{"id":2305,"date":"2017-07-29T00:30:34","date_gmt":"2017-07-29T03:30:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2305"},"modified":"2017-07-29T01:02:17","modified_gmt":"2017-07-29T04:02:17","slug":"a-roda-da-insensatez-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/07\/29\/a-roda-da-insensatez-humana\/","title":{"rendered":"A RODA DA INSENSATEZ HUMANA"},"content":{"rendered":"<p>O homem para se evoluir precisa resgatar a harmonia do passado para recuperar seu sentido de viver. As tecnologias de hoje nos agridem, emba\u00e7am nossas vistas, nos iludem com o m\u00e1gico falso, com deuses de ouro e com o mito de que somos uma ra\u00e7a superior e civilizada.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo patativa de arquitetura e engenharia, mas nossas cidades, cheias de edif\u00edcios, viadutos por todos os lados, arranha-c\u00e9us, asfaltos escaldantes, concretagens, carros buzinando e soltando g\u00e1s carb\u00f4nico de suas descargas, s\u00e3o feias e desumanas. N\u00e3o inspiram poesia, felicidade e paz de esp\u00edrito. Evaporam estresse e s\u00e3o sufocantes.<\/p>\n<p>Somos imbecis de n\u00f3s mesmos e cretinos que pensam que somos evolu\u00eddos porque algum \u201cpensador\u201d disse isso em alguma aula ou palestra. Na insensatez do inconsciente, nos achamos inteligentes porque sabemos citar alguns fil\u00f3sofos gregos, tiranos e c\u00e9sares imperadores.<\/p>\n<p>Vivemos num mundo e num Brasil esbaga\u00e7ado, com \u201cl\u00edderes\u201d da pior esp\u00e9cie que est\u00e3o roubando o fio da esperan\u00e7a que nos ligaria a um humanismo mais real, justo e igualit\u00e1rio. Como no tempo dos Sel\u00eaucidas de Ant\u00edaco IV, em Jud\u00e1 e Israel (168 anos A.C.) est\u00e3o cortando nossas liberdades e \u00a0nos impondo severos castigos.<\/p>\n<p>Dentro do nosso consciente inconsciente, entendemos que somos livres s\u00f3 porque podemos xing\u00e1-los e avacalh\u00e1-los depois de umas cervejas na mesa de um bar. Ap\u00f3s o porre, sa\u00edmos todos felizes por, aparentemente, termos dados nosso recado ret\u00f3rico e esbo\u00e7ado rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada um em seu quadrado arrota, esbanja e disputa sabedoria. Depois se recolhe ao insignificante de sempre \u00e0 sociedade dominadora que endeusa o consumismo e aniquila o ser. Tudo fazemos para sermos integrantes comportados desse sistema perverso, colocando nossos esp\u00edritos a servi\u00e7o do diabo.<\/p>\n<p>Curtimos, nos embebedamos em festas de comes e bebes. \u00c9 s\u00f3 alegria, prazer e badala\u00e7\u00e3o nas redes sociais, mas, no outro dia, na labuta imperiosa da sobreviv\u00eancia, a cidade feia continua intrag\u00e1vel, sem alma e desumana como sempre. A rotina da fam\u00edlia e das obriga\u00e7\u00f5es do dia a dia v\u00e3o criando uma crosta cinzenta no c\u00f3rtice do nosso c\u00e9rebro. \u00c9 o sinal de alerta, mas seguimos em frente!<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, a vida vai ficando sem arte, perdendo seu brilho, sem sentimento e sem humanismo. Mesmo assim, ela tem que continuar por entre esta selva de pedras. Bem que esta cidade poderia virar ru\u00ednas e de seus escombros nascer um templo habit\u00e1vel de conviv\u00eancia humana. De tanto consumir lixo n\u00e3o mais nos incomodamos, e seguimos os preceitos e as leis, acreditando que s\u00f3 isso nos basta.<\/p>\n<p>Vejo pessoas passando pra l\u00e1 e pra c\u00e1 para resolver burocracias com montes de pap\u00e9is nas pastas, apressadas para seus mon\u00f3tonos trabalhos de vender, comprar, advogar, contar, calcular, edificar, medicar, comunicar e muitos \u00e0 procura de uma cura para seus males espirituais e corporais advindos dessa estrutura que s\u00f3 causa ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Outros acol\u00e1, nos centros e nas periferias, levantam piquetes e passeatas contra a viol\u00eancia, os pre\u00e7os altos do transporte sucateado, a falta de teto, de terra com tanta terra, a falta de \u00e1gua nas torneiras, de creche, de atendimento m\u00e9dico, de uma escola em seu bairro ou porque a crian\u00e7a morreu de bala perdida. Afinal, vivemos em cidades amedrontadas.<\/p>\n<p>Existem estatutos para crian\u00e7as e adolescente, para os idosos, mas n\u00e3o passam de enganos, pouco funcionam. Vive-se de remendos e na base do \u00a0faz de conta de que estas pessoas est\u00e3o sendo cuidadas. \u00c9 assim e nada se pode fazer. \u00c9 o que temos para oferecer.