{"id":2135,"date":"2017-04-12T08:41:47","date_gmt":"2017-04-12T11:41:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2135"},"modified":"2017-04-12T08:42:03","modified_gmt":"2017-04-12T11:42:03","slug":"livro-relata-violencia-contra-indigenas-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/04\/12\/livro-relata-violencia-contra-indigenas-na-ditadura\/","title":{"rendered":"LIVRO RELATA VIOL\u00caNCIA CONTRA IND\u00cdGENAS NA DITADURA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ind\u00edgenas-livro-jornalista-rubens-valente.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2136\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ind\u00edgenas-livro-jornalista-rubens-valente.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ind\u00edgenas-livro-jornalista-rubens-valente.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ind\u00edgenas-livro-jornalista-rubens-valente-300x164.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>(Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de centenas de ind\u00edgenas mortos durante a ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, foi transformada em livro pelo jornalista Rubens Valente, que durante um ano entrevistou 80 pessoas, entre \u00edndios, sertanistas, mission\u00e1rios e indigenistas para construir o relato.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado na \u00faltima semana na capital paulista, o livro\u00a0Os Fuzis e as Flechas \u2013 A Hist\u00f3ria de Sangue e Resist\u00eancia Ind\u00edgenas na Ditadura\u00a0traz \u00e0 tona registros in\u00e9ditos de erros e omiss\u00f5es que levaram a trag\u00e9dias sanit\u00e1rias durante a constru\u00e7\u00e3o de grandes obras do per\u00edodo militar, como a Rodovia Transamaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u201cEm 1991, 1992, eu estive em \u00e1rea de uma etnia que se chamava Ofai\u00e9-Xavante. E l\u00e1 eles me contaram que tinham sido transferidos pelos militares em um caminh\u00e3o e haviam sido despejados l\u00e1 no Pantanal, a 600 quil\u00f4metros dali [de seu territ\u00f3rio original]. Lembro que essa hist\u00f3ria me marcou muito, porque mostrou que havia uma coisa a ser contada nessa rela\u00e7\u00e3o de \u00edndios com a ditadura, como eles sofreram impactos nesse per\u00edodo\u201d, contou o jornalista. Em viagens a outras aldeias desde os anos 80 do s\u00e9culo passado, Valente conta ter ouvido relatos semelhantes.<\/p>\n<p><!--more-->\u201cEm 1982, minha fam\u00edlia mudou-se para Dourados, em Mato Grosso do Sul. Eu sou do Paran\u00e1. E l\u00e1 em Dourados existe a maior aldeia ind\u00edgena urbana, que vive naquela regi\u00e3o. Ent\u00e3o foi o primeiro contato que eu tive com os ind\u00edgenas no pa\u00eds, quando eu tinha 12 anos, no final da ditadura. E a partir de ent\u00e3o eu comecei a pesquisar o tema\u201d, contou. O jornalista come\u00e7ou a colecionar not\u00edcias, hist\u00f3rias, livros e estudos sobre o assunto.<\/p>\n<p>Ind\u00edgenas isolados<\/p>\n<p>Segundo Valente, houve v\u00e1rios m\u00e9todos de controle e de enfrentamento dos militares em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios. Na Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, estavam as comunidades mais isoladas, que n\u00e3o tinham sido contatadas e, na \u00e9poca, eram chamadas de hostis ou arredias.<\/p>\n<p>\u201cO regime militar desencadeia um processo de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, um processo que envolvia obras, como estradas \u2013 principalmente a Transamaz\u00f4nica \u2013, envolvia hidrel\u00e9tricas e envolvia a cria\u00e7\u00e3o de n\u00facleos de colonos, de trabalhadores rurais. Esses colonos que vinham a reboque desses projetos de desenvolvimento\u201d, disse. Tudo isso, segundo o autor, \u201cda noite para o dia\u201d, sem um plano organizado com grande estrutura sanit\u00e1ria e m\u00e9dica para os povos tradicionais da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cFoi um plano executado assim \u00e0s pressas, conforme o relato dos pr\u00f3prios sobreviventes, e que encontravam essas popula\u00e7\u00f5es desassistidas e despreparadas em rela\u00e7\u00e3o aos v\u00edrus que os brancos vinham trazendo. Isso que causou in\u00fameras mortes, centenas de mortes. E, aliado a isso, come\u00e7ou a haver o que eu chamo de deporta\u00e7\u00f5es dentro do pr\u00f3prio do pa\u00eds. Eram grupos inteiros tirados de um lugar e colocados em outro.\u201d<\/p>\n<p>Valente contou a hist\u00f3ria de um grupo Xavante retirado da fazenda Sui\u00e1-Miss\u00fa e levado para outra \u00e1rea da mesma etnia, chamada S\u00e3o Marcos. \u201cO c\u00e1lculo \u00e9 que morreram de 100 a 120 \u00edndios apenas nessa opera\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a a\u00e9rea transportou esse \u00edndios de uma \u00e1rea para outra de avi\u00e3o e l\u00e1 eles morreram porque n\u00e3o havia um plano de atendimento a essa popula\u00e7\u00e3o que havia chegado recentemente ali. Eu pude entrevistar sobreviventes que enterraram esses corpos e fizeram covas coletivas, corpos que foram enterrados com tratores, porque eram tantos corpos. \u00c9 um t\u00edpico caso de um erro de entendimento da quest\u00e3o ind\u00edgena\u201d, disse o autor do livro. Valente destacou que hist\u00f3rias de deslocamentos como essa se repetiram v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Constru\u00e7\u00e3o da BR-174<\/p>\n<p>Um dos casos considerados mais graves por Valente est\u00e1 relacionado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da BR-174, conhecida como Rodovia Manaus\u2013Boa Vista, que atravessou o territ\u00f3rio ind\u00edgena da etnia Waimiri-Atroari e colocou os \u00edndios em contato com trabalhadores, na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e1lculo mais modesto indica 240 mortos s\u00f3 nesse caso. A mortandade ocorreu de 1974 at\u00e9 por volta de 1977\u201d, disse o jornalista. \u201cEu procurei amarrar esses epis\u00f3dios e mostrar para o leitor um panorama do que ocorreu e a ideia de que havia uma l\u00f3gica por tr\u00e1s de tudo isso, uma l\u00f3gica militar de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia.\u201d<\/p>\n<p>Repara\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Para o autor do livro, a principal conclus\u00e3o da pesquisa \u00e9 a dificuldade do Estado brasileiro de reconhecer essas mortes e pedir desculpas pelo que ocorreu. \u201cEm 2014, a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade aprovou um cap\u00edtulo destinado aos povos ind\u00edgenas, e esse cap\u00edtulo indicava a necessidade de um pedido de desculpas por parte do governo brasileiro. Um pedido de desculpas pelo que aconteceu com os \u00edndios. E, at\u00e9 o momento, j\u00e1 se v\u00e3o tr\u00eas anos, n\u00e3o houve sequer o reconhecimento, sequer um pedido desculpas, quanto mais alguma forma de repara\u00e7\u00e3o desses danos.\u201d<\/p>\n<p>*Edi\u00e7\u00e3o: Luana Louren\u00e7o<\/p>\n<p>*Camila Boehm \u2013 Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o) Uma investiga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de centenas de ind\u00edgenas mortos durante a ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, foi transformada em livro pelo jornalista Rubens Valente, que durante um ano entrevistou 80 pessoas, entre \u00edndios, sertanistas, mission\u00e1rios e indigenistas para construir o relato. 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