{"id":2453,"date":"2017-10-18T09:32:25","date_gmt":"2017-10-18T12:32:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2453"},"modified":"2017-10-18T09:32:46","modified_gmt":"2017-10-18T12:32:46","slug":"a-revolucao-que-sacudiu-o-mundo-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/10\/18\/a-revolucao-que-sacudiu-o-mundo-i\/","title":{"rendered":"A REVOLU\u00c7\u00c3O QUE SACUDIU O MUNDO (I)"},"content":{"rendered":"<p>Pelos conceitos filos\u00f3ficos materialistas de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) jamais o socialismo pregado por eles seria introduzido num pa\u00eds t\u00e3o agr\u00e1rio e atrasado como na R\u00fassia tzarista, sem o n\u00edvel de consci\u00eancia pol\u00edtica e luta de classe como j\u00e1 existia em algumas na\u00e7\u00f5es da Europa Ocidental como Alemanha, Inglaterra e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Contrariando as teorias desses estudiosos, h\u00e1 cem anos (17 de outubro de 1917) estourou na R\u00fassia uma revolu\u00e7\u00e3o que sacudiu o mundo em plena I Guerra Mundial, influenciando depois outras revolu\u00e7\u00f5es com as mesma pegadas ideol\u00f3gicas na China (1949) e em Cuba, na Am\u00e9rica Latina, em 1959.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4082.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2454\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4082.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4082.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4082-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No Dia Internacional da Mulher de 1917, 23 de fevereiro no calend\u00e1rio juliano, a greve mais importante da hist\u00f3ria mundial come\u00e7ou com mulheres do setor t\u00eaxtil em Petrogrado, conforme escreveu o historiador norte-americano Kevin Murphy, professor da Universidade de Massachusetts. As greves logo se generalizaram pelas cidades.<\/p>\n<p>Enquanto os maridos lutavam no front da guerra, as mulheres trabalhavam 13 horas por dia num frio abaixo de zero grau em condi\u00e7\u00f5es subumanas, tudo isso num regime brutal do tzarista que perdurava por s\u00e9culos. Antes disso, os trabalhadores j\u00e1 tinham dado um grande exemplo ao mundo de auto-organiza\u00e7\u00e3o e poder, atrav\u00e9s dos sovietes, nos movimentos de 1905.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4083.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2455\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4083.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4083.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4083-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Diante de uma crise econ\u00f4mica e social profunda o regime tzarista n\u00e3o resistiu em 1917. Nicolau II foi obrigado a ceder, dando lugar a um governo constitu\u00eddo por socialistas revolucion\u00e1rios, cadetes e mencheviques que eram minoria.<\/p>\n<p>De longe do seu ex\u00edlio na Su\u00ed\u00e7a, Vladimir Ilitch Lenin escrevia suas cartas em tom de manifesto dando suas impress\u00f5es sobre os movimentos na R\u00fassia e distribu\u00eda tarefas aos camaradas bolcheviques na luta de tomada do poder. No auge das greves tomou um trem blindado com destino \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o da Finl\u00e2ndia e de l\u00e1 para Petrogrado.