<\/p>\n<p>Acostumamo-nos com o pouco e a viver na vala dos desvalidos at\u00e9 a hora antecipada de atravessar a outra margem desse rio. O barqueiro ainda cobra uma moeda para nos levar para o outro lado. Os \u201cl\u00edderes\u201d tamb\u00e9m v\u00e3o, mas com muita gala e pompa, depois de ter nos deixado aos trapos.<\/p>\n<p>Vejo policiais despreparados, brutalizados e truculentos como sempre que j\u00e1 saem dos quarteis dando porrada em toda gente, matando e limpando a \u00e1rea. Os \u201cjornalistas\u201d dos microfones malditos enchem seus sacos de espet\u00e1culo e sensacionalismo para saciar a agonia frustrante do povo \u00e1vido por justi\u00e7a, de preferencia com as pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>O ciclo vicioso continua e os cr\u00e1pulas s\u00e3o os mesmo eleitos, de pai para filho, com a regra m\u00e1xima de juntar e juntar mais cabedal atrav\u00e9s das propinas corruptas. N\u00e3o importa a desgra\u00e7a, o clamor e o rastro de sangue que v\u00e3o deixando em suas passagens de p\u00e9s grandes de monstros diab\u00f3licos. O c\u00edrculo da esperan\u00e7a nunca se fecha.<\/p>\n<p>Vejo pessoas fazendo caridade e doa\u00e7\u00f5es aos mais necessitados e miser\u00e1veis. Sopa e cobertores para os moradores de ruas, desabrigados das chuvas ou expulsos de seus casebres. Vejo a compaix\u00e3o, a miseric\u00f3rdia e at\u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o vejo a solu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das esmolas. S\u00f3 acredito nas a\u00e7\u00f5es do ensinar a pescar.<\/p>\n<p>A m\u00eddia corre para tamb\u00e9m fazer sua m\u00e9dia melosa e piedosa de audi\u00eancia. O povo aplaude e faz coro! Cada dia aparece na tela mais gente passando fome e necessitando urgentemente de mais tratamentos e medicamentos para se salvar. Acode-se um, mas existem milhares e milhares na mesma precariedade. O Estado nem toma conhecimento.<\/p>\n<p><!--more--> Vejo a legi\u00e3o de pedintes e exclu\u00eddos aumentar. O governo passa com sua caravana de lobos e nada v\u00ea. Sua preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 utilizar o dinheiro p\u00fablico para manter-se no poder. C\u00e1 comigo, penso que tudo est\u00e1 errado, j\u00e1 que a desigualdade social s\u00f3 faz crescer, e as esmolas n\u00e3o d\u00e3o mais conta da demanda. \u00c9 o ciclo da esmola e da mis\u00e9ria que n\u00e3o tem fim.<\/p>\n<p>S\u00f3 unguentos! Nada \u00e9 feito de radical e revolucion\u00e1rio para extrair de vez o tumor do corpo. Temos mentalidade atrasada, mas nos achamos bondosos, generosos, gentis, solid\u00e1rios, s\u00e1bios e humanos. Tendemos a fazer o mais f\u00e1cil e simples e fugimos do complicado.<\/p>\n<p>Na verdade, dentro de muitos de n\u00f3s existe uma coisa que nos trai e que se chama culpa pelo medo de enfrentar o real e arriscar a vida contra as injusti\u00e7as. Dar esmola \u00e9 mais f\u00e1cil, c\u00f4modo e ainda enche o ego. Diz-se que \u00e9 bom para a autoestima coletiva e individual. Ganha ainda a recompensa do c\u00e9u.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 arrotar mestrado, doutorado e conhecimento f\u00edsico e metaf\u00edsico, mas perceber que estamos todos enroscados nesta teia do civilismo tacanho e falso de que os sat\u00e9lites e foguetes lan\u00e7ados no universo nos d\u00e3o o aval de supremacia. Enquanto isso, milh\u00f5es passam fome e as tecnologias modernas s\u00f3 est\u00e3o ao alcance de poucos privilegiados.<\/p>\n<p>Volto \u00e0 mesa do bar, do restaurante ou do almo\u00e7o familiar. Comemos, bebemos com aqueles mesmos discursos de \u00e9tica e moral, com gra\u00e7as e piadas, algumas de mau gosto. Seguimos com os mesmos sintomas. No outro dia, come\u00e7a tudo de novo, na cidade feia, ingrata e desumana. Somos enfadonhos e repetitivos.<\/p>\n<p>Com ressaca, ou n\u00e3o, l\u00e1 estamos a lidar com a mesmice do tr\u00e2nsito, dos engarrafamentos, dos colegas malas e insossos, com o trabalho mon\u00f3tono e estafante e com a aula sem arte, contando as horas e os dias para o pr\u00f3ximo final de semana. E assim roda, roda a roda da insensatez e da agonia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O homem para se evoluir precisa resgatar a harmonia do passado para recuperar seu sentido de viver. 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