Revolucion\u00e1rio) ordenaram o bombardeio, mas descobriram que s\u00f3 havia seis canh\u00f5es dispon\u00edveis. Os oficiais disseram que estavam quebrados, mas precisavam apenas ser limpos.<\/p>\n<p>Ao entardecer do dia 25, L\u00eanin se mostrava agitado e ansioso para ir \u00e0 luta. Sua \u00e2nsia era acabar de uma vez com o governo de Kerenski. \u00c0s 18 horas, os cadetes militares, os cossacos e as mulheres do Batalh\u00e3o de Choque deixaram seus postos no Pal\u00e1cio para procurar comida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0S PORTAS DA REVOLU\u00c7\u00c3O\u00a0 Com trapalhadas e tudo, vandalismos e vexames, sob o comando de L\u00eanin, Stalin e Trotski, na madrugada de 26 de outubro de 1917, os revolucion\u00e1rios bolcheviques deram o golpe final e fatal no reinado do tzar Nicolau II, iniciando outra feroz ditadura. 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