<\/p>\n<p><strong>AS LUTAS REVOLUCION\u00c1RIAS<\/strong><\/p>\n<p>A R\u00fassia come\u00e7ou a se agigantar a partir do s\u00e9culo XVII com a dinastia dos Ramanov. Fortaleceu-se com Pedro, o Grande, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII. No seu trabalho \u201cAs Revolu\u00e7\u00f5es Russas e o Socialismo Sovi\u00e9tico\u201d, o professor e pesquisador Daniel Aar\u00e3o Reis Filho descreveu sobre o imp\u00e9rio tzarista no final do s\u00e9culo XIX quando era o maior Estado do mundo em tamanho (pot\u00eancia imperial), com popula\u00e7\u00e3o estimada de 132 milh\u00f5es de habitantes (85% agr\u00e1ria vivendo em estado de mis\u00e9ria). Seu imp\u00e9rio chegava at\u00e9 ao Alaska, hoje dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Toda burocracia de 500 mil funcion\u00e1rios era exercida pela pol\u00edcia pol\u00edtica, criada no reino de Nicolau I, entre 1825 &#8211; 1855, considerado respons\u00e1vel por todo atraso e repress\u00e3o na R\u00fassia. Mesmo no per\u00edodo imperial, onde predominava a tirania, a R\u00fassia atravessou v\u00e1rias revoltas encabe\u00e7adas pelos jovens estudantes e camponeses, que exigiam reformas.<\/p>\n<p><!--more-->Por volta de 1865 a 1890, mudan\u00e7as pol\u00edticas e sociais abriram novos horizontes por onde transitaram diferentes lideran\u00e7as. Nesse per\u00edodo, segundo o estudioso, houve uma explos\u00e3o demogr\u00e1fica em torno de 156%. De 1890 a 1913 mais 145%. O salto foi de 75 milh\u00f5es para 171 milh\u00f5es. Foi tamb\u00e9m uma \u00e9poca de grande crescimento econ\u00f4mico, ajudado pelos investimentos da Fran\u00e7a, B\u00e9lgica, Inglaterra e Alemanha.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, S\u00e3o Petesburgo j\u00e1 tinha mais de um milh\u00e3o de habitantes.\u00a0 Moscou seguia o mesmo ritmo, com 1,0 milh\u00e3o. Moravam na Pol\u00f4nia russa, Vars\u00f3via, 640 mil almas e 400 mil, em Odessa, na Ucr\u00e2nia. Pequenas cidades surgiam do nada, com 50 a 100 mil pessoas. Nos centros urbanos, a classe oper\u00e1ria experimentou um significativo crescimento, passando de 1,5 milh\u00f5es para 2,4 milh\u00f5es entre 1890 a 1900. Cerca de 12 milh\u00f5es passou a viver em torno dos setores industriais.<\/p>\n<p>Mesmo assim, as caracter\u00edsticas das cidades eram agr\u00e1rias, com o povo vivendo em estado prec\u00e1rio. Apesar do com\u00e9rcio de alimentos para outras na\u00e7\u00f5es, devido ao avan\u00e7o efetuado com grandes culturas de exporta\u00e7\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o russa passava fome.<\/p>\n<p>Como dizia o revolucion\u00e1rio Trotski, era um desenvolvimento desigual e combinado. As fam\u00edlias ricas se confraternizavam nos bailes luxuosos e cintilantes de cristais. Na cultura, o pa\u00eds exibia o que tinha de melhor com A. Tchekhov, V. Maiakovski, L. Tolstoi, F. Dostoievski, entre outros. Progresso e atraso eram as duas faces que n\u00e3o combinavam. Sobre essa mistura contradit\u00f3ria, os mais letrados previam que a \u201calquimia\u201d poderia gerar explos\u00f5es imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX, por volta de 1879, como j\u00e1 se esperava, a corrente social-democr\u00e1tica se dividiu. Era o pren\u00fancio do que viria depois a se chamar de Bolcheviques e Mencheviques. Uma fac\u00e7\u00e3o de militantes, entre eles G. Plekhanov e P. Axelrod, passou a defender um trabalho, em longo prazo, de conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das comunidades. Essas cabe\u00e7as pensantes foram logo reprimidas e exiladas. Enquanto ficaram fora, come\u00e7aram a estudar as teorias de Marx e Engels. Nos anos 80 e 90 do s\u00e9culo XIX, foi Plekhanov quem mais encarnou a ortodoxia marxista na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Apesar das derrotas pol\u00edticas, esses grupos formados nas cidades e em centros rurais criaram, em 1902, o Partido Socialista Revolucion\u00e1rio, reunindo militantes hist\u00f3ricos que pregavam a cria\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte.