{"id":2285,"date":"2017-07-06T22:38:38","date_gmt":"2017-07-07T01:38:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2285"},"modified":"2017-07-06T22:38:47","modified_gmt":"2017-07-07T01:38:47","slug":"os-maus-espiritos-invadem-o-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/07\/06\/os-maus-espiritos-invadem-o-sagrado\/","title":{"rendered":"OS MAUS ESP\u00cdRITOS INVADEM O SAGRADO"},"content":{"rendered":"<p>O S\u00e3o Jo\u00e3o passou e, mais uma vez, ficou a sensa\u00e7\u00e3o de que os maus <strong>esp\u00edritos se infiltraram pra valer no templo sagrado da nossa festa, para<\/strong> <strong>roubar nossas seculares tradi\u00e7\u00f5es trazidas pela corte portuguesa que herdou<\/strong> s\u00edmbolos do hemisf\u00e9rio norte e at\u00e9 mesmo dos povos eg\u00edpcios.<\/p>\n<p>Os maus esp\u00edritos s\u00e3o os \u201cbregan\u00f4jos\u201d e outras introdu\u00e7\u00f5es do capitalismo predador nas bebidas, comidas, vestimentas e nas dan\u00e7as, cujo sistema n\u00e3o tem nenhum escr\u00fapulo de derrubar e desfigurar um patrim\u00f4nio cultural. O pior \u00e9 que a maior parte das prefeituras est\u00e1 contaminada.<\/p>\n<p>Prefeitos, principalmente, com exce\u00e7\u00f5es de alguns mais l\u00facidos, s\u00e3o atra\u00eddos por esse falso brilho vendido por empres\u00e1rios que convencem a maioria do poder p\u00fablico de que \u00e9 disso que o povo gosta e aplaude. H\u00e1 tamb\u00e9m o lado corrupto do superfaturamento nos contratos. \u00c9 uma tenta\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Acontece que muita gente j\u00e1 come\u00e7a a apedrejar e a jogar latas nesses palcos de \u201cartistas\u201d eletr\u00f4nicos do \u201ctira o p\u00e9 do ch\u00e3o\u201d. \u00c9 s\u00f3 zoeira! Os mais sensatos e conscientes do verdadeiro esp\u00edrito hist\u00f3rico do S\u00e3o Jo\u00e3o, inclusive jovens, n\u00e3o est\u00e3o nada satisfeitos com esses usurpadores das festas juninas.<\/p>\n<p>Atitudes e leis severas precisam conter a invas\u00e3o desses maus esp\u00edritos que, com suas artes nefastas e suas m\u00e1scaras de fantasmas, levam de n\u00f3s a alma da festa por dinheiro, n\u00e3o importando para a quest\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o cultural. Infelizmente, ainda temos uma na\u00e7\u00e3o inculta que deixa se enganar pelos \u201csafad\u00f5es\u201d do som e dos rebolados.<\/p>\n<p>Bem, est\u00e1 dado o meu recado e o meu desabafo de protesto. Vamos agora ver um pouco das origens da nossa festa, de todas, a mais brasileira e nordestina. Segundo o analista cultural Anderson Rios, em coment\u00e1rio num jornal da capital, o S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 uma festa sincr\u00e9tica, pois admite a equival\u00eancia entre Xang\u00f4, orix\u00e1 ligado ao fogo, e o santo crist\u00e3o nos terreiros de candombl\u00e9 da Bahia.<\/p>\n<p>Mesmo proibido, o costume de soltar bal\u00f5es, entre cinco a sete, tem o sentido de avisar as pessoas sobre o in\u00edcio das comemora\u00e7\u00f5es, bem como de levar os pedidos para os santos at\u00e9 o c\u00e9u. Nessa mesma \u00e9poca de junho, os nossos \u00edndios realizavam seus rituais para celebrar a agricultura. Com os jesu\u00edtas, as festas se fundiram e os pratos passaram a utilizar alimentos nativos, como a mandioca e o milho, segundo Anderson.<\/p>\n<p><!