<\/p>\n<p>Em 1904, um outro grupo oposto, mais da burguesia, criou o Partido Uni\u00e3o da Liberdade, tamb\u00e9m comprometido com a convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia, mas com cara populista. Seus membros eram chamados de filhos das reformas e dos surtos desenvolvimentistas. Chegaram at\u00e9 a se aproximar de Marx, em raz\u00e3o da sua dura cr\u00edtica ao capitalismo. Conforme aponta o professor da Unesp, Daniel Reis Filho, foi, inclusive, o populista Natanson que traduziu, pela primeira vez, o livro \u201cO Capital\u201d para a l\u00edngua russa.<\/p>\n<p>Apesar disso, eram os socialistas que encontravam mais eco na sociedade, em raz\u00e3o dos seus ideais comunit\u00e1rios e igualit\u00e1rios. Marx, por\u00e9m, n\u00e3o acreditava que uma R\u00fassia atrasada e agr\u00e1ria pudesse acolher o socialismo pregado por ele. Mas, na sua avalia\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, uma revolu\u00e7\u00e3o russa s\u00f3 seria poss\u00edvel com a vit\u00f3ria do proletariado internacional.<\/p>\n<p>Populistas e marxistas sempre demarcaram campos opostos dentro das teses revolucion\u00e1rias. Os primeiros viam os marxistas como uma vers\u00e3o ocidental arrogante, fantasiados de revolucion\u00e1rios. J\u00e1 os marxistas de Plekhanov chamavam os populistas de socialistas ut\u00f3picos, atrasados, anacr\u00f4nicos e reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os marxistas criaram o Grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho (Plekhanov), em alian\u00e7a com intelectuais de antigas lutas que j\u00e1 haviam experimentado ex\u00edlios e pris\u00f5es, como Vladimir Ilitch Ulianov, Martov e Potresov. Logo cedo, Vladimir Ulianov se destacou como lideran\u00e7a, passando mais tarde a ser conhecido como L\u00eanin.<\/p>\n<p>Por quest\u00e3o de seguran\u00e7a, devido a repress\u00e3o, um novo Congresso foi realizado em Bruxelas com 51 delegados, em 1903. Mesmo assim, em raz\u00e3o de problemas com a pol\u00edcia, o evento clandestino teve de ser encerrado em Londres. Naquele c\u00e9lebre Congresso, houve diverg\u00eancias de posi\u00e7\u00f5es entre L\u00eanin e Martov quanto \u00e0 filia\u00e7\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Venceu a ideia de Martov que prop\u00f4s a filia\u00e7\u00e3o de todos que concordassem com o programa pol\u00edtico. L\u00eanin, por sua vez, preferia uma organiza\u00e7\u00e3o de profissionais dispon\u00edveis para as tarefas revolucion\u00e1rias e devotados \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de enfrentamento da repress\u00e3o tzarista. Como sempre acontece nas esquerdas, os \u00e2nimos se acirraram e houve cis\u00f5es. Muitos se retiraram do Congresso. L\u00eanin ficou com 24 votos contra 19 de Martov. Depois do evento, ocorreram novos rachas, modificando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, com den\u00fancias de ambos os lados.<\/p>\n<p><strong>BOLCHEVIQUES E MENCHEVIQUES<\/strong><\/p>\n<p><strong>( Stalin &#8211; \u00a0ardiloso, gangster e violento)\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Assim nasceu a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, dividida entre seus correligion\u00e1rios. De um lado L\u00eanin e seu grupo decididos a romper as barreiras, que passariam \u00e0 hist\u00f3ria com o nome de Bolcheviques, ou Bol\u00b4chinstvo \u2013 maioria, embora nem sempre majorit\u00e1rios nos Congressos (eram mais organizados e pr\u00e1ticos).<\/p>\n<p>Do outro lado, os partid\u00e1rios de Martov ganharam a alcunha de Mencheviques, de Men\u00b4chinstvo (minoria) e eram mais moderados. Viveram sempre separados, brigando e se acusando. Rolavam trai\u00e7\u00f5es, armadilhas, espionagens e assassinatos. Mesmo com m\u00e9todos diferentes, todos lutavam para derrubar o tzarismo.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o fosse ainda destaque e conhecido nos movimentos pol\u00edticos, St\u00e1lin (I\u00f3ssif Vissari\u00f3novich Djugachv\u00edli), desde o in\u00edcio da primeira d\u00e9cada de 1900, j\u00e1 era um revolucion\u00e1rio independente no seu jeito bruto em sua terra G\u00f3ri, na Ge\u00f3rgia, praticando o que chamamos de luta armada atrav\u00e9s de assaltos a bancos e a\u00e7\u00f5es terroristas, para arrecadar fundos para o partido.<\/p>\n<p>Conheceu L\u00eanin pela primeira vez em Londres, no Congresso dos Bolcheviques, e ficou ao seu lado, embora com algumas discord\u00e2ncias. Apesar de ser um gangster, bagunceiro, pistoleiro, r\u00fastico e violento, a vida de St\u00e1lin foi uma lenda viva na R\u00fassia, antes e depois da Revolu\u00e7\u00e3o. Conseguiu sobreviver \u00e0s piores amea\u00e7as de morte. Fugiu de pris\u00f5es, inclusive dos confinamentos gelados da Sib\u00e9ria. Matava, impiedosamente, quem impedia o seu caminho. Era tido como o homem que fazia o trabalho sujo de L\u00eanin, inclusive contrariando normas do partido.<\/p>\n<p>Perseguido pela repress\u00e3o do tzar, St\u00e1lin se refugiou em muitas terras, matando e praticando, desde jovem (final do s\u00e9culo XIX), terr\u00edveis atrocidades contra seus inimigos. Foi preso por diversas vezes, inclusive na Sib\u00e9ria, mas sempre conseguia se escapar e voltar para continuar seu trabalho. Esteve presente em todas as revolu\u00e7\u00f5es russas, especialmente a de Outubro de 1917.<\/p>\n<p>Ardiloso e traidor, n\u00e3o tinha escr\u00fapulos em fazer o jogo sujo e criminoso, como na morte do seu companheiro L\u00eanin, em 1924, quando esmagou seus inimigos e correligion\u00e1rios, para galgar o poder. Ocupou o cargo maior na R\u00fassia com tirania e m\u00e3o-de- ferro, usando sempre a elimina\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria contra quem passasse sua frente.<\/p>\n<p>A GRANDE REVOLU\u00c7\u00c3O DE 1905<\/p>\n<p>A guerra da R\u00fassia contra o Jap\u00e3o, em 1904, foi um desastre, piorando a situa\u00e7\u00e3o interna do imp\u00e9rio e abrindo campo para os revolucion\u00e1rios. A sa\u00edda foi o tzar dar concess\u00f5es aos movimentos sociais e assinar um acordo de paz. Pela primeira vez, permitia-se alguma liberdade de express\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e a convoca\u00e7\u00e3o de uma assembleia (a Duma).<\/p>\n<p>Na verdade, tudo n\u00e3o passou de uma engana\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do tzar para ganhar tempo. Os sovietes, ent\u00e3o, se reuniram; convocaram os trabalhadores, e foram ao confronto, em 1905. Nos embates, foram massacrados e presos. O poder foi mais forte, e s\u00f3 em Moscou mil pessoas foram barbaramente mortas. A trag\u00e9dia n\u00e3o intimidou as revoltas.<\/p>\n<p>At\u00e9 1905, n\u00e3o havia liberdade de manifesta\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, mas, mesmo assim, existiam for\u00e7as sociais e pol\u00edticas se deslocando de seus esconderijos internos e externos para v\u00e1rios lugares na calada das noites geladas. As conspira\u00e7\u00f5es n\u00e3o paravam. L\u00eanin era incans\u00e1vel.<\/p>\n<p>A primeira grande Revolu\u00e7\u00e3o Russa se deu em 1905, mas as divis\u00f5es entre os grupos sociais de diversas correntes impediram sua consolida\u00e7\u00e3o. Apesar da derrota, v\u00e1rias reformas pol\u00edticas e sociais foram conquistadas pelo movimento. De acordo com os historiadores, a Revolu\u00e7\u00e3o de 1905 foi o pr\u00f3logo da de 1917.