--more--> Na tradi\u00e7\u00e3o popular e milenar, os fogos s\u00e3o para acordar S\u00e3o Jo\u00e3o, e as fogueiras visam espantar os maus esp\u00edritos. Portanto, para espantar os invasores do mal, temos que acender milh\u00f5es de fogueiras. Como o m\u00eas \u00e9 prop\u00edcio para a colheita, as comidas s\u00e3o derivadas do amendoim e do milho verde, substitu\u00eddas nos tempos atuais pelos \u201ccachorros quentes\u201d, sanduiches e outras iguarias americanizadas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O tradicional casamento na ro\u00e7a que virou brincadeira, j\u00e1 foi pra valer nas localidades mais isoladas onde era dif\u00edcil a presen\u00e7a dos sacerdotes. A cerim\u00f4nia era realizada em volta da fogueira e tinha padrinhos de verdade. Quem n\u00e3o se lembra do pula-pula em torno das fogueiras junto com os pedidos de felicidade, sa\u00fade e amor!<\/p>\n<p>A festa j\u00e1 foi muito forte no Brasil e se incorporou mais no Nordeste com as vestimentas de cangaceiros, quadrilhas e dan\u00e7as inspiradas da nobreza francesa. O forr\u00f3 passou a ser um destacado produto musical a partir dos sucessos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, agora v\u00edtimas da invas\u00e3o dos b\u00e1rbaros que est\u00e3o impondo seus pr\u00f3prios deuses fajutos ao povo.<\/p>\n<p>Na verdade, as festas juninas, de acordo com pesquisadores e estudiosos no assunto, s\u00e3o antigas e eram realizadas no solst\u00edcio de ver\u00e3o (21 de junho) no hemisf\u00e9rio norte em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0s colheitas. Eram tamb\u00e9m organizadas por eg\u00edpcios e outros povos. Com a expans\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano e a chegada do cristianismo, a Igreja Cat\u00f3lica colocou seus santos no lugar das celebra\u00e7\u00f5es pag\u00e3s.<\/p>\n<p>O agr\u00f4nomo e escritor Luiz Ferreira da Silva diz que as festas juninas de hoje nada t\u00eam a ver com a ess\u00eancia do seu significado rural. Segundo ele, a festan\u00e7a tem uma conota\u00e7\u00e3o abrangente com o labor da terra, com o homem rural e com a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Em sincronia, nesse per\u00edodo S\u00e3o Jos\u00e9 ajuda com as chuvas, Santo Ant\u00f4nio com os casamentos, S\u00e3o Jo\u00e3o provem os alimentos e S\u00e3o Pedro protege as vi\u00favas.<\/p>\n<p>Com seu ritmo t\u00edpico nordestino, a dan\u00e7a fala das coisas do sert\u00e3o sob os acordes fant\u00e1sticos da sanfona, da zabumba e do tri\u00e2ngulo que n\u00e3o deixam ningu\u00e9m parado. Agora, estes instrumentos est\u00e3o seriamente amea\u00e7ados pelas guitarras e os rebolados dos bumbuns safados e exibicionistas, com m\u00fasicas de mau gosto e p\u00e9ssimos cantores acompanhados de coreografias rid\u00edculas. Nada a ver com o forr\u00f3 aut\u00eantico p\u00e9 de serra.<\/p>\n<p>Enquanto l\u00e1 do c\u00e9u Luiz Gonzaga e Dominguinhos derramam suas l\u00e1grimas ao verem a descaracteriza\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Jo\u00e3o, dizem os mais otimistas que os \u201csafad\u00f5es da vida\u201d e os maus esp\u00edritos v\u00e3o desaparecer na poeira. Ser\u00e1 mesmo? Pode ser se cada vez mais levantarmos a bandeira em defesa da eterniza\u00e7\u00e3o dos versos: A fogueira t\u00e1 queimando\/Em homenagem a S\u00e3o Jo\u00e3o\/O forr\u00f3 j\u00e1 come\u00e7ou\/Vamos gente, rapap\u00e9 neste sal\u00e3o. \u201cOlha pro c\u00e9u, meu amor\u201d, e leve pra bem longe estes maus esp\u00edritos com seus sons e dan\u00e7as de horror.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O S\u00e3o Jo\u00e3o passou e, mais uma vez, ficou a sensa\u00e7\u00e3o de que os maus esp\u00edritos se infiltraram pra valer no templo sagrado da nossa festa, para roubar nossas seculares tradi\u00e7\u00f5es trazidas pela corte portuguesa que herdou s\u00edmbolos do hemisf\u00e9rio norte e at\u00e9 mesmo dos povos eg\u00edpcios. 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