<\/p>\n<p>Conforme consta, a de 1905 come\u00e7ou num domingo de inverno de 9 de janeiro. Num grande manifesto, o povo pediu justi\u00e7a e mudan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es trabalhistas, como jornada de trabalho (oito horas), sal\u00e1rio m\u00ednimo, elei\u00e7\u00f5es, assembleia, liberdades pol\u00edticas e sindicais, entre outras reivindica\u00e7\u00f5es. De forma brutal, a tropa do tzar disparou contra a popula\u00e7\u00e3o em protesto, fazendo dezenas de mortes.<\/p>\n<p>Depois dessa turbul\u00eancia, as lideran\u00e7as se organizaram em conselhos, que passaram a ser denominados de sovietes, conseguindo enorme sucesso. Esses conselhos se transformaram num poder paralelo, reunindo camadas m\u00e9dias e liberais que pediram uma Assembleia Constituinte. Nos campos, tamb\u00e9m houve convuls\u00f5es sociais e invas\u00f5es de terras, criando-se, em maio, a Uni\u00e3o Pan-Russa de Camponeses. Soldados se rebelaram em um motim. Mesmo assim, o Antigo Regime continuava agarrado aos seus privil\u00e9gios e \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es absolutistas.<\/p>\n<p>O tzar imp\u00f4s limites \u00e0 Assembleia, com direitos de dissolv\u00ea-la quando entendesse. Os deputados representantes da Duma foram eleitos pelo voto indireto. Na primeira Duma, o Parlamento foi dissolvido, e a segunda teve pouca dura\u00e7\u00e3o. A terceira se apresentou com ampla maioria de conservadores e durou de 1907 a 1912. A quarta Duma iniciou \u00e0s v\u00e9speras da Primeira Guerra e se estendeu at\u00e9 1917.<\/p>\n<p>Os conflitos se acentuaram e, com isso, chegou a haver uma reunifica\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias (bolchevique e menchevique) no IV Congresso de Estocolmo (1906), mas a uni\u00e3o durou pouco tempo. A repress\u00e3o pol\u00edtica aos movimentos sociais era brutal, culminando com o massacre dos mineiros do rio Lena, em 1912, com duzentas mortes.<\/p>\n<p>Para complicar a situa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 era conturbada, existia ainda a luta interna entre as diferentes correntes de pensamento, como entre Trotski, L\u00eanin e Rosa Luxemburgo. Trotski dava \u00eanfase ao papel do proletariado industrial, enquanto L\u00eanin destacava a import\u00e2ncia do campesinato na estrutura\u00e7\u00e3o da ditadura revolucion\u00e1ria. Do outro lado, Rosa Luxemburgo acusava L\u00eanin de desvios nacionalistas.<\/p>\n<p>A entrada da R\u00fassia na Primeira Guerra Mundial pareceu a L\u00eanin ser um presente do tzar, mas no in\u00edcio percebeu que estava errado. O pa\u00eds foi arrebatado pela f\u00faria da defesa da p\u00e1tria e n\u00e3o era isso que queriam os revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Entretanto, entre 1915\/16, a R\u00fassia entrou em profunda crise de abastecimento de alimentos e infla\u00e7\u00e3o alta, reativando os movimentos grevistas, sem contar as den\u00fancias de descalabros contra a fam\u00edlia imperial, associada \u00e0 figura de Rasputin.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelos conceitos filos\u00f3ficos materialistas de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) jamais o socialismo pregado por eles seria introduzido num pa\u00eds t\u00e3o agr\u00e1rio e atrasado como na R\u00fassia tzarista, sem o n\u00edvel de consci\u00eancia pol\u00edtica e luta de classe como j\u00e1 existia em algumas na\u00e7\u00f5es da Europa Ocidental como Alemanha, Inglaterra e Fran\u00e7a. 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